7 de ago de 2013

Um Wagner entre o grunge e o pop


Direto do Caderno 2 - "Estado de S.Paulo"


Caetano Vilela fala sobre sua concepção para 'O Navio Fantasma', que estreia em agosto no Teatro da Paz, em Belém

23 de julho de 2013 | 2h 16


Zona Portuária: Modelo do cenário idealizado por Duda Arruk para a produção em Belém
João Luiz Sampaio - O Estado de S.Paulo
A relação do diretor Caetano Vilela com a obra de Richard Wagner é antiga. Como iluminador, ele já trabalhou em sete óperas do compositor: os quatro títulos do Anel e O Navio Fantasma, ambas em Manaus; e duas produções de Tannhäuser, uma no Municipal do Rio (com direção de Werner Herzog) e outra em Bogotá (esta no mês passado, com regência de Gustavo Dudamel). Em agosto, ele faz agora sua estreia em obras de Wagner como diretor, assinando a concepção do Navio Fantasma no Teatro da Paz, em Belém.
"O mais especial para mim é que justamente decidi trabalhar com ópera depois de estudar sobre as teorias de Wagner para o teatro total", ele conta. A tarefa, porém, não o assusta. "Não vejo no Navio as dificuldades que encontrei, por exemplo, ao iluminar a tetralogia ou Tannhäuser. Este é um Wagner em transição, muito da sua revolução artística seria apontada e amadurecida depois, em óperas como Parsifal e Tristão e Isolda. O Navio carrega ainda uma herança italiana em sua estrutura - não que isso seja simples, mas pelo menos não é assustador."
Estreada em 1843, a ópera narra a história de um marinheiro (Holandês) que, por invocar Satã, é condenado a vagar eternamente pelos mares em seu navio, aportando uma vez a cada sete anos; apenas o amor verdadeiro de uma mulher pode libertá-lo da maldição. "Li o livro de Heinrich Heine, Das Memórias do Senhor de Schnabelewopski, em que Wagner se baseou, e interpretei livremente algumas ações que trabalharei com os cantores, como tratar o Holandês e Senta como almas gêmeas ou estabelecer um prólogo, ao longo da abertura, em que ela tenta tirar a própria vida, se jogando no mar", diz o diretor.
Sobre os cenários, ele conta que procurou "mudar a perspectiva do olhar do público sobre a luz". "A ambientação será em uma zona portuária, com containers empilhados fechando a caixa cênica. Pichações no alfabeto rúnico também pontuam a cenografia, lembrando que a história se passa em uma Noruega distante e que esse alfabeto é ancestralmente ligado à cultura nórdica e estranhamente semelhante às pichações dos prédios paulistanos", explica. "O elemento água estará presente com uma piscina aberta no fosso do palco representando o mar. E o navio do título aparecerá em cena de uma forma inusitada: virá de cima, do urdimento do teatro, o que me obriga a trabalhar a luz toda encaixada dentro das estruturas de containers à vista do público."
Vilela também promete referências à cultura pop, "senão não seria eu", brinca. "Direcionei os figurinos para um período que pode lembrar muito o movimento grunge nas suas padronagens, já que trato, por exemplo, os marinheiros como estivadores e não somente como uma tripulação de um navio", explica o encenador, que vai trabalhar basicamente com a mesma equipe com a qual realizou no ano passado Salomé, de Strauss, também em Belém. Entre eles, a cenógrafa Duda Arruk e a figurinista Elena Toscano.
No elenco, estão o barítono Rodrigo Esteves, como o Holandês; a soprano Tati Helene, no papel de Senta; o baixo Denis Sedov (Daland); os tenores Ricardo Kamura e Antônio Wilson Azevedo (Erik e Steuermann) e a meio-soprano Alpha de Oliveira (Mary). A regência será do maestro Miguel Campos Neto. O festival também terá montagens de Il Trovatore, de Verdi (assinada por Mauro Wrona) e O Elixir do Amor, de Donizetti (por Iacov Hillel).
BELO HORIZONTE - O primeiro ato da Valquíria é um dos poucos trechos do Anel a ganhar frequentemente vida própria no palco de concertos, sem cenários ou figurinos. E foi escolhido pela Filarmônica de Minas Gerais para uma apresentação, na terça-feira passada, em homenagem ao compositor. Se no Municipal do Rio, o elo fraco foi a atuação da sinfônica do teatro, na capital mineira chamou atenção justamente o bom desempenho da orquestra, sob regência de seu titular, Fábio Mechetti. Não se trata apenas do bom desempenho individual dos naipes, mas, principalmente, do equilíbrio entre eles, em direção a uma fluência dramática capaz de criar um arco musical que não perde o fôlego em momento algum - no que ajudou a atuação do elenco composto por Eliane Coelho, Eduardo Villa e Denis Sedov. / J.L.S.

11 de jan de 2013

Dramaturgia da luz, um conceito operístico

Fui convidado pela SP Escola de Teatro a escrever um texto sobre iluminação para um número especial da especialíssima Revista A[l]berto de teatro. Claro que tinha de falar da minha experiência em iluminar óperas e dos meus estudos sobre as obras do encenador e teórico russo Meyerhold e o compositor alemão Richard Wagner, artistas que influenciam o meu trabalho até hoje.
O lançamento do número 3 da revista neste ano coincide com o bicentenário de nascimento de Wagner e o meu reencontro com duas de suas óperas num momento muito especial da minha carreira; ilumino pela segunda vez Tannhäuser (a primeira foi em 2001 para uma encenação do cineasta alemão Werner Herzog) desta vez ilumino sob a regência do enfant terrible Gustavo Dudamel em Bogotá/Colômbia em julho.
Será a segunda vez também que trabalharei na ópera Der Fliegende Holländer/O Navio Fantasma, em 2007 Christopher Schlingensief (infelizmente já falecido de forma tão prematura, já falei dele aqui) assinou a direção no Festival Amazonas de Ópera, a minha volta a este título não será só como iluminador mas também encenador! Esta nova concepção será realizada para o - cada vez mais importante - Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém/PA no mês de setembro. Mais para frente contarei sobre estas duas experiências maravilhosas.
Enquanto isto mando na íntegra o texto e a sequência de fotos publicados na Revista A[l]berto.
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REVISTA A[L]BERTO #3

PONTO DE CONVERGÊNCIA
[a iluminação como dramaturgia]

Dramaturgia da Luz, um conceito operístico


O conceito da luz cênica como dramaturgia se deve ao compositor de óperas alemão Richard Wagner. Ironicamente a luz elétrica ainda não havia sido inventada por Thomas Edison (1879) mas isso não impediu Wagner de mandar apagar todos os candelabros da platéia do seu recém inaugurado teatro em Bayreuth (1876) para que a elite de amantes da música lírica prestasse atenção no que estava acontecendo no palco, especialmente construído por ele para receber seus espetáculos operísticos propagandeado (por ele mesmo) até hoje como Obra de Arte Total (Gesamtkunstwerk).
Seus escritos teóricos, principalmente Opera e drama e Arte e revolução, já apontavam uma preocupação em remodelar não só a mise-en-scène dos espetáculos líricos mas também toda a arquitetura cênica (palco, fosso de orquestra, platéia, acústica, urdimento, tecnologia de efeitos, etc...) e por sua vez o comportamento do público, exigindo deste uma resistência física (ciclos de ópera com mais de 15 horas) e intelectual nunca experimentada antes do século XIX.
O conceito de leitmotiv, outra de suas revoluções, não se limitava somente  em identificar os “temas” musicais dos personagens ou dos elementos principais dos seus dramas, mas abrangia também a cor e a luz que acompanhavam cada personagem, criando assim o primeiro leitmotiv de iluminação numa partitura de ópera. Com isso possibilita-se a sofisticação dos efeitos de luz antes restritos às rubricas nos libretos como os raios e  trovoadas tão frequentemente indicados nas óperas de Rossini e Mozart, por exemplo.
Wagner não viveu para assistir a evolução de suas propostas - aliás chegou a renegar o peso do próprio conceito influenciado pelo “pessimismo romântico” do filósofo Schopenhauer – sendo que suas produções operísticas eram dirigidas, regidas, compostas e concebidas no teatro construído e idealizado (1876) por ele mesmo em Bayreuth, na Alemanha, utilizando ainda recursos cênicos ultrapassados (segundo suas próprias teorias) como telões pintados, ribaltas de luz e outros efeitos identificados em montagens líricas barrocas que reduziram em parte,  quando encenadas, a genialidade da sua maior criação: O Anel do Nibelungo, tetralogia completa estreada em 1874 composta pelas óperas O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e Crepúsculo dos Deuses.
Não era só a luz elétrica que não havia sido inventada neste período; o papel do encenador ainda não existia na ópera (muito menos o de iluminador ou cenógrafo):  as montagens eram dirigidas pelos “pintores de arte”, responsáveis pelos telões e às vezes também pelos figurinos dos espetáculos, e era comum que compositores regessem e dirigissem suas próprias criações.

VISIONÁRIOS

Deve-se ao russo Vsevolod Meyerhold o status de primeiro encenador do teatro moderno. Ao contrários dos seus contemporâneos, ele não dirigia “peças de teatro”, dirigia “espetáculos”. Assim como Wagner que escrevia seus próprios libretos em busca de uma nova dramaturgia que representasse o povo alemão, Meyerhold é o principal responsável pela renovação da dramaturgia russa ao elevar a limites extremos o simbolismo teatral com autores como Ibsen, Maeterlinck e Aleksandr Blok. Se o simbolismo lhe trouxe sucesso, reconhecimento do público e diferenciou definitivamente seu teatro do de seu ex-mestre Stanislaviski, foi na vanguarda construtivista que Meyerhold pode se afirmar como um artista total; durante este período, apaixonado pela música erudita, exigia de seus atores conhecimentos musicais para aproximar a fala do canto lírico, desenvolveu uma método corporal conhecido como biomecânica, segundo o qual a partitura corporal dos atores era trabalhada em oposição à partitura vocal, criando uma “sinfonia corporal” que era muito mais do que uma coreografia hermética, sendo, na verdade, um primeiro passo para o desenvolvimento do ator tridimensional.
Se o compositor alemão causou revolta e perplexidade ao apagar as luzes da sua platéia no inicio das apresentações de suas óperas, o encenador russo causou estranheza e indignação em 1906 numa encenação de Espectros de Ibsen, ao eliminar a cortina do palco e utilizar o proscênio do palco italiano  como extensão de área da encenação. Esse “descortinar” da cena foi um passo para, em montagens posteriores, revelar também toda a caixa cênica explorando toda a teatralidade de seus recursos de maquinaria e iluminação.
Suas encenações teatrais lhe deram segurança para arriscar seus conceitos em produções de ópera.  Em 1909 ao dirigir Tristão e Isolda, de Wagner,  ignorou certas rubricas do compositor com a justificativa de que na Obra de Arte Total do futuro seria sempre preciso criar o novo – como decorrência desse pensamento redimensionou o papel do cantor no espaço cênico, equilibrando a interpretação com o canto.
A Europa acompanhava as inovações meyerholdianas e estava atenta a elas, e dois pilares da renovação cênica do século XIX, Appia e Gordon Craig, deslocavam-se com freqüência a Moscou a fim de assistir a suas encenações teatrais e operísticas. Esses encontros evoluíam no processo criativo de cada um exatamente no ponto onde o outro, por falta de recursos ou apoio político, havia parado. No caso de Meyerhold, embora sempre contasse com uma companhia teatral para pôr em prática suas teorias, ele achava que com a sua popularidade, estivesse imune às exigências de uma política cultural imposta pelo regime totalitário de Stalin. Embora chocante, sua morte por fuzilamento, em 1940, era o final óbvio para os que resistiam na crença de que a arte e a vida podiam transformar o mundo.
Vem da arquitetura a última evolução dos conceitos wagnerianos; o suíço Adolphe Appia (encenador, cenógrafo e arquiteto) e o inglês Gordon Craig (encenador, ator, cenógrafo e filho de arquiteto) conceberam cenografias mais sólidas e imponentes inspiradas nas praças e na arquitetura dos prédios europeus, abrindo assim a ação para desníveis, planos, escadarias, janelas superiores, calabouços que surgem das quarteladas abertas do palco, etc. Uma exploração de toda a teatralidade possível da “nudez” já exposta por Meyerhold. 
Appia, foi mais conhecido pelas encenações das óperas de Wagner, inclusive as que não conseguiu encenar, proibido pela mulher do compositor depois da sua morte por achar muito “modernas” suas propostas. Delas existem apenas esboços e detalhamento técnico, inclusive sobre a utilização da iluminação que para ele era o único elemento que podia evocar determinadas atmosferas e ambientes de forma subjetiva substituindo os signos da pintura (telões de fundo) e criando a cenografia de si mesma através de sombras e fontes assimétricas.
Craig radicalizou com imponentes cenários arquitetônicos fixos e representava qualquer ação lírica ou dramática num único cenário dando poder especial à iluminação para mudar este ambiente de acordo com o desenvolvimento das ações. Desrespeitava assim a noção geográfica exigida nos textos e libretos valorizando o simbolismo das ações e a capacidade mágica do jogo de ilusão da iluminação.  Quando dá importância à luz como mais um elemento dramatúrgico em cena, Craig transforma seu cenário de arquitetura “sólida” num cenário de arquitetura “diáfana”, utilizando tules e telas transparentes - às vezes pintados de forma abstrata e geométrica -  em tramas distintas e em sobreposição no palco criando camadas e volumes que são realçados pela iluminação revelando e escondendo ações, objetos e pessoas em diversos planos no palco.
O caminho já estava traçado quando surge a última evolução da Obra de Arte Total: o encenador, cenógrafo e também arquiteto Josef Svoboda (1920-2002). Até hoje copiado em encenações de ópera e teatro, esse artista nascido onde hoje é a República Tcheca foi a última evolução das teorias wagnerianas. A síntese do seu trabalho é a mais perfeita união entre a cenografia, iluminação, projeções fílmicas e atuação a serviço das artes cênicas. Construiu narrativas apenas com recursos cenográficos e efeitos de luz difíceis de serem superados na sua beleza e simplicidade. Se Wagner em busca de uma nova sonoridade para a sua orquestra inventa novos instrumentos para as suas óperas, Svoboda inventa também novos equipamentos de luz que até hoje são conhecidos pelo seu nome.*

Embora a tecnologia cênica tenha evoluído muito nas últimas décadas, nós,  artistas, ainda estamos criando sem evoluir em absolutamente nada se confrontados com esses revolucionários do século XIX. Partimos de suas evoluções e criações, nos inspiramos em suas obras mas ainda assim estamos presos num coup-de-théâtre conservador, no que concerne a narrativa e técnica. Exemplos recentes de encenações do Ciclo do Anel wagneriano de “artistas totais” como Bob Wilson e Robert Lepage revelam muito pouco além do deslumbre tecnológico em que muitos encenadores, cenógrafos, iluminadores e figurinistas ficaram presos.
Mas nem tudo são trevas, um caminho para o futuro passa pelas experiências da companhia de teatro italiana Societas Raffaello Sanzio dirigida por Romeo Castelluci (reverenciado como um ‘pós-Artaud’)  e as encenações e cenografias absolutamente inquietantes e geniais do artista russo George Tsypin.
Resta a nova geração de artistas e técnicos pensar as necessidades e crises de sua época antes de criar seus próprios espetáculos. Quem sabe por aí teremos uma nova revolução cênica sem reverenciar tanto o passado.
Há luz atrás da cortina!

CAETANO VILELA
Encenador e iluminador, diretor da Cia. de Ópera Seca

* O refletor Svoboda foi uma evolução dos antigos set-lights para iluminar cicloramas, o poder de controlar individualmente o conjunto de  nove lâmpadas além de sua baixa voltagem e de uma qualidade de emissão de luz mais difusa próxima das lâmpadas fresnéis é o que o faz até hoje um equipamento moderno e especial.
...

Abaixo, primeira produção brasileira do ciclo completo de O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner; regência Luiz Fernando Malheiro, direção Aidan Lang, cenografia e figurinos Ashley Martin-Davis, iluminação Caetano Vilela, Teatro Amazonas, 2005 (arquivo pessoal)










20 de set de 2012

Crítica "Expresso do Pôr do Sol", direto da Ilustrada/Folha de S.Paulo

Primeira crítica de "O Expresso do Pôr do Sol", peça que assino a luz sob a direção de Fábio Assunção. Em cartaz no Teatro Tuca Arena, SP.

São Paulo, quinta-feira, 20 de setembro de 2012Ilustrada


CRÍTICA / TEATRO

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
Um embate de ideias. "Expresso do Pôr do Sol", montagem brasileira de peça de Cormac McCarthy, discute o suicídio, este desencanto radical com a experiência humana, e suas implicações morais.
McCarthy está entre os grandes escritores norte-americanos vivos. Tornou-se famoso ao ser adaptado para o cinema pelos irmãos Coen em "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2007), ganhador de quatro Oscars, incluindo o de melhor filme.
A peça "Sunset Limited" foi escrita em 2006 e é a segunda das duas únicas do consagrado romancista.
Tem o sugestivo subtítulo de "Novela na Forma Dramática" e demarca incursão na convenção básica do drama: o diálogo tenso entre dois personagens num mesmo espaço.
O encontro opõe posições extremas. De um lado, um professor branco que, perdida qualquer ilusão sobre o sentido da vida e desacreditado da possibilidade da arte e da cultura preencherem este vazio, vê a morte como melhor saída. De outro, um ex-presidiário negro que tornou-se pastor e argumenta com o suicida com base em sua fé.
O diretor estreante, Fábio Assunção, oferece no programa explicações sobre a escolha do texto e as opções da encenação, que assume como subjetivas. Porém, seu maior mérito foi mesmo ter realizado o espetáculo.
Assunção cercou-se de ótimos profissionais e conseguiu construir uma cena consistente, à altura da relevância do dramaturgo.
A começar de Maria Adelaide Amaral, que colabora na adaptação dramatúrgica da situação realista do original para uma mais convencionada e metafórica.
Esta se apresenta, principalmente, pelo cenário de Fábio Namatame, uma arena aberta sobre dormentes de trem, e pela luz de Caetano Vilela, que instaura ali diversas atmosferas.
É verdade que a tradução de Nelson Amorim não disfarça as características de um tratamento tipicamente norte-americano do tema. Assim, a estrutura psicológica dos personagens, suas ironias e revoltas, produzem algum estranhamento no contexto brasileiro.
A abrandar esse contraste cultural, o trabalho dos atores é bem convincente.
Cacá Amaral, como o professor desesperançado, e Guilherme Sant'Anna, como o pastor que tenta salvá-lo do ceticismo, são suportes seguros para a prosa de McCarthy fluir a contento.
Claro que todos os anteparos cênicos, carregados de significações alternativas às próprias formulações do autor, não as superam, e a encenação confirma-se como um jogo de pontos de vista contrários, ou melhor, mais como discussão do que como poética.
EXPRESSO DO PÔR DO SOL
QUANDO sex. e sáb., às 21h30; dom., às 19h30; até 30/11
ONDE Tucarena (r. Monte Alegre, 1.024; tel. 0/xx/11/3670-8455)
QUANTO de R$ 40 a R$ 50
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO bom

30 de ago de 2012

Revistas sobre Teatro

Chega de reclamar da falta de publicações especializadas sobre Teatro no País, direto de São Paulo - mas com abrangência nacional -nasceram duas importantes revistas (uma eletrônica e outra impressa) que aprofundam o tema Artes Cênicas sem restrições.

A revista impressa nasceu como uma extensão do importante trabalho educativo realizado pela SP Escola de Teatro, trata-se da A(l)berto justa homenagem ao crítico de teatro e ator Alberto Guzik. Cada número é temático, nesta segunda edição o tema é a dramaturgia (Ivan Cabral explica mais aqui), em breve sairá o número 3 com um artigo meu sobre a dramaturgia da luz.
Semanalmente o site da Escola promove um Papo de Teatro com profissionais da área, o meu está aqui.

A Revista Antro Positivo está no seu terceiro número e vale a pena ler as anteriores no site da revista aqui para ter uma idéia do amplo panorama traçado por diversos profissionais e personalidades que literalmente movimentam as artes cênicas no País. Trabalho de fôlego realizado pelo múltiplo e incansável casal Ruy Filho e Patrícia Cividanes.
Na última edição Ruy e Patrícia traçam um perfil meu em que falo sobre política cultural e a ópera no Brasil.

29 de ago de 2012

Expresso

"O Expresso do Pôr do Sol", Cacá Amaral e Guilherme Santana (foto: João Caldas)

Minha segunda parceria com Fabio Assunção desta vez carrega uma aura de boas vindas, é a estréia dele como diretor. E ele começa da forma mais difícil, evitando lugares comuns e apostando numa encenação longe do naturalismo 'global' que domina os palcos comercias. Assim é "O Expresso do Pôr do Sol".
Depois da minha luz para "Adultérios" (onde ele está em tourneé como ator) desta vez assino a luz desta nova produção e vejo que o teatro acaba de ganhar um ótimo e dedicado diretor. Confiram!



Primeira peça dirigida pelo ator Fábio Assunção estreia em SP

Jogo de contradições marca 'O Expresso do Pôr do Sol', texto do americano Cormac McCarthy

28 de agosto de 2012 | 21h 21

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo
Fábio Assunção é um ator inquieto. Sucesso na televisão como Jorge, personagem da divertida série Tapas & Beijos, ele busca novos desafios no palco. Foi o que o impulsionou a apostar em Oeste, texto claustrofóbico, árido, de Sam Shepard, ou mesmo no intrigante Adultérios, de Woody Allen. Agora, como uma nova etapa, Assunção decidiu estrear como diretor teatral. Mais: escolheu o um raro texto escrito para o palco pelo grande escritor americano Cormac McCarthy. O resultado é O Expresso do Pôr do Sol, que estreia nesta quinta-feira, 30, para convidados, no Tucarena - sexta-feira, 31, é a data para o público.
Ele não atua, preferindo o papel de encenador e produtor. "Fiquei fascinado por esse texto que mostra dois homens entre 40 e 50 anos, um suicida e um religioso, que travam um embate sobre o que pensam da vida", conta. "Utilizo não apenas a prosa poderosa de McCarthy, mas também o espaço para mostrar os momentos da consciência."
O Expresso do Pôr do Sol é a tradução paraSunset Limited, peça que, de tão palavrosa, foi definida pelo próprio autor como "um romance em forma de diálogos". Encenada pela primeira vez em 2006, em Chicago, a montagem narra a história de dois homens que, fechados em um apartamento no subúrbio, e com um passado completamente diferente, se veem envolvidos num intenso debate sobre o valor das suas existências.
Na trama, o ex-presidiário evangélico Black (Guilherme Sant’Anna) salva o professor ateu White (Cacá Amaral), que pretendia se jogar na frente de um comboio da linha Sunset Limited, nome de um trem de passageiros que viaja pelo trecho New Orleans - Los Angeles, cruzando diversos Estados dos EUA. A peça começa quando os dois estão no apartamento de Black - que se recusa a deixar White sair -, onde discutirão sobre religião, vida e morte.
O texto se sobressai, especialmente por contrariar a tradição ao deixar que o diálogo conduza a história e não a ação. Assim, a linguagem rica compensa a falta de incidentes. Apontada como um "poema em celebração da morte" pelo jornal The New York Times, a peça recebeu um luxuoso tratamento em sua versão brasileira: Fábio Assunção convidou a dramaturga Maria Adelaide Amaral para fazer a tradução. "Pedi a ela que não seguisse a linha realista, pois eu pretendia realizar uma montagem mais existencialista."
Para isso, o original sofreu uma redução, o que implicou uma diminuição na duração - se montado integralmente, o texto resultaria em uma peça de duas horas e meia; agora, terá 80 minutos. "Claro que os diálogos mais afiados foram preservados, pois dão substância à trama", observa Assunção, que confessa não ter nenhuma influência no ato de dirigir. "Na verdade, o trabalho nasceu a partir do compartilhamento de ideias entre toda a equipe".
É o que explica, por exemplo, a utilização do espaço para revelar a consciência dos personagens. Assunção queria que a iluminação tivesse tons distintos, necessários para demonstrar aquela variação. Assim, convidou Caetano Vilela para desenhar a luz, graças à sua experiência com óperas. "Gosto especialmente do jogo de elementos utilizando a sombra", explica o diretor. "É como Jung, que a utiliza para esconder o que é reprimido - o mesmo acontece na peça, em que o suicida é o personagem consciente, pois, pelo fato de ser um homem deprimido, por ter perdido a fé e o amor, ele realmente tem o direito de escolha."
Nesse duelo de liberdade, lucidez e escolhas, Fábio Assunção joga tanto com os significados do texto como com as diferenças que descobriu em seus atores. "Enquanto Guilherme filtra suas atitudes pela intelectualidade, Cacá se joga em todas as propostas oferecidas por mim", comenta. "Desse jogo de contradições, nasce naturalmente as diferenças entre Black e White."
Sunset Limited é uma raridade na carreira de McCarthy, assim como Assunção pretende que seja O Expresso do Pôr do Sol em sua trajetória.
O EXPRESSO DO PÔR DO SOL
Tucarena. Rua Monte Alegre, 1.024, 3670-8455.
6ª e sáb., 21 h; dom., 19h30. 
R$ 40/ R$ 50. Até 30/11.

Para Maria Adelaide Amaral, peça segue linhagem do teatro de ideias

Dramaturga e escritora traduziu o texto de Cormac McCarthy a pedido de Fábio Assunção

28 de agosto de 2012 | 21h 34
Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo
O diálogo é que conduz a trama e não a ação, graças à rica linguagem de Cormac McCarthy. Isso facilitou ou dificultou o trabalho de adaptação? A boa qualidade do texto facilitou a adaptação.
Como dramaturga, como você analisa a construção desses dois personagens que, embora em busca de uma suposta paz na solidão, conversam de uma forma tão feroz?
Essa é uma peça de embate e debate de ideias, crenças e descrenças. O texto pertence sem dúvida à melhor linhagem do teatro de ideias que foi inaugurado com Jean-Paul Sartre durante e a partir da 2.ª Guerra Mundial.
Os dois personagens, Black e White, têm nomes que sugerem orientações metafísicas contrastantes. Isso, por si só, já seria uma dica ao espectador do que virá pela frente ou, ao contrário, torna-se um truque dramatúrgico do autor? Acho que é um recurso do autor e uma forma de dividir a arena onde os personagens se digladiarão.
É curioso o confronto entre religiosidade e humanismo, evidente na posição dos dois homens, você concorda? Esse é o aspecto mais fascinante: Black tentando salvar White que recusa ferozmente aquele tipo salvação.
Fábio Assunção disse que pediu para que você fizesse uma adaptação menos realista e mais existencialista. Como foi? A minha principal preocupação foi aproximar os personagens do Brasil e do público brasileiro. Black pode ser um ex-presidiário que viveu sua epifania na enfermaria de uma prisão. Afinal, sabemos do trabalho dos evangélicos e sua atuação no sistema penitenciário. White, por sua vez, é um professor niilista, como tantos que conhecemos. Em alguns momentos, seus argumentos até se assemelham aos de Luiz Felipe Pondé.

Cormac McCarthy adaptou 'Sunset Limited' para a TV

Versão foi filmada pela HBO em 2011 e tem direção de Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson

28 de agosto de 2012 | 21h 38
Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo
Sunset Limited ganhou uma versão para a televisão, filmada pela HBO em 2011 e disponível em DVD no Brasil. Tommy Lee Jones cuida da direção e também atua, ao lado de Samuel L. Jackson. Com roteiro adaptado pelo próprio Cormac McCarthy, o longa enfrenta o desafio de se concentrar em apenas um espaço, com sons externos e variação da luz dia como únicas fontes de interferência.
"É um trabalho muito profissional mas, tenho de confessar, morno demais", acredita Fábio Assunção. "Por isso que decidi não seguir uma linha realista, preferindo algo mais existencialista, que combina melhor com o palco."
Com a importância centrada nos diálogos, o filme traz apenas três músicas, que marcam incidentalmente determinadas passagens. Já Assunção apostou em uma trilha sonora especialmente criada por Eduardo Queiroz, com quem trabalha junto na quinta montagem. "Além da luz e do cenário, assinado por Fabio Namatame, também a música acirra de forma subliminar as diferenças entre os dois personagens", conta Assunção.
Se há um ponto em comum entre a versão para a TV e a montagem brasileira, essa é a predominância de diálogos afiados - já comparado a William Faulkner, Herman Melville e Mark Twain, o americano Cormac McCarthy cria mundos de inexplicáveis generosidade e crueldade, que se cruzam naturalmente.
Ele parece incapaz de escrever uma frase sem graça. Ao ler suas palavras, percebe-se que se está nas mãos de um gênio do estilo. Basta ler Onde os Velhos Não Têm Vez(Alfaguara), que inspirou o longa Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen; ou mesmo Todos os Belos Cavalos (Companhia das Letras). Ou ainda frases contundentes que brilham na peça, como "a sombra do machado paira sobre toda alegria".
SUNSET LIMITED
WARNER, R$ 45
 
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Fábio Assunção faz sua estreia na direção teatral

GABRIELA MELLÃO

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


A escola de interpretação de Fábio Assunção foi a televisão. Aos 19, trocou o teatro amador pela Rede Globo, projetando-se como um dos grandes atores da emissora.
Hoje, aos 41, depois de uma bem recebida temporada sobre os palcos com "Adultérios", ele passa à coxia e estreia na direção teatral com "O Expresso do Pôr do Sol".
Para montar o texto do autor norte-americano Cormac McCarthy (de "Onde os Velhos Não Têm Vez"), Assunção cercou-se de um time de artistas desconhecidos do público das telinhas --mas de grande reputação no teatro.
Buscou em Cacá Amaral e Guilherme Sant'Anna, atores com extenso currículo nos palcos, os protagonistas.

Fábio Assunção dirige o ator Cacá Amaral em ensaio de "O Expresso do Pôr do Sol"
Fábio Assunção dirige o ator Cacá Amaral em ensaio de "O Expresso do Pôr do Sol"

Entregou a iluminação a um dos mais talentosos profissionais da cena brasileira, Caetano Vilela (com quem trabalhara em "Adultérios"), e valeu-se do renomado Fábio Namatame para conceber o cenário e o figurino.
Por fim, convocou Maria Adelaide Amaral, nome que faz a ponte entre televisão e teatro, para elaborar a dramaturgia de sua versão do embate filosófico, religioso e moral entre Black (Sant'Anna) e White (Amaral).
White é um professor ateu que não vê sentido na vida e tenta se matar jogando-se na linha de trem. É impedido pelo ex-presidiário Black, evangélico fervoroso que procura convencê-lo a mudar de ideia.
O resultado dessa reunião de esforços, que o público confere a partir de amanhã no Tuca Arena, em São Paulo, rejeita a linguagem realista que vige nas novelas e que baliza o teatro comercial.
A opção pelo risco é ressaltada por Vilela --que é também diretor, à frente da companhia Ópera Seca, de Gerald Thomas. "Fábio poderia ter optado por uma encenação palatável. Não foi o caso".
O novo encenador, porém, afirma que tampouco quis "criar teatro experimental". "Eu me preocupei apenas em fazer aquilo de que gosto e em que acredito. Quero oferecer o melhor ao público", resume Assunção à Folha.
De cunho originalmente realista, o texto chegou a ser adaptado para a TV americana, com Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones no elenco.
Assunção expôs a Maria Adelaide Amaral sua opção por cortar da história as referência da linguagem cotidiana. "Achamos que a discussão ficaria maior se saísse do plano do real", diz ele.
E, se na TV Assunção está habituado a um mundo cindido entre mocinhos e vilões, no teatro quis embaralhar as fronteiras entre bem e mal, servindo-se da iluminação para limar o maniqueísmo.
"Encontrei na montagem um embate precioso entre luz e sombra, elementos que representam aquilo que mostramos e escondemos, nossos deuses e fantasmas", diz.
Na leitura de Assunção, tanto White como Black foram amortecidos pela vida.
"O sol de White já se pôs. As coisas nas quais ele acreditava não existem mais. Por outro lado, ele está mais vivo do que Black, pois se dá à liberdade de escolher", diz.

O EXPRESSO DO PÔR DO SOL
QUANDO sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h30; até 30/11
ONDE Tuca Arena (r. Monte Alegre, 1.024; tel. 0/xx/11/3670-8455)
QUANTO de R$ 20 a R$ 50
CLASSIFICAÇÃO 12 anos

10 de jun de 2012

"Licht + Licht": Resumo da Ópera... Seca

Depois de ter estreado com um texto de Tom Stoppard na direção da Cia. de Ópera Seca minha afinidade eletiva caiu sobre Goethe no meu segundo trabalho. Em março estreamos Licht + Licht no Festival de Curitba (com apenas duas apresentações no Auditório Ibirapuera-SP) e agora continuamos toda a batalha para colocarmos a peça em cartaz.
Inspirado em Fausto, O sofrimento do jovem Werther e Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister o espetáculo nasceu também depois de uma frustração com a não realização de duas produções de ópera (Faust/Gounod e Werther/Massenet) que fui convidado à dirigir e por diversos motivos não deram certo. Como eu prometi a mim mesmo que nunca mais me frustraria com projetos não realizados está aí o fruto da minha pesquisa de mais de 1 ano em cima da obra do autor alemão.  
Aqui vai um resumo da repercussão do espetáculo:

- Em primeiro lugar segue o link do fotógrafo Gilson Camargo com seu 'storyboard' do espetáculo com trechos do texto. Assim como já havia feito em Travesties, Gilson é um parceirão que sempre nos acompanha em Curitiba.
- Jefferson Pancieri fotografou o espetáculo aqui em SP nas duas apresentações especiais que fizemos, como extensão do Festival de Curitiba, no Auditório Ibirapuera. Suas fotos estão no meu Flickr.
 Macksen Luiz:  "... acrescido de muita ironia e auto-deboche. Os métodos de encenação e os meios de produção do teatro, triturados por Caetanto Villela, jogam em cena Fausto, Mephisto, Meister, Hamlet, numa salada luminosa que explode, a partir de zonas sombrias. Villela parece se divertir, provocando a plateia com o que poderá intrigá-la até a irritação. Por meios transversos atinge a acomodação de quem assiste e de quem faz teatro, e detona o melhor que o Festival de Curitiba mostrou este ano." 
- Gazeta do Povo/Curitiba: "(...)embora Licht+Licht traga elementos que foram marcantes em Travesties – a grandiloquência algo operística, o cenário e iluminação impecáveis, Germano Mello, o protagonista de ambas, e livros, muitos livros – a nova peça não se assemelha à primeira no aspecto que mais a caracterizava, o da narrativa (...) é pela luz que ele conduz Licht+Licht, que ganha contornos operísticos pelas marcações estabelecidas em cena e pelos trechos de óperas que permeiam a estrutura da peça."
- Valor Econômico/SP: "(...) O texto não desponta como o único canal de acesso do espectador ao que se desenrola diante de seus olhos. A luz é quesito à parte nos trabalhos de Thomas e Vilela. Está na base de "Licht+Licht" (título que remete às últimas palavras de Goethe antes de morrer: "Luz, mais luz"). "Para mim, a luz não entra para iluminar, e sim para esclarecer. É conhecimento", diz Vilela"
- Tempo_Continuo/RJ: "(...) Na realidade, o texto atua como mais um elemento cênico, e pode-se até dizer que ele trocou de lugar com a iluminação. Neste sentido, arriscamos um neologismo, dizendo que se trata de um espetáculo – não textocêntrico – mas luminocêntrico."
- Guia da Folha/SP: "É uma peça que chama a atenção logo no começo. A música tensa, o texto forte e o cenário que surge aos poucos aos olhos do público já deixam claro que "Licht+Licht" não passa batido."
- O Globo/RJ: "(...) Criado em 1992, o evento encerra hoje sua 21 edição com uma programação que ofereceu boas surpresas, como "Licht + licht", de Caetano Vilela, da Cia. de Ópera Seca (SP)."
- O Globo/RJ - Entrevista Gerald Thomas e Caetano Vilela: "O encontro é o primeiro entre os dois núcleos da Cia. de Ópera Seca — o de São Paulo, hoje comandado por Vilela, e o de Londres, guiado por Gerald desde que foi viver lá, em 2009. Seguidor dos passos de Gerald desde “Electra com Creta” (1987), Vilela passou a ser diretor assistente e iluminador da companhia em 1997."


Estamos aprovados na Lei Rouanet e no PROAC/ICMS para captação de verba com incentivos fiscais.
Contato: ciadeoperaseca@gmail.com

2 de out de 2011

Personagem nos muros (Direto da Ilustríssima - Folha de S.Paulo)

Parte das minhas memórias está hoje no caderno "Ilustríssima" da Folha de S.Paulo deste domingo. A foto que acompanha a edição impressa é um detalhe do grafite que tenho do célebre Alex Valauri, como não dá para ver na edição online publico abaixo a foto original do meu arquivo pessoal. Enjoy:




São Paulo, domingo, 02 de outubro de 2011  

ARQUIVO ABERTO
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
Personagem nos muros
São Paulo, anos 1980

CAETANO VILELA
Em meados dos anos 80, antes mesmo de completar 18 anos, eu trabalhava como garçom ou vendedor para pagar meus cursos de teatro. As mais lindas lembranças daqueles tempos guardo de gente que conheci nos empregos temporários; Paulo Penna foi um deles.
Paulo morreu jovem, aos 39 anos, em decorrência da Aids. Era artista plástico, cenógrafo e figurinista. Gostava mais de pintar e quase sempre São Paulo era a sua modelo, retratada com óleo sobre tela, aquarela, litografia e xilografia. Era sua forma de retribuir a generosidade com que a cidade o acolheu quando chegou do Rio Grande do Sul, nos anos 70.
Nós nos conhecemos quando fui trabalhar numa papelaria na esquina da rua Duque de Caxias com a avenida São João. Ele morava 13 andares acima e aparecia para xerocar livros e documentos. Um dia nossa conversa foi além do "bom dia". Passamos a falar de arte, pintura, teatro; ele me indicou livros e filmes. Quando soube que pedi demissão, me convidou a organizar seu acervo, representá-lo nas galerias, enfim, organizar a burocracia da sua vida. Aceitei.
Passei a acompanhá-lo nos trabalhos mais loucos dos anos 80: apresentações das Dzi Croquettes; exposições no badaladíssimo Espaço Off, de Celso Curi; shows no Lira Paulistana; reuniões na redação da "Interview"; performances nas boates Madame Satã e Homo Sapiens; produções de filmes soft-pornô-trash da Boca do Lixo e de peças soft-pornô-chic no Bexiga.
Por aquela época, Paulo leu na Folha uma entrevista em que Carlos Drummond de Andrade falava de sua relação com religião. Ficou tão tocado que enviou ao poeta um cartão e uma gravura. Veio a resposta: "[...] Deixei o aconchego da religião tradicional para me instalar no cantinho tranquilo do agnosticismo, que não exclui a espiritualidade difusa."
Desde então deixei a cafonice de me declarar ateu para me assumir poeticamente como 'agnóstico difuso'.
Também naqueles anos, Paulo me apresentou um dos primeiros (ou "o" primeiro) grafiteiros da cidade, o italiano-etíope-brasileiro Alex Vallauri, uma figura. O cara saía de madrugada por Pinheiros e pela Vila Madalena com latas de spray e moldes vazados de lagartixa, frango assado e colunas gregas, com o objetivo de "deixar a cidade mais bonita, honey", como dizia com aquele delicioso sotaque indecifrável. Criou uma personagem nos muros, espécie de pin-up que batizou de Rainha do Frango Assado, até hoje um ícone kitsch.
Numa festa, antes de eu conhecer Paulo, Alex deu a ele um embrulho ilustrado com abacaxis, onde grafitou uma coluna e, é claro, o frango. Nunca soube o que tinha na caixa, mas o papel fez tanto sucesso que Alex teve de assiná-lo para para Paulo pôr na parede.
Drummond e Alex morreram em 1987. O poeta, vítima do coração; já o fim do grafiteiro foi mais triste, num quarto escuro, no aniversário de 38 anos, cego e inconsciente. Foi um dos primeiros artistas brasileiros a morrer com Aids.
Paulo morreu quase um ano depois, debilitado, mas com menos sofrimento. Os últimos dias não quis passar no hospital. Foi para casa, onde o vi morrer -ele parou de respirar e ficou ali deitado, os olhos voltados para a janela, de onde se via o Pico do Jaraguá.
Um dia antes, ele me deu a carta do Drummond, o grafite de Alex e uma jaqueta que comprara na Europa para invernos rigorosos. Ainda guardo a carta, e o grafite emoldura minha sala de trabalho. A jaqueta eu mantive por anos, até, numa turnê com o grupo de Antunes Filho, emprestar a um amigo que ia arriscar a vida na Espanha. Esse amigo trabalhou como pedreiro, lavador de pratos e quase morreu entre mercenários na Legião Estrangeira. Um dia, a fome foi maior que o frio e ele vendeu a jaqueta. Hoje é um promissor cineasta -mas isso é outra história.

6 de ago de 2011

10º Encontro Internacional de Ópera/Saltillo - México

Participei como convidado de 2 semanas intensas em Saltillo (norte do México) dando classes de interpretação para jovens cantores de ópera. O resultado final foi um espetáculo com cenas de vários trechos de óperas apresentada no Teatro da Cidade.
Mas o resultado REAL, saberemos num futuro breve já que o México é famoso por exportar cantores líricos mundo afora; o que tenho a dizer é que o trabalho foi árduo e a dedicação foi intensa!
Abaixo, reportagem no jornal local "Vanguardia":



VANGUARDIA


Publicado en la edición impresa por Edgardo Valero - 04/08/2011

10 Encuentro Internacional de Ópera: Presentan ‘examen musical’

 

Concluyen curso con la presentación de ‘Escenas de Ópera’ en el Teatro de la Ciudad, evento en el que estudiantes y maestros comparten escenario y muestran frutos de su preparación
Fotos: VANGUARDIA-Daniel Becerril

Saltillo.- Como cada año en Saltillo, jóvenes cantantes de ópera detuvieron el tiempo en el escenario del Teatro de la Ciudad
Fernando Soler.
Fueron 46 voces extraordinarias las que unieron su talento a las creaciones de grandes autores de la ópera que hicieron pasar a muchos un momento inolvidable la tarde del martes.
Y es que el 10 Encuentro Internacional de Ópera una vez más triunfó, pues los cerca de 500 asistentes en cada una de las dos presentaciones quedaron encantados con el poder de la música y la versatilidad de cada uno de los intérpretes que en esta ocasión formaron parte del encuentro.
Sin prisa y a tiempo, la primera parte de la presentación de las “Escenas de Ópera” inició a las 18:30 horas. Un siempre bien recibido Mozart fue el encargado de hacer viajar a los espectadores con “Der Schauspieldirektor”, una comedia que parodia las relaciones entre aquellos que hacen posible la magia del teatro. Lo encargados de darle vida a los tres personajes de esta primera escena fueron Scherezada Cruz, Fabiola Ontiveros y el único tenor participante de Saltillo en este encuentro, Carlos Aveldaño.
La música W. Amadeus Mozart de nueva cuenta fue la protagonistas de las siguientes dos escenas, continuaron de “Indomeneo” y “Cosi Fan Tute”.
La manos de la recocida maestra de música Marioara Trifan se encargaron de dar la notas en el piano que acompañó a las potentes voces de los personajes de “Electra”, “Idamante” e “Idomeneo”.
Pieza clave de la ópera es “Carmen”. No hay quien no haya escuchado por lo menos una vez en su vida alguna aria de esta famosa obra del compositor Georges Bizet. Y en esta ocasión, “La Cigarrera” fue interpretada por Ligia López, quien con cabello rizado y labios carmesí, interpretó con pasión a este personaje que alguna vez intepretara la soprano María Callas.
Jacques Offenbach y C. Gounod fueron los compositores cuyas obras maestras se materializaron en el escenario con adaptaciones bastante actualizadas gracias al ingenio y la experiencia de cada uno de los alumnos de este encuentro.
La pieza “Chanson à Boiré” de “La Chanson de Fortunio”, de Offenbach, fue interpretado por mujeres, que le dieron juego y gracia a esta aria hecha para voces masculinas, cuyos personajes piden comida, pero terminan borrachos.
Para terminar esta primera parte, que duró alrededor de dos horas, volvió de nueva cuenta Mozart con “Don Giovanni”, en específico “La Nozze di Figaro”.
En punto de la 20:30 horas el espectáculo siguió. Ahora Giuseppe Verdi coronaría esta segunda entrega de escenas. “Rigoletto” contó la voz de una de las promesas de la ópera mexicana, Anabel de la Mora, interpretando a “Gilda”, mientras que “Rigoletto” corrió a cargo de Iván Nadal.
Otra vez el público quedaría maravillado, como lo había hecho una noche antes en la Plaza de Armas, pero ahora la ópera tuvo un escenario que se convirtió en diversos espacios para que el desarrollo de cada de una de las escenas fuera posible.
Los prestigiosos maestros que conformaron este encuentro fueron los encargados de crear la magia. Además, de Trifan, André Dos Santos, Claude Corbeil, Christian Capocaccia, Alejandro Sánchez Miyaki, estuvieron durante estas dos tandas frente al piano.
Oswaldo Martín del Campo, Caetano Vilela e Iker Arce Herrera pusieron su empeño en la dirección escénica.
Siguió Verdi de nueva cuenta con “Falstaff” y con las arias de Fenton y Nanneta, para continuar con “Romeo y Julieta” de G. Guonoud, “Thais” de J. Massenet.
Con la ópera “Der Rosenkavalier” las voces de la maestra Ivonne Garza, Anabel de la Mora y Rebeca Samaniengo se unieron para dar una melancólica interpretación de un tema sobre el amor no correspondido. Un pieza que logró sonoros aplausos del público.
Para finalizar, Offenbach con “La Belle Helene” dio ese toque de festividad al recinto con el aria de “Oreste” y “La Marche des Rois”. Esta ópera está basada en el famoso poema “La Ilidada” del poeta griego Homero.
Así, terminó el concierto y también el romance musical que por casi un mes llenó las calles de la ciudad y los corazones de muchos saltillenses que gracias a la labor de Teresa Rodríguez y un grupo de entusiastas enamorados de la ópera, ofrecieron al público otra opción músical.
Ahora queda esperar al verano del 2012 que seguramente traerá más voces a Saltillo, más experimentados maestros, más ópera a espacios de la ciudad y más arias a un público ávido de soñar.

19 de jul de 2011

Direto do Blog de Reinaldo Azevedo: "Gargólios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido"

Blog

Reinaldo Azevedo

11/07/2011

às 6:21

Gargólios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido

Angus Brown e Maria de Lima em "Gargólios", de Gerald Thomas

Angus Brown e Maria de Lima em "Gargólios", de Gerald Thomas

Há dois anos, o teatro, ou a possibilidade de inovação do teatro, teve uma má notícia. Gerald Thomas anunciou que estava caindo fora. Não queria mais saber do ofício. Não era Jean-Paul Sartre dizendo que a literatura não fazia sentido diante do horror. Era Thomas dizendo que o teatro não fazia sentido diante da banalidade do mundo. Em setembro do ano passado, no entanto, ele estreou Throats, em Londres, com a London Dry Opera Company. Estava de volta. Era a sua leitura do mundo pós-11 de Setembro, o evento traumático da civilização ocidental que ele viu acontecer literalmente da janela de seu apartamento, em Nova York. Na mais absoluta escuridão de sentido, a exemplo do resto do mundo, restou-lhe descer e se integrar às brigadas civis que tentavam socorrer as vítimas.

Throats foi bem-recebida pela crítica, mas nem tanto pelo próprio Thomas. Percebia que o motivo que o levou a anunciar a renúncia ao teatro persistia na sua própria peça. Que motivo? Eu o resumiria assim: o discurso SOBRE a realidade não dava conta da complexidade do mundo nem como política nem como arte; no primeiro caso, ele se mostrava reducionista; no segundo, ah, meus amigos, no segundo, o problema vem lá de longe, da mimese aristotélica, segundo a qual, no drama, o verossímil, o crível, tem prevalência sobre o factível.

Thomas decidiu eliminar de Throats qualquer sombra de discurso programático, organizador, eficiente para a pólis (volto a este ponto daqui a pouco); decidiu também pôr fim a qualquer conforto ao espectador; os atores que estão no palco não querem iludir ninguém; são alegorias. O autor e diretor reduziu também Throats a escombros, e surgiu em seu lugar a performance Gargólios, que ele trouxe ao Brasil, junto com o London Dry Opera Company. A maior parte do espetáculo, pois, se desenvolve em inglês, com algumas falas em português da atriz Maria de Lima, que é portuguesa. Há legendas.

Assisti no sábado à pré-estréia do espetáculo, que fica no SESC Vila Mariana até o dia 24 de julho. Num palco tomado pelos mesmos escombros do 11 de Setembro, estranhos super-heróis disputam espaço no divã de um Freud (Adam Napier) da civilização, que usa vistosos sapatos femininos, vermelhos. Do teto do palco, pende uma mulher seviciada, e seu sangue se esvai em gotas numa espécie de pote macabro e sagrado, onde se persigna um mordomo elegantemente vestido (o espetacular ator Angus Brown). Num painel translúcido, vê-se uma grande imagem, acho, de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille. Thomas vai tratar do mundo desde o começo. Ou desde o fim.

É inútil tentar perseguir o fio de uma narrativa linear. Num dado momento, Maria de Lima ensaia um discurso sobre a crise de valores do nosso tempo, em tom um tanto grandiloqüente, que ficaria bem na boca de um desses petistas ou esquerdistas que dão plantão na esquina. Interrompe a fala e a submete ao ridículo, dizendo ser uma porcaria de texto. Nada de falas programáticas. Thomas — isto arrisco eu, ele não me disse — parece estar disposto a contestar também a contestação.

Os escombros das Torres Gêmeas que estão no palco são menos uma metáfora do que uma metonímia. Numa linguagem muitas vezes telegráfica, cheia de citações, a performance — assim o próprio Thomas define o trabalho — eles são uma parte de algo muito maior que parece aos pedaços. Ali está um retrato angustiado, sarcástico, muitas vezes cômico, de uma cultura ocidental que perdeu suas referências. Ousaria dizer que a linguagem a que Thomas recorre é transgressora, incômoda, agressiva às vezes, mas a força que a inspira tem uma matriz nostálgica, conservadora quem sabe: o tempo em que havia hierarquia de valores.

Não por acaso, um dos poemas — e acho que a Gargólios é isto: um sucessão de poemas — ironiza impiedosamente estes dias dos iPhones, Ipods, Facebook, redes sociais, a era, enfim, da horizontalização da cultura, em que se misturam sagrado e profano, importante e desimportante, raso e profundo. Aqueles super-heróis alquebrados, impiedosamente psicanalisados por um Freud de sapatos vermelhos, são sobreviventes de uma catástrofe do sentido. Sim, estamos diante de uma visão bastante pessimista do mundo. Um dos ótimos momento do espetáculo, vejam lá, é o jogo de palavras entre “entender/ não entender”. Estamos esmagados pela informação. Faltam-nos idéias formadoras.

O próprio Thomas participa do espetáculo, como um narrador. Mas um narrador muito particular: fala por meio de solos de um baixo, que pontuam a música composta para o espetáculo por John Paul Jones, do Led Zeppelin.

É inútil falar e seria inútil não falar da briga que já tivemos, Thomas e eu — se não o faço, alguém o fará. E dela surgiu uma amizade fraterna, que nos gratifica a ambos. Não escrevo sobre o espetáculo do meu amigo, mas sobre o trabalho de um autor e diretor sem receio de ousar sobre a própria ousadia. Aprendemos a aprender na divergência, e elas existem, e compartilhamos algumas preocupações que considero civilizadoras.

De certo modo, aquele rompimento com o “teatro”, no sentido de um discurso programático, está mantido. Thomas preferiu o desconforto. E o Brasil, vocês verão, também está no palco, especialmente quando se ironiza certo tatibitate do nosso verde-amarelismo cafona. Assistam Gargólios. Não busquem o conforto da narrativa, mas o desconforto do sentido.

*
Gargólios, de Gerald Thomas
Até o dia 24 de julho no SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141 - Tel. 5080 3000
No dias 30 e 31 de julho, no SESC Santos

Por Reinaldo Azevedo

11 de jul de 2011

Direto da Folha: "Google e FB são os concorrentes dos Jornais" (entrevista c/ Juan Luis Cebrián)

São Paulo, segunda-feira, 11 de julho de 2011

ENTREVISTA DA 2ª JUAN LUIS CEBRIÁN

Google e Facebook são os concorrentes dos jornais

EDITOR ESPANHOL QUE FUNDOU O "EL PAÍS" É PESSIMISTA SOBRE FUTURO DOS JORNAIS PORQUE INTERNET NÃO TEM 'INTERMEDIÁRIOS'

RAUL JUSTE LORES
EDITOR DE MERCADO
SYLVIA COLOMBO
DE SÃO PAULO

Os veículos tradicionais de imprensa devem passar a preocupar-se mais com a concorrência de sites como o Google e o Facebook do que com seus tradicionais rivais.
É assim que pensa o jornalista espanhol Juan Luis Cebrián, 66, fundador do "El País" e presidente do Grupo Prisa, que, além do jornal, é dono da Santillana, grupo editorial ao qual pertence a brasileira Moderna.
O espanhol esteve no Brasil na semana passada para participar de encontros sobre a atuação da Santillana no país, que já é o maior mercado da empresa no mundo. Negocia também a produção de conteúdo para a televisão, no Rio Grande do Sul.
Leia abaixo a entrevista que ele concedeu à Folha, em São Paulo.


Folha - Há uma discussão muito intensa nos grandes jornais do mundo sobre se é conveniente ou não cobrar pelo conteúdo das versões on-line dos mesmos. O "El País" está todo aberto na rede há alguns anos. Crê que essa é a postura mais correta?
Juan Luis Cebrián
- A pergunta mais importante é "um jornal pode migrar para a rede?".
Até agora a resposta tem sido negativa. Não houve veículo que foi capaz de fazer essa migração.
O problema está no fato de que um jornal na internet não é um jornal, é uma outra coisa. Sou radical nesse sentido, inclusive quando falamos da credibilidade das marcas. Até agora nenhuma das marcas tradicionais da imprensa escrita foi capaz de migrar para as operações virtuais com sucesso.

Por quê?
A rede é algo que se constrói a partir da experiência dos usuários. O Twitter, por exemplo. Jack Dorsey nunca imaginou que ele se tornaria um sistema de transmissão de notícias ou para convocar grandes manifestações.
Dorsey inventou o Twitter porque gostava de fazer mapas e não sabia como colocar as pessoas nos mapas que fazia.
O Facebook não nasceu para ser uma rede social. Provavelmente Mark Zuckerberg não teorizou a ideia de uma rede social.
Enquanto o Google nasceu com a intenção de ser um buscador mais potente, nada mais. O que determinou a transformação desses sites foi o uso que as pessoas fizeram deles.
Não foi a decisão dos que desenharam os programas que determinou seu destino, mas sim a experiência dos usuários que construíram essa força na internet.

Como ficam os jornais diante dessa nova situação?
Os jornais nasceram no começo do século 19, com a Revolução Industrial e a democracia representativa. Formam parte do establishment e das instituições da democracia moderna.
Se alguém leva a Folha ou o "Estado de S. Paulo" debaixo do braço, está se identificando com algo. Um jornal é uma bandeira, de certa maneira. E na internet não há bandeiras.
Jornal é uma concepção do mundo. Da primeira página à última está oferecendo uma visão sobre o que acontece. Está explicando a realidade aos usuários. Na rede não há intermediários.
Na internet, é comum que o protagonista de uma notícia seja aquele que a conte.
O relato das revoluções do norte da África foi feito por aqueles que as fizeram. O mesmo sistema para convocá-las foi usado para conta-las, por meio do Twitter.

O sr. crê que o leitor interessado em noticiário econômico está mais disposto a pagar pela informação?
Quem triunfou com o sistema de pagamento por conteúdo até o momento, foi o "Financial Times", e, em certa medida, o "Wall Street Journal" também, mas ambos são produtos muito específicos.
Sim, é preciso cobrar, mas por aquilo a que as pessoas estejam dispostas a pagar. E as pessoas, hoje, querem pagar aquilo que lhes interessa.
Pergunto a meus editores, por que publicamos as páginas de mercado de valores no "El País'? Seis páginas! Quem está no mercado de valores consulta isso na internet.
Para que publicar a previsão do tempo? Se eu venho a São Paulo, abro a internet no dia anterior para saber como está o clima. Não me ocorre ler isso no El País, com 24 horas de atraso. Mas continuamos a fazer isso.

Atender completamente aos leitores não deforma um jornal?
Não se trata de atender aos pedidos de todos os leitores, mas as demandas de cada leitor. Há leitores a quem lhes interessa a crise financeira, mas este mesmo leitor também pode querer saber o que aconteceu com Amy Winehouse em seu último show.
O "El País" tinha uma seção de esportes muito pequena e mal cobria celebridades. Hoje começamos a dar mais espaço para ambos.
Os diários já não dão notícias. Todo mundo já sabe as notícias quando vai ler os jornais. Os jornais explicam, fazem análises, debatem.
O competidor da Folha não é o "Estado de S. Paulo", é o Google, o Facebook, estes são nossos competidores reais. E não queremos admitir porque não sabemos como competir com eles.

Como fazer que Google, Facebook e Apple dividam esses ganhos, usando noticiário alheio?
Essa é uma discussão, porque o Google pode dizer que não quer pagar, mas se o "New York Times" não quiser estar, eles o tiram dali. E ninguém quer ficar fora do Google, de jeito nenhum, preferem estar ali mesmo que eles não paguem.
Com a Apple já é diferente. O iPad é uma rede de distribuição mundial para jornais, livros, filmes que já está implantada. Se alguém quer colocar uma estação de televisão no ar, precisa levantar postes. No iPad está pronto.
Cobrar 30%, como faz a Apple, pelos ingressos na rede pode parecer muito alto, mas o custo de distribuição de um jornal tradicional é cerca de 40%, entre o que se gasta em bancas, caminhões e aviões para distribuição.

As notícias que nos chegam da Espanha e da Europa são muito pessimistas. É uma crise de liderança ou há uma crise também na sociedade?
Há tal confusão e cumplicidade entre poder financeiro e político que os políticos se sentem débeis.
Existe um problema de liderança política que tem a ver com as eleições e com o curto-prazismo dos agentes que decidem em política.
A China, sem eleições, faz como grandes empresas, com políticas de longo prazo.
A Europa manteve um modelo de vida, provavelmente o melhor modelo de vida existente nesse momento no mundo, e jornadas de trabalho curtas. Esse sistema simplesmente não se pode mais pagar, porque já perderam-se as colônias e a economia tradicional europeia.

Nos círculos ilustrados da Espanha, qual a imagem que o Brasil tem hoje?
Creio que uma imagem extraordinária, que a merece. O Brasil é hoje um um ímã que atrai todos os olhares. Acabou-se a piada sobre o país do futuro. Hoje se vê o Brasil como um dos motores importantes do século 21, mesmo com a desigualdade.

E a imagem de Dilma?
Dilma é pouco conhecida na Europa, mas tem uma imagem boa. Estive com Dilma há um mês e me impressionaram muito suas ideias sobre economia.
Creio que vai triunfar, apesar de que opera em um entorno político complicado, em que a institucionalidade dos partidos não está bem resolvida. Mas creio que continua o "milagre brasileiro".
Só é bom lembrar que a felicidade não dura para sempre e é bom que os brasileiros também se preparem para momentos tristes.

RAIO-X


NOME
Juan Luis Cebrián
IDADE
66
- Nasceu em1944,em Madri
- Co-fundouojornal El País em 1976
- Presidente do Grupo Prisa

"The Economist" destaca jornais em emergentes

DE SÃO PAULO

A revista britânica "The Economist", com vendas em alta nos últimos anos, analisou o futuro dos jornais em sua última edição.
Em uma reportagem especial de 14 páginas, a revista diz que a internet demoliu "o velho jeito de fazer as coisas, mas tornou outros possíveis". Diz que a rede estimula a inovação e que há muita "experimentação" a caminho.
Apesar de sublinhar a queda na publicidade nos jornais europeus e americanos, que sofrem encolhimento de sua circulação, a "Economist" apresenta o crescimento nos emergentes.
Segundo a revista, entre 2005 e 2009, a circulação de jornais cresceu 39,7% na Índia, 20,7% no Brasil e 10,4% na China.
Enquanto houve quedas de 11% e 8% na América do Norte e na Europa, respectivamente, a circulação subiu 5% na América do Sul, 13% na Ásia e 30% na África.
Mesmo a presença das redes sociais, como Facebook e Twitter, é avaliada positivamente. "Leitores compartilham reportagens com seus amigos e as histórias mais populares causam um congestionamento na rede", destaca a revista.
Outro aspecto abordado é o dos novos negócios desenvolvidos pelos jornais, que contam a seu favor com marcas de prestígio. Grupos jornalísticos têm criado livrarias on-line, organizado seminários e eventos, e produzem material didático e apostilas.
O britânico "Daily Telegraph" e o americano "The New York Times" criaram clubes de vinhos, enquanto o espanhol "Marca" vende produtos esportivos exclusivos a seus leitores.
A conclusão da reportagem aponta para um retorno ao jornalismo mais caótico e partidário do século 19, antes do surgimento dos meios de comunicação de massa. (RJL)