17 de jun de 2007

Ritual de Passagem

Este ano para mim esta sendo bastante fértil em realizações profissionais, depois de um ano inteiro mergulhado no universo russo (historia e idioma!) para dirigir “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk”, opera de Shostakovitch, estou me dedicando também a entender as múltiplas facetas de Cocteau (já falei lá embaixo em “Sincronia”) e, last but not least, Strauss e sua deslumbrante “Ariadne Auf Naxos” para breve. E ainda tem critico que diz que encenador é despreparado, senta aqui pra ver...

Estudando o mito de Ariadne (vocês sabem, ela é aquela que deu a idéia do novelo de lã para o jovem Teseu voltar do labirinto são e salvo depois de enfrentar o Minotauro), reli as aventuras do herói Teseu e todo o seu ritual de passagem de um menino intrépido para um homem destemido. O herói teve de se travestir de mulher para enfrentar o inimigo e aniquila-lo, teve de dosar a sua fúria e canaliza-la estrategicamente para algo construtivo e produtivo e só após ter sofrido para vencer os seus “defeitos da juventude” é que ele ficou pronto para conhecer o seu pai e se preparar para o reinado.

Isso tudo se assemelha muito as nossas tribos indígenas, cada uma tem o seu próprio ritual. Em muitas o inicio deste encaminhamento se da na observação do corpo das crianças, já que a adolescência não é uma “fase social ou psicológica”. Para os homens (não só os indios e os heróis gregos) os rituais de transformação são, muitas vezes, rígidos e com certa dose de crueldade e violência. A formação do homem adulto e sua incorporação ao universo masculino exige diversos testes de virilidade, força física, domínio das emoções, em particular do medo, assim como assimilação das regras e valores culturais.

Revendo tudo isto entrei num “vácuo de criação”. Me afastei um pouco dos meus estudos e repensei boa parte da minha vida (crise pré-40?!), será que eu pulei alguma etapa do meu processo de amadurecimento? Fiz as escolhas certas, deixei para trás algo que podia ser maior ou melhor para mim? (Teseu, abandona Ariadne, na maldita ilha de Naxos, dizendo que vai voltar e tempos depois Baco/Dioniso a encontra sozinha e casa com ela).

Lembrando dos meus tempos de terapia, depois do processo de mudança deste estado da infância para a maturidade, encerra-se apenas um processo de "educação básica", uma fase. Só que para o adulto esse processo (que muitos chamam de “crise”) de socialização é contínuo, até a morte. Para um artista então, nem se fale, é morte e ressureição!

Pensando bem eu consigo entender porque esse ritual seja tão cruel! E você, ja pensou se pulou alguma etapa do seu ritual?

Um comentário:

Carmen disse...

ÊÊÊÊÊ!! Saiu, não é bom??
E, olha, crises... o desconstruir e o construir, sobre as mesmas bases, algo "evoluído", "amadurecido", nunca é fácil. O bonito é encarar as escolhas, aquelas incertas e duvidosas, e dizer foram minhas e aqui estou, eis-me o que sou, seguindo em frente, não?
Eu, pensando com meus botões, descobri a vida ser uma grande vitrola, cuja agulha passa leve e vagarosamente sobre o presente. As pequenas faixas do disco são o futuro ainda a ser tocado e o passado, a música que outrora se ouvia. Dependendo da nossa fase, onde a agulha se encontra, toca-se uma determinada melodia, bela a sua forma e imprevisível como a nossa alma e, nas transições, sempre há um pequeno silêncio, necessário, preparatório, ritualístico, para um novo crescimento.
Pequenos ciclos, dentro de outros ciclos... sempre.
Espero que isso te sirva de algo.
Beijo.