6 de set de 2007

Chamadas Recebidas

Acima momento surreal de Salvador Dali (Telefone de Lagosta/1938), abaixo o meu texto para o programa das operas com tema-siamês.

A primeira vez que Celine Imbert cantou “A Voz Humana” eu estava na platéia e ainda não a conhecia, já na segunda vez, com regência de Abel Rocha e novamente dirigida por Iacov Hillel, eu trabalhava como assistente de direção e iluminação e, quem diria, iniciava ai uma grande amizade e parceria!
Nem pisquei os olhos em atender esta chamada do maestro Abel para assinar esta nova encenação! Com a conversa caminhando nos empolgamos com a possibilidade de uma “ligação simultânea” e resolvemos também encenar “O Telefone”, ampliando a conexão com a solidão, esperança e desespero que cruzam estes personagens de uma forma às vezes patética e por outras, simplesmente, triste mesmo.

No “Telefone”, Lucy (Rosana Lamosa), num contraponto menos sombrio, será uma ‘workaholic’ do mundo fashion (lembraram de alguma coisa? Heheheh!) que não sofrerá por amor, quem sabe talvez num futuro breve ela sofra, e isso se não prestar atenção no que está na frente do seu nariz, Ben (Leonardo Neiva), ou desligar o celular!

Com meus parceiros Chris Aizner e Olintho Malaquias dividimos as duas operas em dois períodos distintos, ampliando o jogo teatral em passado e presente.

Discutindo a concepção do espetáculo Abel me sugeriu pensar num prólogo para a “Voz”, menos pela musica que já fala por si, mais pelo caráter teatral da personagem. Uau, mais uma chamada atendida! Cervantes Sobrinho, meu querido “dramaturgista-galicista”, me abasteceu com informações sobre o circulo de amigos que o autor - Jean Cocteau – freqüentava, destacando nele a mais francesa de todas as amigas, senhora Edith Piaf.

Diz a lenda que Cocteau, soube da morte de Piaf pelo radio e enfartou, morrendo no mesmo dia da amiga! Minha homenagem a esses amigos, literalmente inseparáveis, foi transformar esta “Mulher” numa cantora de cabaret. Interpretando canções esquecidas de Piaf, recriadas por André Mehmari, saberemos, antes do primeiro toque do telefone, o “estado de espírito” em que essa personagem se encontra, fechando assim um ciclo de espera e melancolia.

No século da comunicação digital não existe mais linhas cruzadas, estamos ainda solitários a espera de um simples “Eu te amo!”.

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