14 de out de 2007

O Acontecimento do Ano!


Estou ainda sob o efeito paralisante das 7 horas que “Lês Éphémères” provocou em mim! Danilo (SESC) Miranda, com certeza contribuiu para o maior acontecimento cultural do ano de 2007 (e olha que o ano nem acabou e teve concorrentes fortes como Anish Kapoor, para ficarmos num só exemplo!).

O Théâtre du Soleil dirigido há mais de 40 anos por Ariane Mnouchkini pode, hoje, parecer pouco ‘libertário’ se pensarmos nas experiências arrojadas que Pina Baush propõe atualmente com seu grupo, por exemplo, mas sem sombra de dúvida o resultado do que vemos em cena é de uma pesquisa tão requintada que fica difícil simplificar suas ações no contexto de uma ‘simples peça teatral’.

Embora esteja dividido em duas partes o espetáculo só funciona como ‘exercício de linguagem’ na sua versão integral, assim quem conseguiu apenas ingressos para a segunda parte com certeza terá todo o direito de detestar ou achá-lo massante!
Já quem optou pela primeira parte sairá bastante satisfeito com as histórias ‘efêmeras’ que se cruzam e se bifurcam, apresentando pequenas jóias como o comovente episódio “O aniversário de Sandra”, última cena antes do primeiro intervalo da Parte 1.

Interpretado dolorosamente por Jeremy James este episódio foi o primeiro a arrancar aplausos em cena aberta de uma platéia sinceramente comovida. James interpreta um travesti que sozinho no seu apartamento comemora seu aniversário, surpreende algumas crianças que sempre o observa pelo buraco da fechadura mas apenas uma menina tem coragem de aceitar o seu convite e entrar. Sabemos então que a menina não conheceu sua mãe, que morreu num acidente e Sandra, a travesti, além de ter uma relação cordial e telefônica com a sua mãe não consegue ter um diálogo com seu pai. Sem frescuras, maneirismos fáceis ou sentimentalismo barato a cena é desenvolvida com uma humanidade que nos deixa com um nó na garganta e mostra o quanto ‘Prêt-a-Porter’, do CPT, e seus atores tem de aprender ainda!
Aliás humanidade é um bom termo para resumir os temas apresentados em cada história desenvolvida e que numa carta a Eugênio Barba, Mnouchkini resume como “nossos pequenos apocalipses”.

Cada cena apresentada desliza em pequenos praticáveis com rodas, operados por atores da companhia (revezando-se), que com movimentos circulares (180 ou 360 graus) às vezes contínuos funcionam como se o público tivesse uma câmera na mão não perdendo um detalhe ‘naturalista’ que compõe a ação!
Talvez essa opção tchecoviana pelo naturalismo desagrade alguns que tenham visto outros espetáculos do Théâtre du Soleil. Há quem prefira a aridez da trilogia “Oresteia”, por exemplo, mas a evolução de Mnouchkini, hoje, passa por razões e questionamentos dos que são efêmeros.

Vamos combinar que cobrar de Mnouchkini, Peter Brook ou Antunes Filho a cada espetáculo uma revolução soa um pouco irresponsabilidade, já que a sociedade evolui bem lentamente nos seus paradigmas enquanto os mestres, bem os mestres nos mostram que rumo seguir quando nem sabíamos que havíamos errado o caminho. É essa a verdadeira lição que levamos para os nossos travesseiros.

Agora durma com um barulho desses!

P.S 1: Nem vou mandar você se jogar porque os ingressos estão esgotados faz tempo, mas tá rolando uma mostra de documentários sobre Mnouchkini e seu grupo no Cinesesc, corre que é de graça e tem muito close na fila.

P.S 2: Óbvio que Juliana Carneiro da Cunha esta fantástica, deslumbrante e tem cenas emocionantes mas carregando os mesmos adjetivos (ou até mais) tenho de destacar a iraniana Shaghayegh Beheshti que interpretando Perle faz uma composição irretocavelmente bufonesca de uma velha nos seus últimos dias que sonha em conhecer a Mesopotâmia. Impagável!

Um comentário:

Celso Dossi disse...

Sabia que vc também tinha blog, não.
Eita...
Abri um também: www.40c.blogspot.com
:)