4 de out de 2007

"Tudo que é profundo precisa de uma máscara”*

O velho e bom *Nietzsche poderia com essa frase ter entitulado a entrevista do escritor Don Delillo na Folha de hoje, ele fala sobre o seu novo livro “Homem em Queda”, trata-se de um personagem marcado pela tragédia de 11/9 que tenta refazer sua vida com esse trauma impossível de ser esquecido. Entrevistado por Sylvia Colombo, Delillo vai ao ponto com a declaração:
- “Os EUA não se sentem preparados para discutir artisticamente o 11/9”

Obras recentes lançadas no cinema - como “Vôo 93” de Paul Greengrass ou “Torres Gêmeas” de Oliver Stone – e na literatura – “O Vulto das Torres” de Lawrence Wright, “Os Últimos Dias de Mohamed Atta” de Martin Amis ou o que seria a gênese da história, o portentoso estudo do jornalista Robert Fisk “A Grande Guerra Pela Civilização” - tem obtido maior ou menor exposição na mídia mundial mas uma coisa ninguém pode negar, basta usar o acontecimento fatídico como expressão artística para os 'xiitas culturais' (você encontra dezenas deles agora nas filas da Mostra de Cinema, cuidado!) reagirem inflamados com reações violentas e quase sempre passionais. Cocô de touro, como diria Paulo Francis!

Senti isso na pele quando dirigi em 2005 “The Fall of House of Usher/A Queda da Casa de Usher”, ópera de Philip Glass adaptada de um conto de Edgar Allan Poe (ao lado Fernando Portari e Paulo Szot numa cena). Trata-se de um conto de terror, com uma morta-viva assombrando seu irmão, um artista que não consegue mais criar aterrorizado pelos uivos do cadáver insepulto.
Minha interpretação deste tema foi extremamente expressionista, já que para mim só fazia sentido representar o terror de Poe como um terror psicológico que prende a paralisa um homem incapaz de criar arte.
Para piorar o clima dos ensaios o ataque terrorista em Londres aconteceu durante este período reforçando o final do espetáculo, que já estava decidido há tempos: a imagem da CNN no exato momento em que os aviões destroem as Torres... com a orquestra em silêncio.

Bem, 2 criticas implicaram com a imagem e parte da concepção e me acusaram de ser ingênuo e leviano! Waaall, leviano foi ‘troppo forte'...
Ambas achavam que acontecimentos de maio de 68,
Torres Gêmeas, Jimi Hendrix, e otras cositas mas, fugiam um pouco do tema, o lance é que o tema O ARTISTA é que propõe, cabe ao espectador embarcar na história à partir daquele ponto de vista e não aquilo que ele gostaria que fosse a obra! E não importa se é inédito ou releitura é a visão do ARTISTA!

Voltando ao livro a crítica, que segue ao lado da entrevista do escritor, acha que De Lillo já fez coisas melhores (ainda não li o livro mas conheço "Ruído Branco" e "Os Nomes" que são fantásticos), talvez, mas o que me irritou vem depois, o crítico (Adriano Schwartz) diz que talvez o problema do livro seja: "a ânsia com que a ficção norte-americana vem tentando reconstruir esse capítulo tão difícil da sua história recente (...), não há nada da urgência da rememoração que ocorreu no pós-guerra. As razões são bem diferentes e, ao que tudo indica, menos relevantes".
Mas o ARTISTA escolheu este tema para o seu livro e desenvolveu toda a narrativa à partir dele, você pode não gostar do estilo ou da linguagem mas não tem como isolar o atentado da narrativa do livro ou dizer que ela é menos ou mais relevante, ela é a história!!!! My gosh, que preguiça...

O mega-diretor teatral polonês Tadeusz Kantor, dividiu a sua vida em antes e depois da Guerra, e claro sua obra só fazia sentido à partir deste acontecimento. Quando começou a se interessar por teatro a Polônia estava sob ocupação das tropas nazistas, Kantor, junto com outros artistas de diversas áreas formou um grupo que batizou de “Teatro Underground” (logo depois fundaria o Cricot 2, onde trabalhou até o último suspiro) montando “O Retorno de Odisseu”, onde o herói grego se transformava num soldado nazista. Leviano ou ingênuo , diria alguns, o fato é que até morrer em 1990 aos 75 anos o velho Kantor só nos oferecia a sua genial (e copiada!) arte monotemática com visões de uma guerra bem particular que assistida com um olhar contemporâneo enxerga-se com clareza uma grande sombra de duas torres imponentes.

A mesma sombra que paira sob a arte de De Lillo, Wright, Fisk, Stone e quem mais quiser entender ou simplesmente expiar o acontecimento mais importante deste século!
Quanto a mim, tenho certeza que voltarei ao tema em alguma ópera ou peça de teatro, aguardem.

Nenhum comentário: