18 de nov de 2007

Negros conscientes

Em setembro deste ano uma multidão de 20 mil pessoas, vindas de vários Estados, marcharam contra o racismo numa cidade ao sul dos EUA, Jena, no Estado de Louisiana. Sexta feira passada uma multidão cercou o Departamento de Justiça, em Washington pedindo “mais rigor contra crimes de ódio”, como mostra a “Folha” deste sábado segundo Sergio Dávila.

O motivo da barulheira?
Bem, tudo começou em agosto deste ano num Colégio, na cidadezinha de Jena (3.500 habitantes! Para você ter uma idéia o edifício Copan/SP possui 5.000 moradores!!), quando um aluno perguntou a funcionários do colégio se negros poderiam se sentar perto de uma árvore, conhecida como “árvore branca”. A resposta foi “sim, você pode sentar onde quiser”.
No dia seguinte, alunos brancos penduraram forcas nas árvores, iniciando uma série de provocações que culminou na hospitalização de um menino branco, vítima de espancamento. Os acusados: seis meninos negros.

Depois disso os garotos negros foram a julgamento (sendo julgados como adultos!), por homicídio não premeditado, depois revisto pelo Tribunal para assalto. Os ativistas reclamam que esqueceu-se quem iniciou as provocações: os jovens Brancos.

Por conta disso, incidentes envolvendo atos de racismo tomam conta de várias cidades americanas despertando na população uma discussão tão acalorada que não se via deste os tempos de Martin Luther King!
Personalidades e astros também entraram na história, David Bowie, por exemplo, doou US$ 10 mil dólares para financiar a defesa dos jovens negros.
Ainda não sabemos como esta história vai acabar.
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Sempre busco refúgio na literatura quando algo realmente sério acontece. Nem foi muito difícil, neste caso, procurar muito, já que o que se escreveu sobre racismo e negros contra brancos, com certeza, dá pra inundar a cidade de Jena com tanto papel!

Lembrei de um escritor que teve no Sul americano o antes e o depois da sua carreira, trata-se de “William Faulkner”, você já leu? Se não, deveria, Faulkner escreveu o divisor de águas na sua carreira chamado “O Som e a Fúria” (o título vem de Shakespeare, e está em “Macbeth”: "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada") que conta uma história sobre a decadência dos ‘Compsons’ numa narrativa multifacetada pelos membros da família e recontada pela empregada negra, a única personagem lúcida dentro de uma trama difícil e sombria.

O que tem, de prazeroso no livro é o ‘exercício de linguagem’ que o autor faz, intercalando os narradores entre o passado e o presente, buscando também a ‘forma’ de falar de cada um (inclusive o primeiro narrador, um retardado mental, que tem seu depoimento desqualificado exatamente por ser deficiente).

Na semana que se inicia temos mais um feriado para pensarmos na vida. É o dia da “Consciência Negra” (nos EUA eles celebram com um feriado nacional o nascimento de Martin Luther King na 3ª segunda-feira de janeiro).
Então porque você não coloca a leitura em dia e lê Faulkner?
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Se joga:
A Cosac Naify reeditou “O Som e a Fúria” numa edição capa dura bem bonita (mas está esgotada, se você procurar acha. Eu tenho mas não empresto, sorry!), se você se empolgar compre também “Palmeiras Selvagens” do mesmo autor e mais ‘acessível’.

Depois de comprar o livro dá uma passadinha no Largo do Paissandu (se for de SP, claro!) e visite a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Só uma curiosidade, ao lado da Igreja tem uma escultura intitulada "Mãe Preta", você sabia que o autor dela é o mesmo que fez o hediondo "Borba Gato" em Santo Amaro?
Sim, Julio Guerra pelo menos caprichou na encomenda da preta véia, será que era medo de ebó?! Ui.

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