13 de nov de 2007

"Recado do Morro" de Rosa

“Mutum” é o primeiro longa de ficção da documentarista Sandra Kogut, adaptado de uma novela de Guimarães Rosa (Campo Geral – Miguilim), assisti ao filme com o texto ‘ainda fresco’ na minha cabeça e com algumas frases decoradas. Explico.
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Corte no Tempo!

Alguns atores do "Boi Voador", domando bois. Essas rodas eram os únicos elementos de cena que se transformavam de acordo com a história interpretada, assim viravam bois, cavalos, casas, labirintos, 'passagem de tempo', montanhas e o que mais a imaginação permitisse!

Era 1987, estava na flor dos meus 19 anos, havia assistido a uma série de ensaios abertos que mais tarde formariam o espetáculo “Corpo de Baile” com o Grupo Boi Voador (dissidência do CPT de Antunes Filho), dirigido por Ulysses Cruz (11 de cada 10 atores implorava para trabalhar com o cara!). Pois bem, num dia apresentava uma novela de Rosa e depois debate sobre figurinos, no outro outra novela e debate sobre dramaturgia e assim até encerrar a semana. No primeiro dia fiquei em transe e apoplético com o que via, já tinha estreado uma peça profissional e vivia de cursos e workshops para me aperfeiçoar como ator.
Todos os atores do "Boi" , uns 15, rasparam os cabelos e coloriram cada um de uma cor diferente (inclusive as mulheres!) e óbvio, não pensei duas vezes em raspar minha encaracolada cabeleira hyppie e me oferecer para trabalhar no Grupo (nesta altura dos debates TODOS os atores já me conheciam , já que eu fazia o groupie durante a temporada).

Resumindo a história Ulysses me mandou para um núcleo que estudava Cortazar (“Observatório” estreou depois de 3 anos de ensaios para 3 meses de apresentações!) sob direção de Beth Lopes que havia sido sua assistente. Em 1988 estreara “Corpo de Baile” (com dramaturgia de Jayme Compri, com quem aprendi muito, infelizmente morto em Londres de uma forma estúpida), transformando a obra de Guimarães Rosa num dos melhores espetáculos de todos os tempos.

Na novela “Miguilim”, Paulo Chiavegatti (algum tempo depois vítima da AIDS), era uma criança deslocada do seu tempo, guardo duas cenas lindas e tristes:
Quando o garoto descobre que “pode enxergar” e ter uma vida melhor em outro lugar ele se agarrava na saia da mãe (Denise Courtouké, fantasticamente expressionista!) e gritava quase chorando:
- “Mãe, mas por que é, então, para que é que acontece tudo?!”
A outra é quando o seu irmão pergunta se ele tem medo de morrer, e Miguilim respondendo 'dostoievskianamente':
- (...) eu tenho medo, mas só se fosse sozinho. Queria a gente todos morresse juntos...

Poderia ficar escrevendo horas sobre estas lembranças, talvez em outro momento o faça, o negócio é que Ulysses acabou com o Grupo e foi para a Globo (dirigiu especial da Angélica, mini-série e recentemente uma novela que foi o maior fracasso na rede! É, os deuses do teatro não perdoam!!), deixando alguns núcleos de pesquisa e dezenas de atores para trás, o resto é resto e alguns sobrevivem pelos palcos bem ou mal.

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Voltando para “Mutum” infelizmente o filme não se acerta. Eu costumava dizer para os meus alunos de teatro que um filme baseado num livro só é bom quando você fica com vontade de ler o livro.
Não é o caso, perdeu Guimarães Rosa (quem o achava chato com obrigações escolares em ler "Sagarana" não chegará nem perto desta linda novela) o filme é troppo seco e tem uma estética neo-realista italiana um pouco ultrapassada. Embora trabalhe com não-atores a única escolha profissional é equivocada (o onipresente João Miguel) as crianças não tem carisma e a mão pesada da direção não leva o filme pra lugar nenhum esgarçando sua narrativa para o que ‘não é visto’.

Sandra deveria ter levado a sério o ‘propedêutico’ do livro com uma frase de “Plotino”:
-“Num circulo, o centro é naturalmente imóvel; mas, se a circunferência também o fosse, não seria ela senão um centro imenso”
Pois bem, o filme é de uma 'imobilidade imensa'!
É crianças, mexer com Guimarães não dá certo se você não observar ‘o que não é dito’!
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Se joga: Você tem que ler o livro primeiro, pleaaaase!
Tem uma edição comemorativa lançada pela Nova Fronteira com todas as novelas que compõe “Corpo de Baile”, ou então procure em sebos as edições antigas, ainda separadas, e compre “Manuelzão e Miguilim”.

Um comentário:

Anônimo disse...

Beeeeeee, ainda bem que você não gostou de Mutum porque, caso contrário, teríamos que ler telas e telas e telas de comentários que fariam Caetano Veloso parecer escritor de hai kais!
Beijos
Miguel