14 de dez de 2007

Um homem comum simplesmente!

“Mas quanto tempo um homem pode ficar relembrando os melhores momentos da meninice? Por que não desfrutar os melhores momentos da velhice? Ou seria o melhor da velhice justamente isto – relembrar com saudade o melhor da meninice...” (pág. 93)


Comprei em outubro, num daqueles intervalos entre uma sessão e outra da Mostra de Cinema, o novo livro de Philip Roth: “Homem Comum”, tirei-o da pilha dos que aguardam minha leitura e trouxe-o na bagagem para Manaus justamente por ser ‘menos’ volumoso que os outros e caber na minha mala de mão.
Pois não é que devorei suas 131 páginas nestas 5 horas e pouco de viagem, com conexão em Brasília e troca de aeronave, aliás, coisa que poderia ser feita em 3h30 num vôo direto!

Se você tem menos de 40 anos e não é muito chegado no tema 'homem maduro revê sua vida' é melhor ler outro livro do autor, “Complô Contra a América” ou “Pastoral Americana” (aliás, em breve nos cinemas!) pode ser um bom começo, agora se você é do segundo time que está naquela fase de ‘reavaliação’ da vida, e já começou a pensar que em breve você será tratado como sendo da 'melhor idade' (quem foi o idiota que inventou esse eufemismo?) e pensa que:
- “ A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.” (pág. 114)
Então amigo, prepare-se.

Não há surpresa alguma, já no primeiro parágrafo estamos no enterro do protagonista rodeado por familiares e que aos poucos vamos nos tornando íntimos daqueles personagens e as relações de amor e desafeto que o falecido tinha com eles.
Você pensou exatamente agora em "A Morte de Ivan Ilitch" a obra-prima de Leon Tolstoi ou em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis, mas Roth não se agarra a religião no final da vida como Tolstoi e nem é tão naïf como Machado.
...

O personagem é um ex Publicitário setentão (Roth, o autor têm 74), que depois de três casamentos e três filhos se aposenta aos 65 anos e resolve abandonar Manhattan, “cumprindo a promessa que fizera a si próprio logo depois dos atentados de 11/09" (pág. 50), mudando-se para um uma comunidade de aposentados de New Jersey à beira mar.
“A catástrofe de 11/09 parecera acelerar a oportunidade de dar uma grande virada em sua vida, quando na verdade assinalara o início de sua vulnerabilidade e de seu exílio” (pág. 99), "ele não queria que o fim viesse um minuto antes que o estritamente necessário” (pág. 53).
Vivendo sozinho e isolado relembra quando começou a trair sua segunda mulher (aos ‘quase 50’) e a sua surpresa quando ela liga para falar da internação de sua mãe e diz saber de absolutamente TODOS os casos dele, da falta de amor com os dois filhos do primeiro casamento, da inveja que ele sente do irmão mais velho que nunca adoeceu e tem uma saúde-de-ferro.

Judeu não ortodoxo (também como Roth), não se agarrava a deus nenhum para aliviar os últimos anos de sua vida, sabia que “os ossos eram o único consolo que restava para alguém que não acreditava na vida após a morte e sabia, sem nenhuma dúvida, que Deus era uma ficção, e que aquela vida era a única que ele teria” (pág. 124).
Vendo os amigos próximos, da mesma geração, combalidos por doenças e transtornos da idade se compraz do sofrimento alheio e retoma contato ligando para cada um, mesmo sabendo que as promessas de falso otimismo seriam inócuas, embora isso de certa forma levasse conforto para o outro e o aliviasse.

Visitando pela última vez o túmulo dos pais, trava um diálogo shakespeariano com um coveiro que lhe explica naquela simplicidade filosófica das pessoas simples como é o seu ofício (o velho Bobo-da-Corte do castelo dinamarquês, teria morrido feliz se fosse este o seu coveiro!)

A pergunta que ecoa na nossa mente aos 30/40 e que com certeza retomaremos ciclicamente até o final dos nossos dias é:
- “Tudo seria diferente, ele se perguntava, se tivesse sido diferente e feito tudo de modo diferente? Agora eu estaria menos só? Claro que sim! Mas o que eu fiz foi isso! Estou com 71 anos, e este é o homem que fiz de mim. Foi isso que fiz para chegar aonde cheguei, e estamos conversados!" (pág. 74)

Somos assim, simples, apenas homens comuns.

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Se joga:
Homem Comum/ Philip Roth. Tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras, R$ 31,00

2 comentários:

Homossexual e Pai disse...

excelente dica! obrigado!
outro dia eu li A VIDA NA PONTA DOS PES do Bauilarino PEter Hayden, com reflexões muito parecidas, achoque vc iria gostar de ler!
abs
fabio

viralata disse...

Obrigado Fabio, mais um livro para a 'pilha'! Aliás, boa dica tb é o seu blog, começando pelo título, certeiro e direto! Já está add.
Abs