23 de fev de 2008

"It's the economy, stupid"*

Sinal dos tempos: como os 'gigantes' fazem para se equilibrar hoje em dia com suas economias capengas?

O curto mês de fevereiro começa e termina bem quente para a Economia.
No início do mês a incrível noticia sobre a ‘desaceleração’ da economia americana somou-se a inacreditável conclamação feita pelo diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, para que países em boas condições fiscais passassem a gastar mais, com juros mais baixos, impulsionando assim a economia mundial.

Fechando a semana nos deparamos estupefatos com manchetes anunciando que agora o Brasil é ‘credor externo líquido’, ou seja, o volume de reservas nacionais ultrapassa a dívida externa total!
E, claro, Lula ribombeia que a ordem agora é gastar em infra-estrutura para o País crescer.

O clamor do novo chefe do FMI então serve para nós? Óbvio que não, segundo todos os economistas brasileiros confiáveis no mercado. Ao contrário dos EUA e da Europa, já estamos crescendo num nível que não precisamos de estímulos e ainda temos uma inflação maior que a deles.
Perceberam como países em desenvolvimento sempre culpam a sociedade consumidora/consumista pela inflação? Nós é que geramos a inflação quando ‘giramos’ a roda do consumo em busca daquele carro novo, pago em centenas de prestações com juros exorbitantes.

Na excelente estréia, neste sábado, do editor e escritor César Benjamin no caderno “Dinheiro” da “Folha” ele nos ensina sobre o conceito da Economia moderna e a origem do dinheiro, lembrando que “a moeda fiduciária, emitida por um banco central, é um fenômeno extremamente recente”.
Nesta semana num jantar 'japonês' entre amigos (minha 'despedida' da cidade), falávamos 'quase' sobre isso quando um amigo nos lembrou da origem da palavra "salário" que vem do "sal", moeda de troca na antigüidade e elemento de sobrevivência, já que conservava os alimentos na falta da nossa, hoje moderna, geladeira 'frost free'!

Mas voltando à Benjamin, ele reconhece na sociedade americana a “capacidade de viver acima dos seus próprios recursos” confiando em hipotecas residenciais a base da “pirâmide de operações financeiras”, então eu digo que daí para a grande quebra do final do ano passado ficou mais fácil enxergar o 'calcanhar' do ‘american way of life’ e a estupefação do mercado financeiro mundial.
Embora saiba o motivo, Benjamin, no entanto, não tem uma solução mas sugere uma saída:
- “... o desafio é buscar novas maneiras de trazer de volta a economia para dentro das instituições sociais, para religá-la ao mundo-da-vida.”

Pois é, nossos irmãos americanos precisarão reaprender a plantar!
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Lula é um presidente de muita sorte mesmo, o homem certo na hora certa! Chama atenção para si como líder inconteste da América Latina que cercada por gente tresloucada (Chávez em especial, mas não nos esqueçamos de Cristina Kirchner, Michelle Bachelet - essa mais apagada, talvez pela sua ‘opção’ mais à européia - , Uribe, Garcia e outros que tais) o deixa livre para uma carreira diplomática além do seu mandato, ainda mais se os indicativos economicos continuarem assim, com bons ventos!
Tenho certeza que terá muito mais brilho e sorte do que Itamar (aliás, igualmente monoglota, e nem a obrigatoriedade de falar corretamente outro idioma - na época era - lhe foi problema!), que foi despachado por FHC para a embaixada de Lisboa, aceitando com um certo muxoxo, e com Lula no poder exigiu um cargo na embaixada de Roma, matando o corpo diplomático de vergonha, e lá foi o 'topetudo' mineiro viver ‘la dolce vita’.
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No espetacular livro de memórias de Alan Greenspan “A Era da Turbulência”, sem sinal de provocação nenhuma, ele abre o capítulo “América Latina e o Populismo” justamente com o Brasil e se pergunta, fazendo referência ao período mega-inflacionário do começo dos anos 90:
- “Como uma economia pode ser tão mal gerenciada a ponto de exigir reforma tão drástica?”

O velho economista reconhece em Lula um ‘populista’ diferente dos seus ‘vizinhos’ latinos, surpreendendo a todos (inclusive ele!) ao manter “em boa parte as políticas sensatas do Plano Real que seu antecessor adotara para combater a hiperinflação...”
E concluí seu raciocínio:
- “ Será que uma sociedade com profundas raízes populistas é capaz de mudar com rapidez? As pessoas podem e devem. Mas será que a estrutura de mercado de uma sociedade desenvolvida – suas leis, suas praticas e sua cultura – podem ser impostas a uma sociedade que se constituiu sobre a plataforma de velhos antagonismos? O Plano Real, do Brasil, sugere que é possível.”

Pois é, estamos colhendo os frutos agora!
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Se joga:
“A Era da Turbulência/Aventuras em um Novo Mundo”/Alan Greenspan
Editora Campus


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* "É a economia estúpido", slogan criado para a campanha de Bill Clinton em 1992 por James Carville com um EUA em recessão comandado por Bush pai.

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