18 de fev de 2008

Tempo de Mudanças (ou: os 30 anos que me restam)

A “Folha” de hoje traz na capa do seu caderno “Cotidiano” uma matéria sobre a “fuga” de moradores do centro para a periferia da cidade de São Paulo, segundo reportagem assinada por Vinicius Queiroz Galvão e Ricardo Gallo:
- “Levantamento feito pela Folha com base em dados da Fundação Seade e do IBGE revela que populações de municípios como Barueri e Santana de Parnaíba, que concentram condomínios de luxo da Grande São Paulo, quase dobraram em 11 anos.”
...

Farei parte destas estatísticas daqui uns dois anos! Após sair da casa dos meus pais, na Zona Leste onde nasci (Brás), cresci e estudei (São Miguel, Ermelino Matarazzo e Penha ) vim para o Centro onde moro há 15 anos praticamente no mesmo quadrilátero.

Meu primeiro lar no Centro foi na mítica Av. São Luis num autêntico neo-clássico projetado pelo arquiteto francês Jacques Pillon (o mesmo que projetou a Biblioteca Mário de Andrade), onde eu criava meu labrador (Dunga) e me aquecia do frio numa lareira ricamente ‘marmorizada’. Claro que os móveis eram praticamente zero, mas me divertia muitíssimo com os também autênticos 'quatrocentões' falidos que mal conseguiam pagar o condomínio (bem caro por sinal, que dividia irmanamente com mais dois amigos-irmãos-artistas).

Em seguida deixei a ‘nobreza’ e segui para a esquina da Rua Araújo, num confortável três dormitórios, com porteiros somente no horário comercial. Um prédio bem família que tinha seu cotidiano constantemente abalado por um conhecido cineasta que insistia em suas festinhas com ‘meninos-da-noite’! Nem preciso dizer os barracos que rolavam quando um ou outro menino saia com aparelhos eletrônicos e ‘otras cositas mas’ do apartamento do famoso cineasta, deixando-o furibundo e histérico para dizer o mínimo. Daí imaginem as reuniões de condomínio!

Segui minha vida para outro prédio que sempre esteve associado ao mundo gay paulistano. Situado na Marquês de Itú coberto por pastilhas rosa e azul e com um longo e 'operístico' corredor na entrada principal. O conjunto que abriga o “Edifício Barão de Mota Paes” era o endereço da famosa boate “HS” (Homo Sapiens), primeira boate gay que freqüentei, o que acontecia lá dentro e os seus personagens é assunto para uma outra ocasião menos formal, se é que você me entende!
Hoje o prédio é exemplo de boa vizinhança com o simpático “Bailão do ABC”, reduto de ‘tias’ mas que atrai também ‘cults’ perdidos pela noite, como Edson Cordeiro e Marcello Boffa que adorava ir para lá dançar "Alcione" e outros clássicos da mpb, ficava até com medo quando ele tocava o interfone e me mandava descer, sabia que a noite seria longa e hilária!
Tenho saudades de duas coisas neste prédio, das conversas diárias e dos encontros no elevador com o saudoso ator Lineu Dias, sempre impecavelmente vestido, vagando pelos cafés do centro como um 'Aschenbach' em busca do 'Tadzio' perdido!
A outra coisa que sinto falta é da vista que eu tinha do ‘meu’ 16º andar era um ‘resumo’ da cidade: Todo o Copan de frente, o Edifício Itália e parte do Conjunto Nacional com o seu, sempre necessário, relógio no topo.

Hoje vivo na esquina da 'baixa' Consolação com a Nestor Pestana, rota para os 'playboys' que saem dos puteiros 2 estrelas da Augusta e seguem para os puteiros 5 estrelas "Kilt" e "Love Story". Os anos de meditação Zen e Hata Yoga estão sendo muito úteis para que eu consiga dormir. Vocês não imaginam do que esses vândalos são capazes, guiando alcoolizados carrões potentes com o som no último volume! Nem quando eu morava na Marquês de Itú, cercado por michês (em frente e ao lado do prédio, na Rego Freitas), travestis (atrás na Santa Isabel) e prostitutas (acima na Bento Freitas) eu perdia o sono. Pensando bem, lá NUNCA perdi!

Meu prédio é um ‘modelo’ dos novos empreendedores do Centro expandido. Virou um grande negócio e funciona assim, um empresário compra um prédio em péssimas condições e com dívidas na prefeitura, esvazia o prédio, faz um plano básico de melhorias e reformas, quita as dívidas, consegue financiamento com a Caixa e renegocia com antigos proprietários aceitando novos para um novo plano de compra.
Quem topar vira dono de um apartamento novinho, valorizado e num prédio ‘sem vícios’!

Foi assim que comprei meu primeiro apartamento que já valorizou 150%!!!
Esse empresário com sangue polonês foi dono também de mais três prédios na Praça Roosevelt (remodelados no mesmo esquema), inclusive aquele onde funciona “Os Satyros”, seu ‘feeling’ o guiou para a região depois que soube (pela própria Prefeitura) da reforma ‘imediata’ da Praça, isso faz 4 anos!!!
...

Não fosse os “Satyros” emanando 'luz' naquele canto, no sentido literal e figurado (recentemente nas férias da Companhia uma amiga do Ivam Cabral foi assaltada na escuridão da rua) teríamos mais um lugar sem vida e soturno para temermos.
A reforma da Praça vai sair? Sim, claro que vai! E vai ficar linda, tenho certeza.
Assim como ficará linda também a “Nova Luz” com o teatro de Dança, Sala São Paulo, Pinacoteca, empresas de tecnologia, novas residências, etc.
Ficará linda também a reforma da Biblioteca Municipal (mesmo que o prefeito a feche em seguida, como o fez nesta semana com quatro outras por “falta de uso”!).
Tudo ficará lindo EM BREVE!

Eu e os personagens desta matéria de hoje na “Folha” é que não estaremos mais aqui para podermos usufruir de toda essa beleza.
O senso comum de todos esses ‘fujões’ é a famosa busca da qualidade de vida! O sossego e a segurança que perdemos no Centro.

O descompasso dos órgãos públicos em agilizar esses processos complexos de melhorias públicas é inconcebível em pleno século XXI e o resultado é essa dispersão urbana que custará uma fortuna aos cofres públicos com saneamento e planejamento.
O importante (NO PAPEL!) Ministério das Cidades, criado pelo presidente Lula para encarar esses desafios de frente é de uma opacidade desanimadora. Responda rápido quem é o Ministro que cuida desta pasta? Tudo bem, nem precisa ir ao google, não tem a menor importância mesmo, já estamos de saída.
...

Bem mais "breve" do que as melhorias anunciadas pela prefeitura e governo paulista eu estarei neste quintal de frente para esta paisagem, em Mairiporã, onde espero seja esta a minha última mudança em vida!

Dizem que a expectativa de vida do homem brasileiro é de até 70 anos. Me faltam 30, quero que estes sejam diferentes.
Quero ser feliz, fazer uma pizza para os meus amigos num forninho, brincar com meu cachorro, ler deitado numa rede no quintal, nadar com o meu sobrinho e ter um quarto para receber os meus irmãos, meus pais e alguns amigos.
Eu mereço!

4 comentários:

ER disse...

EU não ACREDITO q "Caitano" aguentará mais de dois anos no meio do mato!!!

APOSTAS?

Qdo ele me falou, somos VIZINHOS que não usam o interfone p "infernar" o sossego do outro, mais eu!

kkk

EU simplesmente não acredito!

Adoraria, mas morreria de tédio em duas semanas.

Bosque? Qdo ele volta da FLORESTA, vocês percebem...

Ele precisa destas coisas:

Tampão de ouvidos,

ou

Janelas anti-ruído,

ou


Alguém,

e

Cultura à pé,

Metrópole,

Muito trabalho,

Muitos livros e cinemas,

etc.

kkk

PS Adorei o famoso diretor/pagador de GPs. Quero saber tudo.


xoxo

viralata disse...

hjauahauahauaha!!! Veremos, separo um quartinho pra vc por 2 dias então!E uma coisa e 'Serra da Cantareira" outra coisa é 90% de umidade da floresta tropical, eu hein! kkkkkkkkk, qto ao diretor 'pegador' nem te conto!!!!!!
Bj

Jingle Jangle disse...

vamos embora. vamos todos embora. quero ser parte dos amigos que beberão vinho debaixo das suas copas.

viralata disse...

Já está reservado então!!!! heheheh