29 de mar de 2008

Histórias e Lendas (ou: 3 lições para os meus amigos de S.P.)

BAFO DO NORTE

Nesses meus 10 anos 'de Manaus' aprendi algumas coisas que eventualmente conto para meus amigos 'mais abaixo da linha' quando me perguntam: "- E aí o que têm por lá?"
Invariavelmente devolvo a pergunta no melhor estilo 'brasileiro no exterior': "- O que você espera que tenha?"

Manaus, e praticamente todo o Amazonas, é aquele mistério para nós que moramos no sul do País, imagine então para a 'gringaiada'? Trabalho três meses por ano num dos teatros mais bonitos e comentados do mundo e quando estou em fase de montagem de cenários ou luz no Teatro Amazonas vejo do palco as visitas monitoradas com brasileiros e estrangeiros embasbacados com aquela jóia da 'belle époque' com uma cúpula verde e amarela (presente de um marajá turco!) e lendas, muitas lendas.

Devo confessar que na cidade a única coisa realmente interessante é o Teatro e o seu entorno totalmente recuperado pela Secretaria de Cultura comandada por Robério Braga desde que eu me conheço 'por manauara'! Confesso também que os famosos passeios pela mata adentro não me fascinam, tão pouco as embarcações que levam centenas de pessoas todos os dias para ver o Encontro das Águas (não, não é pororoca seu ignorante, canso de repetir isso para meus incultos amigos nos bares do centro!).
Tenho um probleminha com a natureza que preciso resolver com algumas sessões de terapia mas que por enquanto estou levando numa boa. Carrego dezenas de fotos dos meus companheiros da ópera que visitam esses lugares e faço delas a minha história daqueles lugares que nunca estive.

Para encerrar ilustro em 'três lições' coisas que só aprendi aqui e que tenho certeza você nem desconfiava!

O calçamento do Largo S.Sebastião (com o Monumento da Abertura dos Portos) em frente ao teatro não é um 'ataque de carioquice' como eu imaginava! Levei um baita susto ao saber que primeiro o calçadão foi projetado para representar o Encontro das Águas e só depois foi 'vendido' para o Rio de Janeiro daí o resto é história. Mas que é verdade isso é!

Aprenda de uma vez por todas, o Encontro das Águas é a união das águas barrentas do Rio Solimões com o Rio Negro formando o Rio Amazonas. Já o fenômeno da Pororoca é o encontro das águas do oceano Atlântico com os rios da Bacia Amazônica. No Amapá acontece o mais famoso fenômeno mas quando estive no ano passado em Belém soube que havia até um "Campeonato de Surf na Pororoca"! E aí, vai encarar?

Quem modernizou a cidade e a transformou na "Paris dos trópicos" foi Eduardo Ribeiro, mulato maranhense 'por acaso', filho de ex-escravos, que fez toda a sua carreira política em Manaus, ele foi o 'J.K.' da época, priorizando a construção do Teatro Amazonas e do Palácio da Justiça (que fica atrás do Teatro) fez uma verdadeira revolução urbanística dotando a cidade com um sistema viário moderno e inaugurando o primeiro bonde elétrico do País! Gente do mundo inteiro vinha para 'construir' a cidade, que nadava em dinheiro graças a época de ouro da Borracha, arquitetos, engenheiros e a elite local mandava lavar suas roupas em Paris e desfilavam suas riquezas em excursões pelas matas e rios.

Eduardo Ribeiro morreu aos 38 anos quando já não era mais governador (perdeu a cadeira no Senado em uma trama mal explicada e foi eleito Deputado Federal) mas ainda atiçava os inimigos políticos com sua fama de empreendedor (e perdulário também para muitos, como J.K.). Sua morte ainda é lenda (J.K. again!), uns dizem que se enforcou já que foi encontrado com marcas no pescoço, outros que foi assassinado com um charuto envenenado (outras versões falam de um copo de leite com ervas fatais!) por membros de uma família muito poderosa que tinha seus interesses abalados pela engenhosidade do jovem mulato.

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