2 de abr de 2008

Ariadne COM Nexo!

Primeiro teste de cenário (do meu amigo e parceiro Renato Theobaldo) no palco, 6 metros de um imenso lustre tombará em cena na abertura do 2º ato representando a 'gruta' da Ariadne e a "força da grana que ergue e destrói coisas belas".

Tenho falado bastante de “Ça Ira” e deixei para o final a minha outra direção no FAO (Festival Amazonas de Ópera) que revezará no palco do Teatro Amazonas depois da abertura no dia 15 de abril, trata-se de “Ariadne auf Naxos” de Richard Strauss (ou como escreveu um jornal local "Ariadne em Nexus"! Hahaha, adorei!). Sonho antigo do maestro Luiz Fernando Malheiro, aliás dois ‘sonhos’ o artístico em realizar esta ópera e o ‘político’ em fazermos a primeira co-produção entre os teatros Amazonas e Municipal de São Paulo! Já não era sem tempo, coisa comum em qualquer país ‘erudito’ e civilizado, não podíamos ficar para trás (sim, eu acho que somos eruditos e civilizados!). Bravo também ao maestro Jamil Maluf que conseguiu vencer TODOS os tramites burocráticos impostos para uma empreitada desta.

Vamos à ópera então!
Para desespero dos puristas e dos ‘simplistas’ minha visão desta obra e totalmente política e 'desromantizada'. Publico em breve o texto que fiz para o programa do festival falando sobre a minha encenação, antecipo então pequenos momentos que busquei para dialogar com o público de hoje sem no entanto ‘modernizar’ a encenação com recursos gratuitos (ahh, que sono para essa discussão velha não?!).

Resumo “não autorizado” da ópera, sob o meu ponto de vista:
Um ex-general (um rico vienense no original), de um regime totalitário qualquer, na sua velhice resolve ser o mecenas de um jovem compositor e encomenda uma ópera para ser apresentada em sua mansão. Como quem paga manda, o velho (já nas últimas em uma cadeira de rodas) muda os planos e quer além das lágrimas de uma ‘ópera séria’ um pouco de riso e a rebeldia de uma trupe de rock (commedia del’arte no original). Só que tudo tem de acontecer ‘gleichzeitig’, ou seja simultaneamente. Pronto está estabelecido o conflito!

Primadona depara-se com um bando de roqueiros nos corredores dos camarins improvisados, Compositor em crise existencial entre a verdadeira Arte e a concessão popular, Professor de Musica literalmente como um ‘servidor de dois patrões’, etc, etc, etc...
Quando finalmente depois deste prólogo começa(m) a(s) ópera(s) Ariadne, que está mais para a cansada do que para a ‘tragica-romantica-arrasada’, não agüenta mais esperar pelo jovem Teseu na Ilha de Naxos (em que foi abandonada) ainda tem de ouvir a ‘barulheira’ de uns roqueiros maquiados como covers do grupo “Kiss” que tentam sem sucesso ‘animá-la’ com o som de suas guitarras. Para desespero da jovem heroína o grupo tem mais uma tentativa infrutífera só que desta vez como um cover de algum grupo 'Emo' (“My Chemical Romance” talvez?) e claro terminam o ‘show’ e nada da ‘diva’ reagir.

Mas eis que surge o grito do ‘herói’ que para surpresa de Ariadne não é o jovem que a abandonou e sim Baco, o Deus dos prazeres, que chega aleijado numa cadeira de rodas (espelho sádico do velho mecenas que quer se ver em cena!) como que enfeitiçado por algum poder que ele não domina. Pois a nossa heroína tem de encontrar forças para superar a sua decepção e aprender que o amor nunca é aquilo que esperamos, então magicamente ‘cura’ Baco da sua deficiência e aprende a amá-lo tendo em vista que finalmente ela poderá sair daquela maldita ilha de Naxos!
...

Dissimulação e jogo de interesses permeia toda a ópera numa musica intrincada, difícil e sedutora. Strauss viveu a segunda metade da sua vida seduzido e abduzido pelo poder e a política, o regime nazista emplacou-o como “o” maestro fazendo vista grossa para alguns amigos judeus que colaboravam com textos e revisões de partituras.
Não é de se estranhar quando reconhecemos melodias wagnerianas (“Tristão e Isolda” ou partes do “Ring...”) aqui ou ali em trechos de “Ariadne...”, Strauss nunca negou sua admiração e influência por Richard Wagner, tentando por vezes até mesmo superá-lo como é o caso de outra ópera sua “O Cavaleiro da Rosa”, para muitos insuportavelmente ‘barulhenta’ mas pelo menos ‘suportavelmente assistível’ o que não é o caso de “A Mulher sem Sombra” (talvez a recente versão de Bob Wilson para a Ópera da Bastilha faça justiça!).
Pensando na ‘admiração’ que Wagner despertava também nas mesmas tropas vê-se que Strauss soube reconstituir bem em “Ariadne...” todo o seu conflito ‘arlechinesco’ em “servir dois patrões”, alguns amigos seus bem próximos não tiveram a mesma sorte.
Para encerrar (ópera e vida, ficção e realidade) a ARTE venceu mas a história nos mostrou que muitos perderam ou pagaram bem caro por essa luta.

Que abram as cortinas!

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