17 de abr de 2008

Um Caso de Política

Texto para "Ariadne auf Naxos", encarte do programa do XII Festival Amazonas de Ópera:

O embate entre a Comédia e o Drama que “Ariadne Auf Naxos” propõe permite múltiplas interpretações cênicas num debate mais acalorado que evoca outros binômios para a cena; principalmente sabendo da controversa carreira de Richard Strauss e a frágil linha que toda a sua obra percorreu, paralelamente, entre a Cultura e a Política.

Da estréia de Ariadne (1912) até a sua última e definitiva versão (1916) a Europa manteve uma cronologia incansável de Guerras, Batalhas e Tratados que repercutiram em todas as esferas políticas, sociais e, claro, artísticas.
Pensando neste contexto histórico e na conturbada aproximação de Strauss com o nazismo anos depois (e que tantos desgostos lhe renderam) me permito contextualizar esta encenação no paradoxal dueto da Arte com a Política.

Na tragédia grega não fosse um “ato político”, em que atenienses eram obrigados a pagar um tributo (com as suas próprias vidas!) ao Rei Minos (pai de Ariadne) pela perda de seu filho Androgeu, nossa heroína sequer teria uma importância mitológica.
Assim nos deparamos com o Prólogo da ópera numa outra “ação política” do “homem mais rico de Viena” que ao possuir o Poder julga-se no direito de deter também a Criação da Obra de Arte, esse sujeito misterioso, autor de todos os conchavos que desenrolarão num espetáculo no “seu jardim”, não só manipula todos os artistas e convidados como também se enxerga na cena representada, triplicando assim o jogo meta-teatral.

Ariadne, a personagem abandonada por Teseu numa ilha deserta, sabe que perdeu o seu amor Heróico e o vê substituído pela Arte que Dioniso representa. Era preciso o abandono Heróico para Ariadne se dar conta de que aquele Amor não era recíproco e que a sua provação seria mais tarde recompensada.
Talvez por isso, pelo fato da Arte ser manipulada pelo “Mecenas Vienense” ou apesar disso tudo, o tão esperado Amor quando surge vem “castrado”, deficiente, como se fosse um obstáculo (talvez um outro labirinto) a ser superado.

Já Zerbinetta e sua Trupe que não carrega “intenção política” mas vem articulada com uma visão de mundo dissonante com a ordem estabelecida, se sente bem confortável no papel de “musa rock’n roll”, exigindo para si, apenas, o papel de uma artista engajada e pragmática deixando para o Compositor a defesa da mais sagrada das Artes: “A Sagrada Música”!

Sendo assim, esta estabelecido o conflito!

CAETANO VILELA
Diretor Cênico e Iluminador

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