22 de mai de 2008

Pelos bastidores de "Maria Golovin"

O FAO continua e nesta quarta foi a estréia da ópera "Maria Golovin" do recém falecido Gian Carlo Menotti* (do qual eu já dirigi "O Telefone" com Rosana Lamosa e Leonardo Neiva), com produção da Ópera de Marseille, equipe inteira francesa mas regência de Luiz Fernando Malheiro.
A ópera é bem teatral, praticamente não tem coro (apenas uns 'ôôô' (interno) masculinos representando o canto dos prisioneiros de um presídio ao lado da pensão onde se passa a história) e os seus personagens são bem estruturados mas com um tratamento um tanto melodramático.

Maria Golovin chega nesta pensão (a época é pouco depois da guerra) com seu filho Trottoló (o incrível moleque Pedro Henrique Goes Lima, filho 'na vida real' de bailarinos do Teatro) e um tutor (Flávio Leite), logo conhece o filho da dona da casa, Donato (Eduardo Amir surpreendentemente substituindo Paulo Szot que fez a estréia na França e na Itália) que é cego e por quem ela se apaixona. Mas como é ópera então ficamos sabendo que o marido de Golovin foi para a guerra e virou prisioneiro de um campo e que ela não pode se entregar ao amor já que a qualquer momento o marido pode dar as caras... e você acha que acontece o quê?

O Dueto entre Golovin (Nuccia Focile) e a Mãe (Eugenie Grunewald) no III Ato é puro Almodóvar, música e libreto! A mãe quer que a amante deixe o seu filho em paz e volte para os braços de seu marido e a amante diz que pode até pensar nisso. A música lembra um tango em que as duas mulheres duelam executando a cotidiana tarefa de desenrolar guardanapos, separar facas e dobrar toalhas de mesa... excelente!

Muitos destes achados cênicos devem-se a Vicent Boussard, diretor que valorizou, e muito, a pequena ópera de Menotti, não que a música em si não seja tocante mas a 'roupagem' moderníssima de Boussard 'engrandeceu' e deu um 'aplomb' que "Maria Golovin" não possui.
E olha que eu nem falei ainda nos figurinos de Christian Lacroix que são incrivelmente... decepcionantes, pasmem! Lacroix como figurinista é um ótimo estilista!!!
Na base de um 'ton-sur-ton' em cartela de cinza os figurinos fundem-se com o cenário CINZA transformando a cena em um 'mimetismo pós guerra' de enfastiar a vista!
Para honrar o nome a 'bee' cria um vestido para Golovin na última cena do último ato que é um escandalo de lindo, coisa de passarela mesmo, todo de ceda preto, bufante com o colo aberto. Pouco para quem é o 'papa' da moda!

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Abertura do II Ato, natureza morta numa paisagem quente que aos poucos vai esfriando com o chegar da noite

Vista do magalomaníaco (e lindo!) cenário de Vicent Lemaire, 12 metros de altura sobrando realmente muito pouco para encostar no urdimento (teto do palco) do Teatro Amazonas

Visto por trás as imensas paredes parecem bem solidas, mas estas estruturas apoiam 'apenas' um emaranhado de treliças de madeira desmontáveis com compensados somente até a metade. Ao contrário do que possa parecer as "paredes frontais" não são paredes, é...

uma lona vinílica gigantesca, SEM EMENDA, pintada e esticada. Lição que prontamente aprendi: dura mais, não é preciso retoques em remontagens e é muito mais barato!

A única pessoa da equipe francesa que não veio foi o Iluminador e advinha para quem sobrou a tarefa de adaptar a luz para Manaus, pois é acertou! Não modifiquei muito o mapa original e mantive os efeitos do roteiro, lâmpadas florescentes já constavam na lista para dar uma luz mais homogênea ao cenário, obedeci 'à brasileira'.
Ao contrário da Europa e dos EUA infelizmente não possuímos no Brasil um sistema que 'dimerize' lâmpadas frias, no máximo conseguimos 'suavizar' o disparo quando acendemos. Como a base do espetáculo é 50% de florescentes e o Teatro Amazonas (aliás TODO o Norte do País!) tem uma oscilação de energia muito alta, imaginem como o diretor se estressou até entender tudo isso.
Bom, pra mim que usei mais de 300 (!) destas lâmpadas na produção brasileira histórica do "Anel do Nibelungo" foi fichinha, o pior foi ter de ouvir bem 'humilde' do francês como era "incrível aquele efeito" e a "importância da florescente no espetáculo!"
Pra cima de 'moi mon cherry'!!!!!

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P.S.:
*Gian Carlo Menotti era gay e morreu aos 95 anos no ano passado. Era casado com um jovem bem, eu digo beeeeeemmm mais novo que ele e para que o rapaz não tivesse problemas com herança adotou o jovem como filho e deixou absolutamente tudo para ele, inclusive os direitos autorais de toda a sua obra! Só isso já dá uma ópera, alguém escreve por favor!
Arrasou! E como diz um amigo meu: 'tá babado fía'!

Um comentário:

Igor Santana disse...

passado com tudo isso.