7 de jul de 2008

Tom Stoppard um senhor Rock'n Roll

Ontem assisti a leitura da nova peça de Tom Stoppard, "Rock n' Roll", dirigida pelo meu amigo e também excelente ator Marco Antônio Pâmio, não fosse a falta de divulgação e o horário infeliz (15h de domingo é 'dramático'!) teria sido um programa que suscitaria um debate acalorado na platéia. Bom, talvez toda a 'artilharia' esteja voltada para o encontro aberto com o próprio Stoppard (bem divulgado, aliás) agora à tarde no envidraçado prédio do Centro da Cultura Britânica.
Tinha uma idéia do que me aguardava sobre o texto, já que desde que estreou na Broadway (ao lado logo do cartaz americano) tenho colecionado reportagens e depoimentos de amigos que assistiram e me contaram. Tinha certeza que não iria me decepcionar já que tive o desejo de montá-la no Brasil, infelizmente um diretor carioca (presente na leitura) se antecipou e veremos pelas suas mãos uma montagem brasileira no Rio e em São Paulo, menos mal. O público agradece!

Todos, sem excessão, me diziam: "Meu, não tem nada a ver com rock 'n roll, hein! Baixa a bola!"
Mas quer saber? É TOTALMENTE ROCK!
Rock no sentido de haver personagens idealistas e 'não conformados com o sistema', uma trilha fantástica que traça um painel de mudanças sociais e culturais com meia dúzia de bandas e caras que realmente mudaram a cabeça de muita gente, e antes que você torça o nariz saiba que nenhuma canção apresentada em cena é 'de protesto'. E eu tô falando, entre outros, dos "Stones", "Pink Floyd", "Cream", "Velvet Undergroud", "The Beach Boys", "Syd Barret" ('vizinho' de um personagem) e também a banda tcheca "Plastic People of the Universe", o 'leitmotiv' da trama.

Pâmio teve a feliz idéia em situar o público para o que estava por vir e projetou em um telão um resumo da época em que se passa a trama (1968 evoluindo até os anos 80) e o que significou a "Primavera de Praga", já que as ações se dividem entre Inglaterra e Tchecoslováquia, também projetou capas dos discos citados nas rubricas e tocados em cena, numa trilha assinada pelo próprio Stoppard em marcações que precisam ser obedecidas já que são cruciais para o desenrolar da trama.

E estava tudo lá, A Primavera de Praga, a Carta Manifesto de 77 que resultou depois na Revolução de Veludo e na queda do regime comunista na Tchecoslováquia ("'Faça amor, não faça guerra' foi mais importante do que 'Trabalhadores do mundo, uni-vos!'", diz um personagem lá no meio da peça), a ascensão do Partido Trabalhista e da conservadora Margaret Thatcher na Inglaterra e mais, muito mais.

Foi uma ótima e densa tarde de domingo, Stoppard com suas metalinguagens sabe como ninguém ser um provocador. Abaixo um trecho dito na peça por Max, um idealista e roqueiro de primeira:
- "Ser humano é ficar junto. Sociedade! Quando a Revolução começou e eu era jovem, éramos todos feitos de um único pedaço de madeira. A luta era pelo socialismo através do trabalho organizado, e era só. O que restou daqueles dias de certeza? Onde eu me encaixo? O partido está perdendo confiança nas suas crenças. Se o capitalismo pode ser destruído pelo anti-racismo, pelo feminismo, pelos direitos dos homossexuais, pela prática ecológica e por todo interesse especial defendido pelos Sociais Democratas, resta algum sentido em ser comunista? Passar a vida toda explicando: "não, o Stalin também não era?" Por que as pessoas continuam como se houvesse o perigo de esquecermos os crimes do comunismo, quando o verdadeiro perigo é esquecer as suas conquistas? Eu continuei porque elas significaram muito pra mim.(...)"

2 comentários:

IVN disse...

caetano,
estou procurando o texto da peça com alguma urgência. será que você teria alguma cópia disponível? me disponho a pagar xerox/sedex que seja se você puder me ajudar.
obrigadíssimo.

IVN disse...

*meu mail é shimoncellos @ gmail com