29 de set de 2008

Minha relação 'analógica' com a Literatura



Começo pela citação final da curiosa matéria publicada neste domingo no caderno "Mais!/Folha de S.Paulo" intitulada "Terapia pelos Livros":
- "O único conselho que alguém pode dar sobre a leitura é: não aceite nenhum conselho" (Virgínia Woolf em "Como Ler um Livro"/1926)

Pois bem, dado o recado da Sra. Woolf vamos lá, o repórter Pedro Dias Leite nos conta, direto de Londres, sobre a recém criada "School of Life/Escola da Vida" que ao custo de £ 35 ou 50 (tipo R$ 120, 170) por sessão o 'aluno', depois de consultar um 'biblioanalista' (!?) que vai orientá-lo na escolha certa do livro que deve ler, sai de lá com o livro debaixo do braço e ainda pode ser 'acompanhado', via e-mail pelo 'terapeuta'! Waalll.
Os 'tutores' desta idéia em tempos de 'auto-ajuda' são figuras credenciadas no meio intelectual como o filósofo Alain Botton e os escritores premiados Robert Macfarlane e Geoff Dyer. Algumas sugestões para as 'angustias humanas' são:
- Nietzsche/"Humano, Demasiado Humano": para aqueles em busca de sua própria companhia.
- Roland Barthes/"Fragmentos de um Discurso Amoroso": para aqueles que ficaram profundamente e inesperadamente apaixonados.

...

Lembro de um professor de Português (William) quando estudava a 5º série que sabendo do meu gosto pela leitura me indicava uns títulos extra-curriculares, mais tarde (aos 18/19 anos) quando trabalhei como ator no Grupo Boi Voador, do Ulysses Cruz, tive no dramaturgo Jayme Compri (prematuramente morto em Londres) um grande incentivador à uma literatura mais complexa como: Joyce, Guimarães Rosa, Dante, a Bíblia, Walter Benjamim e a Escola de Frankfurt (Adorno e Marcuse), Homero, filósofos 'Pré e Pós' Socráticos e muito mais.
Dez anos depois entrei no CPT do mestre Antunes Filho (do qual Ulysses Cruz e o 'Boi' eram dissidentes) e a primeira coisa que notei nos corredores que davam acesso às salas de ensaio era uma imensa relação de livros OBRIGATÓRIOS para se ler (detalhe: de toda aquela relação me faltava ler apenas 1, sobre Física Quântica (!!), o resto, mais de 50 já havia lido ou relido!)

Já indiquei muitos livros para amigos, ex-alunos de teatro, aqui no Blog, para familiares e volta e meia alguém me liga perguntando se eu empresto alguma coisa ou qual a referência que tenho de determinado autor.
Livros mudam nossas vidas (comentei novamente lá no "Viralata Reloaded" sobre a influência da literatura no personagem do filme "Into the Wild"), ficam na nossa memória e antes de parecer ser uma 'obrigação cultural' é um exercício de prazer e dedicação.

Hoje nós somos 'digitais e interativos' e não sabemos ainda como avaliar toda uma nova geração de novos profissionais em virtude desta febre tecnológica, daí, 'inovações' como essa bobagem de "biblioanalista" enterram de uma vez o 'prazer' da literatura. Claro que esse prazer já estava com os dias contados, já que não convivemos mais com ninguém de uma forma digamos 'analógica'.
O quê vai acontecer então num futuro bem próximo? Juro que mesmo com todos os livros que já li na vida não sei a resposta, sei apenas que com relação a isso sou bem pessimista.

4 comentários:

Denise Silveira disse...

Caetano,
é assustador!
bj

viralata disse...

nem me diz!!!!!
;*

Pedrita disse...

fui na reestréia da peça imperador e galileu. que espetáculo. comentei no meu blog. parabéns pela belíssima iluminação. beijos, pedrita

viralata disse...

Oba, valeu Pedrita,
bj