29 de dez de 2009

Tudo pelo social, clássico e erudito

"Músicos em fuga".
Onde você poderia ler uma manchete desta? Sim, meus amigos a crise está em todo lugar, o "Le Monde" deste domingo trouxe uma página para descrever um painel nada agradável para compositores, professores de música erudita e musicistas em geral.
A gritaria é por melhores condições de trabalho e, claro, melhores salários. Os bons profissionais da área acadêmica estão saindo em massa para universidades americanas e canadenses onde a relação custo-benefício hora/aula são bem mais vantajosas e sobra mais tempo para os projetos artísticos/pessoais.

O diretor do Conservatório de Música e Dança de Paris, ingenuamente tenta defender sua gestão dizendo que "a mobilidade de compositores é uma realidade que vem de séculos e séculos", ao que Pierre Gervasoni, autor da reportagem, contesta com ironia defendendo que ao largo dos séculos a sociedade também evoluiu e não estamos mais no século XVIII quando Haendel teve de se mudar da sua Alemanha natal para estudar em Londres.
Quem perde com isso é a nova geração que por não ter uma boa qualidade de ensino na área musical também migram mais jovens ainda em busca de um curso de boa qualidade.

Enquanto isto numa situação adversa

Coisa que não passa pela cabeça dos coreanos, por exemplo, já que na 'democracia fechada' da Coréia o investimento em música erudita e salas para Concerto e Ópera são astronômicos e inalcançáveis aos olhos ocidentais. E, pasmem, não são só números, a qualidade é excelente e faz justiça à dedicada obsessão asiática.

E por falar em 'democracia fechada' a Venezuela desenvolve um lindo projeto chamado "El Sistema" há mais de 30 anos, com resultado mundialmente conhecido hoje pela figura carismática do maestro Gustavo Dudamel (de braços abertos com sua Orquestra Jovem Simón Bolívar, formada por integrantes do programa) mas que começou lá atrás com o incansável idealista José Antônio Abreu. Um projeto que não seria nem um pouco desonesto classificar de "tudo pelo social", acabei de comprar em dvd o documentário realizado neste ano pela dupla Paul Smaczny e Maria Stodtmeir, ambos 'pesam a mão' no caráter social, que é a origem do 'sistema' e emociona até o mais emperdenido coração. Claro que nem todas aquelas crianças seguirão carreira na música mas o que importa ali é outra coisa, é dar futuro e um pouco de auto estima para quem não tem nada e isto 'pode' ser uma das funções da Arte (reforço o 'pode' que é tema para outras discussões, começadas até mesmo por aqui)

A topografia das favelas de Caracas é muito parecida com a de São Paulo, que também tem uma orquestra oriunda de um 'trabalho social', a "Orquestra Baccarelli". Fundada pelo Maestro Baccarelli na favela Heliópolis após um trágico incêndio logo aproximou empresas e empresários dispostos a associar seus nomes num projeto de recuperação da auto estima dos seus moradores e como todo projeto deste nível descobriu-se talentos natos para a música. A diferença para com os nossos 'hermanos' é que nenhuma esfera do governo brasileiro 'capitaliza' sua imagem com um projeto destes.

Pelo menos nisso Lula deveria seguir o exemplo de Chávez (que óbvio não é bobo nem nada e manteve 'el sistema' com verba suplementar de propaganda), mas como sabemos que nosso presidente não gosta de ler, nem de ir ao teatro imagina música clássica!

Se joga:
- Treine o seu francês e leia a reportagem completa do "Le Monde" ici
- O filme "El Sistema", saiba mais aqui (não deixe de ler no site os depoimentos mais diversos no "guestbook", vale a pena.
- O Coral e Orquestra Baccarelli aqui

27 de dez de 2009

Aconteceu virou manchete

De Paris - Vou quebrar um pouco o ritual das retrospectivas 'mais divertidas' que costumava fazer por aqui. Algumas poucas coisas tristes superaram os ótimos acontecimentos para mim neste ano que já vai tarde. Vejo que já há retrospectivas dos acontecimentos da década! Assim fica difícil.
Se for para falar da década e pensando rápido, dois fatos que me marcaram foram:

Essa foto pra mim é a mais emblemática de toda a cobertura feita sobre 11/09. O fotógrafo Thomas Hoepker levou três anos para publicá-la temendo represálias. Tranquilamente jovens no Brooklyn parecem não ter o seu cotidiano abalado com a fumaça negra que sai das Torres Gêmeas. Falei muito sobre isso tanto aqui quanto no "Viralata Reloaded", leia aqui.

Só digo uma coisa, NADA superou o Iphone como acontecimento tecnológico/comportamental na década, todo o resto é variação sobre o tema e exploração e desenvolvimento à partir da sua tecnologia.

Quanto a 2009

No terreno das Artes e do Pensamento (e não só da Dança, como muitos podem achar) em menos de um mês perdeu-se de uma tacada só dois ícones de modernidade, arrojo e criatividade:

PINA BAUSH (julho 1940 - Junho 2009)

MERCE CUNNINGHAM (abril 1919 - julho de 2009)

Bem mais próximo de mim, sofri muito com a morte prematura do meu querido amigo e pianista que deixou um vazio difícil de ser preenchido, fica na lembrança o eco de nossas gargalhadas, abaixo, em pose pra mim na Livraria Cultura/SP:

FRANCO BUENO (março 1980 - julho 2009)

Infelizmente ainda sobre desgraças "A" perda mundial que para mim significa muito mais do que um simples artista. Não tenho mais palavras para lamentar a ausência de:

MICHAEL JACKSON (agosto 1958 - junho 2009)

Enquanto isso na vida profissional

Não tenho do que reclamar do meu 'curriculum' neste ano terrível, mais uma vez dirigi uma montagem inédita no Brasil ...

..."Les Troyens", para o Festival de Ópera de Manaus onde também trabalhei com o importante encenador espanhol Emilio Sagi, iluminando sua direção de ...

... "Sansão e Dalila". O que levou Sagi a confiar em mim para assinar a luz da estréia em Paris (de onde escrevo este mal teclado post) de ...

... "The Sound of Music" no Théâtre du Châtelet em comemoração aos 50 anos de criação do musical que conhecemos no Brasil com o título de "A Noviça Rebelde".

Também assumi a direção da Cia. de Ópera Seca do meu amigo e parceiro Gerald Thomas (acima, 'colado' na parede ao meu lado) com promessas de novos ares no meio teatral e operístico.

Que venha logo 2010 e que seja menos trágico e mais dramático, pois com o DRAMA sabemos lidar melhor.
Todo o meu amor!

22 de dez de 2009

Direto da ilustrada: Trio de diretores "encarna" Beckett

De Paris - Para quem não é assinante da "Folha" e nem conseguiu ler o jornal de hoje, republico a matéria em que o jornal solicitou à 3 diretores que trabalharam com a obra de Beckett a criar um texto baseado nas alegorias do dramaturgo irlandês. Achei melhor dizer "trabalharam com a obra..." do que a Folha que diz "têm intimidade com o universo de..." já que meu quase xará Villela NÃO tem intimidade com a obra de Beckett, apenas dirigiu uma peça com 2 ex-expoentes da Cia. de Ópera Seca (de Gerald Thomas, este sim mais Rusche SÃO íntimos da obra beckettiana).
By the way,
nada pessoal! Enjoy...

São Paulo, terça-feira, 22 de dezembro de 2009




Trio de diretores "encarna" Beckett
Inspirados por temas recorrentes do irlandês, Gerald Thomas, Gabriel Villela e Rubens Rusche fazem peça imaginária

OS DIRETORES convidados pela Folha para coassinar uma peça que retomasse questões centrais do teatro beckettiano têm intimidade com o universo do dramaturgo. Gerald Thomas adaptou a prosa do irlandês em espetáculos como "All Strange Away" e "Ill Seen Ill Said", na Nova York dos anos 80. Também dirigiu montagens de "Esperando Godot" e "Fim de Jogo", além de conhecer Beckett em Paris, nos anos 80. Gabriel Villela comandou em 2006 uma encenação de "Esperando Godot". Já Rubens Rusche fez "Katastrophè" (1986), "Fim de Jogo" (1996) e "Crepúsculo" (2007), entre outros. (LUCAS NEVES)


DENMARK IMPROMPTU
Uma peça imaginária

CENA 1
Por Gerald Thomas

(A e B, dois filósofos "verdes", irlandeses, sentados numa conferência mundial, dispostos a salvar o mundo. Líderes mundiais discursam inutilidades. O diálogo abaixo acontece enquanto Tony Blair justifica, sorrindo, sua "invasão" do Iraque, com ou sem "weapons of mass destruction".
A- A imaginação não dava quando dava, quilos de queijo, quilos de porcos, quilos de manteiga, e eu caminhava e rastejava uns bons bocejos quando....
(B bate mão na mesa, interrompe)
B- Quando uma face na multidão surgiu e deu-lhe um Berluscão na boca e no nariz.
A- Sangrou?
B- Pouco.
A- Hmm.
A- Não o quanto deveria.
B- Hmmm.
A- Deveria ter escorrido rios. Já que Lindsay Kemp, na Toscana dos céus divinos, via atentamente, sentado, meditando sobre a palavra ausente... a mente ausente e o gesto presente... Berluscar! O ato de Berluscar. Mão direita no nariz e na boca PUM, e PIM e PAM, e a "g-o-t-a" de s-a-n-g-u-e!
B- Nada sabem sobre o balé das gerações ou sobre o triste fim das interpretações do fim ou o FIM.
A- Nada sabem de mais nada. Agora só sabem de tudo.
B- O chocolate derretendo aqui em Copenhague dois centímetros a cada década.
A- Para ser preciso, dois centímetros e três milímetros de chocolate derretendo a cada década em Copenhague, digo, as barras do mundo e a supremacia dos países e a imaginação morta imaginando-se capaz de incubar icebergs, e cubos imaginando-se ao quadrado.
B- Em Fermanagh, até ainda...
A- Chocolate?
B- Sim, mas rouba-se da Páscoa até o Natal, quando nasci/ morri e me imaginei na faixa de pedestre em Hampstead, onde o Alan foi morto por um ciclista. Cinza esse dia.
A- Foxrock nada tem e nada foi, a não ser a mão de meu pai, mesmo que o...
B- ...O "socoBerlusco" faça com que Pozzo segure a corda de todos os escravos do mundo.
A- "Taramosalata" que foi só o que os gregos nos deram e foi somente isso mesmo, somente só, nesse mundo só, onde somente estamos sós, uma breve passagem só, passando pelos hema-Thomas e outras feridas e furúnculos da pus ao pós, até o fim, só.
A- Aquela alemã hoje não sabe mais distinguir o pão de um tijolo ou tijolo da areia, ou a areia de um montinho de terra. Cinza.
B- Nada como ver essa tragédia de derretimento como a camada de choco-ozônio de CO2. Caminhando como estamos, sós, rastejando como vamos, iremos para o Dante escuro, nenhuma luz, nenhuma única luz, nem em diâmetro, nem em largura, somente a espessura do soco Berlusco poderá nos dizer no futuro o quão grotesco fomos aqui neste, durante este...
A- (bate, interrompe)

CENA 2
Por Gabriel Villela

(A e B agora juntam-se a C, D, E, F, G, H, I e J. Observam a entrada do Sr. KdeKing. Ele representa a entidade CongoOng. Coloca uma caixa de ébano sobre a mesa. Os conferencistas observam. De dentro dela, da caixa preta, e embrulhadas em papel de seda, destes que embrulham maçãs, saem duas mãos de gorila, que iniciam uma percussão. Ponto de Iansã.)
Cai a luz.

A videoconferência
No telão gigante, imagens ao vivo de um gorila agonizante amarrado a uma maca da Cruz Vermelha (close em seus olhos lacrimosos, depois somente a imagem de sua boca). Nota-se que faltam-lhe alguns dentes. Ele fala muito baixo, com dificuldade respiratória. De vez em quando, ele tenta erguer os braços de onde foram decepadas suas mãos.

Gorila (sussurrando)-IKÚUUUUUUUUUUUUUU-UUUUUUUUUUUUUUUUU-UUUUUUUUUUUUUUUUUU-
urrrrrrrmahhhh,rooooouhuuuuummmurrrrrrrrr-
rrrrrrrrrrrimahhhhharrrrrrkrafuuuuurhrrrrrrhuuuuuuu-
uuAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiqhee-doorrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!ahahahahaahaha-
hahaahahahahahahahah,uhrhuruhrrhurmm-
mmmmmmmOLOROGUMOGUMO GUMMMMMMMM
Tradutora cor de rosa- Ele está dizendo que dói muito e pergunta se alguém aqui tem morfina para lhe dar. (quebrando a educação e gritando com as mãos do gorila) Dá pra parar um pouco? (as mãos continuam o ponto de Iansã. Homens verdes, involuntariamente, começam uma percussão com a boca, batendo e rangendo os dentes)

A morte do gorila
Gorila (fazendo termo)-ARÚMMMMMMMMMMMM-MARÚMMMMMMMMMM-MMMARÚMMMM MMMM-MMMMM-YEWÁ!!!!!!!vmphlufannnnnnhhhhhhhhhhhhrossssss,
ahhhhahhhhhhhaaiahhhhahahahahhhohrrohoooooohhhhorrrrrrrooo
-ô-ooodooor!!!!!!!!!!!!!!.Uuuuu!
Tradutora (em voz já mais controlada)- Senhor macaco, de acordo com as regras da conferência, o senhor tem mais 28 segundos para encerrar seu discurso. (atacada do sistema nervoso, ela berra) Alguém aí da organização pode controlar estas patas?! CARRRRALHO!!!!!!!
(o gorila agora tampa os olhos com seus braços cortados, abre a boca, tenta pronunciar um nome... um silêncio de morte)
Gorila-Ikúúú.................. ...................................
Hans Christian...an-an-nder-sen! (morre)
(O par de mãos aplaude freneticamente durante os sete segundos restantes. Muita luz sobre os homens verdes.)

CENA 3
Por Rubens Rusche

(Forte explosão. Escuridão. Longuíssima pausa. Silêncio absoluto. Gradualmente, a luz retorna, mas muito fraca. Poeira e ruínas. Tudo cinza. Ninguém. Longa pausa. Voz em "off" de um homem muito velho, moribundo. Ritmo sempre lento, voz muito baixa, no limite do inaudível.)

Voz
Loucura.
(Pausa)
Tudo isso.
(Pausa)
Loucura.
(Pausa)
Tudo isso aqui.
(Pausa)
Ter visto tudo isso aqui.
(Pausa)
E ouvido.
(Pausa)
Ter ouvido tudo isso aqui.
(Pausa)
Loucura.
(Pausa)
Visto, não. Entrevisto. Toda essa loucura. Mal visto e mal ouvido.
(Longa pausa)
Tudo acabado agora.
(Pausa)
Explodido.
(Pausa)
Só restaram ruínas.
(Pausa)
Cinzas.
(Pausa)
Mas o sol -
(Pausa)
Não tendo outra alternativa, o sol brilhou sobre o nada de novo.
(Longa pausa)
Loucura.
(Aos poucos, nas ruínas e no meio da poeira, surge um crânio. Gradualmente, a luz vai se extinguindo, até restar apenas um foco no crânio. Longa pausa. Silêncio. Foco se extinguindo ao som de uma longa expiração. Cinco segundos. Escuridão e silêncio absolutos.)

17 de dez de 2009

A Diva pirotécnica, o Divo descamisado e o Théâtre des Champs-Élysées

De Paris - Com a volta antecipada para o Brasil do meu assistente e 'guia' Roberto Borges, coube a Ivan Cavalcanti a ingrata tarefa de me ciceronear pela cidade luz. Ivan já vive por estas bandas há mais de 25 anos, é pianista de formação e trabalhou nos mais importantes teatros (Opera de Paris, quer mais?) como 'stage manager' e hoje representa diversos artistas pela Europa e Japão, além de praticamente ser o único brasileiro que fala sueco fluentemente que eu conheço.

Pois bem, foi a convite de Ivan que eu fui assistir a um Concerto de música barroca e Árias Virtuosas (tiradas de Semiramide, Griselda, Tito Manlio, etc...) com a nova diva soprano Vivica Genaux no chiquérrimo Théâtre des Champs-Élysées (1913). Teatro fundado na mesma época do nosso Municipal de S.Paulo (1911) só que com uma arquitetura mais moderna e menos pesada.
Claro, enquanto toda a América do Sul voltavam os olhos para Paris e copiava sua arquitetura como o Municipal de São Paulo que é cópia pobre da Opera francesa, assim como os teatros Colón - com foyer inspirado nos salões de Versailles -, Teatro Amazonas - que tem como desenho interno na cúpula uma visão da Torre Eiffel vista de baixo! - e o Municipal carioca, cópia rica. O Champs Élysées buscava o despojamento e aboliu, por exemplo, os afrescos da cúpula da sala principal guiando os olhos do público para a boca de cena com aproximadamente 16 metros de altura emoldurados por colunas pintadas a ouro, um luxo!

Eu, que tenho verdadeiros ataques de risos com sopranos coloraturas virtuoses me rendi a Vivica Genaux, que embora tenha nome de vedete da Atlântida, é de um carisma ímpar e defende tão bem seu repertório que me senti assistindo uma ginasta olímpica, tamanha a dificuldade das notas, adornos, contornos e transtornos vocais. Sem contar que como Gal Costa, dos bons tempos, Vivica canta tudo sorrindo ou rindo mesmo, o que lhe dá um charme maior.
Capa da Magazine Opéra deste mês, a revista traz seis páginas com fotos, entrevista e agenda da diva, que não se contenta com pouco:
- "J'adore les pyrotechnies vocales mais je ne saurais m'en contenter!"
...

Na verdade comprei a revista (o Concerto foi depois) por causa de uma entrevista com o 'nosso' Capitão Von Trapp, o barítono americano Rod Gilfry, simplesmente genial. Linda voz, ótimo ator e sexy até não poder mais!
Não é à toa que em 1993, aos 37 anos e no auge da sua forma física ele foi "O" "Billy Budd", ópera de Britten (gay e isso NÃO é um detalhe) adaptada do lindo livro de Herman Melville (sim, mesmo autor de "Moby Dick") sobre um deslumbrante e inocente marujo que deixa os marinheiros abolutamente 'loucos', se é que você me entende!
Quando se pensou em transformar em ópera o clássico de Tennessee Williams em 1995, "A Streetcar Named Desire" (conhecida entre nós brasileiros com o título mais fraco e menos abrangente "Um Bonde Chamado Desejo") adivinha para quem o maestro Andre Previn escreveu o papel do bruto imortalizado por Marlon Brando, Stanley Kowalski? Sim, ele mesmo.

Pra não ficar a impressão que ele é um 'barítono descamisado' saído das novelas de Carlos Lombardi, Rod 'é' S.Francisco de Assis na moderna montagem da difícil, e longuíssima, ópera de Messiaen numa produção dirigida por Pierre Audi para a Nederlandse Opera, em Amsterdã. Estou assistindo o dvd há 5 dias e não consigo acabar nunca, impossível assistí-lo numa tacada só! Será ele também quem assumirá o papel do meu, do seu do nosso Paulo Szot nas viagens de "South Pacific" pelos EUA.

O que digo é o seguinte, o cara é ótimo e mega profissional (com cara de poucos amigos, nunca me cumprimentou no teatro nos ensaios ou depois da estréia, muito menos quando topou comigo no Théâtre des Champs-Élysées, na mesma noite em que se apresentou Vivica Genoux, que falei acima), faz bem a linha americano da California e já deve ter passado por poucas e boas no 'mundinho lírico', soube de algumas histórias. Em "The Sound of Music" ele também está super feliz pois trabalha com a sua filha em cena, Carin Gilfry que interpreta com um talento absurdo a doce Liesl Von Trapp.

Gay, Insolente e Diferente

De Paris - As publicações para o público gay em Paris são célebres pelas ousadias homoeróticas, está no nosso imaginário desde as capas da revista "Têtu" até livros e posters da dupla Pierre & Gilles (sim, eu os conheci - timidamente, confesso - na première de "The Sound of Music" onde eles assinaram o cartaz e eu a luz). Descobri aqui a revista concorrente da Têtu e com 'mais conteúdo sério' "Pref Mag", auto descrita como: "le magazine gay, insolent & différent". Na capa um cara chamado Davi, claro, brasileiro!

Aos 24 anos o paulista de Sorocaba Davi Costa Soares (em cima e embaixo, como você preferir) mostra aquele olhar sedutor que só os homens do interior sabem fazer e ainda diz que seu esporte favorito é "yoga e futebol", pronto me apaixonei!
Claro que não será a primeira nem a última vez que um modelo brasileiro é capa de uma revista gay, a própria Têtu já mostrou o "incrível" brasiliense Léo Peixoto, na época também com 24 anos (será que este é o segredo numerológico para o sucesso gay?), mas é sempre bom saber que estamos a um passo de 'desbancar os italianos' (segundo a Pref Mag) no quesito beleza. Ah, então tá!

7 de dez de 2009

Bortolotto põe em cheque a revitalização do 'centro expandido'

De Paris - Os artistas sempre fizeram o seu papel em 'revitalizar o centro'. Ouço há uns 15 anos sobre a 'revitalização' da Roosevelt, Arouche, República, Sé e Luz e as desculpas são sempre corte de verba e burocracia nas desapropriações... 'bullshit', quem quer faz, nós artistas sempre fazemos!

Em qualquer metrópole do mundo são sempre os artistas os primeiros que 'revitalizam' áreas perdidas e dadas como mortas pelo poder público, questão de sobrevivência, acredito. Citando lugares que conheço digo que foi assim no SoHo (Londres), Chueca (Madrid), Puerto Madero (Buenos Aires), Greenwich Village (Nova Iorque), Les Marais (Paris), etc... A diferença é que Estado, Município e empresários investem nestes lugares logo em seguida pois sabem que terão retorno de imagem, dinheiro e turistas... muitos turistas que levarão suas marcas e camisetas "Eu 'coraçãozinho' tal lugar" fixando no imaginário coletivo que existe criatividade e beleza nos lugares mais insólitos.

Não dúvido nada que Mário Bortolotto (acima) será homenageado pelos burocratas do 'centro expandido' com um busto de bronze na praça em que ele e seus amigos tentam com toda a arte e amor revitalizar com pouco dinheiro, sem segurança, rodeados de vizinhos 'turrões' mas com muito, muito talento e criatividade.
Que os deuses do teatro não permitam que este incomparável artista se transforme num mártir da irresponsabilidade dos nossos governantes, já que estes só nos dão atenção quando a tragédia se aproxima.
...

- A Santa Casa/SP está precisando de doadores de sangue: rua Cesário Motta Jr, 112- Vila Buarque

- Os dados bancários da família para contribuições à Mário Bortolotto:
Cristiane do Carmo Viana. Banco Unibanco, agência 0935, conta poupança 127721-6


- Leia mais aqui:
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,dramaturgo-mario-bortolotto-continua-na-uti-em-estado-grave,477920,0.htm

29 de nov de 2009

5 Perguntas

De Paris - Saiu no "Jornal do Brasil"/RJ desta segunda na Coluna de Heloisa Tolipan uma entrevista sobre o meu trabalho em "The Sound of Music", aqui no Théâtre du Châtelet.

Cinco perguntas para |Caetano Vilela

Caetano Vilela é nome do qual a gente tem de se orgulhar. Diretor cênico e iluminador, tem 12 anos de trabalho por trás dos holofotes e 23 anos no mundo das artes. Antes de se jogar nos bastidores, ele trabalhou como ator, com passagens pelo Teatro Oficina e pelo grupo de Antunes Filho. “A luz é dramaturgia pura, como se fosse uma segunda história”, diz o rapaz, com 42 óperas no currículo. Esse ano, foi responsável pela iluminação do Festival Amazonas de Ópera. Lá foi apresentada a montagem inédita de Sansão e Dalila, dirigida por Emilio Sagi, importante diretor cênico na Europa, que acaba de dirigir a ópera de Wagner, Die Feen, no Châtelet, em Paris. Os dois se entenderam tão bem que Emilio convidou Caetano para assinar a iluminação de Noviça rebelde, também no Châtelet.

Roberto Borges

Quais as diferenças entre trabalhar no Brasil e na França?

Em Paris, há dezenas de teatros com uma programação de altíssimo nível. Os cenários ficam prontos 15 dias antes da estreia. As co-produções funcionam. O cenário de Noviça foi feito na Espanha e circulará por países da Europa. Tudo fechado com um ano de antecedência. Esse profissionalismo faz a diferença. O Brasil está engatinhando ainda, mas chegaremos lá. A parceria de Charles Möeller e Claudio Botelho com a excelente produtora Aventura, na realização dos espetáculos, é um exemplo.

Quais sonhos você ainda não realizou?

Embora eu já tenha trabalhado como iluminador em seis óperas de Richard Wagner, eu nunca dirigi nenhuma, mas estou me preparando para isso em um futuro breve. Este é um sonho recorrente. Montagem dos sonhos? Com a direção de Lady Macbeth of the Mtsensk District (Shostakovich), em 1997, eu iniciei uma trilogia russa, sempre em parceria com o maestro Luiz Fernando Malheiro. O próximo título está sendo negociado para estrearmos em 2010. Será uma super produção operística em escala ‘carnavalesca’. Me aguarde!

O que traz a luz para sua vida? E o que tira sua luz?

Aprendi com a luz a focar meus objetivos e tenho uma facilidade incrível (que beira a rispidez) para desfocar quem me cria obstáculos. Sou leonino, absolutamente na-da tira a minha luz, sempre há uma fresta que seja, mesmo nos piores momentos!

Como tem sido sua rotina aí, em Paris?

Começo, essa semana, o trabalho de afinação e gravação de luz. O expediente? Das 9h às 23h. Depois dizem que artista é vagabundo!

Quais foram as orientações que você recebeu?

Como eu já havia trabalhado com o diretor espanhol Emilio Sagi, em Manaus, nós estamos em perfeita sintonia. O meu único pedido a ele foi que fizéssemos um musical sem canhões de luz seguindo os cantores. De-tes-to canhões. Nunca uso nas minhas óperas, a não ser que seja como um efeito rápido e necessário. O diretor topou! Acredito que será o primeiro espetáculo musical feito sem canhão.
...

Clique em cima para ampliar a versão impressa ou leia a versão online aqui.


19 de nov de 2009

Mais um ano com este feriado estúpido

De Paris - Não retiro nenhuma frase do que escrevi aqui 1 ano atrás sobre este feriado da "Consciência Negra". http://caetanovilela.blogspot.com/2008/11/meu-feriado-consciente.html
- "O politicamente correto não permite que se discutam seriamente certos temas hoje em dia sem causar celeumas, processos judiciais, antipatias ou até mesmo crimes passionais, mas seria de bom tom para a sanidade geral da nação questionar algumas decisões políticas tomadas para agradar entidades, ongs e minorias loucas para 'dar visibilidade' a certos temas."
E por aí vai...

Agência Senado - 18/11/2009 - Adiada votação de proposta que criminaliza a homofobia

Agência Senado - 18/11/2009 - Adiada votação de proposta que criminaliza a homofobia

15 de nov de 2009

Paris est gris

Jardim de Luxemburgo/Paris

De Paris - Nesta temporada parisiense farei alguns álbuns de fotos tentando fugir (difícil) um pouco das 'fotos de postal' que estão na nossa memória. Conforme o passeio avançar o álbum vai aumentando.
Espero que gostem da minha visão 'daltônica' da cidade, é que com este final de outono o céu e o contraste das folhas caídas nas calçadas molhadas me 'machucam a vista'.


O resto das fotos você pode ver no meu Flickr, aqui!

14 de nov de 2009

Só falta combinar com os 'franceses'

De Paris - OLHAR URBANO

Diretamente do 4º Arrondissement ao lado do Museu Beaubourg o meu, o seu, o nosso Garrincha repousa tranquilo num 'sticker' em uma esquina.

10 de nov de 2009

O Vampiro de Curitiba mostra a sua casa

O Blog que o Gerald Thomas tinha no Ig fechou mas o "Blog do Vamp" (seu fiel e polêmico escudeiro daquelas bandas largas) começa abrindo generosamente as portas para os orfãos de plantão. 'By the way' começa com uma entrevista com o próprio Gerald, vai lá!

13 de out de 2009

"(...) que você construa uma escada até as estrelas e suba todos os seus degraus..."

Sai com o meu sobrinho de 6 anos para que ele escolhesse os presentes que queria e devo confessar que não resisti em frente da estante infantil da livraria, comprei para mim (e li para ele) "Forever Young" de Bob Dylan com ilustrações de Paul Rogers, lançado pela Martins Fontes. Dylan escreveu esta letra, clássico dos anos 70, rapidamente pensando num dos seus filhos e nada mais natural que tenha virado, ainda que tardiamente, um lindo livro para ler com os pimpolhos na cama.
O livro vem com a letra da música (bilíngüe!) dividida em várias páginas com as ilustrações enormes e de bom gosto.

Rogers ainda 'decifra' as ilustrações (as crianças não precisam saber desta parte), que são passagens da vida de Dylan, identificando também vários ícones de diversos movimentos culturais, como: Woody Guthrie, William Burroughs, Allen Ginsberg, Kerouac e outros do mesmo quilate.
Então, que tal prepararmos um 'jovem revolucionário' para o mundo!

...

Aqui embaixo a letra e ouça também aqui várias versões de "Forever Young" no lindo site oficial de Bob Dylan

Forever Young

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you.
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you.
May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.

May your hands always be busy,
May your feet always be swift,
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift.
May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.

Copyright ©1973 Ram's Horn Music

...

Dentre dezenas de videos no Youtube, existe este 'duo' de Dylan com o seu súdito (e meu ídolo também) Bruce Springsteen


Se Joga:

"Forever Young" de Bob Dylan, Ilustrações Paul Rogers. Editora Martin Fontes

Eu sou o Iluminador na Cidade Luz!

Agora é oficial, já está tudo certo (passagens, contrato, visto de trabalho e divulgação francesa) para a minha 'saison française'!
Como já havia comentado por aqui assinarei a iluminação de uma produção nova do musical "A Noviça Rebelde/The Sound of Music/La Mélodie du Bonheur" no Théâtre du Châtelet, em Paris, esta semana findou toda a parte burocrática de meses de negociações e até já enviei um pré-mapa de luz. Chego a tempo de assistir aos ensaios, dirigido por Emilio Sagi, e uma semana depois começo a montagem.

Levo o meu assistente Roberto Borges, que trabalhou comigo neste ano na assistência de "Les Troyens" em Manaus. Ficarei hospedado num studio chamado "Cœur des lions" (como um autêntico leonino achei um bom presságio) a poucas quadras da "Place de la Bastille" e na bagagem, todo o meu talento!
Abaixo, o cartaz da produção assinado pela 'über' dupla hypada Pierre&Gillet (alguma dúvida de que vou conhecê-los?) e a ficha técnica do espetáculo já com os devidos créditos de 'lumières' do espetáculo. Pois é, como já havia falado, nesta produção 'je suis le éclairagiste'

12 de out de 2009

Uma nota uma chance, qual é a música (ou: MJ x MJ)


Poucos dias depois do enterro do Rei Michael Jackson um dos seus súditos, o maestro Marcelo de Jesus prestou uma baita homenagem bem ao seu estilo erudito sofisticado, juntou num mesmo programa Mozart e Jacko.
Numa manhã de domingo, lotou o Teatro Amazonas com jovens da Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica e solistas locais para interpretar a abertura da ópera "A Flauta Mágica" e o "Concerto para piano Nº24 K.491/Allegro (com Cadenza escrita e defendida ao piano pelo próprio Marcelo de Jesus).



O que também motivou Marcelo na execução deste Concerto foi:
- "Resolvi fazer essa homenagem ao MJ pelo fato de ser um concerto com uma Orquestra Jovem, e que precisam de estímulos, mesmo os não convencionais."
Pra quem já fez 'crossover' entre Björk, Radiohead, Djs e Orquestra ou mesmo num divertidíssimo "Barbeiro de Sevilha" (dirigido por mim sob a sua regência), que mesmo fidelíssimo a Rossini ainda teve um trecho 'mixado' com Richard Wagner, esses rompantes 'não convencionais' na verdade são muitíssimo bem vindos pelo público tornando tanto a ópera quanto a música clássica menos sisuda para os 'ouvintes de primeira viagem'.

Antes que alguns se apressem em achar nisso um certo 'populismo' antigo e que muitos já cansaram de fazer a mesma coisa (veja aqui, por exemplo a Cadenza que o violinista Appal faz também com Mozart) sem renovar seu público eu digo por experiência própria que o público em Manaus tem se renovado cada vez mais com jovens que passaram a gostar de música erudita acompanhando também programas 'mais difíceis' até para platéias treinadas ao sul do País. Renovação, diga-se, sempre lembrada pela imprensa européia (Alemanha e Espanha, para dar exemplos recentes) e em épocas de Festival de Ópera pela nacional também!

Entra aqui e tente descobrir qual a música que 'está contida' em Mozart e notem a discreta reação da platéia quando eles se dão conta de que estão ouvindo alguma coisa bem familiar, 'enjoy'.

2 de out de 2009

Façam as suas apostas, a BRAVO já fez

A revista "Bravo" deste mês de outubro faz um perfil sobre a minha carreira e minha nova empreitada em assumir a direção da Cia. de Ópera Seca junto com o seu fundador Gerald Thomas. A seção da revista é Primeira Fila em "Nossa Aposta".
Leia abaixo a matéria na versão online.
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Caetano Vilela - Nossa Aposta
Depois de virar referência entre os iluminadores do país, o ator paulistano se torna codiretor da Cia. de Ópera Seca, o grupo de Gerald Thomas

Por Gabriela Mellão/Foto João Wainer

Caetano Vilela ao lado da foto de Gerald Thomas. O iluminador tem 15 tatuagens; uma delas traz o lema da cidade de São Paulo: "Não sou conduzido, conduzo"

Ele se sente como quem pinta um quadro ou escreve um conto. No entanto, não usa pincéis nem softwares de texto. Prefere recorrer à luz. O paulistano Caetano Vilela é hoje um dos mais talentosos iluminadores do país. Especializado em montagens líricas, já assinou 53 produções do gênero. Construiu sua reputação sobretudo depois que virou o responsável por iluminar as encenações do prestigioso Festival Amazonas de Ópera, em Manaus.

Desde que assumiu a função, há 11 anos, deixou praticamente de lado as peças teatrais - universo em que se formou não só como iluminador, mas também como ator (participou das trupes de Ulysses Cruz, Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas). No primeiro semestre de 2010, porém, deverá fazer um retorno ousado às origens. Capitaneando a Cia. de Ópera Seca, fundada por Gerald, vai dirigir e iluminar Travesties, comédia de viés político escrita pelo britânico Tom Stoppard. Será a primeira vez que o encenador carioca entregará seu grupo a outro profissional. "Caetano sugeriu dividir comigo o comando da Ópera Seca", conta Gerald, que diz atravessar uma fase de profunda crise existencial. "A sugestão chegou em boa hora. Ele dispõe de grande inteligência e criatividade. Não sei explicar como alguém se torna um gênio. Sei apenas que Caetano é genial."

De início, no festival amazonense, o artista limitava-se a conceber a iluminação dos espetáculos. Foi somente depois de 2001 que passou também a atuar como diretor. Nessa dupla condição, destacou-se com Ça Ira, ópera do inglês Roger Waters, ex-líder da banda Pink Floyd. "Quando me debruço sobre uma montagem", afirma Vilela, "não penso propriamente em iluminar os atores ou os cantores. A primeira coisa que busco descobrir é onde se desenrola a ação - em que atmosfera o elenco estará mergulhado. A partir daí, tento elaborar uma narrativa com a luz. Desejo que a plateia compreenda o espetáculo por meio da iluminação. Talvez seja essa a chave do meu trabalho: aquilo que chamo de 'dramaturgia da luz', algo difícil de traduzir em palavras. Ao contrário de um cenógrafo, que lida muito com o concreto, o iluminador lida principalmente com o abstrato. Acredito que, por isso, eu tenha uma memória e um raciocínio bastante visuais." Tal raciocínio costuma acompanhá-lo até mesmo fora do palco. Certa vez, ficou 45 minutos de pé em um restaurante com mesas vagas à espera de um espaço numa área mais bem iluminada.

Filho de comerciantes, Vilela começou a vida como office boy e, até os 17 anos (atualmente está com 41), nunca escutara ópera. Perambulando pelos sebos da praça da Sé, em São Paulo, ouviu um trecho de Lakmé, do francês Léo Delibes (1836-1891), e se enfeitiçou. Logo perguntou a um vendedor que música era aquela. O clique para a profissão, porém, veio mais tarde, em 1990, quando viu Suor Angelica, do italiano Giacomo Puccini (1858-1924), dirigida por Bia Lessa e protagonizada pela soprano Céline Imbert. "O cenário e a luz não realistas me impressionaram. Pensei: 'Meu Deus, pode-se fazer isso com um espetáculo lírico?!'."

Decidiu, então, rejeitar definitivamente o sonho dos pais, que o queriam à frente dos negócios familiares, e adotou como lema pessoal o da cidade de São Paulo: Non ducor, duco, frase em latim que significa "Não sou conduzido, conduzo". Levou a divisa tão a sério que acabou por estampá-la nas costas. É uma das 15 tatuagens que possui e que lhe conferem um ar de roqueiro. Ele, aliás, se confessa fã das guitarras. "Nas horas livres, o que escuto mesmo é rock'n'roll."

20 de set de 2009

Parole, parole, parole

No caderno de Esportes no "Estadão" de hoje Ugo Giorgetti é preciso no título da sua crônica dominical: "Entrevista não é para principiante" em que conta sobre a infeliz frase dita por Hélio dos Anjos, técnico do Goiás, quando perguntado se o "grupo" sentia ciúmes do jogador Fernandão. Resposta do técnico: "Homem com ciúmes de homem é viadagem. Não trabalho com homossexual."! Waall, isso é que é 'finesse'.
Sem entrar no mérito da estupidez da frase (sinceramente, dá até preguiça) o bom da crônica do Giorgetti é fazer-nos perceber que quando você se sente o 'rei da cocada' na frente de jornalistas quase sempre diz besteiras e completa:
- "(...) O que queria analisar é a armadilha que são as entrevistas (...) é sempre um momento de suprema insegurança e você quer parecer inteligente diante do jornalista..."

Foi um prazer ler as ideias claras de Nuno Ramos em duas páginas para o caderno Mais! da "Folha", também deste domingo, entrevista feita por Noemi Jaffe. Nuno é o artista plástico brasileiro que não se limita somente no terreno 'plástico' e invade a literatura, escultura e performance confundindo não só a classificação da sua obra mas também quem a interpreta, no caso os críticos. Sabendo das suas influências e admirações que incluem Paulinho da Viola, Carlos Drummond, Hélio Oiticica ou os mais óbvios Beuys e Frank Stella dá para entender perfeitamente quando ele diz:
- "(...) Na verdade, ao invés de buscar o que em nós é contemporâneo, talvez fosse mais rico procurar o que em nós é extemporâneo, deslocado no seu tempo, mas sem qualquer arcaísmo."

Me considero um cara bastante articulado (por vezes até prolixo) na defesa das minhas crenças e teses artísticas mas devo confessar que acho dificílimo 'explicar' o que faço nos palcos seja na direção, iluminação ou, embora afastado um pouco, atuação. Quando dou uma entrevista sobre o meu trabalho sempre acho que não fui claro ou que o entrevistador não entendeu o que eu quis dizer. Quando é em outro idioma então, o caldo entorna de vez, embora entenda, por exemplo inglês, não 'penso' neste idioma e em nenhum outro além do português.
Recentemente dei uma entrevista para uma revista de artes (em outubro conto mais) que traçou um perfil sobre as minhas atividades e a diferença que há na Luz que faço para óperas. Falei, falei, falei e não comuniquei absolutamente nada. Recebi um e-mail depois da paciente jornalista (a pedido do seu editor) para que eu explicasse novamente de forma 'menos abstrata'.
Difícil falar sobre Luz, acho até mais fácil 'defender' um cenário ou uma interpretação do que explicar o meu processo de criação de uma Iluminação.

Fui destaque numa publicação alemã (link aqui ao lado em C.V. by C.V.) que analisou minhas luzes para óperas e lá eu defini o meu trabalho como um "Dramaturgo da Luz". à partir daí comecei uma tese de como 'enxergo' a luz desde as influências de Appia, Craig, Meyerhold, Gerald Thomas, Bob Wilson até a "história" que ela deve contar no palco. Difícil. E abstrato também para quem não é da área, mas como já disse outras vezes Arte é difícil mesmo!

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P.S.: Só uma pequena observação no excelente texto do Ugo Giorgetti ('na rede' só para assinantes, infelizmente) quando ele diz: "esse assunto de homossexualismo no futebol parece tão velho e gasto quanto o próprio futebol".
Concordo plenamente com ele, mas o termo correto é homossexualidade. Não custa nada lembrar que o 'ismo' traz a conotação de doença e patologia e nós, homossexuais, não somos doentes. Alguns como eu são por futebol, mas isso não tem cura, heheheh

11 de set de 2009

Eu acredito em "Travesties"!!!

Queridos, para quem anda acompanhando a minha saga em montar "Travesties" de Tom Stoppard com a Cia. de Ópera Seca eu digo o seguinte: A PEÇA VAI SAIR!!!
O que passa é que contra a minha vontade demorará um pouquinho mais, explico: Estava com o projeto pronto desde dezembro-08, corri em busca de patrocinadores (consegui 1 que com a '#crise' adiou temporariamente), deixei num teatro para análise, fiz minhas óperas em Manaus (março-maio), viajei para Espanha à trabalho (junho), voltei e comecei a cobrar respostas... 7 meses depois o teatro recusou o projeto e se desculpou pela demora! Isso para resumir 'elegantemente' minha decepção.

Fiquei com uma mão na frente outra atrás. Não começo a ensaiar sem um mínimo de infra-estrutura e muito menos sem saber onde vou estrear. Talvez eu tenha sido ingênuo em ter deixado apenas em um teatro para análise, mas acreditei que a constante 'parceria' deste teatro com a Cia. de Ópera Seca seria o suficiente para credenciar o projeto como 'executável' , afinal de contas é um puta texto de Tom Stoppard inédito no Brasil. Bom, mas vá lá, renovei os direitos do espetáculo, inscrevi-o em leis de incentivo e estamos aí com reuniões e ótimas perspectivas pela frente.

A estréia está agendada agora para o primeiro trimestre/2010 (em novembro viajo à trabalho para França voltando em janeiro) e começarei agora os contatos com festivais de teatro do Brasil e América do Sul. É isso aí, um extenuante trabalho mas que tenho certeza será recompensador.

Ontem saiu no "Estadão", na coluna da Chris Mello mais uma nota sobre a montagem o que aumenta a curiosidade e a expectativa sobre o meu trabalho na Cia., aguardem mais um pouco, prometo não decepcioná-los!




4 de set de 2009

Carlos Angelo Cafalli (ou: o Iluminado)

Faleceu ontem Carlos Angelo Cafalli chefe de Iluminação do Teatro Municipal de São Paulo, tratado por todos, que já trabalharam no Municipal algum dia, carinhosamente como 'seu' Carlinhos.
Sempre fui muito bem recebido no Municipal e muitíssimo bem tratado por todos, 'seu' Carlinhos , por exemplo, contava sempre a mesma história de quando me viu pela primeira vez trabalhando como assistente de Iacov Hillel naquele palco e de como eu 'cresci' e me tornei um bom profissional. Isso me enche de alegria! Ter o reconhecimento das pessoas que 'realmente fazem o espetáculo acontecer' é de uma responsabilidade maior até do que a de qualquer crítico. Por que? Porque são estas pessoas que você não consegue enganar com os eternos e fáceis 'mesmos truques' e são elas que lembram exatamente a última coisa que você fez e querem saber qual vai ser a novidade. Só quem é ou foi técnico teatral um dia sabe do que eu estou falando, é uma 'cobrança' eterna e uma responsabilidade imensa.

Lembro de quando assinei a iluminação de "Olga" dirigida por William Pereira, 'seu' Carlinhos ficou um pouco mais do que o habitual do seu horário e assistiu a um ensaio em que a luz ainda estava no processo de gravação, me chamou num canto e me disse com aquele inconfundível sotaque 'apaulistanado' que ali eu tinha me superado, que aquela luz era tecnicamente mais bonita e difícil que a de "Condor" (que eu havia dirigido e iluminado anos antes), ainda mais pensando na falta de recursos com que eu estava trabalhando. Agradeci a gentileza e concordei com ele, e que embora não estivesse pronta, aquela iluminação estava me consumindo realmente muitas ideias e a única coisa que me guiava era não repetir o que eu já havia feito com sucesso em outros espetáculos na casa.

Soube que foi um câncer recente que o levou, também não sei a sua idade mas presumo que passava um pouco dos 70.
A única coisa que eu sei é que ele viveu toda a sua vida para a Luz e que não só por causa disso era um homem ILUMINADO! Para mim, um exemplo.

Minha homenagem para o 'seu' Carlinhos é esta foto (by Jefferson Pancieri) da cena final da ópera "Olga", segundo ele "onde eu me superei". O velório e o enterro serão no Cemitério do Araça/SP neste dia 05/09 às 10h

P.S.: Atualizei o post com a foto do 'seu' Carlinhos que foi gentilmente enviada por Eliane Lax, produtora do Municipal/SP, obrigado querida!

27 de ago de 2009

"Be Brave"

Recebi da minha amiga carioca Danusa Moojen esta linda propaganda da multinacional de medicamentos Pfizer, fundada em Nova York no século 19 por imigrantes alemães e presente no Brasil desde os anos 50. Foi a Pfizer que tirou Fleming do anonimato ao produzir em grande escala a penicilina e o resto é história.

Além de fugir das propagandas frias de laboratórios farmacêuticos e medicamentos a agência que criou este filme (infelizmente não tenho o crédito) se alinha aos jovens dialogando com 'street art' e grafitti e deixa uma mensagem que interessa para todas as idades, não importa a doença: "sometimes it takes more than medication".

Também acho! 'Enjoy':



P.S: Este post foi escrito antes desta notícia: "Pfizer vai pagar U$ 2,3 bi por fraude na venda de remédios".
Um amigo me disse que 'pegava mal' eu fazer 'propaganda' para a empresa depois deste anúncio. Como por aqui só escrevo o que quero e não sou remunerado por ninguém, mantenho o post pois acho que este filme ultrapassa esta questão, sem contar que ainda acho brilhante e humano o tom da propaganda.

26 de ago de 2009

"Se você pretende saber quem eu sou eu posso lhe dizer..."*

Começo a entender o fascínio que o automóvel e a velocidade exercem sobre os homens. Por absoluta necessidade tive de começar a dirigir faz bem pouco tempo (apaguei da memória a habilitação tirada aos 18 anos, e usufruída apenas por 3 meses, e me entreguei pacientemente às aulas práticas de direção aos 40 anos), tempo suficiente para entender que comecei a fazer parte de outra categoria de ser humano, com uma nova ética e códigos próprios. Estou aprendendo rapidamente também uma nova linguagem de gestos e 'sinais motores' (piscadas de luzes, buzinas curtas, longas, semi-breves,...) que me põe numa categoria camarada de comunicação imediata com meus novos pares.

Gente como o 'über' arquiteto Paulo Mendes da Rocha por exemplo não consegue imaginar estupidez maior quando uma pessoa prefere ficar dentro de uma carcaça de ferro do que utilizar os transportes públicos (ok, esta é uma longa discussão e não me esqueci que temos um PÉSSIMO transporte público), eu por necessidade, sempre preferi. Minha experiência como 'boy' na adolescência me diplomou como um pedestre de primeira, conheço o centro da cidade e suas periferias muitíssimo bem, aliás esta minha nova condição de motorista me faz guiar na cidade como se eu ainda fosse pedestre. Nem preciso dizer que na imensa maioria das vezes eu fico dando voltas e voltas de frente para ruas sem saída, contra-mão e certos desvios que ainda não estou acostumado.

O que tenho visto do comportamento de motoristas, principalmente em estradas afastadas e rodovias é estarrecedor e dá medo. Dia sim, dia não vejo acidentes terríveis e estúpidos por pura falta de civilidade. Uma das contradições do 'aprendizado desta nova linguagem' que descobri é que se há uma placa em que a velocidade permitida é 40 km você deve andar a 60 e assim por diante, li mais de uma vez sobre pessoas que morrem simplesmente porque desaceleraram diante de uma lombada na periferia da cidade.

Ainda não me sinto seguro o bastante para desafiar certas leis do trânsito, como por exemplo enfiar o pé no acelerador para testar todo o rendimento do meu motor 1.8, mas acho que sei a sensação que teve James Dean com o seu fatídico Porshe Spyder. É muito fácil perder os limites com um motor silencioso e ótimas caixas de som pelas curvas de uma paisagem deslumbrante como a da Mata Atlântica (meu deus como São Paulo é complexamente linda!), para não cair em tentação programei o meu computador de bordo para sempre apitar quando eu chego a 120 km/h e também preferi perder uma conexão USB do meu IPod para poder instalar Air-Bags para motorista e passageiro.

Melhor assim, não quero que os meus amigos pensem que:
- " eu não gosto nem mesmo de mim. E que na minha idade só a velocidade anda junto a mim..."*
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* "As curvas da Estrada de Santos"/Roberto Carlos e Erasmo Carlos
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Esta é uma foto do Foto Repórter Estadão Fabio Damiani Fuso de um capotamento na Rodovia Fernão Dias (sentido SP, km 81), rodovia que agora faz parte da minha rota semanal Atibaia-São Paulo.

24 de ago de 2009

Você é uma "Pessoa Politicamente Exposta"?

Clique para ampliar, leia melhor e me responda: você é uma PPE?

Na semana passada tirei um dia para resolver pequenos assuntos burocráticos em cartórios, bancos e outros estabelecimentos que todos nós fugimos mas não há como escapar. Uma das pendências era abrir uma conta corrente na Caixa Econômica Federal, pois bem, enquanto esperava uns 20 minutos minha solícita gerente me resgatar da maldita porta giratória (estava com meu precioso MacBook e obviamente me recusei a deixá-lo nos armários arrombados do lado de fora da agência!) presenciava uma verdadeira 'batalha' de uma jovem que parecia ter 'kriptonita' na bolsa tamanha a insistência dos apitos de bloqueio. Talvez com pena da pobre mulher o guarda liberou a passagem discretamente apertando o botão do controle escondido no bolso da sua calça. Pois não é que depois de passar pela porta a jovem mulher sorri e saca um pequeno guarda-chuva escondido sabe-se lá em qual compartimento de sua bolsa e num sorriso vitorioso (já dentro da agência) diz: "- Achei, era isso!"
Fiquei pasmo, ela poderia ter tirado uma arma, mas parece que situações como esta não assustam mais ninguém.
...

Minha gerente me deu uma senha nova para internet (o site da Caixa é horrível, inseguro e sempre com algumas funções "em manutenção") e alguns papéis para assinar, dentre eles uma "Declaração - Pessoa Politicamente Exposta".
'What a hell..?!' Me espantei, e soube que é um termo em que você declara se desempenhou algum "cargo, emprego ou função pública relevante", ou ainda se tenho parentes ou secretário particular vinculado a algum cargo no governo. E ao assinar NÃO em todas as opções sou alertado de que digo a verdade e tenho de me comprometer "a comunicar a CAIXA, de imediato, eventuais alterações nas informações acima prestadas".

SÓ PARA LEMBRAR

A Circular BACEN 3.339 de 22/12/2006 é, segundo a minha gerente, exigência imprescindível para todas as contas a serem abertas após esta data, cujo motivo é dar maior 'transparência' e evitar fraudes e lavagem de dinheiro.
No dia 16 de março do mesmo ano da Circular o ex-ministro Antônio Palocci ordenava o então presidente da CAIXA, Jorge Mattoso, a violar o sigilo bancário do (hoje arrependido) caseiro Francenildo Costa, num quiprocó que expunha também o ex-ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos e outros menos 'graúdos' que foram eclipsados pela divulgação da participação de Palocci no caso.
Antônio Palocci é hoje um discreto deputado federal pelo PT e 3 anos depois aguarda por estes dias o julgamento deste único processo em que ainda não foi absolvido. Eu não tenho nenhuma dúvida de que será absolvido por esse 'deslize', afinal ele é um autêntico petista e como todos os outros companheiros 'imune as leis dos homens'.

Penso que o pobre e infeliz Francenildo seja a única "pessoa politicamente exposta" que eu conheço... pensando bem têm as secretárias Lina Vieira, Fernanda Karina Somaggio (aquela do Marcos Valério, lembram-se?),... nossa estou me lembrando de mais gente, melhor parar por aqui antes que "a porta giratória comece a apitar"!

20 de ago de 2009

Futebol, livros e rock'n roll

Soube que um dos meus ídolos do rock acabou de assumir a vice presidência de um time de futebol. Robert Plant (ao lado, vocês sabem de quem eu estou falando não?) agora é 'cartola' do Wolverhampton, que subiu da segunda divisão para a "Premier League". Nem mesmo 'a água na Guiness,' da derrota por 2 x 0 para o West Ham foi capaz de desanimar 'os lobos' que compareceram em peso para prestigiar o astro.
Será uma briga dificílima, já estou com o meu guia dos campeonato europeus que me acompanhará na minha viagem para a França no final do ano e com uma relação de jogos para assistir, espero que eu possa dar 'um pulinho' na Inglaterra para prestigiar 'os lobos' mas quero deixar claro que na terra da rainha eu seu 'red' desde criancinha (exceto naquele mundial contra o São Paulo óbvio!) e torço para os brasileiros Fábio Aurélio, Lucas e Diego se darem muito bem no Liverpool.

Até mesmo quem não acompanha futebol sabe o significado da palavra 'hooligans' para a torcida inglesa. Pois foi exatamente por causa deste fanatismo que a UEFA baniu o Liverpool por 6 anos (e TODOS os outros clubes ingleses por 5) de participar das competições européias em meados dos anos 80. O motivo foi uma final entre os não menos fanáticos torcedores da Juventus x Liverpool, ao perder por 1 x 0 os torcedores 'reds' começaram um quebra-quebra no estádio, encurralaram parte da torcida adversária que se refugiou atrás de um muro. Pois o muro caiu, matou 39 torcedores e deste então um sistema mais rígido de controle de torcidas foi instituído em toda a europa, que se não eliminou o problema pelo menos criou-se leis severas para punição. E por lá, meus amigos, estas leis funcionam; enquanto isto no Brasil...

Já assisti a uma partida dos 'reds' na Inglaterra 'pós-massacre', achei tudo muito inflamado mas felizmente sem sinal de violência, ao contrário de partidas que vejo do meu tricolor no Morumbi em que tenho de esperar mais de 1 hora para sair do estádio sempre com brigas e confusões não importa o adversário.
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Falando em ingleses e futebol estou terminando de ler "Frenesi Polissilábico" de Nick Hornby, torcedor alucinado do Arsenal. Gosto de Hornby, já comentei por aqui sua 'derrapada' com "Slam" mas ainda assim curto seu estilo, "Alta Fidelidade" e "Febre de Bola" (totalmente sobre futebol!) são ótimos, populares e muitíssimo bem escritos.
"Frenesi..." é um livro sobre livros, de quando Hornby escrevia para uma revista de literatura ("The Believer") sobre os livros que leu, comprou para ler ou não leu. Daí vem as famosas 'listas' que são tão caras ao autor (quem leu "Alta Fidelidade" ou "O Grande Garoto" já viu muitas por lá) divididas e catalogadas por mês, como só um bibliotecário sabe fazer. Na abertura de cada capítulo (mês) vem descrito em colunas: 'Títulos Comprados' e 'Títulos Lidos', daí segue a lista de livros e o texto com observações sobre as obras e uma ou outra 'espinafrada' no melhor estilo inglês, como neste trecho:

- "O último refúgio do crítico picareta é qualquer versão da seguinte sentença: "Em última análise, esse livro é sobre a própria ficção/esse filme é sobre o próprio filme." Eu mesmo já usei essa frase, na época em que escrevia críticas sobre vários livros, e posso dizer que é tudo balela: invariavelmente o negócio significa apenas que o filme ou o romance chamou a atenção para o seu próprio estado ficcional, o que não nos leva a lugar nenhum, e é o motivo pelo qual o crítico nunca nos diz exatamente o que o romance tem a dizer sobre a própria ficção. (Da próxima vez que você se deparar com a frase, o que é provável de acontecer nos próximos sete dias caso você leia muitas resenhas, escreva para o crítico e peça que ele esclareça o que quer dizer.)"
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Se joga:
"Frenesi Polissilábico", Nick Hornby/Editora Rocco R$ 33,00
Também acompanho os Blogs sobre literatura:
"Tudo Sobre Livros" e o ótimo "Razbliuto" do Daniel Lopes