24 de jan de 2009

Invasão Russa no Brasil: "Os Irmãos Karamabloch"

Já disse por aqui que sempre gostei de histórias na linha "nasci-sofri-venci", jogadores de futebol que hoje fazem sucesso e têm os seus passes disputados a tapas e ex-mascates, atualmente donos de impérios de comunicação e grandes magazines, são exemplos claros deste mundo fascinante que não é um privilégio só da 'América', temos também nossos exemplos tropicais aos montes.
Revezando com minhas 'leituras mais sérias' (mitologias e estudos franceses para as próximas óperas) ainda tive tempo de devorar em uma semana as memórias da família Bloch no delicioso "Os Irmãos Karamabloch", escrito pelo jornalista Arnaldo Bloch, sobrinho de Adolpho Bloch fundador do império de comunicações "Manchete", revista e tv.

Arnaldo destrinchou a árvore genealógica da família desde os confins da Rússia, de onde os Blochs (judeus ucranianos) fugiram de guerras e perseguições até os altos-baixos-altos-baixíssimos momentos em 'terra brasilis'. A primeira metade do livro é toda dedicada ao resgate da memória familiar, com personagens marcantes, passionais, patéticos e trágicos com depoimentos na primeira pessoa colhidos pelo próprio Arnaldo intercalados com uma verdadeira 'busca do tempo perdido'.

A segunda parte já nos é bastante familiar, centrada na figura de Adolpho Bloch, verdadeiro ícone da alma russa, um simples gráfico turrão que, na sua coerência muito particular, soube passar por todos os políticos depois de Getúlio Vargas (tendo preferência por JK, do qual se tornou grande amigo) e mal a mal sobreviver a favores e golpes de sorte com sua forma de negociar bastante característica, mais conhecida como 'jeitinho brasileiro', numa ciranda de duplicadas, promissórias e limites de créditos sempre 'empurrados com a barriga'. E o que era melhor: dava certo! Ou pelo menos deu, por um bom tempo. A triste lembrança da falência da Rede Manchete e de todo o parque gráfico da revista homônima ainda é uma cicatriz na imprensa nacional que perdeu um concorrente de peso e qualidade.

Trechos

Numa época ainda sem BlackBerrys ou e-mails a chegada de uma carta de JK postada uma semana antes, para o amigo camarada, recebida depois da sua morte, é de arrepiar:
- "(...) o que traz tristeza, sobretudo à hora do recolhimento da tarde, é a falta dos amigos (...) E nenhum mais do que você Adolpho, pertence à categoria das pessoas que gostaria de ver diariamente, como fazia até há pouco (...) Espero abraçá-lo em breve (...)"
A rebeldia com os novos tempos era clamada em frases 'pouco católicas' aos ouvidos puritanos:
- "Eu quero que a modernidade se foda", ou ainda "Enfia o marketing no cu."

Ou sobre a economia e suas fases de lucros e prejuízos:
- "Muitas vezes culpamos a mulher por tudo o que acontece. Não é verdade isso. A grande tragédia da humana começou com duas simples colunas: o débito e o crédito. Os que têm recursos ficam no preto. Os que não têm ficam no vermelho. Poucas vezes fiquei no preto porque tinha vontade de vencer na vida. O dinheiro não me fascina."

Os encontros do Sr. Adolpho com Collor e Roberto Marinho para num último recurso pedir-lhes ajuda, são cruéis e dramáticos pela parte dos anfitriões. Já com artistas ele sempre era conciliador e querido, do mestre das óperas Zeffirelli ao pintor Manabu Mabe e aos atores e diretores de suas novelas sempre foi um homem respeitado.
Leia com um sorriso nos lábios e entre dentro desta verdadeira 'matrioshka', onde cada 'boneca' que você tira dentro da caixinha revela um drama mais comovente que o outro.
...

Se Joga:
"Os Irmãos Karamabloch", Arnaldo Bloch (Cia. das Letras)

Leia também no "Viralata Reloaded" sobre o outro livro que li revezando com este, é "Mães e Filhos" do irlandês Colm Tóibín, nove contos incrivelmente melancólicos, tristes e outros suaves como a primavera, mas tem um ("Três Amigos") que é tão fofo e gls que você até encontra esperança naquele monte de morte.

5 comentários:

Pedrita disse...

eu quero muito ler esse livro. falei de uma peça de teatro que vi no meu blog, calígula. beijos, pedrita

Glorinha disse...

Caetano...voltou!!!!
uff que bom rs...
bela dica...vou ver / ler...
[[]]

viralata disse...

Vou la ver Pedrita... o post já que a peça, hummm sei não!bj
Tô dependendo da 'bondadade do meu irmão' em me emprestar o seu notebook. Ainda tô meio orfão Glorinha. bj

Pedrita disse...

caetano, vi no dia seguinte zoológico de vidro e amei.o post tb já está lá.

viralata disse...

essa sim eu irei assistir, já li seu post! bj amor