6 de mar de 2009

Ainda sobre Política Cultural (ou: eu disse política cultural?!)

Já manifestei meus desencantos com a ausência de uma política cultural diversas vezes 'neste canil'. Eu disse POLÍTICA CULTURAL?! Sim, disse e sei também que num País onde um governo lança um programa (falei PAC?) nacional de investimentos em TODAS as áreas esquecendo o que significa a palavra INFRA-ESTRUTURA, sei que falo sobre o terreno da 'ficção' sobre a inexistência de uma política cultural (desta vez minúscula mesmo). E antes que os 'fundamentalistas' que odeiam artistas (bem, digo isso depois que o Gerald republicou um post meu recentemente, vocês viram quanta revolta nos quase 300 comentários?!) possam se manifestar, volto ao tema.

É sintomático como o "Caderno 2" do "Estadão" desta quinta dialoga, em reportagens diferentes, na capa e contra-capa do jornal. Na capa temos chamada para a estréia de mais um musical de sucesso da dupla vitoriosa Claudio Botelho e Charles Möeller: "Os novos passos de Möeller e Botelho". Se você não gosta de musical é outro problema, mas nunca poderá negar o profissionalismo e a seriedade da dupla (sim, já trabalhei com ambos numa ópera de Villa-Lobos "Magdalena" onde assinei a luz). 'Os magos do musical' (conforme chamada de capa do jornal) montaram uma nova empresa com antigos sócios (as queridas Aniela Jordan, Mônica Lopes e Beatriz Braga) somente para produzir espetáculos com o nível de exigência requintado da dupla.

Daí você vai pra última página do Caderno 2 e vê lá: "A polêmica dos municipais cariocas", onde a secretária de Cultura do Rio de Janeiro, Jandira Feghali (concorreu a Prefeitura do Rio no ano passado pelo PC do B) se meteu num vespeiro ao criar comissões para decidir os ocupantes dos teatros municipais.
O problema é o 'tom' de dirigismo cultural que o ato resvalou numa discussão prá lá de inflamada entre os meus amigos 'de classe' carioca.
O próprio Claudio Botelho, por exemplo que ocupava o Teatro Carlos Gomes (lotado com semanas de antecedência em temporadas populares. Eu vi!!!) há oito anos soube de sua demissão pelos jornais e disse:
- "Teatro é lugar de artista, e não de burocrata. A comissão me parece um erro. Eu não acredito em pensamentos de grupo, e sim individuais. Agora vai cair tudo de novo na burocracia. Para comprar uma lâmpada vai ter de pedir autorização à secretaria (...) Em oito anos, não coloquei um amigo para fazer nada. Fiz o maior público do Carlos Gomes com Ópera do Malandro".

Outro ícone do teatro carioca, Domingos de Oliveira foi mais rebelde e definitivo:
- "Eu tenho mais condições de falar de teatro do que qualquer comissão da prefeitura (...) O que eu vejo é a Prefeitura querer mandar em coisas sobre as quais não entende. Se me pagarem para construir um edifício, eu construo, mas ele cai depois."

Enquanto a secretária trata os artistas com termos ultrapassados ("feudos" é um deles, quiçá anacrônico não?) e atitudes atabalhoadas de quem quer 'mostrar serviço', o risco dos teatros voltarem ao 'publico zero' é grande.
A versão online do Estadão não dá acesso para não assinantes sobre o que pensa artistas que já tiveram essa experiência como residente num teatro, destaco então o lúcido depoimento de Eduardo Tolentino que reflete bem o 'modus operandi' de um diretor nesta situação, Tolentino, diretor do Grupo Tapa, foi residente no paulistano Teatro Arthur Azevedo na Mooca entre 2003 e 2004:
- "É retrocesso a mudança na atuação dos diretores artísticos no Rio, assim como foi um passo atrás em São Paulo, quando teve fim a residência artística nos distritais. A Secretaria de Cultura do Rio não está ocupada por uma pessoa da área da Cultura, mas sim por algum acordo político. E paga-se o preço. Esse discurso de feudo é velho e equivocado. No mundo inteiro os teatros privados têm programação negociada de empresário para empresário e os espaços públicos têm diretores artísticos que definem o perfil da programação. Tem de haver sim uma comissão para avaliar se isso está funcionando ou não e com critérios que nada têm a ver com o fracasso de um espetáculo. É avaliação para ser feita a longo prazo e deve levar em conta uma série de fatores. Uma programação para o Teatro Carlos Gomes, no centro, não pode ser a mesma para o Teatro Villa-Lobos, em Copacabana. É um passo atrás mudar algo que funciona bem em outros países e aqui também. O problema é que se toma a excessão como regra. Peter Brook, Peter Hall, Kevin Spacey, Jorge Lavelli, Jérôme Savary foram ou são diretores de teatros publicos. Em Paris todos são dirigidos por artistas e cada um tem seu perfil de repertório. Quando Aderbal Freire-Filho ocupou o Gláucio Gil, em Copacabana, aquele espaço que estava abandonado ganhou outra dimensão e quando ele foi tirado de lá pelo poder público, o Gláucio Gil voltou a ser um inexpressivo teatro de bairro. Eu tremo quando tenho de entregar projetos a uma comissão porque sei o que vem; já um diretor artístico traz infinitas possibilidades. É só conferir a diversidade de repertório do espaço dos Parlapatões ou dos Satyros. Assim como a Fraternal movimentou o Paulo Eiró, em Santo Amaro, a Cia. Estável ao ocupar o esvaziado Flávio Império, em Cangaíba, mobilizou a comunidade e atraiu público.
Feudos? Pois eles saíram, foram tirados, agora o teatro está de novo vazio. O problema do Brasil é que cada governo muda tudo. Peter Brook e Peter Hall foram diretores artísticos da Royal Shakespeare e essa política, de deixar a decisão da programação nas mãos de um diretor, não muda esteja o poder nas mãos de Margarete Thatcher ou Tony Blair."

Depois desta lavada do Tolentino fico por aqui, mas em breve volto ao tema... EVIDENTE!
...

Leia também no "Viralata Reloaded" um pouco mais sobre a crise cultural e a falta de fé que a operadora TIM demonstrou num momento de dificuldade cancelando o TIM Festival. O post é: "A crise vista de diferentes ângulos em apenas três dias".

2 comentários:

Glorinha disse...

Caetano, eu não tinha a menor noção de que as coisas fucionam desse jeito...
Não entendo essa necessidade de acabar com um modelo que funciona ao invés de investir, melhorar, alterar...uma tendência de "pequeno poder" deve ser isso...
seu blog tá d+
[[]]abraços reloaded rs...

viralata disse...

Ah Glorinha, se eu te contasse como foi uma reunião de produção que acabei de ter com 'orgãos oficiais' para remontagem de uma ópera... tst, tst, tst... Juro que você ficaria como eu: CARECA de 'ódia'!!!!! haushauhsuah
bjão