27 de mar de 2009

Dia Mundial do Teatro... sem público, sem política cultural, sem incentivo, sem...

Pois é, existem Comemorações e comemorações, a de hoje é 'minúscula'. Antes que alguém se apresse em nos chamar de desocupados ou "socialistas decrépitos" (sim, teve até isso num comentário para um jornal, 'reposto' logo abaixo), digo que somos tratados, com muito orgulho, "putos, veados e vagabundos" como bem escreveu Gerald Thomas num post recente em seu Blog.

Somos uma classe com tantos problemas e urgências como a dos professores ou médicos, portanto melhor se manifestar e debater o problema, pois se formos pensar que ARTE é supérfluo e precisamos antes é de educação e saúde, digo que sem ARTE qualquer cidadão se transforma em um 'mal educado doente'!
...

Nesta madrugada um grupo entitulado "Movimento 27 de Março" invadiu a sede da FUNARTE (acima em foto de Hélvio Romero/AE) para chamar atenção para o descaso da leis públicas de incentivo fiscal e o próprio tratamento recebido pelos profissionais de teatro pelo Ministério da Cultura. O "Estadão" online deu destaque para o acontecimento e nos comentários sobre a reportagem merece reprodução o pensamento do 'Sr. Rolando':
- "Apesar do pretenso discurso socialista e comunista essa gente vive no desenvolvimento e bem estar que só o capitalismo produz."

E para ser mais claro na sua linha de raciocínio completa com outro comentário 9 minutos depois:
- "Venhamos e convenhamos, se o que esses senhores socialistas decrepitos fazem fosse bom eles não precisariam do dinheiro de empresas, eles mesmo poderiam bancar o que fazem. Mas como não tem público bastante para isso já que poucas pessoas querem gastar o seu suado dinheiro com as bobagens que eles fazem só resta a eles essa choradeira para tentar esconder a sua própria incompetência em conseguir plateia."

Hummm
, não comentarei o comentário do Sr. Rolando (aos aflitos digo que discordo!), acho apenas que o seu pensamento reflete o pensamento médio de muita gente. Também mostra o quanto determinados grupos de artistas estão afastados da sociedade, note bem eu disse SOCIEDADE e não público, enquantos muitos lutam 'contra a barbárie' em defesa dos seus 'espaços físicos' esquecem que do lado de fora existe uma realidade bem diferente de seus interesses.

Publico abaixo o manifesto do grupo e sugiro uma reflexão:

CARTA ABERTA AO MINISTÉRIO DA CULTURA

Hoje, no Dia Mundial do Teatro, nós, trabalhadores de grupos teatrais de São Paulo organizados no Movimento 27 de Março, somos obrigados a ocupar as dependências da Funarte na cidade. A atitude extrema é provocada pelo falso diálogo proposto pelo governo federal, que teima em nos usar num debate de mão única. Cobramos, ao contrário, o diálogo honesto e democrático que nos tem sido negado.

O governo impõe um único programa: a transferência de recursos públicos para o marketing privado, o que não contempla a cultura mas grandes empresas que não fazem cultura. E se recusa, sistematicamente, a discutir qualquer outra alternativa.

Trocando em miúdos.

O Profic - Programa de Fomento e Incentivo à Cultura, que Vv. Ss. apresentam para discussão como substituto ao Pronac, que já existe, sustenta-se sobre a mesma coisa: Fundo Nacional de Cultura - FNC, patrocínios privados com dinheiro público (o tal incentivo/renúncia fiscal que todos conhecem como Lei Rouanet) e Ficart - Fundo de Investimento Cultural e Artístico.

Ora, o Fundo não é um programa, é um instrumento contábil para a ação dos governos. Já o Ficart (um fundo de aplicação financeira) e o incentivo fiscal destinam-se ao mercado, não à cultura. O escândalo maior está na manutenção da renúncia/incentivo fiscal, a chamada Lei Rouanet, que o governo, empresas e mídia teimam em defender e manter.

O que é a renúncia ou incentivo fiscal? É Imposto de Renda, dinheiro público que o governo entrega aos gerentes de marketing das grandes empresas. Destina-se ao marketing das mesmas e não à cultura. É o discurso que atrela a cultura ao mercado que permite esse desvio absurdo: o dinheiro público vai para o negócio privado que não produz cultura e o governo transfere suas funções para o gerente da grande corporação. Diminuir a porcentagem dessa transferência ou criar normas pretensamente moralizadoras não muda a natureza do roubo e da omissão do governante no exercício de suas obrigações constitucionais. Não se trata de maquiar a Lei Rouanet (incentivo fiscal); trata-se de acabar com ela em nome da cultura, do direito e do interesse público, garantindo-se que o mesmo dinheiro seja aplicado diretamente na cultura de forma pública e democrática.

Assim, dentro do Profic, apenas a renúncia fiscal pode se apresentar como programa, um programa de transferência de recursos públicos para o marketing privado, em nome do incentivo ao mercado. Trata-se, portanto, de um programa único que não vê e não permite outra saída, daí ser totalitário, autoritário, anti-democrático na sua essência.

E é o mesmo e velho programa que teima em mercantilizar, em transformar em mercadoria todas as atividades humanas, inclusive a cultura, a saúde e a educação, por exemplo. Não é por acaso que os mesmos gestores do capital ocupam os lugares chaves na máquina estatal da União, dos Estados e Municípios, coisas que conhecemos bem de perto em nosso Estado e capital, seus pretensos opositores.

E esse discurso único não se impõe apenas à política cultural. É ele que confunde uma política para a agrícultura com dinheiro para o agronegócio; que centra a política urbana na construção habitacional a cargo das grandes construtoras; e outra coisa não fazem os gestores do Banco Central que não seja garantir o lucro dos bancos. Não há saída, não há outra alternativa, os senhores continuam dizendo, mesmo com o mercado falido, com a crise do capital obrigando-os a raspar o Tesouro Público no mundo todo para salvar a tal competência mercantil.

Pois bem, senhores, apesar do mercado, nós existimos. Somos nós que fazemos teatro, mas estamos condenados: não queremos e não podemos fabricar lucros. Não é essa a nossa função, não é esse o papel do teatro ou da cultura. Nós produzimos linguagens, alimentamos o imaginário e sonhos do que muitos chamam de povo ou nação; nós trabalhamos com o humano e a construção da humanidade. E isso não cabe em seu estreito mundo mercantil, em sua Lei Rouanet e seu programa único.

Nós somos a prova de que outro conceito de produtividade existe. Os senhores continuarão a tratar o Estado e a coisa pública apenas como assuntos privados e mercantis? Continuarão a negar nosso trabalho e existência? Continuarão a negar a arte ou a cultura que não se resumem a produtos de consumo?

Por isso, além do FNC, exigimos uma política pública para a cultura que contemple vários programas (e não um único discurso mercantil), com recursos orçamentários e regras democráticas, estabelecidos em lei como política de Estado para que todos os governos cumpram seu papel de Poder Executivo.

É esse diálogo que os Senhores se negam, sistematicamente, a fazer enquanto se dizem abertos ao debate. Debate do quê? Do incentivo fiscal. Mas nos recusamos a compartilhar qualquer discussão para maquiar a fraude chamada Lei Rouanet.

Queremos discutir o Fundo. Mas queremos, também, discutir outros programas e oferecemos, novamente, o projeto de criação do Prêmio Teatro Brasileiro como um ponto de partida. Os Senhores estão abertos a este diálogo?

Movimento 27 de Março

São Paulo, Dia Mundial do Teatro e do Circo

8 comentários:

Gerald Thomas disse...

Vc viu que o Boal foi nomeado Embaixador Mundial do Teatro?

Question: Onde fica nossa embaixada? Melhor. Onde fica a matriz? Onde fica o Itamaraty que julga essas coisas? Queria saber. Alias, queria saber d'um monte de coisas......Embaixador Mundial do Teatro.
Hmmmmm

Obrigado pelos Putos Veados mas faltou o Vagabundos.

eh o que somos. Quer dizer, como somos tratados.
Melhor assim

LOVE
G

viralata disse...

bah esqueci dos 'vagabundos' a melhor parte do 'tratamento'! hehehehe
Embaixada.. pfui... esse circo todo não nos representa, Boal? Chegamos no séc. XXI com outros questionamentos e novos 'problemas'...
beijo

Sandra disse...

Peço que Deus abençoe todos vocês, os "putos, veados e vagabundos" mais maravilhosos do mundo. É a Arte, e não a Ciência, que aproxima do Criador.

viralata disse...

Obrigado Sandra!
Embora Galileu e Brecht não concordem com você, heheheh!!! Mas o TEATRO é o fórum expecializado para discutir tudo isso!
Evoé!
Beijo

Glorinha disse...

Caetano...algumas palavras escritas ferem porque traduzem uma ignorância comprada com o tilintar de moedas...
Agradeço a vocês artistas que procuram entre cinzas do dinheiro mal empregado, das palavras mal editadas...oferecer algo maior e para o qual não há valor monetário que se possa contabilizar...
a arte...
[[]]

viralata disse...

É a nossa luta Glorinha! bjão

Penetralia disse...

Oi, Caetano. O manifesto colocou o diálogo dos pontos de partida de onde eu acho que o debate deve começar.

Eu vi esse lance do Boal, mas parece que ele foi escolhido a partir da França...

viralata disse...

tb acho Lúcio, este é um poto de partida no meio do caos!
Hummm mais um motivo para eu estranhar esta eleição! Estou com um 'bode' destes franceses que nem te conto! este ano frança no brasil é uma farsa!!!dinheiro que é bom nada, bom teve aquela fortuna para o carnaval deste ano né...
que preguiça desta historia toda!!!
abs lucio