26 de abr de 2009

O processo de criação de "Sansão e Dalila" em Manaus

Pois bem, hoje é a segunda récita da ópera "Sansão e Dalila" dirigida pelo mestre Emilio Sagi aqui no FAO em Manaus, onde assino a iluminação num projeto de cenografia sofisticadíssimo e de muitíssimo bom gosto dos meus queridos Leonardo Ceolin e Carlos Pedreañez (visitem o Blog deles "La Tintota" aqui).
Mais uma vez deixo a crítica dos meus trabalhos para os críticos e dou a minha visão do nosso processo de criação - coisa aliás que não sai em nenhum lugar - e que pouca gente toma conhecimento, a menos, claro, que seja amigo ou esteja próximo da gente nas barulhentas mesas dos restaurantes e bares pós-ensaios.

Se não me falha a memória, nestes 11 anos participando do FAO, acho que esta é a produção feita mais rapidamente por toda a equipe da Central Técnica de Produção (CTP), foram 10 dias para construir cenários e figurinos que só foram vistos na sua totalidade 1 dia antes do pré-geral! Coisa que evidentemente enlouqueceu o diretor espanhol Sagi, desacostumado com nosso 'descompasso' para urgências. Só na produção de "Siegfried" que chegamos perto deste 'recorde negativo', nem preciso dizer que o inglês Aidan Lang perdeu também a 'fleuma' por várias vezes.

Claro que como sempre tudo dá certíssimo no final e os estrangeiros saem daqui boquiabertos com aquele ar de "como eles conseguem?". E claro também que tudo sempre atrasa, adia, prorroga ou é simplesmente cancelado por um único motivo: BUROCRACIA!
Talvez vocês achassem que eu fosse falar que era falta de $, óbvio que com a crise o dinheiro faltou (e MUITO), mas se não fosse a burocracia ingrata e 'kafkiana' dos orgãos públicos de todas as esferas tudo poderia ter sido diferente. Como? Por exemplo, poderíamos saber bem antes qual a responsabilidade de cada 'apoiador' neste projeto imenso que é o FAO, ou ainda quanto e como ($) exatamente o comissariado francês e os responsáveis pela programação no Brasil estariam dispostos a bancar.
O consolo é que sei que não somos os únicos prejudicados 'nesta efeméride', vários projetos foram cancelados e outros tiveram de ser redimensionados por absoluta falta de verba, consideração ou falta de comunicação. Do nosso lado não é novidade para ninguém que foram canceladas as ópera "Le Cid", que seria dirigida por uma diretora francesa e "O Diálogo das Carmelitas" que seria dirigida por William Pereira num projeto lindo com o début no FAO da ''diva cabocla' (como bem disse João Luiz Sampaio) Adriane Queiróz. Quem perde com isso não é o 'ano frança no brasil' é o Brasil mesmo!

O OLHO ESPELHADO DO PÚBLICO

Mas voltando a "Sansão e Dalila", desde o começo a idéia do Emilio era que o público fosse 'jogado para dentro do palco' numa caixa de espelhos, praticamente sem objetos de cena (apenas no II Ato, um 'sofá-língua' e um 'lustre-escultura') tudo teria de refletir, digo literalmente, perigo e sedução. Para isso o teto desta caixa funcionaria como a 'íris de um olho', fechando e abrindo, focando e desfocando os acontecimentos, guiando o público para o que ver e como ver.
Existem óperas que assistimos apenas para saber como serão resolvidos determinadas complicações impostas pelos libretistas. Em "Siegfried", por exemplo, como o jovem tenor lutará com o Dragão, em "Lohengrin" como será a transformação do Cisne em Gottfried, em "Les Troyens" como entrará o Cavalo de Tróia (me aguardem, em breve mostrarei a minha versão aqui) e em "Sansão..." como cairão as Colunas do Templo.
Não seria supresa alguma se eu disse que o teto cai, literalmente digo!

O que menos interessa para Emilio Sagi são as barbas dos hebreus, as colunas 'físicas' do Templo ou o registro histórico e realista desta ópera. Me afino com esta linha de raciocínio, penso exatamente igual para as minhas criações, ninguém aguenta mais produções com ares de 'filme épico B'. O mais difícil é encontrar a 'alma' do espetáculo. Afinal de contas as referências do público contemporâneo são muito mais 'emergentes e dinâmicas' do que acreditam muitos encenadores 'amarrados a antigas fórmulas preguiçosas'.
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Abaixo, fotos de parte do processo, pré-geral e ensaio geral por Leonardo Ceolin e Carlos Pedreañez:
Meu assistente Moiséz Vasconcellos e eu (sentado), dentro do 'olho do público'





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Abaixo o olhar de Andres Costa que saiu de São Paulo somente para nos prestigiar e acompanhou todo o processo final de montagem:





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Abaixo fotos by Viralata:

O homem por trás de tudo o que realizamos no palco em "Sansão e Dalila", Emilio Sagi

Teste para a queda do teto na a cena final

Cúpula do Teatro Amazonas iluminada com os reflexos que vem do palco

Entrada do III Ato

Abertura do II Ato

25 de abr de 2009

Como diria o velho colunista: "sorry periferia!"

Folha de S.Paulo
São Paulo, sábado, 25 de abril de 2009

Mônica Bergamo
bergamo@folhasp.com.br


REFLETOR

Leonardo Wen/Folha Wen
Caetano Vilela trocou SP por Manaus até o final de maio; ele é o iluminador de todos os espetáculos do Festival Amazonas de Ópera e dirigirá "Os Troianos", montagem com quatro horas e meia de duração

21 de abr de 2009

A queda dos pilares (ou: no rock e na guerra com GT)

Pulo da cama mais cedo do que o habitual ainda pensando no ensaio pré-geral de ontem à noite de "Sansão e Dalila". Ainda não terminei as luzes da ópera e me falta o terceiro ato, justamente o terceiro ato onde Sansão 'se recupera e derruba os pilares' em cima da injustiça e da traição, destruindo tudo e todos!

Também atrasado coma as leituras dos blogs que acompanho diariamente vejo que faz uma semana que não 'visito' Gerald Thomas com sua lucidez anárquica e me dou conta que a resposta estava ali, no seu último post.
O rock e a guerra (que nos são ainda tão caros hoje), mostra que só com uma 'derrubada de pilares' se constrói uma nova era. Obama deu o primeiro passo, o que virá depois depende dos novos aliados e ex-adversários.
Agora já sei o que fazer no último ato da ópera, depois eu conto.

Leia o texto na íntegra do Blog do Gerald:
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We Won’t Get Fooled Again! (The Who)



Obama propõe “novo começo” a Cuba

Na abertura da Cúpula das Américas, presidente americano prossegue o xadrez de reaproximação com inimigo da Guerra Fria. Como Raúl Castro, ele diz querer diálogo direto, mas não “falar por falar” aos vizinhos. Diz que EUA não podem ser culpados de tudo.


Querem saber? Estou feliz nesse momento. Cuba não representa nada. Uma reaproximação com a Ilha poderá, no máximo, tirar a “tirania” (nossa, que português horrível!) do poder e reestabelecer os mínimos, que sejam, valores democráticos à Havana.

Que seja! Mas não seremos enganados de novo, como berrava, girava com sua guitarra, Pete Townsend em “We Won’t Get Fooled Again”. Aliás, não há nada como os deuses do Rock. Eles nos inspiram até hoje.

Quando leio o mundo de hoje, leio isso: um setor INVESTIGA O OUTRO! Parece um Kafka mal resolvido ou um Orwell mal sentenciado. Todos investigando todos. Aqui em New York temos os escândalos óbvios, mas temos a LUZ de Obama! Kafka pediu que se queimasse sua obra. Graças a Max Brod, seu grande amigo, nós a temos! Orwell reportava da Guerra Civil Espanhola, onde Franco queimava uma Espanha desunida. Chamas! Fogo! Uma era se vai.

Penso como era essa era: eu ia ao Filmore East e via o Hendrix de perto. Lá a única coisa que investigávamos era a genialidade do cara! E a nova era. Qual nova era? Pois. Agora em retrospecto, já que estamos todos mortos (porém felizes), a era de uma superhomem-idade/andróginia e PAZ, sim, a paz. NÃO, NÃO POSSO RIR ENQUANTO DIGITO!!!! Eu via o Cream tocando no Marquee, na Wardour Street e tento não rir. É que Eric Clapton e Jack Bruce e Ginger Baker não se falavam na vida real. Mas éramos todos do “bem” e do “amor” e não queríamos saber que EXISTIA a flor do mal, ou melhor, o MAL, e que CUBA, essa mesma, a da Revolução de Sierra Maestra, era ‘mocked” (satirizada) pela Carnaby Street e pelas lojas aqui da Saint Mark’s Place, nas tirinhas de Jules Feiffer e nas tironas de Crumb! Ah o mundo!!!

Não posso chorar enquanto digito! Eu era aquele que catalogava os mortos, desaparecidos, exilados, mutilados, etc. na Amnesty International em Londres na década de 70, poucos anos depois de ver o Hendrix ao vivo. A Bibba, loja incrível, tinha acabado de fechar as portas na High Street Kensington e “Blow Up” (de Antonioni, com Jimmy Page e Jeff Beck) estava nas telas. Nova era BIPOLAR. Na Bibba o que se mais vendia era uma camiseta com a cara de Che estampada enorme, em autocontraste! E Mao também!

Deixei uma de minhas “ex”, a modelo americana Ellen Kaplan, plantada em Viena e voltei para Londres, arrombei meu próprio carro (teto de lona, era um MG, que eu deixava estacionado no aeroporto de Heathrow) para não perder o show do Led Zeppelin no Earl’s Court Arena.

Foi a maior e melhor coisa que já vi. Nunca nada igual. EVER! Meu olho ficava nas mãos de John Bonham (morto), no ritmo que saía “daquilo”, porque no Rio, quando jovem, eu havia subido a Mangueira e sabia o que era um SAMBA! E como sabia! E meu outro olho ficava na guitarra de Page imaginando o inimaginável, porque em “Kashmir” todas as sinfonias se reuniam, de Beethoven até Cezar Frank. Até mesmo uma Ária de Wagner estava lá. Kashmir ainda é o maior problema entre o Paquistão e a India (ambas nações nucleares, nuclearizadas!) e, digamos assim, a constante “missile crisis” ou em estado de “Bay of Pigs”, da região deles, delas. Entra ano, sai ano, Paquistaneses, independetistas e Indianos brigam por Kashmir. E eu, eu aqui, usando um cachecol de cachemera…. Mas não! Esse é de ovelha escocesa! Sim, na época, todos quebravam suas guitarras, colocavam fogo nelas! (óbvio, nada como o capitalismo dentro da contracultura: haviam outras novinhas lá atrás). Ah, o mundo!!! As vacas sagradas da India e as vacas abatidas em Cuba! O fazendeiro que mais abatia vacas em Cuba era capa do jornal cubano que quase provocou o love affair entre Nikita Khrushchev e Kennedy, lembram? Sapatos histéricos na ONU e tudo? Éramos ou tentavamos ser vegetarianos (comiamos carne escodidos uns dos outros nos subsolos ou nos porões da contracultura: ou seja, oito andares abaixo no nivel da terra: fundo demais até para poder respirar, éramos nós e os ratos).

E agora? E AGORA? Depois de Hendrix, Zeppelin, Who, Cream… essas bandinhas de merda DE HOJE usam a mesma cozinha, a mesma merda reciclada. Não é à toa que se ouve mais Rolling Stones que nunca, mais… ah não, deixa! Um dia o Sting falou assing (com g no final mesmo, porque tudo que ele diz tem g no fim): “Lennon was nothing. Ringo was everything. Pay attention to the Beat”. Era tudo rubbish. Sting só fala bobagem, assim como eu. Mas o Police era o máximo! Não, não era não! Não era nada, comparado às bandas de antes! Música e Política. Alquimia e Religião (Carl Jung), Pintura e Revolução (Barthes, que nada), podemos juntar as partes de um quebra-cabeça de um Guatary que nunca houve ou qualquer tratado surrealista de Breton: nada será como antes: A LUZ de OBAMA ! Estamos vendo o desempenho de um novo PRESIDENTE.

QUE LOUCURA ESSES PRIMEIROS CEM DIAS!!!! O animado xadrez político-diplomático que virou a distensão das relações entre EUA e Cuba, congeladas por quase meio século, ganhou lances decisivos nas últimas horas e dominou a abertura da 5ª Cúpula das Américas, ontem em Trinidad e Tobago. Em discurso na abertura da cerimônia, Barack Obama disse que os Estados Unidos buscavam “um novo começo” com Cuba.
“Eu sei que há uma longa jornada que precisa ser percorrida para ultrapassar décadas de desconfiança, mas há passos críticos que nós podemos tomar em direção a um novo dia”, afirmou. “Eu já mudei políticas em relação a Cuba que fracassaram em avançar a liberdade do povo cubano”, continuou, referindo-se à recente decisão de liberar viagens, remessa de dinheiro e comunicações entre cubano-americanos e seus parentes na ilha caribenha.
Em resposta à declaração da véspera, de Raúl Castro, que se disse disposto a conversar sobre “tudo” com os EUA, ele afirmou: “Deixe-me ser claro: não estou interessado em falar apenas por falar. Mas eu acredito que nós podemos levar a relação entre EUA e Cuba para uma nova direção.”



Sênior e júnior

Não há mesmo! Somos todos juniors. Ou então, estamos mortos. Se não estamos ABERTOS PARA MUDANÇAS, melhor nos considerarmos mortos.

Viva Obama, por ter a coragem de abrir novas fronteiras e quebrar paradigmas retóricos! Afinal, Cuba em si, nada significa além do nada. Quanto às bandas de rock, estamos ávidos – assim como em todas as outras artes – para termos um BARACK OBAMA DO ROCK!!!!!

Gerald Thomas

16 de abr de 2009

A Voz do Brasil (ou: a minha primeira indicação no mundo lírico)

Estou chocado, acabei de ser indicado ao "XII Prêmio Carlos Gomes de Ópera e Musica Erudita" na categoria de Iluminação pelas óperas "Ça Ira" e "Ariadne auf Naxos" que realizei no Festival Amazonas de Ópera no ano passado. Concorro com os meus talentosos amigos Jorge Takla e Beto Bruel!
Estou muitíssimo bem acompanhado também nas outras indicações, artistas da maior grandeza como Luiz Fernando Malheiro, Celine Imbert, Renato Theobaldo, Roberto Rolnik, Leonardo Neiva e muitos outros também concorrem ao prêmio.

Foram 30 especialistas do mundo lírico que escolheram três artistas de cada categoria e agora cabe a um corpo de jurados de cerca de 200 pessoas em todo o Brasil e também uma votação popular pela internet. Esta todos podem votar é só entrar aqui!


"Ça Ira", ópera de Roger Waters que foi um grande sucesso no ano passado em Manaus, dirigi, iluminei e ainda contei com a presença, aprovação e amizade de Waters!


Minha versão 'rock'n roll' para "Ariadne auf Naxos", sucesso com críticos europeus (destaque na imprensa francesa e alemã) e minha homenagem ao quarteto roqueiro Kiss

15 de abr de 2009

Foi dada a largada para o IBTT

Já havia falado por aqui da criação do importante IBTT (Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral) e da pedra fundamental que foi lançada em São Paulo no dia 06 de abril (infelizmente com minha viagem para Manaus não pude estar presente), pois agora recebo da Claudia Gomes, Diretora de Divulgação do Instituto, um release que dá conta de como foi tudo por lá. Sucesso é claro!
Recebi muitos e-mails de técnicos e interessados nesse fórum de discussão que promete ser um oásis na pasmaceira técnica brasileira, sempre tão desorganizada e mais preocupada em 'manter' os seus espaços funcionando do que em se atualizar com o que de melhor acontece no Brasil e no exterior.
Claro que a nossa realidade é bem particular e só em saber que existem tantas salas, teatros e espaços em funcionamento graças a boa vontade de tantos técnicos, que nos são tão caros, isso já é sinal de vitória. Mas vamos combinar que o aprimoramento do nosso conhecimento é fundamental para oferecermos ao público sempre o melhor espetáculo.
Mais uma vez, meu carinho aos queridos Milton e Ney Bonfante pela empreitada e por estarem à frente de algo tão importante e que só colherão os resultados concretos num futuro próspero!
Evoé!!!

O BRASIL JÁ TEM SEU INSTITUTO DE TECNOLOGIA TEATRAL

Beto Bruel, Milton Bonfante e Guto Gevaerd/Fotógrafo: Vinícius Feio

No dia 6 de abril de 2009, no Teatro do Ator, na Praça Roosevelt, em São Paulo foi criado oficialmente o Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral - IBTT. Como o endereço oficial do encontro teve sua lotação esgotada durante as reservas, a produção do evento utilizou-se do teatro Studio 184, ao lado, e com transmissão simultânea acomodou o público extra. A mesa de cerimônia de criação do IBTT foi assistida por 246 pessoas e dirigida pelo diretor teatral paulista Jamil Dias. Às 19h10 Jamil deu início à cerimônia chamando à mesa Mariza Porto - Senac SP; Sergio Pinto - Sesc SP; Sergio de Azevedo - Fundação das Artes de São Caetano do Sul - Fascs; Ligia de Paula - Sated SP; Renato Mussa - Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Cultura e Mauro Martorelli - Fundação Nacional do Teatro / Funarte SP.

Através de leitura de carta de intenções Jamil Dias relatou um pouco da história do IBTT que teve início "na feira ExpoMusic de 2004 na cidade de São Paulo com uma mesa redonda organizada por um grupo de iluminadores". O grupo cresceu rapidamente e chamou a atenção de pessoas de todo Brasil. Uma proposta de trabalho que nasceu singela, mas que deu ótimos resultados gerou um grupo para Estudo, Pesquisa e História da Iluminação Cênica. Inevitável que "entre suas conquistas e realizações estivesse o I Congresso Brasileiro de Iluminação Cênica em Setembro de 2005, em São Caetano do Sul na Fascs". Jamil Dias lembrou também que além de cursos, palestras, publicações e encontros públicos este grupo de pessoas chegou "à mesma feira ExpoMusic, mas agora já estávamos em setembro de 2008 e as mesas redondas trouxeram profissionais de todo o Brasil. Ali foram lançadas as bases de um trabalho conjunto sobre Tecnologia Teatral", atraindo o interesse de cenógrafos, figurinistas e sonoplastas. Com a ampliação da área de interesse e atuação do grupo era imperioso fazer-se maior, com propostas pensamento e preocupações mais abrangentes, e movidos por interesses coletivos e "em dezembro de 2008 foi criado o fórum de discussão do IBTT, na internet".

Com todas as cadeiras do teatro ocupadas Jamil Dias explicou que "no fórum as pessoas interessadas em discutir pontos relevantes da sua atividade, em expor suas dúvidas, suas pesquisas, buscar soluções para problemas encontrados no cotidiano da prática teatral, encontraram um veículo bastante efetivo para as suas trocas de informações". Além do fórum de discussão, nesses quatro meses, o grupo recolheu acervo de revistas, livros, teses acadêmicas, manuais, programas de teatro, apostilas e um respeitável banco de imagens tornando-se uma das maiores bibliotecas brasileiras sobre o assunto. O IBTT também pretende atuar na área de formação profissional, "pois conta em seus quadros com inúmeros docentes de várias universidades brasileiras e estes discutem, hoje, a implementação de um curso de ensino a distância para tecnologia teatral".

Jamil Dias descreveu ainda que "os planos de ação cultural do IBTT não param por ai, pois junta-se a estes, uma revista, uma newsletter, um website, cursos e outros seminários, mas principalmente o mapeamento de nossa realidade cultural tão diversa e rica. Tudo para que possamos contribuir para a elaboração de um pensamento nacional sobre o tema".

O momento mais emocionante do cerimonial de criação do IBTT aconteceu quando Jamil Dias disse que "são 19 horas e 26 minutos do dia 6 de abril de 2009, na cidade de São Paulo. Está criado oficialmente o Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral". A platéia dos dois teatros veio abaixo com emocionados aplausos. O Brasil finalmente tem seu Instituto de Tecnologia Teatral, que trás em seu bojo uma longa história de conquistas coletivas. Com sabedoria Jamil Dias levou os presentes à reflexão: "Nós sabemos que ainda há muito a fazer para atender os nossos anseios de cultura e conhecimento, nossas necessidades educacionais, de formação e plena capacitação de profissionais, para gerar e construir os nossos projetos, para suprir os nossos sonhos e a nossa infinita necessidade de realização".


Em seguida foram chamados a prestar seus depoimentos cada um dos representantes das Instituições convidadas. Com o apoio de todos os presentes a grande platéia pode vislumbrar um futuro um pouco melhor para as artes cênicas brasileiras e compreender a urgente necessidade de aproximar para um saudável e respeitoso diálogo os artistas que compõem as atividades cênicas denominadas Tecnologia Teatral.


Entre as moções de apoio, há que se destacar o da presidenta do Sated, Ligia de Paula lembrando que "a mesma data que a partir de agora irá comemorar a criação do IBTT comemora o nascimento de Cacilda Becker, considerada um mito do teatro brasileiro. Fato ocorrido em 6 de abril de 1921", portanto o teatro brasileiro tem agora duplo motivo para comemorar o dia 6 de abril.

Depois de um breve intervalo teve início o Seminário sobre Iluminação e Trilha Sonora para Espetáculos. Primeiro evento público do IBTT.
A platéia que se aglomerou na Praça Roosevelt desde as 16h30 viu sob a mediação do iluminador paulista Milton Bonfante, os artistas paranaenses Beto Bruel e Guto Gevaerd. Com propriedade descreveram seus métodos de trabalho, dificuldades e soluções técnicas para a criação respectivamente da Iluminação e Trilha Sonora dos espetáculos Não sobre o Amor e Avenida Dropsie, ambos da Sutil Companhia de Teatro, dirigida por Felipe Hirsch.

Em meio a várias câmeras de vídeo que registraram o evento, registros fotográficos, entrevistas, presença do Canal Brasil de televisão e anotações atentas de inúmeros alunos universitários o público que lotou o evento pode conhecer os bastidores dessas premiadas produções. O Beto Bruel ilustrou sua fala com fotografias e vídeos gravados desde os ensaios que aconteceram em Curitiba, durante dois meses, no barracão de sua empresa de iluminação. O Guto Gevaerd demonstrou através da utilização de 4 CD player como foi mixada a trilha sonora e contou um pouco de suas experiência já no Teatro do Sesi, durante os 23 dias de ensaios.


A pesquisa musical de Guto foi baseada no compositor russo Anton Stepanovich Arensky para o Não sobre o Amor e músicas do início do século XX para Avenida Dropsie, uma vez que o sonoplasta tentou reproduzir o mesmo universo das histórias de Will Eisner - autor das histórias em quadrinhos em que o espetáculo foi inspirado. No local dos ensaios em Curitiba todas as dimensões de palco foram reproduzidas para Avenida Dropsie e o cenário de Não sobre o Amor foi montado, assim Beto pode experimentar a iluminação. Mas "ao chegar ao teatro nem sempre as coisas são como parecem e para complicar um pouco tínhamos na boca de cena um screen que foi um desafio a mais. Como iluminar o espetáculo, sem nenhuma luz de frente"?


Beto resolveu tão bem o problema que seu trabalho recebeu um Prêmio Shell de melhor iluminação, para cada projeto. Enquanto Beto revelava segredos de bastidores e soluções técnicas inimagináveis, Guto demonstrava algumas mixagens nos 4 players, como quando juntou Ramones com Canto Gregoriano e explicou que a dificuldade de manter precisão o obrigou a usar 4 players. O resultado foi impressionante, ainda mais quando ele detalhou a distribuição do som nas caixas e a divisão entre voz e trilha no fundo e frente do teatro. Uma habilidade e sensibilidade que exigiu a seleção de mais de 15 CD's originais para completar a pesquisa e alcançar o resultado final da Trilha Sonora.


Entre as inúmeras perguntas que chegavam da platéia dos dois teatros Milton Bonfante ressaltou um aspecto no trabalho dos dois artistas: "O resultado foi brilhante porque a tecnologia foi considerada depois, e somente depois de existir o pensamento sobre a obra. Depois da pesquisa, da problematização estética, dramaturgica e também depois do diálogo entre todas as áreas criativas. O equipamento utilizado pode até ser considerado obsoleto, o que prova que para um bom resultado artístico o equipamento considerado top de linha pode existir, mas não é indispensável. Indispensável são a sensibilidade e criatividade dos artistas".


Guto, ao descrever seu processo de trabalho, revelou como chegou à conclusão que a Trilha Sonora necessitava, além do tema, muitos ruídos, passos, barulhos de portas, etc e como estes eram integrados à cena. O resultado foi sendo construído no dia a dia e alimentado pelo diálogo com toda equipe criativa, pois “o trabalho em teatro facilita muito a compreensão de que o criador faz parte de uma equipe e deve trabalhar integrado. E neste sentido a Sutil pode ser considerado um exemplo”. A equipe está junta a muito tempo e este relacionamento colaborativo é a nossa marca". Beto ressaltou ainda que deve haver liberdade para palpites, deve haver intimidade e lembrou de interessante episódio acontecido durante seu recente trabalho com Fernanda Montenegro: "o Felipe Hirsch me disse que no espetáculo que fizemos com a Fernanda, a Daniela Thomaz fez a luz, ele fez o cenário e eu disse ao Felipe... então, deixa eu colocar uma música para participar".


Os desafios para obter um bom resultado na iluminação foram inúmeros. O screen deveria estar muito bem esticado e não poderia haver nenhuma incidência de luz direta sobre ele, com agravante que o espaço utilizado pelos atores no Avenida Dropsie foi restrito a poucos metros - quase que somente sobre a grelha onde acontecia a chuva - o que diminuía muito os ângulos de luz que pudessem ser utilizados. Como os atores eram iluminados somente pelas laterais, Beto ainda teve que "recorrer ao diálogo mais afinado com o elenco para que um ator, ao movimentar-se, não criasse sombra em outro ator". Resultado que mereceu prêmio de iluminação e usou e abusou do uso de barndoor, cinefoil e perna de tecido extra nas laterais.


O encontro foi encerrado com os depoimentos de Beto, Guto e Milton acerca da importância da criação de cursos técnicos federais para capacitação de nossos profissionais. Esta formação cultural dará condições para que nossos profissionais sejam melhores reconhecidos, valorizados e possam se relacionar de igual para igual com todas as áreas criativas desta atividade artística em que estão inseridos. Não podemos esperar que o Estado cumpra com sua obrigação, pois sabemos que a administração pública está muito longe de compreender verdade tão simples. A sociedade civil está se mobilizando através da iniciativa do IBTT e esta iniciativa deve ser apoiada com a participação crítica de todos interessados.


O público deixou as dependências dos dois teatros aos poucos, lentamente, como se desejassem perpetuar aquele momento. Mas os grupinhos que se formaram para troca de e-mails e telefones reforçaram o expressivo sorriso e a certeza de um até breve!


Claudia Gomes
Diretora de Comunicação IBTT – SP

12 de abr de 2009

Mais um 'Viralata' para o time

Apresento para vocês o mais novo 'Viralata' colaborador deste Blog, trata-se do fotógrafo profissional Jefferson Pancieri. Velho amigo e parceiro em muitas produções teatrais e operísticas, Jefferson começou a fotografar teatro comigo e daí para 'outros olhares' foi um pulo!
Sempre nos encontramos e trocamos figurinhas sobre fotos e artes em geral (parte do seu trabalho você vê aqui!) e como somos fãs da cidade de São Paulo e sua caótica urbanidade juntamos nossas energias para registrar ensaios sobre os graffites, pixações e grafismos espalhados por toda a cidade. Sendo assim a série que publico eventualmente com o título "Olhar Urbano" vai ganhar agora mais frequência e também se estenderá por mais regiões e sempre será identificada a autoria do ensaio (ou seja: eu ou ele) já que Jefferson 'bate' mais perna do que eu por aí e, claro, é um profissional e não um simples amador como este destas mal tecladas linhas.
Benvindo querido, o espaço é nosso!
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"OLHAR URBANO" by Jefferson Pancieri (colaborador)

"Antenado", graffiti no bairro da Aclimação/São Paulo-SP


"Atlas, o Titã da Liberdade", o traço inconfundível dos "osgêmeos" graffiti no bairro da Liberdade/São Paulo-SP

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Mais você pode ver também no "Viralata Reloaded".

8 de abr de 2009

Primeiro Sinal: "Sansão e Dalila" em Manaus

O maestro Luiz Fernando Malheiro e o diretor cênico espanhol Emilio Sagi, no palco do teatro Amazonas durante ensaio, foto by Viralata

Pois bem, os ensaios da nova produção de "Sansão e Dalila", que abre o XIII FAO deste ano estão a todo vapor! O maestro Luiz Fernando Malheiro e o 'metteur-en-scène' Emilio Sagi estão no comando desta que será a mais internacional produção do Festival desde a histórica tetralogia wagneriana produzida por aqui!
Cantores destacados mundialmente e com sólida carreira internacional (Nancy Fabiola-Herrera, Michael Hendrick, Jérôme Varnier e Jean Philippe Lafond) mais alguns brasileiros em ascensão (Sávio Sperandio entre eles) estão na cidade deste o começo da semana ainda se acostumando com o sol, a chuva, o ar condicionado e o ritmo dos ensaios.

Já disse aqui que Emilio Sagi estava em Paris dirigindo uma estréia mundial de "Die Fenn" de Wagner, e veio direto do Théâtre du Châtelet para o Teatro Amazonas. A crítica de sua produção francesa saiu na semana passada no "NYTimes" e foi 'warmly recommended' (recomendada calorosamente) pelo jornal. Emílio também se saiu bem na 'mise-en-scène' onde seus 'toques criativos' foram bem destacados pela crítica, numa produção extremamente onírica com requintes 'kitsh' levados ao extremo.
A crítica na íntegra você lê aqui:
http://www.nytimes.com/2009/04/01/arts/01iht-loomis.html?scp=4&sq=emilio%20sagi&st=cse
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P.S.: A única nota dissonante até agora foi o cancelamento de dois títulos ("Le Cid" e "Diálogo das Carmelitas") por falta de dinheiro, respeito, atenção de entidades governamentais para com um Festival tão importante, lentidão com todo o processo deste evento entitulado "França no Brasil", e muitos 'etc' que em breve, de 'cuca fresca' eu falarei.

5 de abr de 2009

Inté e Fé!

"Pode ir armando o coreto que tô chegando". Neste exato momento estou numa conexão com espera de três horas (!) em Brasília para chegar em Manaus. De-tes-to este aeroporto brasiliense (acima, by Viralata), já peguei diversas conexões por aqui e é sempre horrível: apertado, barulhento com constantes mudanças de 'posicionamento da aeronave' o que nos faz subir e descer escadas pra cima e pra baixo... gosh!

Saí bem atabalhoado de São Paulo sem muito tempo para fazer tudo o que planejei e sem ver tudo o que programei, pelo menos estive presente ontem no aniversário de seis anos do meu sobrinho (que ao me perguntar o tamanho do meu amor por ele, antes da minha resposta já me disse que tem de ser "infinito", ah, crianças por vezes elas são assustadoramente complexas!!!).
Volto na primeira semana de junho e me preparo para outra mudança: finalmente desenrolou a venda do meu apartamento (dependo agora de burocracias bancárias que levarão mais 40/60 dias) e saio, depois de 17 anos, do centro da cidade. Cada vez mais acredito que o centro é para jovens ou (com certeza) 'artistas fomentados'. Tô fora! Digo depois se será melhor ou pior, mas antecipo que por enquanto acho que será bom.

De Manaus, mandarei notícias sobre o XIII Festival Amazonas de Ópera (FAO) e a minha 11º participação. Como minha 'vida manauara' nos últimos anos tem se resumido ao périplo 'hotel-teatro' (destesto imersões na selva e passeios exóticos, nunca fui!) devo confessar aos meu poucos visitantes que o tema dos posts nos próximos meses pode ser um pouco massante (ópera)... veremos.
Inté e Fé amigos.
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Acima, da série "Olhar Urbano" (foto by Viralata), esse Mister Magoo perdido na subida da Av.Angélica/SP. Achei a minha cara, hehehe!

1 de abr de 2009

Um fórum para discutir a 'Tecnologia Teatral'

Queridos amigos artistas e técnicos, uma das maiores carências em nosso meio é com relação a cursos, palestras e workshops sobre temas mais técnicos de um espetáculo.
Hoje são raríssimos os cursos de alto nível na área de iluminação, cenografia, figurino e sonoplastia, mas parece que esta carência será no mínimo diminuida com a criação do IBTT (Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral), um fórum - do qual também faço parte - para discutir exatamente temas relacionados a essas áreas e mantido "sem cnpj, sem site e com muita cara de pau" pelos irmãos Bonfante (artistas da LUZ) que 'iluminam' discussões tão valiosas para quem vive da "construção de sonhos".

Muita gente experiente, premiada, esforçada, etc..., juntaram-se a esse fórum virtual. Gente como os meus companheiros de trabalho multi talentosos Beto Bruel (iluminador) e Guto Gevaert (sonoplasta) ambos da "Sutil Companhia de Teatro" que mostrarão um pouco dos bastidores de espetáculos como "Avenida Dropsie" e "Não Sobre o Amor", num Seminário que servirá também para lançar oficialmente o IBTT.
Infelizmente não poderei estar presente, minha ida para Manaus está mais do que atrasada, mas acompanharei de perto todos os passos deste Instituto que, tenho certeza, só trará benefícios para quem vive do ofício.
EVOÉ!!!

P.S.: Visite também a página do grupo:
http://br.groups.yahoo.com/group/InstitutoBrasileiro/
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Se Joga:
SEMINÁRIO SOBRE ILUMINAÇÃO E TRILHA SONORA PARA ESPETÁCULOS
Teatro do Ator - Praça Roosevelt, 172 - São Paulo, SP
06 de Março - 19h - Evento gratuito
(11) 3289-3403 - claudiafariasgomes@gmail.com