15 de abr de 2009

Foi dada a largada para o IBTT

Já havia falado por aqui da criação do importante IBTT (Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral) e da pedra fundamental que foi lançada em São Paulo no dia 06 de abril (infelizmente com minha viagem para Manaus não pude estar presente), pois agora recebo da Claudia Gomes, Diretora de Divulgação do Instituto, um release que dá conta de como foi tudo por lá. Sucesso é claro!
Recebi muitos e-mails de técnicos e interessados nesse fórum de discussão que promete ser um oásis na pasmaceira técnica brasileira, sempre tão desorganizada e mais preocupada em 'manter' os seus espaços funcionando do que em se atualizar com o que de melhor acontece no Brasil e no exterior.
Claro que a nossa realidade é bem particular e só em saber que existem tantas salas, teatros e espaços em funcionamento graças a boa vontade de tantos técnicos, que nos são tão caros, isso já é sinal de vitória. Mas vamos combinar que o aprimoramento do nosso conhecimento é fundamental para oferecermos ao público sempre o melhor espetáculo.
Mais uma vez, meu carinho aos queridos Milton e Ney Bonfante pela empreitada e por estarem à frente de algo tão importante e que só colherão os resultados concretos num futuro próspero!
Evoé!!!

O BRASIL JÁ TEM SEU INSTITUTO DE TECNOLOGIA TEATRAL

Beto Bruel, Milton Bonfante e Guto Gevaerd/Fotógrafo: Vinícius Feio

No dia 6 de abril de 2009, no Teatro do Ator, na Praça Roosevelt, em São Paulo foi criado oficialmente o Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral - IBTT. Como o endereço oficial do encontro teve sua lotação esgotada durante as reservas, a produção do evento utilizou-se do teatro Studio 184, ao lado, e com transmissão simultânea acomodou o público extra. A mesa de cerimônia de criação do IBTT foi assistida por 246 pessoas e dirigida pelo diretor teatral paulista Jamil Dias. Às 19h10 Jamil deu início à cerimônia chamando à mesa Mariza Porto - Senac SP; Sergio Pinto - Sesc SP; Sergio de Azevedo - Fundação das Artes de São Caetano do Sul - Fascs; Ligia de Paula - Sated SP; Renato Mussa - Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Cultura e Mauro Martorelli - Fundação Nacional do Teatro / Funarte SP.

Através de leitura de carta de intenções Jamil Dias relatou um pouco da história do IBTT que teve início "na feira ExpoMusic de 2004 na cidade de São Paulo com uma mesa redonda organizada por um grupo de iluminadores". O grupo cresceu rapidamente e chamou a atenção de pessoas de todo Brasil. Uma proposta de trabalho que nasceu singela, mas que deu ótimos resultados gerou um grupo para Estudo, Pesquisa e História da Iluminação Cênica. Inevitável que "entre suas conquistas e realizações estivesse o I Congresso Brasileiro de Iluminação Cênica em Setembro de 2005, em São Caetano do Sul na Fascs". Jamil Dias lembrou também que além de cursos, palestras, publicações e encontros públicos este grupo de pessoas chegou "à mesma feira ExpoMusic, mas agora já estávamos em setembro de 2008 e as mesas redondas trouxeram profissionais de todo o Brasil. Ali foram lançadas as bases de um trabalho conjunto sobre Tecnologia Teatral", atraindo o interesse de cenógrafos, figurinistas e sonoplastas. Com a ampliação da área de interesse e atuação do grupo era imperioso fazer-se maior, com propostas pensamento e preocupações mais abrangentes, e movidos por interesses coletivos e "em dezembro de 2008 foi criado o fórum de discussão do IBTT, na internet".

Com todas as cadeiras do teatro ocupadas Jamil Dias explicou que "no fórum as pessoas interessadas em discutir pontos relevantes da sua atividade, em expor suas dúvidas, suas pesquisas, buscar soluções para problemas encontrados no cotidiano da prática teatral, encontraram um veículo bastante efetivo para as suas trocas de informações". Além do fórum de discussão, nesses quatro meses, o grupo recolheu acervo de revistas, livros, teses acadêmicas, manuais, programas de teatro, apostilas e um respeitável banco de imagens tornando-se uma das maiores bibliotecas brasileiras sobre o assunto. O IBTT também pretende atuar na área de formação profissional, "pois conta em seus quadros com inúmeros docentes de várias universidades brasileiras e estes discutem, hoje, a implementação de um curso de ensino a distância para tecnologia teatral".

Jamil Dias descreveu ainda que "os planos de ação cultural do IBTT não param por ai, pois junta-se a estes, uma revista, uma newsletter, um website, cursos e outros seminários, mas principalmente o mapeamento de nossa realidade cultural tão diversa e rica. Tudo para que possamos contribuir para a elaboração de um pensamento nacional sobre o tema".

O momento mais emocionante do cerimonial de criação do IBTT aconteceu quando Jamil Dias disse que "são 19 horas e 26 minutos do dia 6 de abril de 2009, na cidade de São Paulo. Está criado oficialmente o Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral". A platéia dos dois teatros veio abaixo com emocionados aplausos. O Brasil finalmente tem seu Instituto de Tecnologia Teatral, que trás em seu bojo uma longa história de conquistas coletivas. Com sabedoria Jamil Dias levou os presentes à reflexão: "Nós sabemos que ainda há muito a fazer para atender os nossos anseios de cultura e conhecimento, nossas necessidades educacionais, de formação e plena capacitação de profissionais, para gerar e construir os nossos projetos, para suprir os nossos sonhos e a nossa infinita necessidade de realização".


Em seguida foram chamados a prestar seus depoimentos cada um dos representantes das Instituições convidadas. Com o apoio de todos os presentes a grande platéia pode vislumbrar um futuro um pouco melhor para as artes cênicas brasileiras e compreender a urgente necessidade de aproximar para um saudável e respeitoso diálogo os artistas que compõem as atividades cênicas denominadas Tecnologia Teatral.


Entre as moções de apoio, há que se destacar o da presidenta do Sated, Ligia de Paula lembrando que "a mesma data que a partir de agora irá comemorar a criação do IBTT comemora o nascimento de Cacilda Becker, considerada um mito do teatro brasileiro. Fato ocorrido em 6 de abril de 1921", portanto o teatro brasileiro tem agora duplo motivo para comemorar o dia 6 de abril.

Depois de um breve intervalo teve início o Seminário sobre Iluminação e Trilha Sonora para Espetáculos. Primeiro evento público do IBTT.
A platéia que se aglomerou na Praça Roosevelt desde as 16h30 viu sob a mediação do iluminador paulista Milton Bonfante, os artistas paranaenses Beto Bruel e Guto Gevaerd. Com propriedade descreveram seus métodos de trabalho, dificuldades e soluções técnicas para a criação respectivamente da Iluminação e Trilha Sonora dos espetáculos Não sobre o Amor e Avenida Dropsie, ambos da Sutil Companhia de Teatro, dirigida por Felipe Hirsch.

Em meio a várias câmeras de vídeo que registraram o evento, registros fotográficos, entrevistas, presença do Canal Brasil de televisão e anotações atentas de inúmeros alunos universitários o público que lotou o evento pode conhecer os bastidores dessas premiadas produções. O Beto Bruel ilustrou sua fala com fotografias e vídeos gravados desde os ensaios que aconteceram em Curitiba, durante dois meses, no barracão de sua empresa de iluminação. O Guto Gevaerd demonstrou através da utilização de 4 CD player como foi mixada a trilha sonora e contou um pouco de suas experiência já no Teatro do Sesi, durante os 23 dias de ensaios.


A pesquisa musical de Guto foi baseada no compositor russo Anton Stepanovich Arensky para o Não sobre o Amor e músicas do início do século XX para Avenida Dropsie, uma vez que o sonoplasta tentou reproduzir o mesmo universo das histórias de Will Eisner - autor das histórias em quadrinhos em que o espetáculo foi inspirado. No local dos ensaios em Curitiba todas as dimensões de palco foram reproduzidas para Avenida Dropsie e o cenário de Não sobre o Amor foi montado, assim Beto pode experimentar a iluminação. Mas "ao chegar ao teatro nem sempre as coisas são como parecem e para complicar um pouco tínhamos na boca de cena um screen que foi um desafio a mais. Como iluminar o espetáculo, sem nenhuma luz de frente"?


Beto resolveu tão bem o problema que seu trabalho recebeu um Prêmio Shell de melhor iluminação, para cada projeto. Enquanto Beto revelava segredos de bastidores e soluções técnicas inimagináveis, Guto demonstrava algumas mixagens nos 4 players, como quando juntou Ramones com Canto Gregoriano e explicou que a dificuldade de manter precisão o obrigou a usar 4 players. O resultado foi impressionante, ainda mais quando ele detalhou a distribuição do som nas caixas e a divisão entre voz e trilha no fundo e frente do teatro. Uma habilidade e sensibilidade que exigiu a seleção de mais de 15 CD's originais para completar a pesquisa e alcançar o resultado final da Trilha Sonora.


Entre as inúmeras perguntas que chegavam da platéia dos dois teatros Milton Bonfante ressaltou um aspecto no trabalho dos dois artistas: "O resultado foi brilhante porque a tecnologia foi considerada depois, e somente depois de existir o pensamento sobre a obra. Depois da pesquisa, da problematização estética, dramaturgica e também depois do diálogo entre todas as áreas criativas. O equipamento utilizado pode até ser considerado obsoleto, o que prova que para um bom resultado artístico o equipamento considerado top de linha pode existir, mas não é indispensável. Indispensável são a sensibilidade e criatividade dos artistas".


Guto, ao descrever seu processo de trabalho, revelou como chegou à conclusão que a Trilha Sonora necessitava, além do tema, muitos ruídos, passos, barulhos de portas, etc e como estes eram integrados à cena. O resultado foi sendo construído no dia a dia e alimentado pelo diálogo com toda equipe criativa, pois “o trabalho em teatro facilita muito a compreensão de que o criador faz parte de uma equipe e deve trabalhar integrado. E neste sentido a Sutil pode ser considerado um exemplo”. A equipe está junta a muito tempo e este relacionamento colaborativo é a nossa marca". Beto ressaltou ainda que deve haver liberdade para palpites, deve haver intimidade e lembrou de interessante episódio acontecido durante seu recente trabalho com Fernanda Montenegro: "o Felipe Hirsch me disse que no espetáculo que fizemos com a Fernanda, a Daniela Thomaz fez a luz, ele fez o cenário e eu disse ao Felipe... então, deixa eu colocar uma música para participar".


Os desafios para obter um bom resultado na iluminação foram inúmeros. O screen deveria estar muito bem esticado e não poderia haver nenhuma incidência de luz direta sobre ele, com agravante que o espaço utilizado pelos atores no Avenida Dropsie foi restrito a poucos metros - quase que somente sobre a grelha onde acontecia a chuva - o que diminuía muito os ângulos de luz que pudessem ser utilizados. Como os atores eram iluminados somente pelas laterais, Beto ainda teve que "recorrer ao diálogo mais afinado com o elenco para que um ator, ao movimentar-se, não criasse sombra em outro ator". Resultado que mereceu prêmio de iluminação e usou e abusou do uso de barndoor, cinefoil e perna de tecido extra nas laterais.


O encontro foi encerrado com os depoimentos de Beto, Guto e Milton acerca da importância da criação de cursos técnicos federais para capacitação de nossos profissionais. Esta formação cultural dará condições para que nossos profissionais sejam melhores reconhecidos, valorizados e possam se relacionar de igual para igual com todas as áreas criativas desta atividade artística em que estão inseridos. Não podemos esperar que o Estado cumpra com sua obrigação, pois sabemos que a administração pública está muito longe de compreender verdade tão simples. A sociedade civil está se mobilizando através da iniciativa do IBTT e esta iniciativa deve ser apoiada com a participação crítica de todos interessados.


O público deixou as dependências dos dois teatros aos poucos, lentamente, como se desejassem perpetuar aquele momento. Mas os grupinhos que se formaram para troca de e-mails e telefones reforçaram o expressivo sorriso e a certeza de um até breve!


Claudia Gomes
Diretora de Comunicação IBTT – SP

Nenhum comentário: