24 de mai de 2009

"Os Troianos", estréia Nacional (ou: eu trabalho é com ARTISTAS!)

Gravação de Luz ontem pela manhã no Teatro Amazonas para "Les Troyens" para que tudo hoje seja BRILHANTE e ILUMINADO!

Finalmente estréio hoje a minha direção para "Les Troyens" de Berlioz, mais uma ópera inédita no Brasil que dirijo (as outras foram "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk/Shostakovich e "Ça Ira"/Roger Waters). São mais de 4 horas de música que com os dois intervalos somarão 5 horas de espetáculo! Um verdadeiro 'tour de force' alucinante.

Tive uma equipe maravilhosa, alguns já me acompanharam em outros espetáculos como meu figurinista Olintho Malaquias o diretor de imagem Raimo Benedetti e o meu paciente assistente de iluminação Moizés Vasconcellos, outros trabalham comigo pela primeira vez mas se depender de mim trabalharão enquanto me suportarem: o visagista Anderson Bueno, o cenógrafo Renato Bolelli Rebouças (e sua super assistente 'japa girl' Vivi) e meu assistente de direção Roberto Borges. À todos - e vai aí muita, mas muita gente mesmo! - meu muitíssimo obrigado por tornar realidade este projeto que venho estudando há um ano.

Problemas? Claro que houveram, e muitos, mas como disse anteriormente no final tudo se resolve. Acho que o que mais me chateou foi o pedido de afastamento (até agora são 3!) de alguns coralistas que não aceitaram a minha concepção.
Por aqui, o Coral do Amazonas é formado por muitos adventistas, batistas, evangélicos e pouquíssimos católicos, achava que não teria problemas mas o preconceito e a falta de bom senso afetou uma pequena parcela deste grupo. Bem pequena mesmo, mas o falatório, desgaste e desconfiança são extenuantes para um trabalho deste porte, ainda mais quando se tem pouco tempo de ensaios.

Para mim o palco é um terreno LAICO! Todo é qualquer espetáculo funciona dentro de um código de rituais muito peculiares, isto desde a antiguidade! Não importa se gregos, troianos ou... africanos. Respeito todos os estilos, linguagens e estéticas que contrariam o meu 'gosto artístico', talvez por isso ache inadimissível quando me censuram NO PALCO.
Quando um desdes coralistas veio me dizer que não poderia cantar o espetáculo, sua justificativa foi de que ele era adventista e todo aquele sincretismo religioso (principalmente a parte dos orixás em cena) ia contra todos os seus principios. Eu disse que entendia os seus principios mas que não iria discutir com ele "os meus" já que no palco eu não trabalho com adventistas (ou budistas, católicos, evangélicos, etc...) EU TRABALHO COM ARTISTAS!

OXALÁ nos proteja ou, como se diz em vários idiomas no teatro em dias de estréia:
MERDA!
MERDE!
TÓI! TÓI! TÓI!
IN BOCCA AL LUPO!
BREAK A LEG!
SARAVÁ!
EWOÉ!
EVOÉ!
...

Abaixo, o texto que escrevi para o programa do espetáculo:

“Les Troyens”, um povo sob o signo da crise

Antes desta crise econômica endêmica minha concepção para “Les Troyens” pendia mais para uma ‘visão eurocêntrica’ da cena. Tudo partia de dentro de um simulacro da mítica Biblioteca de Alexandria descortinando um desconhecido mundo das ciências humanas, as ações eram ‘dramaticamente’ complexas.

Por oito meses, junto com a minha equipe, fomos estreitando a nossa visão da cena dentro deste conceito até que cinco dias antes de embarcarmos para Manaus vi que a ‘crise’ já não era apenas um evento passageiro e nem estava tão distante assim de nós mesmos. Nada daquilo que eu havia pensado antes fazia sentido, em menos de oito meses minha concepção teria de ser revista.


Antes eu via o Espetáculo depois passei a ver os Personagens e isso me guiou nesta nova concepção. “Les Troyens” é baseada em alguns cantos da “Eneida” de Virgílio, que tira o caráter epopéico dos personagens homéricos e dá a eles um tratamento trágico , obrigando-os a agir ou assumir a tragédia.

Os cinco atos da ópera são polarizados entre duas personagens trágicas: Cassandra e Dido que não aceitam os desígnios dos deuses, para elas incompreensíveis; uma não consegue agir e leva uma cidade para a destruição já a outra age mas também não escapa da ruína.


Nesta nova concepção a historia é contada por personagens que assumem uma ‘entidade’ mítica próxima da multireligiosidade africana, do candomblé e do sincretismo religioso tão presentes no Brasil.

O Coro age como nas tragédias clássicas antigas, cujo papel consiste em exprimir em seus temores, em suas esperanças e julgamentos, os sentimentos dos espectadores num lugar que tanto pode ser uma Biblioteca em ruínas, ou uma cidade destruída e reconstruída após uma crise.

Só que desta vez esta crise não é econômica, é uma crise moral e de valores que norteiam todas as sociedades, que por sinal já se acostumaram a viver sem eles. O que virá depois disto? Talvez nem Cassandra saiba as respostas, torceremos para o melhor então.


Evoé e bom espetáculo!


Caetano Vilela

Diretor Cênico e Iluminador

8 comentários:

Henrique Hemidio disse...

Boa sorte cabron!

e tira uma curiosidade
minha se possível

quando se paga por um espetáculo tão grandioso (em todos os sentidos) desse aí em Manaus?

DionBoy disse...

Parabéns Caetano... Bateu uma vontade de saber de vc e vim aqui te visitar, tudo bem confesso, estava vendo Fantasma da Ópera e voce me veio a cabeça e cá estou! Bjo grande.

DionBoy disse...

Já ia me esquecendo...

EVOÉ mesmo a vc e toda equipe.

Dione - Bauru/SP

viralata disse...

Henrique, lembra do Al Capone? Pois bem, valores só em mesa de bar, hehehhe
Dione querido, quanto tempo! Beijão baby... e viva Bauru!
;P

Igor Santana disse...

da proxima vez que te ver, nao esqueco de pedir meu autografo!

viralata disse...

ok mas sem fotos.. ahsuhausauhs
beijos querido, queria que vc estivesse aqui tb para fotografar,até agora não tenho nenhum registro decente!
Bj

Penetralia disse...

Oi, Caetano, acabo de ver vc falando no Jornal Hoje. Ficou ótimo! E tome refletores e lâmpadas! Imagens lindas!

Ah, não, que vontade de ver um espetáculo como esse!

viralata disse...

Obrigado Lúcio!!! Pena que hj é o último dia e que pelo visto vai 'morrer' por aqui mesmo!
Valeu
Abração