26 de mai de 2009

Reportagens para estréia de "Les Troyens"/Manaus

Jornal "A CRÍTICA"



Manaus, 18/05/2009

Gregos, troianos... e africanos!

Caetano Vilela(à dir.) buscou inspiração nas religiões afro


Jony Clay Borges
Da equipe de A CRÍTICA

Os personagens da mitologia greco-romana e as entidades das religiões afro-brasileiras se encontram e se fundem na montagem de “Os troianos”, que será encenada no 13º Festival Amazonas de Ópera (FAO). O responsável por esse “sincretismo” lírico é o diretor cênico e iluminador do espetáculo, Caetano Vilela, que encontrou nos orixás e nos ritos afro a inspiração para encenar a clássica história narrada na ópera de Hector Berlioz (1803-1869).

A ideia de fundir as culturas greco-romana e afro-brasileira, ele conta, foi uma forma de adaptação ao corte de verbas ocasionado pela crise econômica internacional.

“A minha primeira versão era mais europeia, tudo se passava numa biblioteca em ruínas. Quando veio a crise, houve um corte de metade do festival. Houve uma adequação, e mudei essa visão para uma coisa mais brasileira. Na segunda parte da ópera, Enéas vai a Cartago, na África, e isso trouxe o insight de fazer a história com mitos também africanos”, explica o diretor.

Nas pesquisas para a montagem, Vilela teve a consultoria do pesquisador da cultura afro e babalorixá, Celso Pimentel de Xangô, que deu assessoria na elaboração dos figurinos e das coreografias, assinadas respectivamente por Olintho Malaquias e Jorge Garcia.

As referências à cultura e às religiões afro-brasileiras também aparecem nos cenários de Renato Rebouças. “Não tem trono, são palhas de piaçava, panos. Não tem a reverência do teatro tradicional”, ressalta Vilela. O diretor adianta outros detalhes da montagem: lâmpadas aparentes “como num show de rock”, cenas de lutas de capoeira e artes marciais, projeções de vídeo com cenas de sacrifícios e rituais africanos e indígenas.

“Os troianos”, vale dizer, será apresentada pela primeira vez no Brasil. Com a ousada montagem do FAO, já dá para dizer que será uma estreia das boas.

Espetáculo terá três apresentações

A montagem manauense de “Os troianos” será apresentada em três récitas, nos dias 24, 26 e 28 de maio, às 18h, no Teatro Amazonas. O espetáculo terá direção musical e regência do francês Laurent Campellone.
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Jornal "A CRÍTICA"



Manaus, 18/05/2009

Deuses como inspiração

Olintho Malaquias contou com a ajuda de um babalorixá para criar as roupas dos orixás que fazem parte da adaptação

Bruno Mazieri
Especial para A CRÍTICA

“Os croquis já estavam prontos quando o Caetano Vilela me ligou e disse que haveria mudanças. Até então, todo o figurino seguia uma linha tradicional, conforme a montagem original. Daí, Caetano fazendo uma pesquisa mais detalhada, descobriu a ligação dos deuses e semi-deuses, que fazem parte da história, tinha relação com as entidades do candomblé. Na verdade, foi uma guinada de 180 graus”.

Esta é a explicação que o figurinista Olintho Malaquias faz para que o público entenda os trajes usados na montagem “Os Troianos”, de Hector Berlioz, ópera integrante do 13° Festival Amazonas de Ópera (FAO).

Mudança

Faltando três dias para chegar em Manaus, o figurinista paulista recebeu a notícia como um desafio. “Achei uma loucura! Mas quando comecei a pensar, percebi que é muito próximo da nossa realidade e facilitaria o entendimento por parte do público. Sei que muitas pessoas terão um certo preconceito mas, o tradicional já foi feito por muita gente ”, ressalta Malaquias.

Com a ajuda de um chefe espiritual (babalorixá), os figurinos seguem as cores originais de cada orixá e as ferramentas usadas. Exemplo disso, é o traje da personagem Dido, que terá quatro mudanças de roupa. Ela representará Iansã e sua base é o vermelho.

Simplicidade

Segundo Olintho a confecção desses trajes é simples. “O maior que encontrei foi nas contas usadas para a criação das guias. Algumas coisas tive que exportar. Os artesãos da cidade trabalham mais com semente e não dá o mesmo visual. Além disso, o custo é ainda maior”.

Apostando ainda mais nesse mix de culturas, Oxóssi terá elementos amazônicos. “A cabeça da entidade lembrará um cocar e será feito com penas e sementes”. Ao menos, no quesito figurino, a montagem promete superar as expectativas de “Sansão e Dalila”. É esperar para ver, pois será um momento único dentro do festival!

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