30 de jun de 2009

PINA BAUSCH (1940-2009)

O mundo não perdeu apenas uma coreógrafa moderna com a morte de Pina Baush, perdeu uma ARTISTA que era uma 'filósofa' do corpo, ou mais: uma poeta, visionária, esteta, radical e muitos outros adjetivos que só engrandecem o seu trabalho.
Não é à toa que Pina é uma ARTISTA super-imitada por atores, diretores, coreógrafos, cineastas, pintores e todo e qualquer artista que "pensa" a ARTE.

Os espetáculos que não pude assistir pessoalmente vi em video e sempre ficava boquiaberto! Suas criações sempre carregavam aquela 'simplicidade complexa' e não era incomum ouvir de outros artistas frases do tipo: "por que não pensei nisto antes?"
Pois é, como não pensavamos antes dela então era mais fácil imitá-la para descobrir nossa própria identidade.

Como por exemplo: um campo de cravos, uma fila de bailarinos correndo para um microfone num pedestal e ao invés de falar algo se expressavam na linguagem dos surdos-mudos, uma mulher vestida de bexigas de gás, água, fogo, terra e ar, cadeiras, bailarinos 'que falam', cenas de guerra, antropologia teatral captada de vários Países por onde passou, etc, etc, etc,...

Saí coberto de lama de uma apresentação sua anos atrás no Municipal de S.Paulo, anos depois assisti a um ensaio de "Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã" no Teatro Alfa/SP e ela não parava de fumar na platéia, sentada atrás de uma mesinha compenetradíssima. Juro que quase não olhava para o palco, ficava encarando aquela figura frágil e pálida reagindo aos passos e gestos dos seus bailarinos.

Para quem nunca teve oportunidade de assistir ao vivo a "Pina Bausch Tanztheater Wuppertal" o mesmo Teatro Alfa traz agora em setembro, dentro de sua série de assinaturas, dois importantes espetáculos dos anos 70 que ajudou a imprimir a 'marca' Bausch no mundo: "A Sagração da Primavera" música de Igor Stravinsky e de 1975 e "Café Müller" de 1978.
Não percam por nada deste mundo!
...

P.S.: Que desgraçado mês de junho interminável este!

"Intrigas de Estado" (ou: pasmem, Ben Affleck está ótimo!)

Incensado pela crítica e tendo passado meio batido pelo público, o longa "State of Play/Intrigas de Estado" é um presente em tempos de 'queda do diploma para jornalistas'. Dirigido por Kevin Mac Donald ("O Último Rei da Escócia") como se fosse uma mistura de thriller político com jornalismo investigativo traz um elenco incrivelmente entrosado onde todos estão bem.

E quando eu digo TODOS me refiro também a Ben Affleck, pasmem, ele está ótimo (e magro)! E ainda tem a deslumbrante Robin Wright Penn (por onde andava?), o 'maneirista e neo-sujo' Russell Crowe, a fofa Rachel MacAdams e a 'realeza' de Hellen Mirren. A trama começa dando a ideia de que veremos um daqueles filmes que passam duas horas administrando o conflito da 'old school' com os moderninhos blogueiros do jornalismo americano, mas eis que o 'caldo entorna' e tudo vai ficando cada vez mais complexo e enrolado.

Assassinato, traição, 'puxada-de-tapete', lobby no Congresso americano e uma estranha ligação de políticos com uma empresa de segurança que contrata mercenários para prestar serviços para o Estado.
Qualquer semelhança do nome fictício desta empresa com a super poderosa "Blackwater" não é mera coincidência. Aliás, embora a referência óbvia com o clássico do 'cinema jornalístico' "Todos os Homens do Presidente" (sobre a investigação do caso Watergate), "Intrigas de Estado" se aproxima mais do recente "A Caçada" (do ano passado com Richard Gere e Terrence Howard que eu comentei aqui). Em ambos o tema é este novo 'câncer' americano: uma Nova Ordem de Segurança Nacional.

O público adulto reclama de filmes inteligentes e 'assistíveis' e quando estréia um filme assim ninguém assiste! Depois de lançado o filme é imediatamente relegado a salas distantes e em horários indecentes. Uma pena, quem sabe com o lançamento em dvd esta produção tenha melhor sorte.

28 de jun de 2009

O cotidiano de um anti-herói (ou: Selton Mello É Jean Charles)


Se tem uma coisa que o filme "Jean Charles" acerta na mosca é na empatia que um personagem tão desgraçadamente brasileiro provoca no público. Todos se identificam com aquele cara que sai do País para dar certo na vida, faz uns cambalachos aqui outro ali mas é um boa-praça. Na verdade um anti-herói urbano que virou símbolo de luta para todos os imigrantes legais, ou não, mundo afora.

Falou-se muito no 'tom naturalista' meio documental, meio 'prêt-à-porter' dos atores profissionais e amadores do filme mas o lance é que o filme vai se construindo neste cotidiano 'amador' sem muitos conflitos ou 'plots' dramatúrgicos excepcionais, tudo fica nas mãos dos atores, com destaque para Luis Miranda e Vanessa Giácomo, a cena em que o Luis 'apresenta' os aparelhos domésticos na cozinha em Londres para ela é de um humor impagável.
Assisti do mesmo diretor Henrique Goldman, numa Mostra de Cinema, o irregular e bem intencionado "Princesa", que tratava sobre o mundo cão das 'travas' brasileiras na Itália, aqui em "Jean Charles" ele esquece o 'estilismo' e centra a ação no cotidiano de Jean até a tragédia que todos conhecem. E só!

Muitos filmes já trataram do 'antes', do processo de emigração e tal, quanto a "Jean Charles" o antes é óbvio e desinteressante, melhor mesmo é esse 'naturalismo' meio descompromissado deste cotidiano. Quanto ao "depois"... bem, na verdade como podemos observar o descaso da Justiça com a história real o depois não trará também muitas novidades, sabemos exatamente como terminará.

Ah, e sobre Selton Mello não tenho nem o que dizer do maior 'workaholic' do Brasil. Adoro o cara, acho ele excelente até quando erra, o que não é o caso.
Aliás o cartaz de lançamento do filme já diz tudo "Selton Mello É Jean Charles" e isso É um elogio, difícil imaginar outro ator naquele papel.

26 de jun de 2009

Who's Bad? (MICHAEL JACKSON 1958-2009)

Fiquei estarrecido com a notícia da morte de Michael Jackson, meu maior ídolo. Saí do cinema no Frei Caneca e ao ligar o celular não dei importância aos insistentes apitos de chamadas e mensagens recebidas, em seguida o celular toca e outro amigo disse que estava no shopping a minha espera. Estranhei já que ele me disse que não poderia assistir ao filme comigo, quando pego o celular para checar as mensagens... CHOQUE!!! Meu amigo me encontrou paralisado no meio de um corredor com os olhos fixos na tela do celular. Juro que pensei que fosse alguma piada!

Já disse neste Blog da lembrança que eu tenho do pior aniversário da minha vida, na véspera dos meus 9 anos morria o Rei Elvis Presley. Também já falei do meu ataque de choro pela estúpida morte de Kurt Cobain e Elis Regina.
Não quero nem imaginar ter de passar por toda esta angústia com a perda de David Bowie, Bob, Dylan, Madonna, Robert Plant, Roger Waters, Prince, Robert Smith, Billy Corgan...

Thriller na ópera

Dois anos atrás dirigi a ópera "La Cenerentola" para o Teatro da Paz/Belém e não resisti ao apelo pop da música de Rossini, a única coisa que vinha na minha cabeça enquanto estava estudando era a coreografia de "Thriller" na famosa ária de Dandini (Leonardo Neiva), claro que não tive o menor pudor em fazer o coro masculino dançar a coreografia. A platéia vinha abaixo, como vocês podem ver neste video (tosco) que foi parar no YouTube, gravado por um expectador.
Foi uma pequena homenagem a um homem que me deu tantas alegrias e boas recordações da minha adolescência.

24 de jun de 2009

O Soldado e o Diabo

Talvez voltaremos com o Concerto "A História do Soldado" no Festival de Inverno de Campos do Jordão, por enquanto fica o registro da apresentação única no Teatro S.Pedro/SP, no último dia 19, abrindo o II Festival Internacional de Música de Câmara.
Aqui embaixo algumas fotos de Jefferson Pancieri do espetáculo, 'enjoy':

Fernando Alves Pinto foi o Soldado que carregava um violino no lugar de uma arma

José Rubens Chachá era o Diabo que 'atentava' o jovem soldado a lhe entregar o violino

Wellington Nogueira foi o Narrador do espetáculo, dando vida a uma história...

... que termina melancólicamente com o Soldado seguindo o Diabo pelo resto de sua vida

Eu e o Maestro Alex Klein, cada vez mais um importante nome da cena erudita internacional

21 de jun de 2009

Da Cidade para o Campo (ou: a vida começa aos 40)

Correndo para luz!
(Rodovia D.Pedro/Atibaia, photo by Viralata)


Agora vai!
Entreguei definitivamente as chaves do meu apartamento à nova proprietária e faço votos que ela seja tão feliz quanto eu fui nos últimos 5 anos morando ali, na Consolação com a Nestor Pestana. Contei aqui algumas histórias que vivi por lá, desde a boêmia barulheira das redondezas, que é rota dos que saem do 'puteiro quatrocentão' "Kilt" até o 'puteiro cult' "Love Story" ou os "putos, veados e vagabundos" (como diria Gerald Thomas num antigo post) que frequentam os teatros da Praça Roosevelt.

Do meu corretor ao motorista que levou a minha mudança a pergunta era uma só enquanto fechava pela última vez aquela porta no terceiro andar: "Você está triste?"
Por incrível que pareça: "NÃO!"
Não costumo ter este tipo de apego, ainda mais quando envolve um futuro absolutamente novo para mim. A-D-O-R-O começar tudo novo, reconstruir, mudar! Ainda mais quando esta mudança significa novas experiências.

Aos 40 vou comprar o meu primeiro carro (e claro, guiar praticamente pela primeira vez!), construir uma casa do zero, do jeito que eu imagino, trabalhar novamente na Europa (desta vez com mais prestígio), construir novas relações de trabalho, curtir mais meus sobrinhos e minha família, ...
Acho que não tenho muito do que reclamar.

19 de jun de 2009

Jornalistas, agora sem diploma na parede

Caiu a exigência de diploma para jornalistas! Já não era sem tempo, a votação no Supremo Tribunal Federal foi 'massacration': 8 x 1
Faço minhas as palavras do jornalista Luiz Zanin no seu Blog no Estadão:

- "(...) Hegel já dizia que ler jornais era sua oração matinal. Ora, conheço muitos "jornalistas", diplomados e tudo, que não praticam jamais esse ato de contrição; nem pela manhã, nem ao longo do dia. Não leem nem o jornal que escrevem, não veem filmes, não vão ao teatro, não ouvem música. Só vivem em seu mundinho, como se a realidade tivesse, por si só, poder de penetrar entre as paredes de uma redação, via TV ou computador.
(...)A formação do jornalista exige dedicação integral. Não acaba nunca. Já o aprendizado da técnica jornalística se aprende em dois meses de redação - se a pessoa não for muito tapada."

18 de jun de 2009

Oferenda Musical: "A História do Soldado"

Então é amanhã, com apresentação única, o Concerto "A História do Soldado" importante obra de Stravinsky para 7 instrumentistas, narrador, atores e balé. Sob a regência do super premiado maestro e oboísta Alex Klein, o único brasileiro a conquistar 4 Prêmios Grammy de música erudita!
Este espetáculo na verdade está dentro de um contexto bem maior, faz parte do "II Festival Internacional de Música de Câmara em São Paulo (Oferenda Musical)" e inclui o bairro da Barra Funda (que sedia o Teatro S.Pedro) com uma programação diversa e criativa não só no Teatro mas também em praças e estacionamentos espalhados pelas redondezas, e você pode fazer tudo de bicicleta! Mais sobre a programação você encontra no site: www.oferendamusical.com.br

Eu ainda estava em Manaus quando recebi o convite do Éser e da Giane (Artematriz), produtores responsáveis por este evento, para assinar a direção e luz em forma de Concerto, ou seja os atores lerão os seus papéis com pequenas cenas pontuais e uma luz um pouco mais acolhedora do que as luzes abertas de um Concerto tradicional. Perderemos assim a 'encenação' que também inclui os números de balé, mas já dá para se ter uma bela idéia desta peça extremamente difícil e encantadora do mestre russo.
Acho que faz uns 20 anos que assisti no Municipal de S.Paulo uma encenação deslumbrante assinada por Ulysses Cruz com Cacá Carvalho e Antônio Fagundes em cena, realmente faz um bom tempo que não ouvimos "A História do Soldado", seria lindo se pudessemos também montá-la com o balé "Apollon Musagètte" que acabei de dirigir em Manaus, as duas peças tocadas juntas enriqueceriam bastante a programação

Os atores envolvidos serão: Wellington Nogueira o Narrador; José Rubens Chachá o Diabo e Fernando Alves Pinto o Soldado.
...

Se joga:
Oferenda Musical
- Primeira Parte:
H.Villa-Lobos/Bachianas nº6
W.A. Mozart/ Trio Kegelstatt
- Segunda Parte:
I. Stravinsky/A História do Soldado

Teatro S.Pedro/20h30
Rua Barra Funda, 171 (fone 3667.0499)

16 de jun de 2009

2 monólogos que são 'o jeitinho' do Brasil

Saiu de cartaz na semana passada dois monólogos que são a cara do Brasil. Em ambos trabalham amigos muito queridos que por uma sincronia do destino escolheram como 'leitmotiv' refletir o ontem e o hoje sem folclorizar um tema tão escorregadio.

"The Cachorro Manco Show"


Foi escrito por Fábio Mendes para um concurso de dramaturgia lusa que tinha como tema dialogar com a obra do Padre Antônio Vieira. Pois 400 anos depois o diálogo se transformou em um reflexo expressionista e um 'tour-de-force' para o ator Leandro Daniel Colombo (acima by Lenise Pinheiro) dirigido criativamente por Moacir Chaves.
O espetáculo é tão visceral, verborrágico e intenso que ao final confessei que se este texto caísse nas minhas mãos não saberia por onde começar a encenação. Leandro está incrível! Parece um arlequino clochard no melhor estilo 'one man show', ou melhor: 'one DOG show'!

"Mediano"

A dramaturgia de "Mediano" é tão ambiciosa quanto "The Cachorro...", as duas registram um Brasil em ordem cronológica com desgraças políticas e sociais difíceis de serem esquecidas.
Assinada por Otávio Martins e 'defendida' pelo 'über' Marco Antônio Pâmio (acima by Jefferson Pancieri) a peça foi dirigida com requintes de sutileza por Naum Alves de Souza. Claro que a sutileza aí não esconde os nomes 'dos bois' que recheiam diariamente as páginas dos jornais brasileiros (ora no caderno de política, ora nos policiais), chega a ser patético e tristemente cômico acompanhar o final que todos conhecemos. E Pâmio consegue com maestria fazer com que ainda simpatizemos com um canalha de marca maior, na verdade parte desta 'empatia' esta travestida de culpa mesmo!

"The Cachorro..." entra agora naquele processo 'homeless' e começa do zero a levantar a produção para aportar em algum espaço por aí, já "Mediano" volta ao cartaz em breve, no Espaço dos Parlapatões na Praça Roosevelt em horário alternativo.
O problema de praticamente não existir mais pauta nos poucos teatros paulistanos é desolador para nós, artistas. Pra dizer bem a verdade está difícil mesmo existir teatro. Nem me lembro mais quando foi que prefeitura ou estado construíram um teatro na cidade, os pouquíssimos que temos estão em condições lastimáveis de uso, só não fecham por amor dos funcionários mais antigos, mas isso já é outra história.

Mas a história continua...

14 de jun de 2009

Do Coletivo ao Individual

Do "Estadão" de hoje, em seu caderno "Aliás", um artigo e uma entrevista buscam esclarecer duas angústias bem típicas dos nossos dias: o que a classe média quer (no caso sobre a recente greve na USP) e quais são os limites entre o amor e individualidade.

O primeiro artigo é assinado pelo professor da USP José de Souza Martins: "O medo da classe sem destino" e de forma direta expõe o lado 'sombrio' dos novos anseios de uma classe cada vez mais radical:

- "(...) Ainda nestes dias, nos incidentes ocorridos na Cidade Universitária, na USP, tivemos claras evidências da inversão de valores da velha classe média na prática da nova classe média. Os estudantes opõem-se à implantação, pela Secretaria de Ensino Superior de São Paulo, da Universidade Virtual, que seguindo o exemplo dos países modernos, tornaria o ensino superior de boa qualidade acessível a populações privadas dessa possibilidade. No fundo, levantam a bandeira reacionária de pretenderem o ensino público e gratuito só para si. Os professores não foram por via diferente: numa assembleia de 94 docentes, 80 votaram pela greve e a impuseram aos outros cerca de 4.900 professores da USP, que não delegaram à minoria ínfima o direito de decidir por eles. Comportamentos de direita na nova classe média estão marcados por outra característica própria do despistamento e do caráter dessa categoria social: a usurpação da ideologia da esquerda para sustentar práticas de direita."
Leia a íntegra do artigo aqui.

Quanto ao 'batido' tema do amor e da solidão "Aliás" traz uma entrevista com o terapeuta Flávio Gikovate cujo título já diz a que veio: "É preciso ser feliz sozinho".
Para aqueles que ainda não encontraram a sua 'alma gêmea' (sim ainda dá tempo!) basta você:

- "(...) ir além da generosidade. É a atitude do "justo", cuja característica é dar e receber de maneira equilibrada. Ocupar-se de seus interesses sem se descuidar do outro. Ser compreensivo, sem passar a mão na cabeça de quem erra. Uma sutileza descrita na máxima de Nelson Rodrigues: "Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe".
Leia a íntegra da entrevista aqui.

10 de jun de 2009

Jantar de Gala* (ou: os '6 graus de separação' da geração net)

Ontem um grande amigo (Alberto Guzik) fez aniversário. No melhor estilo 'low profile' um outro amigo (Ivam Cabral) abriu o seu apartamento, com uma vista deslumbrante em 180º do centro paulistano, enquanto outro (Rodolfo Garcia Vásquez) cozinhava, outra trazia o bolo, mais alguns o vinho, mais uma (Vanessa Bumagny) que chegava com o violão. Comida boa, música excelente, poesia declamada, fotos, risadas... gente talentosa e interessantíssima.

Acho que só nesta noite me dei conta de que esta era uma comemoração diferente. Uma comemoração com a cara do novo século. De gente antenada, plugada. Todos sabiam quem era quem, mesmo que alguns nunca tivessem se conhecido pessoalmente. A figura do 'cantinho-da-sala' não existe mais, você nunca mais se sentirá isolado num ambiente como esse, nunca os tais 'seis graus de separação' foram tão premonitórios em tempos de Twitter, Blogs, Facebooks, etc.

Se você clicar sobre os nomes em destaque deste post verá que seus nomes carregam links para blogs e sites interessantíssimos. As apostas pessimistas sobre o isolamento do ser humano caíram por terra.
Mais uma vez repito a frase que Marcelo Tas (padrinho mór desta geração 'www') me disse certa vez:
- "A internet dá coerência para as nossas vidas".

E nós fazemos destas novas relações um ambiente muito mais humano e agregador do que poderia imaginar, por exemplo, meu filósofo preferido: Adorno*, autor de "Minima Moralia", livro de pensamentos esparsos dividido em três partes (1944 até 1947), de onde tirei o título deste post, "Jantar de Gala". Lá pelo meio de análises sobre o consumo, progresso e os novos valores da sociedade (pós-guerra) ele diz:

- (...) Quando o conhecedor do século XIX via apenas um ato da ópera com o acréscimo bárbaro de que espetáculo algum poderia encurtar o seu jantar, agora a bárbarie, que já não tem o pretexto do jantar, é insaciável com sua cultura. Cada programa deve ser visto até o fim, cada best-seller deve ser lido, cada filme deve ser assistido nos seus primeiros dias no cinema principal. A abundância do que se consume sem critério torna-se catastrófica. Ela torna impossível orientar-se e, enquanto procuramos na monstruosa loja de departamentos por um guia, a população sufocada entre ofertas aguarda o seu líder."

Pois os Líderes estão aí, mais perto do que nunca. Alberto Guzik e seus amigos são alguns deles!
...

Se joga:
- Conheça melhor as pessoas citadas acima, clicando em seus nomes e viajando nos seus links.
- "Minima Moralia" de Theodor W. Adorno. Editora Azougue/2008/R$ 58,00

4 de jun de 2009

Tiananmen e a banalização da Guerra

Na Arte (Marquita Lister, foto by Herick Pereira) e...

...na Guerra (corajoso Anônimo, foto by Jeff Widener)

Durante os ensaios do primeiro ato de "Les Troyens", na famosa cena da chegada do cavalo em Tróia, a única imagem que me vinha a mente era a do massacre de Tienanmen, vinte anos atrás no centro de Pequim/China.
Não esqueço dos olhar da cantora Marquita Lister depois que lhe disse que esta imagem era a minha referência para a sua reação em cena; "oh, so sad!" disse ela com uma expressão de luto.

Pois aquela triste cena daquele corajoso homem desviando uma fileira de tanques de guerra faz parte da nossa 'memória da desgraça', assim como a pequena menina vietnamita correndo nua, o avião entrando dentro do WTC e tantos desfiles de horror que nos fazem gelar a espinha.
Muitos pagaram com suas próprias vidas para que muitos outros pudessem viver com a sombra do terror pairando por gerações e gerações. Massacres promovidos contra judeus, africanos, vietnamitas, coreanos, chineses, russos, japoneses, afegãos, cubanos, brasileiros e tantas outras raças infelizmente sempre existirá. O homem sempre dá provas de que não aprende absolutamente nada com a história repetindo a desgraça sempre com uma tragédia ainda maior.

Esta constatação foi o que me levou a dirigir "Les Troyens" como um espetáculo sobre o "Poder e a Guerra" e não apenas um épico sobre o "Destino", nos dois primeiros atos, ou "Amor & Vingança" nos três últimos.
Ou como eu poderia ignorar um 'concertato' cantado com impávido orgulho conclamando o povo às armas contra os africanos:

- "Armas! Armas! Marchem, troianos e tírios, por sobre essa horda imunda de africanos. Voem juntos para a vitória. Expulsemos para os desertos ardentes este númida perdido, como a areia que é levada pelos ventos! Que ele trema! É o deus Marte que se parece com vocês . É o filho de Vênus que os [nos] guia nos combates! Exterminem o negro exército, e que amanhã até bem longe seja proclamada a vergonha e a morte de Jarbas! Às armas! Às armas!"

Como já disse aqui, tive algumas 'baixas' no espetáculo por conta de coralistas religiosos que se recusaram a pisar no palco depois que souberam que na minha concepção haviam orixás, batuques e mitos africanos em cena. Não me surpreendi nenhum pouco que absolutamente NINGUÉM comentou ou se recusou a cantar algo hoje tão 'politicametne incorreto' para dizer o mínimo, ou sequer tenha questionado o por quê dos videos de massacres que eu sobrepus a esta cena.
A ignorância sobre a tragédia das guerras é terrível, mas o preconceito e a banalização da desgraça são bem piores. Tão piores que são motivos de sangrentos confrontos mundo à fora!

Mais uma vez é a GUERRA que me dá o 'leitmotiv' para pensar o nosso futuro e mais uma vez soarão como 'ecos surdos' as previsões de Cassandra.
Que os 20 anos do Massacre de Tiananmen sirva pelo menos para nos fazer refletir, mesmo que na tv esteja passando o massacre 'da vez'.
...

P.S. Meu primeiro compromisso depois que voltei de Manaus é a direção e iluminação do Concerto "L'Histoire du Soldat" de Stravinsky, uma alegoria sobre, adivinhem... OS HORRORES DA GUERRA.
Em breve contarei mais, mas já fica o serviço aqui ao lado na coluna "Próximos Projetos".

Hotel "gay friendly" no centro de São Paulo

Estava acertando com o meu corretor as papeladas da venda do meu apartamento quando ele me diz que com a minha saída do centro da cidade eu vou perder o lançamento do primeiro hotel "gay friendly" aqui na região.
A inauguração será no dia 11 de junho e o nome do empreendimento é "155 Hotel", fica na Rua Martinho Prado, 173. O investimento de 6 milhões é do empresário Sérgio Luiz Pereira que não pretende parar por aí, ele tem em mente a compra de outros hotéis abandonados na região e renovando-os para um novo público.

Fico feliz que ainda há gente de bom astral e empreendedora, que não pensa no lucro fácil 'dentro do armário'.

As tarifas são pra lá de razoáveis (R$ 95,00), a localização é excelente (vale dizer, por exemplo, que o meu apartamento valorizou o triplo em 5 anos) e as 'bees e os simpatizantes' agradecem!
Entra no site e saiba mais:
http://www.155hotel.com.br/index.asp

2 de jun de 2009

Sem lenço, sem documento (ou: fiquei com o 'sistema nervoso')

Finalmente cheguei em São Paulo, frio, ar seco (um pouco mais do que o recomendado depois de viver dois meses com quase 90% de umidade relativa do ar!), amigos, família e o cheiro do meu lar.
Claro que não podia deixar de realizar o mais típico programa de paulistano: café da manhã na padaria (média e pão com manteiga na chapa) lendo os jornais do dia, só não contava que ... ROUBARIAM a minha bolsa com os meus documentos e a chave de casa!!!!!!!

Fiquei pasmo, daquele jeito que a gente fica quando se vê completamente sem ação. Aliás, sem ação, sem dinheiro e sem as malditas chaves de casa. Bem, estava conversando ao telefone com uma amiga e havia deixado a minha bolsa, destas pequenas a tiracolo, no encosto da cadeira e não senti o mais 'remoto incômodo' ao ser roubado. Ninguém viu, ninguém sabe e eu ali de quatro entre as mesas acreditando na inacreditável possibilidade da maldita bolsa ter pulado sozinha para algum lugar, afinal era uma ‘autêntica e esportiva’ Nike!

Prejuízo assimilado (sorte não ter trazido meu Ipod, daí sim ficaria transtornado!) corri ligando para os bancos, cartões, mãe e amigos.
Segui para a delegacia mais próxima para fazer o tal B.O., lá fui recepcionado por uma mulher assustadoramente estranha... muito estranha, parecia um personagem de David Lynch, e não estou exagerando, sorte ela ter ido almoçar antes da minha vez, o que me deu um certo alívio.
Fui atendido por um simpático senhor negro, respondia as perguntas de praxe quando chegou na fatídica pergunta que me faz suar: “qual a sua profissão?”, sempre entro numa crise existencial quando tenho de responder ou preencher alguma ficha com essa pergunta. Quando respondo Artista a outra pessoa sempre faz uma pausa para que eu complete a informação, como se eu não ‘trabalhasse só com isso’, se minto entro em contradição logo em seguida, desta vez resolvi ser mais específico e tasquei um “Diretor Cênico”.

Sim, teve a pausa que me arrepia seguida de um olhar que não entendi direito: “o Senhor se formou em Artes Cênicas”, me perguntou o homem. Como eu me enrolei pra responder tentando de uma forma prolixa explicar como eu me profissionalizei, ele continuava falando, olhando para a tela do computador (sem sistema por 20 minutos!), dizia que sua filha havia se formado em Artes Cênicas em Campinas. Alívio, disse o nome de dois professores da Unicamp e o homem simpatizou comigo, talvez percebeu que eu não era um trambiqueiro mentiroso. E num passe de mágica o ‘sistema‘ voltou, terminei o ‘procedimento‘ e ainda permiti que ele tirasse uma foto no seu celular: “vai que o senhor fica famoso!”
...

O resto do dia foi também de burocracias, mas graças a uma coisa chamada “Poupatempo”, um local onde se pode tirar TODOS os documentos certidões e autorizações jamais imaginadas por Kafka, em “O Processo”, num lugar só.
Pena que ‘caiu o sistema‘ do prédio todo depois de mais de 1 hora de espera e eu tive de me contentar em sair de lá com vários protocolos de atendimento provisório.

A saga continua amanhã!

1 de jun de 2009

"Os Troianos" ato por ato (ou como disse Iopas: "les troyens sont partis!")

Apenas para matar as saudades desta experiência incrível em mais uma direção e iluminação minha de uma ópera inédita no Brasil.
Abaixo, algumas imagens de "Les Troyens" clicadas pelo fotógrafo Herick Pereira (Front Assessoria de Imprensa, thank's também as meninas Thaiana e Bruna). Fiz uma seleção maior no meu àlbum do Flickr, aqui!

I Ato: as previsões de Cassandra (Marquita Lister) em Tróia

I Ato: funeral de Hector

I Ato: presente de grego, o cavalo guiado pelo Exú (Kazumbá)

II Ato: Polyxéne (Jaiana Souza da Silva) junto com mulheres troianas lamentam seus mortos; Obaluaê (Ellen Cristine Menezes) dança para salvar Tróia das chagas e da peste que infestou a cidade

II Ato: Cassandra (Marquita Lister) convence as virgens mulheres de Tróia a se sacrificarem com ela pela cidade, planejam assim um suicídio coletivo para que não sejam estupradas e violadas pelos soldados gregos

III Ato: em Cártago (uma ilha na África) a Rainha Dido (Luiza Francesconi) acompanhada de sua irmã Anna (Kismara Pessatti) saúda o povo acompanhada de 10 orixás conselheiros

III Ato: Dido saúda a platéia com a dança de Iansã

III Ato: Dido junto com os marinheiros, construtores e lavradores saúdam Ceres, a deusa da terra e da fartura

III Ato: festa dos Orixás e dos Africanos para a Rainha Dido

IV Ato: Dido quer saber o que aconteceu com Andrômaca (Angela Patrícia, imagem na lua), viúva de Hector em Tróia. Da esquerda para direita Anna (Kismara Pessatti), Dido (Luiza Francesconi, Ascagne (ajoelhada Manuela Freua), Iopas (sentado atrás, Geilson Santos), Enéas (Michael Hendrick) e o conselheiro Narbal (Sávio Sperandio)

IV Ato: Dueto para a lua e a noite, Enéas e Dido (Michael Hendrick e Luiza Francesconi)

V Ato: ao se ver abandonada por Enéas, Dido (Luiza Francesconi) ordena que queimem todos os seus navios e clamando a Plutão oferece um sacrifício "às sombrias divindades do império dos mortos!"

V Ato: Dido (Luiza Francesconi) arranca o vestido e seus paramentos, descabela-se para aplacar a sua fúria e preparando assim a sua morte

V Ato: Dido (Luiza Francesconi) se mata, Anna (Kismara Pessatti), Narbal (Sávio Sperandio) e Iopas (Geilson Santos) lamentam

Agradecimentos merecidos à uma equipe de primeira, da esquerda para direita Raimo Benedetti (Direção de Imagem), Anderson Bueno (Visagismo), Olintho Malaquias (Figurinos), Renato Rebouças (Cenários), Viviane Kiritani (Assistência de Cenário), Caetano Vilela (Direção Cênica, Concepção e Iluminação) e Roberto Borges (Assistente de Direção). Fora as dezenas de pessoas que participaram desta gigantesca produção e merecem todo o meu amor e carinho.

Muito obrigado à todos!