31 de jul de 2009

Uma Certa Melancolia e uma Infinita Tristeza

Fecho o mês de julho mais triste do que contente.
A morte de um grande amigo e as mortes de grandes artistas deixaram este chuvoso inverno paulistano bem mais melancólico e insuportável. Sim aconteceram coisas boas: viagens (exterior), mudança (interior, digo no sentido literal - Atibaia - e físico - introspecção) e lançamento de novos projetos. Mas tem uma coisa que só pode ser uma espécie de antecipação do meu inferno astral que me paralisa e exige de mim uma força hercúlea para que meu ócio não sucumba numa inércia depressiva.
Não acontecerá, mas que é forte, ah isso é!

Enquanto isso, para mandar este julho nebuloso embora de uma vez, ouça uma música que tem tudo a ver com estes dias. Do melhor álbum do mundo ("Mellon Collie and the Infinite Sadness"), "Take me Down", com uma das melhores bandas de rock do planeta: "The Smashing Pumpkins".

18 de jul de 2009

"Sobre a Brevidade da Vida": os ensinamentos de Sêneca

"Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida é um aprender a morrer"/Sêneca

De Madrid - Quando eu era adolescente minha literatura de 'auto-ajuda' era os filósofos e pensadores da Antiguidade, tenho meu volume de "Sobre a Brevidade da Vida", de Sêneca já bem gasto e repleto de grifos e anotações de uma adaptação para teatro que fiz quando dava aula de interpretação para adolescentes em 'Casas de Cultura' municipais. Indicava este e outros filósofos para que eles descobrissem que o que foi escrito séculos atrás também poderíamos aplicar no nosso cotidiano. Coisas como:
- "O homem vive preocupado em viver muito e não em viver bem, quando na realidade não depende dele o viver muito, mas sim o viver bem".

Sêneca discordava em linhas gerais de que "a vida é breve", pois acreditava que o homem 'ocupado', aquele que só pensa no trabalho, é que 'abreviava' a vida. O verdadeiro 'elixir' estava na dedicação sábia em cultivar o ócio (coisa que o escritor italiano Domenico de Masi dois mil anos depois transformou no best seller "Ócio Criativo").
Às vezes (re)avaliamos nossas vidas depois que somos abalados por catástrofes ou tragédias em algum lugar do mundo, seja a queda de um avião ou a destruição de uma cidade por uma enchente ou furacão. Em situações assim nos damos conta de que não somos e nem representamos absolutamente nada no Universo e que se trabalhamos para acumular riqueza e propriedades de nada nos servirá com um destino assim trágico.

Minha natureza me põe sempre em transformação constante, quando me sinto muito seguro na minha vida me sinto também de uma certa forma 'acomodado'. Coisa que já narrei por aqui em diversas situações pessoais e profissionais.
Neste exato momento, pela primeira vez na minha vida, aproveitei uma reunião de trabalho na Espanha e me estendi por mais 10 dias simplesmente para repensar minha vida (como já disse, vendi meu apartamento e começo a construir uma nova casa), carreira (na Europa e no Brasil com a Cia. de Ópera Seca) e simplesmente não fazer nada, conhecer novas pessoas, ir a museus, etc...
Daí soube da morte de um grande amigo, Franco Bueno, tão jovem aos 29 anos! Mesmo sabendo da gravidade do seu estado, notícias assim me parecem um tanto irreais e torno eu, mais uma vez, a reavaliar a minha vida!

Amanhã a noite volto para o Brasil num longo voo, e como nunca sei o que pode acontecer, fico muito feliz por ter conhecido pessoas como Franco Bueno.
Para Sêneca só somos livre quando aceitamos nosso destino e encaramos a morte como uma coisa natural, não sei se é o momento mas por enquanto para mim a morte tem me parecido um pouco injusta.
Acho que ainda tenho muito a aprender!

Franco e Eu testando fotos pelo 'photo booth' do meu Mac
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Se Joga:
"Sobre a Brevidade da Vida"/Sêneca: L&PM Editores/R$ 8,00

17 de jul de 2009

FRANCO BUENO (1980-2009)

De Madrid - Ia escrever mais sobre os meus dias aqui na Espanha quando soube que o pianista, e meu grande amigo, Franco Bueno faleceu esta tarde no Brasil, vítima de câncer aos 29 anos!
Estou desolado e chocado com esta injustiça tão grande do destino.

Eu fazia parte de um grupo muito pequeno de amigos que acompanhava a batalha do Franco contra um linfoma que surgiu em seu corpo há quase 2 anos.
Quando nos conhecemos 4 anos atrás, por conta do Festival Amazonas de Ópera (ele era o braço direito do maestro Luiz Fernando Malheiro na preparação musical dos cantores) houve um sintonia imediata, nosso humor era muito parecido, por vezes 'agressivo' demais para quem não nos conhecia muito bem.

Por conta também do seu tratamento este ano ele não pode ir para o FAO, embora insistisse que estava bem, seu médico não recomendou a viagem e disse que seria arriscado para a sua frágil saúde. Ligava para ele e contava como iam os ensaios e os 'fuxicos' da semana para distraí-lo, pois sabia que ele estava muito triste em não estar conosco. Sua voz já estava bem diferente, resultado de sessões de químio e radioterapia e ele se cansava rápido... mesmo assim, juro que achava que ele venceria essa luta.

Para mim era (e ainda é) inadmissível que uma doença sorrateira possa destruir tão rápido uma pessoa jovem e talentosa de forma tão avassaladora!
A última vez que nos falamos foi quando o Michael Jackson morreu. Ele sabia que eu era fã de 'MJ' e me ligou do hospital para me consolar, como eu ia viajar logo em seguida combinamos de nos encontrar na minha volta.
Infelizmente eu não estarei no seu velório nesta noite (ele será cremado na Vila Alpina) mas meu coração e as minhas lembranças são dele!
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Franco sempre lia este Blog e me ligava rindo das coisas que escrevia, por vezes ele comentava assinando com a abreviação do seu nome "FB". Foi assim que ele comentou um post que fiz em fevereiro sobre o diretor alemão Christoph Schlingensief (leia aqui!) também vítima de câncer mas que conseguiu sobreviver ao tratamento. Lá eu falava da experiência diferente que tive em trabalhar com o diretor e de como ele queria a luz do espetáculo, "A luz é como a vida, se modifica a cada dia".
Daí o comentário:

- "FB disse...
Arrasou peeee!!!!
Bonito mesmo isso da vida eh como a luz, se modifica a cada dia. Levo sempre como exemplo a sua luz, um dia melhor que o outro. Vc sabe do que estou falando.
Assim a gente aprende!
Love"
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Arrasou você "peeeee" (sempre nos tratávamos assim, era uma 'private joke'), sim eu sei do que você está falando. Nunca me esquecerei da sua amizade, talento, beleza, humor e inteligência! Love

15 de jul de 2009

Gaudí (ou: quando a Arquitetura se transforma em Obra de Arte)

De Barcelona - Antoni Gaudí (1852-1926) era um maluco visionário, homem que elevou a arquitetura para a categoria ARTE. Se existisse alguma dúvida sobre isso, ela se dissiparia quando se entra dentro da "Casa Milà" - mais conhecida como "La Pedrera" - aqui, você tem certeza que está dentro de uma escultura!
"La Pedrera" é um conjunto de apartamentos residenciais construído entre 1906/10 e foi o 'cartão de visitas' de Gaudí. Uma exposição dentro do prédio mostra sua fonte de inspiração: esqueletos de animais, conchas marítimas, árvores, etc... o mais louco é que você vê a inspiração e a reconhece nas formas construídas. Nem precisa dizer que o próprio catalão foi também 'fonte de inspiração' para centenas de arquitetos do planeta, em São Paulo alguns prédios assinados por Artacho Jurado (Edifício Bretagne/Higienópolis ou Edifício Viadutos/Centro) tentam chegar perto do Mestre.

Abaixo, algumas fotos desta verdadeira 'masterpiece':

POR FORA


POR DENTRO

POR CIMA






Aqui, a "Sagrada Família" vista do terraço da Pedrera

CASA BATLLÓ

Já exausto de tanto caminhar, me contentei apenas com a fachada da "Casa Batlló", outra construção de Gaudí. Preferi gastar os 17 euros (!!!mais caro que qualquer museu que fui¡¡¡), numas 'tapas' na esquina
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Leia também no "Viralata Reloaded" mais sobre os meus dias na Espanha:
- Teatro Liceu, "o gelo que incendeia" a Ópera

Uma cidade precisa de "mas amor" e nada mais

De Barcelona - OLHAR URBANO

Embora atravessar as ruas de Barcelona seja um 'esporte arriscado' (o arquiteto símbolo da cidade, Gaudí, morreu atropelado) o melhor que recomendo na cidade (aliás, em qualquer cidade que você seja turista pela primeira vez) é se perder pelas ruas estreitas, seguras e cheia de história. Sempre faço isso, é a melhor forma de conhecer qualquer lugar, nada de guias chatos e um monte de turista enclausurados num ônibus. Apenas para não me perder do hotel, identifiquei onde está a praia e a montanha e elegi um 'prédio símbolo' bem alto ("El Corte Inglés") para localização e pronto, caminhei por mais de 4 horas até me cansar. Fiquei tão orgulhoso de mim que até dei informação para uns turistas perdidos (3 no total, 1 casal de dinamarqueses e 1 argentino 'guapíssimo'), tá!

De repente é assim, você está caminhando e 'topa' com uma muralha romana do século IV d.c., claro que com um guindaste gigante ao fundo. Parece que 'guindastes' são o símbolo da cidade, sempre em reforma e construção, estão presente em simplesmente TODOS os lugares por onde você passa.

Mesmo com imóveis milenares, você ainda encontra espaços reservados para propaganda de shows, produtos, lambe-lambe, 'stickers', etc

E até agora o meu preferido e sério candidado a 'calendário do próximo mês' no Blog, afinal só precisamos de "mas amor", não importa onde vivamos!

"Sagrada Família": Nem subi!

De Barcelona - Das minhas viagens pelo mundo sei que não subi na "Torre Eifell", nem no "Empire State Building" ou "Estátua da Liberdade", muito menos na "Space Needle" (Seattle). Desta vez não subi na "Sagrada Família" em Barcelona.
Bom, depois de 30 minutos numa fila imensa, debaixo de um sol escaldante, paguei 11 euros para entrar dentro do templo inacabado de Gaudí e ícone de Barcelona. Já dentro vi um exército de trabalhadores em ação isolados por telas e 'guarda-corpos' do exército de turistas. Havia uma outra fila que serpenteava, imensa, na frente de um pequeno elevador (4 a 5 pessoas por vez) que custava mais uns 3 euros. O único acesso era por este elevador já que por questão de segurança não se pode subir pelas escadas, resultado: 120 minutos de espera! Juro que tentei, mas depois de uns 15 minutos me senti meio idiota no meio daquela fila babélica e faminto - e já cansado de 'bater perna' - desisti.

Para quem não sabe, ainda levará mais uns 30 anos para que tudo esteja pronto. Sendo assim me contentei em ficar observando todos os detalhes daquele 'work in process' todo. Só imaginava que espetáculo o Antônio Araújo podia fazer por aqui, seria genial uma 'intervenção artística' neste lugar!
Abaixo, as fotos que pude tirar. 'Enjoy':

FACHADA
Devo confessar que só pensava no "Batman" do Tim Burton.


PORTAS DE ENTRADA


VITRAIS


WORK IN PROCESS

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- Leia também no "Viralata Reloaded": "Enquanto isso em Barcelona"
- Todas as fotos by Viralata

14 de jul de 2009

Zico Corrêa: O replicante furista do "Le Parkour"

De Barcelona - Já havia visto uma entrevista dos caras que fizeram este curta metragem sobre o "Le Parkour" em São Paulo, daí vem o meu amigo 'twitter' Julio Cesar Borges e 'linka' o video "Samparkour" dirigido por Wiland Pinsdorf. Em uma palavra: VERTIGEM!



Com uma edição de som e uma trilha sonora fantástica Pinsdorf registra a cidade de São Paulo como se ela fosse uma sequência, sem chuva, da futurista Los Angeles de "Blade Runner". O detetive Deckard (Harrison Ford), teria um trabalhão danado em alcançar o 'replicante futurista' Zico Corrêa pela cidade!
Voando, escalando e saltando por entre viadutos, prédios, paredes e praças que são cartão postal do centro de São Paulo, Corrêa nos assombra e chega até a provocar taquicardia, como na impressionante sequência de uma 'parada-de-mão' no topo do Edifício Copan, sem nenhuma rede de segurança, veja abaixo nesta sequência de fotos que tirei do video:


Waall, não tentem fazer isto na sacada do seus prédios 'guys'!
Abaixo o video na íntegra, 'enjoy':

SAMPARKOUR from Wiland Pinsdorf on Vimeo.

9 de jul de 2009

Juan Muñoz, uma retrospectiva plástica e teatral

De Madrid - Sei que o termo 'instalação' pode parecer um pouco saturado hoje em dia para artistas conceituais exporem suas obras, mas como classificar as experiências de Joseph Beuys, ou do multidisciplinar (e sempre subestimado) Wharhol, ou a arquitetura escultural de Richard Serra, ou..., ou..., ou a Retrospectiva do grande artista espanhol Juan Muñoz (1953-2001) no "Museo Reina Sofia/Madri" até 31 de agosto.
Quando houve a grande exposição na Pinacoteca/SP "de Picasso a Barceló", algumas obras de Muñoz foram expostas também como num painel das artes espanholas até os anos 90, quem viu não esqueceu, eu vi e guardei este nome. E claro que na minha peregrinação pelos museus de Madri o primeiro que estava na minha lista era justamente o Reina Sofia, menos pela "Guernica" 'picassiana' (ordas de turistas no segundo andar deixou estreito a grande sala) e muito mais pelas 'instalações' espalhadas por todos os espaços do museu.

Dos acessos pelas escadas (com 'homens enforcados' pendurados), jardins, salas, alas, mezaninos e outros esconderijos que descobríamos e nos surpreendíamos aos poucos, esta retrospectiva de Juan Muñoz mostrou 'um pouco de tudo' do seu imenso talento. Claro que empre falta alguma coisa, e para mim, faltou sua produção dramatúrgica. Textos ora beckettianos, ora pirandellianos escritos para rádio, orquestra e solos interpretados por ele mesmo. A sorte é que encontrei estes textos numa edição única na livraria do museu!
Quem sabe não está nascendo outro projeto por aí?

Para quem não pode ir mando algumas fotos para ter uma ideia da teatralidade do cara. 'Enjoy'!





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Todas as fotos acima by Viralata