9 de ago de 2009

Figura da Hora/"Revista da Folha"



09/08/2009

( figura da hora )

ATOR, DIRETOR E ILUMINADOR, CAETANO VILELA ASSUME A DIREÇÃO DE NOVO ESPETÁCULO DA CIA. DA ÓPERA SECA, DE GERALD THOMAS

Caetano Vilela em ação no teatro São Pedro, onde dirigiu um espetáculo em junho passado

na contramão

por Leticia de Castro / foto Jefferson Coppola

Ele é um sujeito inquieto e um tanto ambivalente. Ganhou dois prêmios como iluminador de teatro. Em sua casa, as lâmpadas pendiam do teto por um fio até há bem pouco tempo.

Caetano Vilela, 40, dirigiu mais de 50 óperas. Nas horas livres, só ouve rock. Considera-se um ser urbano, morou mais de 20 anos no centro de São Paulo. Agora, está construindo uma casa na serra da Cantareira, para onde vai se mudar em busca de tranquilidade.

"Não confio em pessoas muito decididas e lineares. O artista é um ser contraditório por natureza", diz o ator, diretor e iluminador de teatro, que desponta como um dos grandes nomes da ópera no país.

Acaba de assumir a direção da Companhia da Ópera Seca, criada por Gerald Thomas em 1986. A primeira empreitada começa na próxima semana com os ensaios de "Travesties", adaptação do texto do dramaturgo britânico Tom Stoppard.

Será seu primeiro grande trabalho como diretor de teatro e também a primeira vez que outra pessoa assume a companhia. "Já era mais que hora de diversificar", afirma Gerald. "E ele é o mais indicado pra colocar ideias novas ali."

O polêmico diretor é só elogios a Caetano. "Ele é simplesmente genial", derrama-se. "Passamos grande parte do tempo das nossas vidas confidenciando fraquezas, verdades, seguranças e inseguranças, ideias etc."

"Travesties" mostra um encontro fictício entre três personalidades do século 20: o escritor James Joyce (1882-1941), o líder comunista Vladimir Lênin (1870-1924) e o poeta dadaísta Tristan Tzara (1896-1963). No texto, o trio -que na vida real chegou a morar na mesma cidade, mas nunca se conheceu- se reúne durante a Primeira Guerra Mundial. Discute a função política do artista e o papel da arte em regimes totalitários.

"Tudo o que faço tem uma conotação política", diz Caetano. "Não sou de levantar bandeiras, mas o artista tem que refletir o seu tempo."

Em dezembro, ele faz sua estreia em uma produção europeia. Assina a iluminação do musical "A Noviça Rebelde", que ficará em cartaz no teatro do Chatelet, em Paris, com direção do renomado Emilio Saggi, diretor que ele conheceu em Manaus.


Santíssima Trindade
A possibilidade de transitar entre ópera, teatro, direção, atuação e iluminação é resultado de mais de 20 anos de uma carreira iniciada no grupo Boi Voador.

Passou ainda pelo que chama de "Santíssima Trindade" do teatro paulistano. Trabalhou com José Celso Martinez Corrêa, do grupo Oficina, na montagem de "Ham-let". Depois, foi a vez de Antunes Filho. "A primeira coisa que ele me falou foi que eu tinha que esquecer o teatro que fazia. Porque eu não sabia andar, não sabia falar, não sabia nada."

Para pagar as contas, foi garçom de um restaurante e gerente de casa noturna. Ficava da meia noite até 7h no clube. Às 10h, tinha que estar no teatro. "Era o máximo! Mas depois de dois anos e meio não conseguia mais."

Exausto, Caetano deu um tempo no teatro e abriu uma produtora de eventos com uma amiga. Foi quando conheceu Gerald Thomas, fechando a "Trindade". Nessa época, o iluminador da companhia estava se desligando do grupo e abriu espaço para Caetano, que ficou três anos na função. "Criava luz, era ator, diretor adjunto. Fazia de tudo."

O artista passou a se dedicar às óperas após um convite do diretor Iacov Hillel. Nos últimos 11 anos, iluminou mais de 50 espetáculos e fez a direção cênica de alguns deles.

Mesmo em montagens eruditas, ele não perde a oportunidade de misturar o universo pop. Em "La Cenerentola", de Rossini, em 2007, Caetano homenageou Michael Jackson, colocando o coro para dançar a coreografia de "Thriller".

No ano passado, montou "Ça Ira", ópera de Roger Waters, líder do Pink Floyd, e conseguiu levar o músico a Manaus para acompanhar os ensaios e a apresentação. "Foi a experiência mais incrível da minha carreira."

Roqueiro de formação e de coração, Caetano teve o primeiro contato com a música erudita por acaso, em uma loja de discos na praça da Sé. Tinha 15 anos e trabalhava como office-boy. "Entrei na loja e estava tocando 'Lakmé' [ópera de Léo Delibes]. Fiquei encantado", lembra.

O disco era caro. O vendedor falou de uma rádio especializada em ópera, que virou ponto obrigatório no dial do então adolescente.

Além do centro
Filho de comerciantes do Brás, Caetano é o único artista da família. Quando percebeu que não iria assumir os negócios, tomou rumo próprio. Saiu de casa aos 22 anos para dividir um apartamento na avenida São Luís com quatro colegas do teatro.

"O centro sempre foi o meu QG. Todos os teatros e salas de ensaio estão lá", diz. Agora, se prepara para abrir mão do caos criativo da cidade. Vendeu seu apartamento na rua Nestor Pestana e comprou um terreno na Cantareira. "Ninguém está acreditando que vou sair", conta. "Se eu sentir falta, volto. Não dependo mais do centro para criar."

Apesar do desejo de isolamento, Caetano não se desconecta. Há quatro anos criou um blog (www.caetanovilela.blogspot.com). Também está no Twitter, no Facebook, no Myspace e no Orkut. Gosta de repetir uma frase do Marcelo Tas: "A internet dá coerência". Em meio ao caos cibernético, ele se entende.

"A primeira coisa que o Antunes Filho me falou foi que eu tinha que esquecer o teatro que fazia"


10 comentários:

Gerald Thomas disse...

AMEI. Acho que, fora a foto na escada, ficou OTIMO
LOVE
Gerald

viralata disse...

Como dizia o 'sábio': faz parte!
Beijo

Deni disse...

A Revista da Folha errou...
Você não é a figura da hora.
É a figura de TODAS as horas...
Deixei o registro já no Fermata.
Love you, baby!

viralata disse...

amor assim eu fico vermelho!!!! ahsuahusha
Beijo

Igor Santana disse...

Eu sou fã!

Sandra disse...

Seu trabalho é lindo mesmo! Parabéns!

bosschar disse...

Achsoooo... arrasooooouuuuu, Shablyyyyn!!!! Aúnica coisa que me irrita demais é que nao estou neste elenco, hahaha... amo muito todos!
Beijos...

viralata disse...

Amor!!! Saudades amazônicas, se vc ainda tivesse saco com este país já estaria de olhos fechados na pecinha!
beijos

Betânia Pirola disse...

Encantada por conhecer você...ainda que virtualmente. Parabéns pelo belo trabalho que tens feito.
Final do ano estarei por Sampa e quem sabe nos vemos...
Beijo

viralata disse...

obrigado 'mana'! olha. como vc bem viu meu final de ano será parisiense, viajo em novembro e volto em janeiro se dioniso assim o permitir!
beijão e não faltarão oportunidades para nos vermos, Lisboa esta na minha lista das cidades que quero trabalhar novamente, heheheh