20 de set de 2009

Parole, parole, parole

No caderno de Esportes no "Estadão" de hoje Ugo Giorgetti é preciso no título da sua crônica dominical: "Entrevista não é para principiante" em que conta sobre a infeliz frase dita por Hélio dos Anjos, técnico do Goiás, quando perguntado se o "grupo" sentia ciúmes do jogador Fernandão. Resposta do técnico: "Homem com ciúmes de homem é viadagem. Não trabalho com homossexual."! Waall, isso é que é 'finesse'.
Sem entrar no mérito da estupidez da frase (sinceramente, dá até preguiça) o bom da crônica do Giorgetti é fazer-nos perceber que quando você se sente o 'rei da cocada' na frente de jornalistas quase sempre diz besteiras e completa:
- "(...) O que queria analisar é a armadilha que são as entrevistas (...) é sempre um momento de suprema insegurança e você quer parecer inteligente diante do jornalista..."

Foi um prazer ler as ideias claras de Nuno Ramos em duas páginas para o caderno Mais! da "Folha", também deste domingo, entrevista feita por Noemi Jaffe. Nuno é o artista plástico brasileiro que não se limita somente no terreno 'plástico' e invade a literatura, escultura e performance confundindo não só a classificação da sua obra mas também quem a interpreta, no caso os críticos. Sabendo das suas influências e admirações que incluem Paulinho da Viola, Carlos Drummond, Hélio Oiticica ou os mais óbvios Beuys e Frank Stella dá para entender perfeitamente quando ele diz:
- "(...) Na verdade, ao invés de buscar o que em nós é contemporâneo, talvez fosse mais rico procurar o que em nós é extemporâneo, deslocado no seu tempo, mas sem qualquer arcaísmo."

Me considero um cara bastante articulado (por vezes até prolixo) na defesa das minhas crenças e teses artísticas mas devo confessar que acho dificílimo 'explicar' o que faço nos palcos seja na direção, iluminação ou, embora afastado um pouco, atuação. Quando dou uma entrevista sobre o meu trabalho sempre acho que não fui claro ou que o entrevistador não entendeu o que eu quis dizer. Quando é em outro idioma então, o caldo entorna de vez, embora entenda, por exemplo inglês, não 'penso' neste idioma e em nenhum outro além do português.
Recentemente dei uma entrevista para uma revista de artes (em outubro conto mais) que traçou um perfil sobre as minhas atividades e a diferença que há na Luz que faço para óperas. Falei, falei, falei e não comuniquei absolutamente nada. Recebi um e-mail depois da paciente jornalista (a pedido do seu editor) para que eu explicasse novamente de forma 'menos abstrata'.
Difícil falar sobre Luz, acho até mais fácil 'defender' um cenário ou uma interpretação do que explicar o meu processo de criação de uma Iluminação.

Fui destaque numa publicação alemã (link aqui ao lado em C.V. by C.V.) que analisou minhas luzes para óperas e lá eu defini o meu trabalho como um "Dramaturgo da Luz". à partir daí comecei uma tese de como 'enxergo' a luz desde as influências de Appia, Craig, Meyerhold, Gerald Thomas, Bob Wilson até a "história" que ela deve contar no palco. Difícil. E abstrato também para quem não é da área, mas como já disse outras vezes Arte é difícil mesmo!

...

P.S.: Só uma pequena observação no excelente texto do Ugo Giorgetti ('na rede' só para assinantes, infelizmente) quando ele diz: "esse assunto de homossexualismo no futebol parece tão velho e gasto quanto o próprio futebol".
Concordo plenamente com ele, mas o termo correto é homossexualidade. Não custa nada lembrar que o 'ismo' traz a conotação de doença e patologia e nós, homossexuais, não somos doentes. Alguns como eu são por futebol, mas isso não tem cura, heheheh

11 de set de 2009

Eu acredito em "Travesties"!!!

Queridos, para quem anda acompanhando a minha saga em montar "Travesties" de Tom Stoppard com a Cia. de Ópera Seca eu digo o seguinte: A PEÇA VAI SAIR!!!
O que passa é que contra a minha vontade demorará um pouquinho mais, explico: Estava com o projeto pronto desde dezembro-08, corri em busca de patrocinadores (consegui 1 que com a '#crise' adiou temporariamente), deixei num teatro para análise, fiz minhas óperas em Manaus (março-maio), viajei para Espanha à trabalho (junho), voltei e comecei a cobrar respostas... 7 meses depois o teatro recusou o projeto e se desculpou pela demora! Isso para resumir 'elegantemente' minha decepção.

Fiquei com uma mão na frente outra atrás. Não começo a ensaiar sem um mínimo de infra-estrutura e muito menos sem saber onde vou estrear. Talvez eu tenha sido ingênuo em ter deixado apenas em um teatro para análise, mas acreditei que a constante 'parceria' deste teatro com a Cia. de Ópera Seca seria o suficiente para credenciar o projeto como 'executável' , afinal de contas é um puta texto de Tom Stoppard inédito no Brasil. Bom, mas vá lá, renovei os direitos do espetáculo, inscrevi-o em leis de incentivo e estamos aí com reuniões e ótimas perspectivas pela frente.

A estréia está agendada agora para o primeiro trimestre/2010 (em novembro viajo à trabalho para França voltando em janeiro) e começarei agora os contatos com festivais de teatro do Brasil e América do Sul. É isso aí, um extenuante trabalho mas que tenho certeza será recompensador.

Ontem saiu no "Estadão", na coluna da Chris Mello mais uma nota sobre a montagem o que aumenta a curiosidade e a expectativa sobre o meu trabalho na Cia., aguardem mais um pouco, prometo não decepcioná-los!




4 de set de 2009

Carlos Angelo Cafalli (ou: o Iluminado)

Faleceu ontem Carlos Angelo Cafalli chefe de Iluminação do Teatro Municipal de São Paulo, tratado por todos, que já trabalharam no Municipal algum dia, carinhosamente como 'seu' Carlinhos.
Sempre fui muito bem recebido no Municipal e muitíssimo bem tratado por todos, 'seu' Carlinhos , por exemplo, contava sempre a mesma história de quando me viu pela primeira vez trabalhando como assistente de Iacov Hillel naquele palco e de como eu 'cresci' e me tornei um bom profissional. Isso me enche de alegria! Ter o reconhecimento das pessoas que 'realmente fazem o espetáculo acontecer' é de uma responsabilidade maior até do que a de qualquer crítico. Por que? Porque são estas pessoas que você não consegue enganar com os eternos e fáceis 'mesmos truques' e são elas que lembram exatamente a última coisa que você fez e querem saber qual vai ser a novidade. Só quem é ou foi técnico teatral um dia sabe do que eu estou falando, é uma 'cobrança' eterna e uma responsabilidade imensa.

Lembro de quando assinei a iluminação de "Olga" dirigida por William Pereira, 'seu' Carlinhos ficou um pouco mais do que o habitual do seu horário e assistiu a um ensaio em que a luz ainda estava no processo de gravação, me chamou num canto e me disse com aquele inconfundível sotaque 'apaulistanado' que ali eu tinha me superado, que aquela luz era tecnicamente mais bonita e difícil que a de "Condor" (que eu havia dirigido e iluminado anos antes), ainda mais pensando na falta de recursos com que eu estava trabalhando. Agradeci a gentileza e concordei com ele, e que embora não estivesse pronta, aquela iluminação estava me consumindo realmente muitas ideias e a única coisa que me guiava era não repetir o que eu já havia feito com sucesso em outros espetáculos na casa.

Soube que foi um câncer recente que o levou, também não sei a sua idade mas presumo que passava um pouco dos 70.
A única coisa que eu sei é que ele viveu toda a sua vida para a Luz e que não só por causa disso era um homem ILUMINADO! Para mim, um exemplo.

Minha homenagem para o 'seu' Carlinhos é esta foto (by Jefferson Pancieri) da cena final da ópera "Olga", segundo ele "onde eu me superei". O velório e o enterro serão no Cemitério do Araça/SP neste dia 05/09 às 10h

P.S.: Atualizei o post com a foto do 'seu' Carlinhos que foi gentilmente enviada por Eliane Lax, produtora do Municipal/SP, obrigado querida!