29 de dez de 2009

Tudo pelo social, clássico e erudito

"Músicos em fuga".
Onde você poderia ler uma manchete desta? Sim, meus amigos a crise está em todo lugar, o "Le Monde" deste domingo trouxe uma página para descrever um painel nada agradável para compositores, professores de música erudita e musicistas em geral.
A gritaria é por melhores condições de trabalho e, claro, melhores salários. Os bons profissionais da área acadêmica estão saindo em massa para universidades americanas e canadenses onde a relação custo-benefício hora/aula são bem mais vantajosas e sobra mais tempo para os projetos artísticos/pessoais.

O diretor do Conservatório de Música e Dança de Paris, ingenuamente tenta defender sua gestão dizendo que "a mobilidade de compositores é uma realidade que vem de séculos e séculos", ao que Pierre Gervasoni, autor da reportagem, contesta com ironia defendendo que ao largo dos séculos a sociedade também evoluiu e não estamos mais no século XVIII quando Haendel teve de se mudar da sua Alemanha natal para estudar em Londres.
Quem perde com isso é a nova geração que por não ter uma boa qualidade de ensino na área musical também migram mais jovens ainda em busca de um curso de boa qualidade.

Enquanto isto numa situação adversa

Coisa que não passa pela cabeça dos coreanos, por exemplo, já que na 'democracia fechada' da Coréia o investimento em música erudita e salas para Concerto e Ópera são astronômicos e inalcançáveis aos olhos ocidentais. E, pasmem, não são só números, a qualidade é excelente e faz justiça à dedicada obsessão asiática.

E por falar em 'democracia fechada' a Venezuela desenvolve um lindo projeto chamado "El Sistema" há mais de 30 anos, com resultado mundialmente conhecido hoje pela figura carismática do maestro Gustavo Dudamel (de braços abertos com sua Orquestra Jovem Simón Bolívar, formada por integrantes do programa) mas que começou lá atrás com o incansável idealista José Antônio Abreu. Um projeto que não seria nem um pouco desonesto classificar de "tudo pelo social", acabei de comprar em dvd o documentário realizado neste ano pela dupla Paul Smaczny e Maria Stodtmeir, ambos 'pesam a mão' no caráter social, que é a origem do 'sistema' e emociona até o mais emperdenido coração. Claro que nem todas aquelas crianças seguirão carreira na música mas o que importa ali é outra coisa, é dar futuro e um pouco de auto estima para quem não tem nada e isto 'pode' ser uma das funções da Arte (reforço o 'pode' que é tema para outras discussões, começadas até mesmo por aqui)

A topografia das favelas de Caracas é muito parecida com a de São Paulo, que também tem uma orquestra oriunda de um 'trabalho social', a "Orquestra Baccarelli". Fundada pelo Maestro Baccarelli na favela Heliópolis após um trágico incêndio logo aproximou empresas e empresários dispostos a associar seus nomes num projeto de recuperação da auto estima dos seus moradores e como todo projeto deste nível descobriu-se talentos natos para a música. A diferença para com os nossos 'hermanos' é que nenhuma esfera do governo brasileiro 'capitaliza' sua imagem com um projeto destes.

Pelo menos nisso Lula deveria seguir o exemplo de Chávez (que óbvio não é bobo nem nada e manteve 'el sistema' com verba suplementar de propaganda), mas como sabemos que nosso presidente não gosta de ler, nem de ir ao teatro imagina música clássica!

Se joga:
- Treine o seu francês e leia a reportagem completa do "Le Monde" ici
- O filme "El Sistema", saiba mais aqui (não deixe de ler no site os depoimentos mais diversos no "guestbook", vale a pena.
- O Coral e Orquestra Baccarelli aqui

4 comentários:

Luciane disse...

Excelente ! Adorei ! e finalizou perfeito: ele nao gosta de ler e nem de ir ao teatro, Imagina musica classica !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

viralata disse...

E não é... uma pena pra ele não é mesmo? Beijão e feliz ano novo

Sandra disse...

AMEI!!!!
Feliz Ano Novo!!!

viralata disse...

Obrigado Sandra! Bjão e feliz 2010