30 de dez de 2010

Direto da Folha de SP/Ilustrada: "Senhor Albee" (ou: teatro não é fonte de felicidade)

São Paulo, quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Senhor Albee

O americano Edward Albee, autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", tem nova peça montada em São Paulo; ganhador de três prêmios Tony e três Pulitzer, ele defende que o teatro deve ser antes um ato de agressão do que uma fonte de felicidade

Mary Altaffer/Associated Press

O dramaturgo Edward Albee, em 2008, nos EUA

LUCAS NEVES
DE SÃO PAULO

Não venha falar de sonho americano para Edward Albee. Aos 82, o dramaturgo ainda prefere perturbar o sono americano com peças que desconstroem a felicidade conjugal de fachada, prospectam sem pudores as pulsões sexuais de gente comum e fazem personagens contracenar com a morte -seja a perspectiva dela a pairar sobre a cena, seja a dita cuja encarnada.
As opções temáticas fazem do teatro de Albee, há mais de 50 anos, um show de pirofagia em que quase tudo é permitido. Para atiçar chamas, vale desde um arsenal de imagens que oscilam entre o sádico e o grotesco (circuncisão reversa, mastectomia voluntária, estupro anal...) até reminiscências da juventude, marcada por um relacionamento frio com os pais adotivos.
Não espanta que as mães de sua lavra sejam quase sempre figuras odiosas. No Brasil, suas obras são montadas desde o começo dos anos 60. Em 1995, José Possi Neto dirigiu encenação bem recebida de "Três Mulheres Altas". Quatro anos anos depois, Walmor Chagas e Tônia Carrero buscavam "Um Equilíbrio Delicado" -estado que o casal beligerante vivido por Marieta Severo e Marco Nanini em "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (2000) nem sonharia alcançar.
Depois de José Wilker se apaixonar por um ruminante em "A Cabra Ou Quem É Sylvia?" (2008), Karin Rodrigues interpreta a personagem-título de "A Senhora de Dubuque", em cartaz a partir do dia 29 de janeiro, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A morte mais uma vez tem os refletores voltados para si. E nada mais diremos aqui.
Em entrevista por telefone à Folha, Albee advoga por um teatro que configure "um ato de agressão" e não se acanhe em fazer as "perguntas difíceis", ainda que isso irrite grande parte do público -que busca "um entretenimento seguro e amigável".
Para ele, a arte "não tem de nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de nossos sentimentos e valores". Valores que, no teatro ideal imaginado pelo americano, devem ser postos em xeque, jamais reafirmados.
Albee fala também da influência de sua biografia sobre a ficção que ele produz e da frágil formação intelectual do espectador médio de teatro na América de hoje.
Leia a seguir os principais trechos da conversa com o escritor, ganhador de três prêmios Pulitzer e igual número de Tonys:

Folha - A morte é uma presença marcante e até assume forma humana em peças de sua autoria, como "Três Mulheres Altas" e "A Senhora de Dubuque". Por que o senhor acredita que ela seja um mote tão forte para o teatro? Edward Albee - Só há duas coisas que realmente importam. Os dois grandes eventos na vida de qualquer pessoa são seu nascimento e sua morte. E então você escreve sobre esse parêntese, sobre tudo o que acontece nesse intervalo. Você não pode escrever sobre seu nascimento porque não se lembra dele.
Mas pode escrever sobre a morte, porque obviamente não tem memórias dela, mas espera por isso. Há vários tipos de morte. Muitas das minhas peças são sobre pessoas que estão vivas, mas morreram emocional e intelectualmente muito tempo atrás. Você pode estar morto no íntimo e ainda vivo.


As notícias que nos chegam sobre a cena americana incluem a estreia de uma adaptação musical de "Homem-Aranha" orçada em US$ 65 milhões (R$ 109,8 mi) e um número crescente de estrelas hollywoodianas buscando na Broadway legitimação. Que margem esse quadro deixa para provocação e tomada de riscos?
A maioria das pessoas quer um entretenimento seguro e amigável. Não desejam que seja um ato de agressão. E quase toda arte, em seu melhor, é um ato de agressão contra o status quo. Ou seja: está ali para levantar questões, não para fornecer respostas fáceis, simples.
Mas se você faz perguntas difíceis, irrita muita gente. Essa é a função da arte, entretanto. Se ela não lhe saca do conforto, não é arte. O problema é que boa parte das pessoas tem preguiça intelectual.


De que maneira a arte pode ser a um só tempo agressiva e divertida?
Atraente é uma palavra perigosa, significa que as pessoas vão gostar. O que a arte precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções. Ela não tem de nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades. Não entendo como alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando suspensos por fios [referência a "Homem-Aranha"]. Vá ao circo, então! O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar.


Como o sr. vê o jogo de forças entre o teatro que chama de comercial e o de vocação mais experimental, hoje, nos Estados Unidos?
Grande parte das obras que são produzidas com um olhar no lucro que voltará para o investidor tende a ser uma perda de tempo. Por outro lado, grande parte dos trabalhos feitos só de amor ao teatro, ainda que não seja rentável, costuma ter mais valor. Esses são feitos em teatros pequenos, não comerciais, geralmente com temporadas mais curtas do que a porcaria comercial.


E por que isso acontece?
Porque as pessoas não querem ser incomodadas quando vão ao teatro. Anseiam por ter seus valores reafirmados -se é que se chega a discutir valores em cena. Não esperam vê-los questionados. Não estão ali para ser perturbadas. Querem perder tempo e estão dispostas a gastar muito dinheiro para isso.


O sr. é, então, pessimista em relação ao futuro do teatro?
O único problema da democracia é que você tem o que quer, em vez daquilo que você deveria querer. Numa democracia, se você é bem educado, pode tentar alcançar aquilo que deveria querer. Mas tem de ser instruído para fazer a democracia funcionar e para querer um teatro que faça algo útil.
Quando eu ia à escola, tinha uma classe de formação cívica, em que aprendia como o governo trabalhava e o que significava um ato político. Não se ensina mais isso na América. Também tive aulas de música, literatura e artes visuais. Hoje, elas não são consideradas importantes. As preferências das plateias são ditadas pelo pouco que aprendem. Se o cardápio ensinado fosse mais amplo, a gama de interesses seria mais diversificada.

"Toda arte é reinvenção, não repetição"

Edward Albee defende uso de temas tabu, afirmando que se "vendidos como arte" são vistos de forma diferente

Dramaturgo também reclama de encenadores que tentam atenuar ou tornar mais "digestivo" o teor de seus trabalhos

DE SÃO PAULO

Nesta parte da entrevista, Edward Albee fala sobre sua preferência por temas tabu, nega o caráter autobiográfico de suas peças e critica a TV americana. A seguir, os principais trechos. (LUCAS NEVES)

Diante desse quadro, por que insiste em abordar temas tabu, como bestialismo (em "A Cabra"), mastectomia voluntária e circuncisão reversa (ambas em "Homelife")?
Porque isso representa o que sou, o que me interessa. É sobre isso que acredito que as pessoas deveriam refletir.


Mas esses temas ainda são capazes de ruborizar a plateia, tirá-la da zona de conforto?
As pessoas prestam atenção de um jeito diferente quando estão diante de algo que é vendido como arte.


Já foi sugerido que o sr. se vale fartamente de sua biografia para criar peças. As mães de seu teatro seriam variações da figura de sua mãe adotiva, com quem o sr. mantinha uma relação difícil. Como equilibra realidade e ficção?
Estou limitado pelas fronteiras da minha imaginação. Escrevo o que consigo imaginar. Mas não limito a minha escrita a fatos que tenham acontecido comigo, porque não penso ser um objeto teatral tão interessante assim. Me considero uma pessoa interessante, mas não um tema próprio para uma peça.


Qual a diferença entre ser uma coisa e a outra?
Para que a história de alguém se preste ao teatro, suas ações têm de fazer sentido em termos dramáticos, não apenas intelectuais. Senão você transforma uma vida chata numa peça idem. Não consigo imaginar uma peça muito boa sobre [o filósofo alemão] Immanuel Kant, por exemplo.


Em suas peças, surge com frequência um elemento "intruso", alguém que vem de fora do cenário principal para (às vezes à própria revelia) derrubar máscaras sociais, revelar hipocrisias. Como o jovem casal convidado pelos protagonistas de "Virginia Woolf", ou o par e a filha visitantes de "Um Equilíbrio Delicado". O inferno são os outros?
Dramaturgia se apoia em conflitos emocionais, físicos, psicológicos ou políticos. E se você tem um grupo de pessoas que se conhece bem, está muito feliz e não tem sobre o que falar, não há conflito. O que você tem em mãos nesse caso é televisão.


Mas não dizem que a televisão americana vive uma nova era de ouro, com enredos provocativos, personagens bem construídos?
Por "era de ouro", querem dizer um período muito rentável. Só vejo programas informativos, que possam me ensinar algo. Gosto daqueles que tratam de animais, ciência, o cérebro. A minha leitura também segue essa mesma inclinação.


E peças, o sr. lê?
Leio porque quero saber o que está acontecendo naquela história. Se vejo uma montagem sem antes ter lido o texto, não tenho a certeza de estar assistindo à peça que o dramaturgo imaginou.
Há uma hierarquia que deve ser respeitada, que determina que o texto venha antes, e a sua interpretação, depois. Essa deve apenas reforçar o que o autor concebeu.
Em duas ocasiões, senti que isso não estava acontecendo, e o resultado foi horrível. Mas não quero falar sobre isso. Você tem de ser forte para garantir que a sua visão é o que a plateia vai receber, porque às vezes tentam abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva. Diretores às vezes fazem isso, seguindo comandos de quem está colocando dinheiro na produção.


O sr. dá aulas na Universidade de Houston. Como é o contato com grupos de jovens dramaturgos?
Ensino porque aprendo ao fazê-lo. Sou muito egoísta. Se não existisse essa via de mão dupla, não funcionaria para mim. Sempre digo aos alunos: "Escrevam a primeira peça de todos os tempos. Inventem a forma, a estrutura, a ideia". Toda arte é reinvenção, não repetição. Arte ruim é repetição. É simples assim.

RAIO-X
EDWARD ALBEE

VIDA
Nasceu em 12 de março de 1928, em Washington D.C., Estados Unidos

OBRA
Escreveu mais de 30 peças, dentre as quais "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf", em 1962 e "A Cabra Ou Quem é Sylvia?", em 2002

PRÊMIOS
Ganhou três vezes o Tony Awards (por "Quem Tem Medo...", "A Cabra..." e pelo conjunto da obra), e três vezes o Pulitzer (por "Seascape", "Um Equilíbrio Delicado" e "Três Mulheres Altas")

24 de out de 2010

Direto da Folha: "Pelo amor de Deus, não copiem os EUA" - Benjamin Moser



São Paulo, domingo, 24 de outubro de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES

Pelo amor de Deus, não copiem os EUA!
BENJAMIN MOSER



Em vez de copiar os políticos americanos, que têm levado a nação à paralisia, os brasileiros deveriam aprender uma lição com a Argentina e Portugal

Ao longo dos últimos 40 anos, nós, americanos, temos assistido, em nome de "valores" ou da "família", a ataques religiosos contra as mulheres e os homossexuais.
Começou como reação a um movimento gay que ganhou grande ímpeto resistindo aos ataques da polícia de Nova York contra o bar Stonewall; e a um movimento feminista que celebrou uma vitória histórica em 1973, quando a Suprema Corte legalizou o aborto.
O ressentimento por essas liberdades duramente conquistadas forneceu uma oportunidade aos políticos de direita e aos pastores evangélicos.
Pastores deram a bênção aos políticos que compartilhavam da sua obsessão com a vida pessoal alheia.
Desnecessário dizer que esses mesmos pastores logo se tornaram um espetáculo nacional, caindo um atrás do outro em escândalos, quer sexuais, quer financeiros.
Mas os políticos covardes já entregaram a essa gente o direito de mandar em assuntos "morais".
Agora, com crescente desânimo, vejo o Brasil seguir o mesmo caminho. Sabe-se que o evangelismo brasileiro tem suas raízes nos missionários americanos que chegaram há exatamente cem anos, e cujos descendentes estão impondo a mesma "moralidade" na política.
Em uma carta aos candidatos, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais denunciou a "instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral".
Em vez de ressaltar suas admiráveis conquistas na luta contra a homofobia ou suas antigas posições a favor do aborto legalizado, Dilma e Serra estão tentando agradar a essa mesma banda.
Políticos corajosos teriam defendido uma outra moralidade. Denunciariam o fato de mulheres morrerem todo dia no Brasil por causa da criminalização do aborto.
Denunciariam a Igreja Católica, que, em nome da "família", excomungou uma mãe pernambucana que providenciou um aborto para a filha de nove anos, grávida de gêmeos após ser estuprada pelo padrasto. Denunciariam que o número de assassinatos de gays no país cresceu 62% desde 2007 e que, de acordo com um estudo do Grupo Gay da Bahia, um gay é morto a cada três dias no Brasil.
Para os americanos, isso é muito deprimente. Em vez de copiar os políticos americanos, que têm levado a nossa nação ao desastre e à paralisia, os brasileiros deveriam aprender uma lição com a Argentina, cuja presidente fez discursos eloquentes a favor de tratamento igual no casamento.
Outra lição vem de Portugal, cujo premiê, José Sócrates, conseguiu a igualdade para todos os portugueses. Não é vergonhoso -sejamos sinceros- ver o Brasil ficar atrás da Argentina e de Portugal?
Como aqueles países demonstraram, a moralidade e os valores têm, sim, um lugar na política. O Brasil oficial não se cansa de repetir que a tolerância é o valor por excelência do brasileiro. Mas não basta dizê-lo.
Um dia, o debate sobre o aborto e o casamento gay terá o mesmo caráter antiquado que hoje tem a lembrança das disputas sobre o divórcio. Mas, para ver esse dia chegar, o Brasil precisará de políticos com muito mais coragem do que a demonstrada por Dilma e Serra.
Para tornar o Brasil um país mais digno, os seus líderes terão, sim, que copiar os americanos. Não o que temos de mais detestável.
Copiem, em lugar disso, Martin Luther King, morto depois de libertar os negros; os militantes de Stonewall, que saíram na porrada com a polícia de Nova York; e os juízes da Suprema Corte, que garantiram que nenhuma mulher morreria por ter praticado um aborto ilegal.
Estes fizeram a grandeza de nosso país -a mesma grandeza hoje decadente, graças, também, aos fanáticos religiosos.

BENJAMIN MOSER, 34, americano, é escritor, crítico e tradutor. Colunista de livros da revista "Harper's", é autor de "Clarice," (Cosac Naify, trad. José Geraldo Couto).

4 de out de 2010

Entrevista com Antunes Filho, direto da Ilustrada/FSP

São Paulo, segunda-feira, 04 de outubro de 2010



ENTREVISTA ANTUNES FILHO

"Acabou a era do diretor tirano; o agora é a troca"

AOS 80 ANOS, DIRETOR GANHA LIVRO SOBRE SEU MÉTODO DE FORMAÇÃO TEATRAL E DIZ QUE ATOR PRECISA TER A CABEÇA LIVRE DE AUTORIDADE

Lenise Pinheiro/Folhapress

Flavia Pucci e Helio Cicero na peça "Paraíso, Zona Norte. A Falecida", em 1989

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Com 60 anos de carreira, o diretor teatral Antunes Filho ainda vive um impasse.
Seu método de criação e de formação de atores, exposto agora no livro "Hierofania -°O Teatro Segundo Antunes Filho", de Sebastião Milaré, se consolidou como marco do cenário teatral brasileiro, para não dizer do mundo. Mas o diretor não se satisfaz em olhar apenas um caminho já percorrido.
"Meu legado eu não sei qual é. A palavra lembra morte, e eu não penso nisso.
Meu legado é o que eu vou fazer no ensaio hoje. É o espetáculo que vou apresentar amanhã", diz, em entrevista à Folha, na sede do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), no Sesc Consolação.

Folha - O livro "Hierofania" cita o espetáculo "Macunaíma", de 1978, como marco do teatro brasileiro. O que acontecia no cenário internacional na época? Antunes Filho - Havia uma espécie de rito de transição. Tinham surgido Peter Brook, Kazuo Ohno, Tadeusz Kantor. Todo mundo apareceu quando houve uma explosão de festivais de teatro.
Foi o início da chamada "era do diretor". O teatro era tão multifacetado naquela época. E "Macunaíma" se inseriu nesse momento de potência teatral.

Por não ter participado expressivamente da ruptura do modernismo brasileiro, o teatro estava atrasado?
Pois é. Oswald [de Andrade] criou uma ou outra peça modernista, e elas não foram encenadas na época.
Mas, ao mesmo tempo, é o teatro que estoura com o modernismo nos anos 60 e 70. A passagem do moderno para o pós-moderno foi nesse movimento internacional.

E essa chamada "era dos diretores" acabou?
Não acabou. O que acabou foi a era do diretor tirano. Agora é a época do diretor que procura cooperação. Antigamente a expressão que se usava era que as coisas vinham do Céu para a Terra. Ao umbigo do mundo, através das catedrais, se instaurava no mundo o Dharma. Agora não tem mais o Dharma. Agora é a troca.

Texto, colaboração e coautoria ganharam importância?
Sim, mas, no trabalho colaborativo, de grupo, tem ainda o cara que precisa reger. Liberdade pressupõe ordem e exige consciência. O modo como vai se estabelecer essa ordem, se é por meio de um diretor ou de uma máquina... Sei lá se pode ter máquinas fazendo isso [risos].

O sr. defende o ator como peça principal do teatro.
Claro. Qualquer peça só pode sair da estante e ir para o palco se houver um ator. Seja no velho drama, seja no futuro, seja ainda no não drama, já que hoje tudo está sendo contestado.

O que está sendo contestado?
Não somente a hegemonia do diretor, a do texto, a da trama. Tudo revela um autoritarismo que está sendo sanado ou questionado.
O ator é a pessoa que, com a sua liberdade, fica à margem dessa coerção que imaginamos haver.
Ele tem de estar livre. A cabeça dele não pode ser autoritária. Só com consciência e liberdade poderá não mais representar, mas atuar. Projetar alguma luz nisso tudo que é contemporâneo.

Isso faz do ator uma espécie de coautor?
Não. Faz dele uma janela. Mas, se ele não tem base cultural e técnica, ele é uma janela fechada.

A criação dramatúrgica, que ganhou espaço no CPT, também representa uma procura sua por novos caminhos? O que ficou velho no teatro?
Estamos num momento de impasse em termos de criação. Tentamos caminhar. Ironizamos tal coisa, parodiamos aquilo outro. Damos margem ao outro lado do nosso inconsciente.
A forma de Brecht já pode ter envelhecido. Mas Brecht como poeta não. Como escritura, ele é atualíssimo. Por meio da linguagem poética, cria rituais. Daí os mitos do inconsciente vêm à tona.

O que significa para você as mortes de Kazuo Ohno (2010) e de Pina Bausch (2009)?
Dois modelos fundamentais que se foram, mas que continuam presentes. Duas guias. A gente chegou ao fim do túnel e tinha aquela luz.
Daí estávamos ali no claro e nos perguntávamos: "E agora? O que vamos fazer? Que luz maravilhosa, né? E daí? Estamos aqui agora iluminados por essas luzes e o que vamos fazer?". E essa luz ainda está acesa.

RAIO-X
ANTUNES FILHO


VIDA
José Alves Antunes Filho, 80 anos, nasceu em São Paulo em 12 de dezembro de 1929

OBRA
Foi pioneiro em criar a partir de estudos sobre metafísica, filosofia e cultura oriental

CPT
Em 1982, recebeu um convite do Sesc para coordenar o Centro de Produção Teatral, no Sesc Consolação

Autor segue trupe por 15 anos para decifrar detalhes

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Poucos conhecem tão bem a obra de Antunes Filho quanto Sebastião Milaré.
Para escrever "Hierofania -O Teatro Segundo Antunes Filho", o autor acompanhou de perto o processo criativo do diretor por 15 anos.
Ele acabou se tornando alguém "da casa", o que lhe possibilitou decifrar detalhes do processo criativo abastecido também pelos jovens atores do CPT.
O foco do livro é justamente o desenvolvimento desse método a partir da estreia de "Macunaíma" (1978), o espetáculo em que o diretor decide romper com uma sólida carreira -em suas próprias palavras- "comercial".
Nos anos 80, Antunes passa a criar, sob a tutela do Sesc, sempre em sintonia com um projeto educativo e de formação do ator.
Milaré se debruça sobre a técnica corporal e vocal que deu origem a espetáculos antológicos, como "Velha Nova Estória" (1991), "Vereda da Salvação" (1964/1993), "Gilgamesh" (1995) e "Medeia" (2001/2002).
A respiração e o trabalho com a voz despontam como um dos tópicos principais.
O livro não se aprofunda em questões estruturais dos espetáculos, passa apenas pela superfície de conceitos como cenografia, figurino e o coro como opção estética.
"Mas essas questões acabam aparecendo, uma vez que o método de Antunes tem uma forte base em um processo de individuação ideológica e cultural."


HIEROFANIA - O TEATRO SEGUNDO ANTUNES FILHO
AUTOR Sebastião Milaré
EDITORA Edições Sesc-SP
QUANTO R$ 85 (397 págs.)

3 de set de 2010

Beijo, abraço ou aperto de mão? Parte II

Quando eu tinha saco para escrever sobre política (na verdade quando as pessoas tinham saco para ler sobre política em blogs) não precisava de muita concentração para lembrar que certos temas eram pisados e repisados na mídia como "O" assunto da semana. Se você, como eu, lê uma meia dúzia de jornais (físicos ou online) também já deve ter sido internado num hospício por ranzice quando se depara com as mesmas novas-velhas notícias. E não não estou falando da charlatanice petista, disto já desisti e já sou uma 'bicha de direita' conformada (título que ganhei após publicação de alguns links sobre a escória petista via Facebook e Twitter, na verdade recebi algumas ameaças também, mas isso é uma outra história), me refiro as tais 'Cúpulas da Paz' que poderiam se chamar 'Cúpula do Pega no Meu e Balança" já que PAZ mesmo só serve pra vender camisetas cafonas com pombas brancas entre as letras.

Capa de todos os jornais de hoje (aqui o link do NYTimes, Folha e Estado só para assinantes) trazem notícia do encerramento da tal cúpula, enquanto mudam os protagonistas e aumentam as vítimas eu, você ou o político que escolheremos nas próximas eleições não têm ideia do que está acontecendo no Oriente Médio. Pronto, já me lembrei porque parei de escrever sobre política.

Hillary Clinton 'segurando vela' para o aperto de mãos entre Binyamin Netanyahu e Mahmoud Abbas na cúpula da paz encerrada ontem. Cada vez mais 'cúpula' e cada vez menos 'paz'
...

Aqui, neste mesmo Viralata, post de 28/11/2007 que reproduzo na íntegra:

O histórico aperto de mãos patrocinado por Clinton, em setembro de 1993 em Washington. Yizhar Rabin (à esquerda) e Yasser Arafat. Esse aperto valeu o Nobel da Paz mas a paz mesmo durou pouco, o terrorismo voltou com tudo e o ressentimento ressurgiu.

O aperto de mãos entre o palestino Mahmoud Abbas (à esquerda) e o israelense Ariel Sharon, pós Arafat (morto em novembro de 2004) em fevereiro de 2005. Promessas de paz e nenhum acordo formal, apenas promessas de parar com as agressões mútuas.

Ehmud Olmert (Premiê Israelense) aperta a mão do Líder Palestino Mahmoud Abbas, no centro Bush que você já conhece. O trio na cúpula de paz para o Oriente Médio, em Annapólis nesta semana de 2007. O 'aperto' deste ano é para tentar criar um Estado Palestino (coisa que todo mundo aceita e concorda), acabar com o terrorismo, libertar os presos palestinos detidos por israelenses e otras cositas mas no varejo.

Do primeiro 'aperto' de 1993 sob o olhar de Clinton até 2008 com Bush no centro das negociações aproximadamente 120 homens-bombas explodiram em Israel, a maioria sob as ordens do Hamas, como se vê o terror age de forma independente e impiedosa.

Quem sabe se os acordos fossem selados com abraços, que podem ser mais 'calorosos' do que apertos de mãos, ou talvez beijos? Pensando bem russos e romanos se beijam desde priscas eras e as coisas não caminharam muito bem não é?
Melhor mesmo é esquecer estes gestos midiáticos, arregaçar as mangas e falar a mesma língua, mas aí colocaremos em cheque toda uma babel literária de conflitos e interesses que escapa a razão humana.

Como dizia Gerald Thomas (em off, of course!) em algum espetáculo perdido no século passado:
- "Está estabelecido o conflito".

7 de ago de 2010

Crítica "Dueto para um"/Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 07 de agosto de 2010





CRÍTICA DRAMA

Estreia de Mika Lins tem ótima encenação

Atriz faz meticulosa direção de texto de Tom Kempinski com atuações excepcionais sobre artista e seu terapeuta

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA

O teatro como a arte do diálogo. "Dueto para Um" apresenta antológica peça de Tom Kempinski, toda construída em torno da dialética entre uma paciente e seu psicoterapeuta.
Escrita em 1980 pelo ator de cinema e dramaturgo inglês -e filmada em 1986, tendo Julie Andrews e Alan Bates como protagonistas-, chega ao Brasil marcando a feliz estreia da atriz Mika Lins como encenadora.
O drama de Kempinski é claramente inspirado na história da violoncelista britânica Jacqueline Mary du Pré. Ela fez carreira brilhante como solista e casou, no auge da fama, com o pianista e maestro Daniel Barenboim, morrendo aos 42 anos, depois de sofrer lenta deterioração física provocada por esclerose múltipla.
Na ficção encenada, o autor se concentra sobre a plausível agonia mental da artista com a doença e fabula uma situação em que ela recorre a uma terapia psiquiátrica para suportar todas as perdas sofridas. A musicista aqui chama-se Stephanie e o instrumento que ela é forçada a abandonar é o violino.

EXCEPCIONAL
A ação dramática transcorre durante seis sessões em que a artista frequenta o consultório do Dr. Feldman. Assim, das primeiras visitas, quando ela ainda resiste em admitir qualquer sofrimento psíquico, até os momentos de quase desespero com sua degradação física, o jogo dramático se dá no embate de ideias dela com seu médico.
A montagem de uma trama como essa, centrada na conversação, exige um desempenho excepcional dos atores em cena. Bel Kowarick corresponde a essa necessidade e realiza o melhor e mais potente trabalho de interpretação de sua carreira. A atriz excede em talento no virtuosismo quando constrói a evolução da personagem pelos diversos e dolorosos estágios da terapia.
O ator Marcos Suchara também aparece com brilho, compondo a convincente caracterização de um terapeuta que se entrega apaixonadamente à tarefa de apaziguar a alma atormentada de uma doente terminal.
Diante desse talentoso duo, a encenação de Mika Lins evidencia-se sutilmente, como a arbitragem de um bom juiz de futebol. Está claro que o ótimo desempenho dos intérpretes é tributário de uma meticulosa direção.
Cássio Brasil propõe uma cenografia sintética e funcional, servindo-se apenas de um praticável giratório, e a iluminação de Caetano Vilela contribui fortemente, ao lado da trilha sonora de Marcelo Pellegrini, para pontuar as transições e enfatizar os picos de tensão.
A peça "Dueto para Um" parte de um texto consagrado para reafirmar uma vocação milenar do diálogo dramático: a de representar um processo de cura pela tomada de consciência.


DUETO PARA UM

QUANDO qui. e sex., às 21h
ONDE Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 0/ xx/11/3234-3000)
QUANTO R$ 2,50 a R$ 10
CLASSIFICAÇÃO 14 anos
AVALIAÇÃO ótimo

28 de jul de 2010

O Teatro Pós-Dramático (ou: para estudar antes de citar)

De repente toda a classe teatral descobriu o 'teatro pós-dramático', waalll.
Já ouvi de muitos, sem ao menos ter uma vaga ideia do entendimento do termo, as mais disparatadas 'defesas' desta estética teatral estudada pelo teatrólogo alemão Hans-Thies Lehmann. Claro que esta corrente teórica de pensamento é européia e, claro também, que quando chega ao Brasil chega com um considerável atraso, no caso mais de 40 anos!

Nos anos 80, quando comecei a estudar teatro e participar de grupos, a discussão era exatamente a mesma, só que mais rasa e por outro viés: o teatro de imagem x o teatro de texto, ou a supremacia dos encenadores x atores ou, para encerrar discussões mais profundas, eram os anos da frase mais ouvida nos saguões após os espetáculos: "achei lindo, mas não entendi nada!"
Na categoria do teatro de 'imagens' entrava Gerald Thomas e sua recentemente criada Cia. de Ópera Seca (que hoje dirijo), assim como também Ulysses Cruz e seu grupo Boi Voador (do qual fui ator em vários núcleos por 4 anos), dissidente do CPT de Antunes Filho (com quem trabalhei também como ator por mais 2 anos) talvez o 'representante eterno' do teatro de texto/ator. Ambos os grupos praticavam o que somente hoje a intelligentsia teatral paulistana entende por teatro pós-dramático e já naquela época isso não representava nenhuma novidade ao teatro que se fazia na Europa ou no pequeno nicho experimental norte americano.

Publicado em 1999 e lançado faz pouco tempo pela Cosac Naify "Teatro Pós-Dramático" é um ótimo estudo para entender os caminhos contemporâneos do teatro mundial. Para muitos brasileiros que trabalham na área será uma verdadeira 'bíblia' para ser citado em conversas descoladas. Conversa obviamente empobrecida, principalmente para quem nunca teve o privilégio em acompanhar de perto grupos e encenadores revolucionários como Robert Wilson, Tadeusz Kantor, Robert Lepage, Societa Raffaello Sanzio, Théâtre du Soleil, e muitos etc...

Abaixo, reportagem na Folha de S.Paulo de ontem sobre a vinda de Lehmann ao Brasil e, claro, teatro pós-dramático:



São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010

A encruzilhada do teatro

Teórico alemão Hans-Thies Lehmann, que participa de debate em SP, diz que futuro da arte está na volta às origens

Silvia Zamboni/Folhapress

O teatrólogo alemão Hans-Thies Lehmann posa na sede de uma produtora cultural, em SP

LUCAS NEVES
DE SÃO PAULO

O teatro já vestiu os figurinos da tragédia, do drama burguês e do épico. Independentemente do disfarce, é pautado há tempos pelo texto e pela representação do mundo por meio de fábulas ordenadas, lineares, vividas por personagens bem desenhados em cujos conflitos a plateia projeta os seus.
Agora esqueça isso. O teatro que o teórico alemão Hans-Thies Lehmann, 65, chama de "pós-dramático", corrente que ganhou força a partir dos anos 60 pelas mãos de grupos alternativos e foi aos poucos incorporada pelo "mainstream", implode o primado da palavra.
Sua cartilha ilumina a composição dos elementos cênicos (luz, atores, trilha, cenário) em detrimento do enredo e contrabandeia referências da dança, das artes visuais e do cinema.
O teatrólogo, que está no Brasil a convite do Goethe-Institut São Paulo para participar hoje de uma mesa redonda sobre a cena contemporânea, diz à Folha que esse "futuro" do teatro, sem hierarquização e imperativos de coesão, na verdade constitui uma volta às origens ritualísticas, festivas da arte. Leia abaixo os principais trechos da conversa.

Folha - Na introdução ao livro "Teatro Pós-Dramático" (CosacNaify, 437 págs.), o senhor observa que o teatro deixou de ser uma arte de massa. Pode ele ainda hoje ser relevante, impactar a sociedade?
Hans-Thies Lehmann
- Sim. Acredito no futuro do teatro como uma prática artística e social. Muitos acham que o seu futuro está em manter a dimensão literária, o classicismo. É assim que poderia reagir à cultura midiática, com sua velocidade e virtualidade. Não acredito que esse seja de fato seu futuro. Quando uso o termo "pós-dramático", me refiro ao teatro europeu desde os anos 60 e 70, enlaçado em redes midiáticas, que tem de encontrar seu lugar e se afasta da estrutura dramática tradicional.
Mas há uma segunda acepção do termo: estamos regressando a uma ideia muito mais ampla do que seja o teatro, com elementos de ritual, de encontros comunitários, de festividade. É o futuro que deixamos para trás.

O pós-dramático é então uma volta às origens do teatro?
Sem dúvida. Novos desenvolvimentos são muitas vezes memórias de coisas esquecidas, que estiveram presentes em tempos anteriores. Mas são também um passo em direção ao futuro.

São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010



"Não há teatro político que não seja visualmente atordoante"

Lehmann afirma que a oposição às formas dramáticas estabelecidas deve ir além do discurso

Para estudioso alemão, acenos à música e ao cinema retiram do teatro rótulo de chato e renovam o público


DE SÃO PAULO

Na segunda parte da entrevista, Hans-Thies Lehmann comenta a adoção de procedimentos pós-dramáticos pelo "establishment" teatral, defende um teatro político tanto no discurso quanto na concepção visual e comenta o poder de atração dessa nova cena sobre o público jovem. (LUCAS NEVES)

O sr. entende o teatro pós-dramático como resposta à era da imagem, em que novas tecnologias põem fim ao primado do texto. Mas não se pode vê-lo também como concessão, rendição a ela?
Há esse perigo. Sei que a descoberta dessa grande variedade de linguagens cênicas pode desaguar num entretenimento "mainstream". Não acredito que um conceito teórico seja o suficiente para produzir bom teatro.
Muitas técnicas e estilos do pós-dramático foram aceitos como expressão autêntica e interessante de nosso tempo. Há mesmo quem tenha assumido o pós-dramático como discurso para fugir dos vícios do teatro dramático das grandes instituições. Mas não há teatro político que não seja visualmente incômodo, atordoante.

Há, no pós-dramático, uma mudança de foco, das intenções do sujeito para sua exposição crua, de sua vontade consciente para seus desejos. Isso torna o teatro mais autêntico, ao aproximá-lo da "essência" do homem?
Não iria tão longe. Falo de uma mudança de ênfase apenas para explicar que, em certo tipo de teatro atual, surgem comportamentos, gestos, coreografias que não podem ser interpretados em termos psicológicos. É uma nova forma de interpretar o homem, em que tudo o que é físico, instintivo vem à tona. Mas nunca alcançaremos uma verdade absoluta dos sentimentos ou do corpo.

Ao propor que o texto não seja mais o elemento a orientar montagens e que se deixem de lado a coesão e a harmonia, a cartilha pós-dramática não afasta parte de sua plateia potencial?
Alguns elementos do pós-dramático se tornaram amplamente aceitos ao incorporar a cultura popular, que é uma referência comum a todos. As plateias mudam, e penso que para melhor. As novas práticas atraem um público mais jovem, que até aqui via o teatro como chato, desinteressante.

Como o pós-dramático redefine o papel do crítico, ao exigir dele conhecimentos de outras artes? E, pelo lado dos criadores, esse intercâmbio pode abrir brecha para trabalhos incompreensíveis, não?
Sim, assim como a repetição de modelos clássicos pode ser gratuita. Usar estratégias pós-dramáticas não salva necessariamente as peças de virarem extravagâncias sem conteúdo.
Quantos aos críticos, eles realmente hoje precisam de novas habilidades para transitar entre as artes, devem estar conectados à cena musical, entender de pop art. Outro fator que complica a tarefa do crítico é o de que cada vez mais montagens dependem da reação do público, das perguntas que ele apresenta aos atores. Então, manter o distanciamento crítico é algo mais árduo.

Seu pensamento é alvo de críticas por estabelecer uma espécie de linha evolutiva para as artes, em que novas formas superariam as antigas, tornando-as anacrônicas, datadas. Como reage a isso?
Acho essa crítica compreensível. Apontei no livro "Teatro Pós-Dramático" que essa corrente amplia as possibilidades cênicas, mas nunca falo em morte do drama. Isso dito, tenho quase certeza de que nunca voltará a acontecer algo como o pós-dramático, que instaurou a dúvida sobre o homem enquanto criatura essencialmente dramática.




São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010

RAIO-X
HANS-THIES LEHMANN

PROFISSÃO
Hans-Thies Lehmann é professor de Estudos Teatrais da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas; como dramaturgo, trabalhou com importantes diretores europeus

LIVROS
Ele é autor de "Teatro Pós-Dramático", "Teatro e Mito: A constituição do Sujeito no Discurso da Tragédia Antiga" e "Os Escritos Políticos: Ensaios sobre Textos Teatrais"

AGENDA EM SP
Hoje, às 19h, no Goethe-Institut (r. Lisboa, 974, tel. 0/ xx/11/3296-7000; grátis), participa da mesa-redonda "Perspectivas Pós-Coloniais do Teatro Contemporâneo"

18 de jul de 2010

Ele está no meio de nós (ou: Gerald Thomas voltou)

Gerald Thomas voltou!
Para quem apostava que a sua "breve interrupção" seria menos breve errou por tudo o que a palavra interrupção carrega, talvez 'suspensão' soasse melhor e mais teatral: uma breve suspensão interrompe o que poderia ser um fim e, como num thriller, nos deixa suspensos... em suspense. Trocadilhos à parte (ou não, diria outro Caetano) Gerald volta, não de onde parou, mas do zero.
Ele encarou novamente Rembrandt, olhou fundo nos seus 'olhos sobre tela' e decidiu que o que era fim é (re)começo e se no princípio era o verbo logo em seguida vem o conflito e sem olhar para trás refunda a Dry Opera Company em Londres para batizá-la (numa igreja!) com o primeiro (talvez o segundo) conflito da humanidade: Caim e Abel, ou "Cain Unable", ou a Incapacidade de Ser Caim, ou Caim Incapaz, ou...

Para quem ficou confuso então ficamos assim: tanto a Dry Opera-SP quanto a Dry Opera-Lon tem em Gerald Thomas o seu mentor e fundador. No momento eu estou dirigindo a Cia. em São Paulo e o fruto deste primeiro trabalho foi "Travesties" (que estreou no Festival de Curitiba, viajará para mais 3 festivais e ainda não tem data nem patrocínio para temporada em São Paulo) e ele estréia em outubro, em Londres, "Cain Unable".
Isto esclarecido podemos também fazer um intercâmbio das Cias., ou o Gerald pode voltar a dirigir aqui em SP, ou se eu tiver algum projeto posso dirigir a Cia. em Londres, ou não...

Abaixo, reportagem de capa do Segundo Caderno do Globo deste domingo:



Gerald Thomas: a volta do que não foi

Nove meses depois de anunciar que abandonara o teatro, o diretor recria, em Londres, sua companhia; estreia é em outubro

Arnaldo Bloch

O GLOBO: O que o fez mudar de ideia tão rápido?

GERALD: Conversei com amigos, dentre eles Philip Glass, e percebi que mesmo esses momentos de “se sentir um zero à esquerda” faziam parte do que somos. Mas sair é uma coisa: sai-se por esgotamento, como foi o caso em setembro do ano passado. Olhei para minha vida e meu trabalho, e não gostei do que vi. Entrar de novo é mais parecido com ter que pedir licença para viver. Comecei a construir o caminho de volta pela Inglaterra da minha adolescência, onde casei as três primeiras vezes e criei um filho, mas que não me conhecia bem e com a qual tenho uma relação de amor e ódio.

Da ida à volta, foi exatamente o tempo até um parto…
Um parto de quíntuplos, porque é duro parir uma identidade em vez de uma peça. Você redescobre sua obra inteira e a enxerga como se estivesse vendo algo de um estranho.
Não reconhece nada. Olha tudo aquilo justamente como as pessoas que diziam que não entendiam o teatro de Gerald Thomas. Ao renascer, vou me expondo a esse povo todo em Londres sem saber o que está pela frente…

Como tem sido o processo de seleção e quando pretende estrear? Já existe o embrião de um primeiro texto?

Vi perto de 600 atores em uma semana. Aproveitei um monte. Vamos ver quem resiste ao workshop, em agosto, para a estreia, em outubro. Vou desenvolver textos para pessoas como o Kevin, um extraordinário ator, a Maria de Lima, uma portuguesa com sotaque londrino, ou o Dan, com aquela cara de judeu que deixa claro de onde viemos e que vamos para a lama. Estou brincando com o título “Cain unable”: foneticamente soa como “Cain and Abel”, os dois irmãos bíblicos, mas quer dizer “Caim incapacitado”. Os atores ingleses têm uma incrível energia. Podem não ter muita cultura, e isso me impressionou: a grande maioria não sabia quem era Samuel Beckett ou Richard Wagner, nem definir homo sapiens.

Mas aqui em Nova York a atmosfera do East Village e do teatro de onde venho está cansada. O establishment venceu mesmo! Quase não há resistência…

Já no teatro britânico existe uma longa história de agitprop theater, ou seja, o teatro do opositor.

Em setembro você dizia não estar pronto para o iTheatre.

A nova companhia incluirá o meio digital?

Sim. O próprio material dos testes já está disponível em Vimeo (melhor que YouTube porque comporta uma hora ou mais). Mas iTheater seria migrar para o território virtual.

Isso, não! Porém, ter um departamento de mídias, incluindo a tecnologia G4, sim, com prazer.

Você vai se transferir de NY para Londres? Está casado? Desde dezembro passado estou nessa ponte NY-LON:

acho que não consigo me desgrudar mais dessas calçadas. Casei de novo, sim, mas não estou a fim de dizer com quem nem dar detalhes.

Como estão os outros projetos?

Cinema e o livro “Suicide note”…

Fiz um ensaio, que está no meu videolog, intitulado “Book”.

Não é cinema, não é teatro, mas sim uma narrativa, um fio condutor de imagens e ideias que irão pontuar o filme cujo título será “Copywriter” (ideia de Claudio Martins), já que o original, “Ghost writer”, foi literalmente roubado pelo Polanski. Tem gente captando em vários lugares, inclusive no Brasil. Será uma espécie de thriller, inteiramente em película.

Um de seus últimos trabalhos no Brasil foi sobre sua mãe, que falecera. Como andam seus diálogos com ela?

Nossa, você instalou microfones aqui em casa? Tenho pensado muito, muito nela. Em como não consegui lidar direito com os últimos anos. E que a coisa teve que se resumir numa peça, através da qual tentei pedir perdão.

Pelo quê?

Falhei em tudo. Não estive lá quando ela mais precisou de mim. Coloquei-a num asilo e achei que estava o.k. Não, não estava.

Você assistiu à Copa?

Claro. Fiquei muitíssimo triste com a saída do Brasil. Quase morro.

E quando você passa por aqui?

Nunca excluo o Brasil. Mas, se eu for esperar um convite, fico sentado e viro estátua de sal.

4 de jul de 2010

Veja o filme, compre o livro e leia o Caetano Veloso

"Os Famosos e os Duendes da Morte" da dupla dinâmica Esmir/Ismael

Esmir Filho
e Ismael Canepelle têm todos os motivos para estarem felizes neste domingão. Caetano Veloso, na sua coluna no jornal O Globo é só elogios ao livro (Ismael) e ao filme (Esmir) "Os Famosos e os Duendes da Morte"!

Premiadíssimo no Brasil e no Exterior, em breve fará parte de uma programação latina no Moma/NY, este é o primeiro longa do Esmir que estréia mais autoral do que nunca, quanto ao Ismael eu conheço de outros carnavais, quando eu entrava na Cia. de Ópera Seca ele estava saindo, sempre nos encontramos com milhões de novidades. Depois que assisti na Mostra de Cinema/SP "Os Famosos..." no ano passado, fiquei chocado com a teatralidade do filme, disse ao 'Isma' que aquilo era teatro puro. Corta!

Hoje estamos trabalhando na adaptação de um novo romance seu (inédito) que pode estrear nos palcos e nas livrarias simultaneamente. É um projeto a longo prazo que está me dando muito prazer em descobrir imagens para sintetizar no palco todo o 'realismo fantástico' que a sua literatura carrega.
Talvez seja isso que tenha encanto o meu 'xará', leia aqui a íntegra da coluna do Veloso: http://twitpic.com/22ezhl

E se você ainda não assistiu ao filme aguardem, Esmir disse no seu twitter que ele será lançado em setembro em dvd, enquanto isso, veja o trailer abaixo e corra pro cinema mais perto:

2 de jul de 2010

Carta a um Amigo (Alberto Guzik 1944-2010)

Alberto Guzik no seu aniversário no ano passado num jantar oferecido por Ivam Cabral (também autor da foto) em sua casa

Guzik, querido fiquei tão feliz da última vez que te visitei no hospital que apaguei do meu coração a tristeza da minha primeira visita ao te ver inconsciente saindo de uma delicada cirurgia.
Foi surpreendente encontrá-lo com humor, lutando, não só contra uma doença delicada mas também, contra todos os fantasmas que enlouquecem qualquer um que tem a vida brecada pelo destino e é obrigado a repensá-la numa longa e dolorosa sessão de análise sem terapeuta.
Ri muito quando você me disse que não era louco de, naquela situação, ler "O Lobo da Estepe" de Herman Hesse e que logo nas primeiras páginas o trocou por qualquer coisa de Agatha Christie. Talvez por você já ter vivido tudo como o personagem intelectual de Hesse, que depois dos 50 anos troca as certezas da vida burguesa pela mundana vida boêmia do jazz, putas e os desvarios dos 'undergrounds' anos 20.
Lembro da supresa geral da classe artística quando soube que o 'mestre e crítico' Alberto Guzik havia se tornado ator, e 'pior', no meio de travestis, bêbados, poetas e desvairados sonhadores no meio da Praça Roosevelt! Nada mais 'hesse' de ser do que descobrir ser dono de mais de mil almas depois dos 50 anos.
Lembro ainda no final da minha visita quando você praticamente implorou, segurando minha mão, para que eu fizesse um plano de saúde e, como sempre, esquecia de você e se preocupava com os outros querendo saber como estava caminhando os meus projetos e em como você poderia me ajudar.
Você já ajudou meu amigo, me ensinou que generosidade é uma virtude que tem que se pregar com constância e que na nossa profissão não existe medo, só dor. E a dor nos fortalece!
Um grande beijo.
Seu,
C.V.
...

Nesta sexta, 02/07/2010, às 18h será realizada uma missa em homenagem a este homem de teatro. Vamos celebrá-lo!
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No site da SP Escola de Teatro (http://spescoladeteatro.org.br/albertoguzik/), que Guzik ajudou a fundar, há uma página linda com textos de amigos e também do próprio Guzik, retirados do seu blog: http://os.dias.e.as.horas.zip.net/
...

Abaixo, depoimento de Gerald Thomas sobre o amigo Alberto Guzik, publicado na Folha de S.Paulo:



São Paulo, terça-feira, 29 de junho de 2010

DEPOIMENTO
Morte de Guzik, uma breve interrupção

Em artigo para a Folha, dramaturgo e diretor Gerald Thomas comenta a morte do crítico de teatro, autor e ator

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, DE LONDRES

O que se diz sobre a morte de um comunicador? Sobre uma pessoa de teatro, diz-se que "caiu o pano". Sobre um romancista, poderia se dizer que "virou a pagina" e assim por diante.
O fato é que, quando morre um "comunicador", alguém que compreende todas essas funções e as leva até o fim da linha, o impacto dessa morte vira também um grande enigma.
E, como grande comunicador, Alberto Guzik, que morreu no último sábado, escolheu ir entre os aniversários de morte de Michael Jackson e Pina Bausch. É claro, o Guzik não poderia ter deixado por menos.
Eu, Gerald, que virei o homem dos obituários aqui na Folha, desta vez não me encontro. Digo, o impacto da morte de um amigo tão próximo me deixa mudo.
Sim, trata-se de um amigo intenso, um cara que me acompanhou desde a minha chegada ao Brasil com meu teatro. Alguém cujos trabalhos eu acompanhava e vice-versa e cujos livros são prefaciados por mim ou por ele numa enorme confusão que, talvez, leve um título comum aos dois: "Homens de lugar nenhum, atormentados pela dor do mundo".
Não é à toa que o prefácio do meu livro "O Encenador de Si Mesmo" vem assinado por ninguém menos que Alberto Guzik. E não é à toa que eu estava no meio de completar o prefácio de seu mais novo romance, "Estátuas de Sal".
Como crítico, Guzik era o que se chamava de "moderado". Como ator, era um apaixonado. Como um homem da cultura, um estudioso "in love". Como professor, romancista ou acadêmico, todas as virtudes acima.

ETERNO CONFLITO
E agora? "Vá em paz, Guzik"? Não! Paz, não. Alberto Guzik era um pacifista, mas não era um cara da paz. O Alberto era o homem do eterno conflito. Todos eles e ao mesmo tempo.
Ah, sim. Sabia lidar (como ninguém), com eles: seus livros "Risco de Vida" e "O Que é Ser Rio, e Correr" são exemplos de que ele se aventurava pelas vias mais duras, mais árduas imagináveis.
Jogam o ser humano num mundo dantesco e rodrigueano-judaico. Sua vida como crítico teatral (sucessor de Sabato Magaldi no "Jornal da Tarde") era uma aventura que o jogava a favor e contra a "classe".
E? Alberto Guzik mandou tudo pra PQP uma vez que voltou a ser ator e cofundou o Satyros na praça Roosevelt em São Paulo. Seu novo livro (ainda não publicado), "Estátuas de Sal" é um romance brilhante que nos afunda em separações, mortes. Alberto sempre soube onde pisar forte.
Não irá falhar desta vez, após a sua (temporária) morte. Digo, não deixaria de nos interromper num momento onde a interrupção deixa de ser uma metáfora e passa a ser uma verdade: o relógio parou. Guzik morreu. E, por algum tempo, mesmo que seja por pouco, o tempo ficará parado com ele.
Adeus, meu amor.

GERALD THOMAS é autor e diretor teatral.

6 de jun de 2010

"Ópera Aberta", mais uma maluquice pra minha lista

Encerrou sábado passado mais uma "Oferenda Musical", painel da música de Câmara produzida pela Arte Matriz (Eser Menezes e Giane Martins) no Teatro S.Pedro/SP com direção artística do maestro Alex Klein. Nesta terceira edição 'conviveram pacificamente' desde Mozart, Klughardt, Brahms, Beethoven até o experimentalismo de George Crumb (musicando um incrível poema de Lorca) e Gilberto Mendes com uma inacreditável "Ópera Aberta: para Soprano e Halterofilista" que dirigi e iluminei e já que era para ser experimental também dei a minha contribuição concebendo uma nova versão do que foi proposto na década de 70.

No ano passado dirigi "A História do Soldado"/Stravinski (dá uma olhada aqui e aqui) e quando o maestro Klein me deu as opções do que eu gostaria de fazer, nem pensei duas vezes ao me deparar com o título da obra de Mendes (ao lado, na platéia depois da apresentação). Surpresa maior foi saber que na verdade se tratava mais de uma performance do que uma ópera propriamente escrita, já que não temos musicos e muito menos MUSICA!!!!
Cada encenador dá a sua versão do que pode acontecer em cena e também não há um tempo determinado de duração, apenas que dure o "tempo necessário para que tudo ocorra sem deixar cair o interesse do expectador" como explica Mendes num roteiro escrito em 1976, abaixo:

Agora já que se trata de uma criação experimental mando abaixo uma sequência do que se viu (espetáculo) e o que não se viu (bastidores) num ensaio assinado por Andres Costa, enjoy:




Simone Foltran foi a "Soprano"

Valério dos Santos foi o "Halterofilista"

Dan Nakagawa foi o meu precioso assistente de direção

E completando o meu elenco, todo o meu carinho à dedicação dos meus atores: Christian Barros, Erica Negreiros, Felipe Ramos, Flávia Meyer, Lucas Pchara, Murilo de Paula, Priscilla Maia, Vanessa Vascouto
E também aos meus eternos Chris Aizner (cenógrafo e make up) e Olintho Malaquias (figurinos) e seus respectivos assistentes, Thiago Roque e Camila Fogaça.
Um carinho especial ao meu pupilo assistente de luz Wagner Antônio.

19 de mai de 2010

Tapa-Sexo

E é isso mesmo!
Direto da "Coluna da Joyce" na "Revista Poder" deste mês, já nas bancas, a notícia é a visão estreita (para ser elegante) dos diretores de marketing nas empresas que patrocinam cultura no Brasil.
Há mais de 1 ano que tento produzir a peça e só ouço NÃO, NÃO e NÃO, o único 'talvez' que ouvi condicionava o possível patrocínio à troca do nome do espetáculo, afinal de contas "Travesties" não seria um bom nome para se comentar nas mesas das pizzarias depois do espetáculo; francamente! Que Tom Stoppard não saiba disto:
- "Caetano Vilela, que assumiu a Companhia de Ópera Seca após a saída de Gerald Thomas ainda não tem previsão de quando vai estrear Travesties em São Paulo. Um dos espetáculos mais elogiados no último Festival de Curitiba, ele até obteve permissão para captar R$800 mil via Lei Rouanet. Porém, esbarra num preconceito que já fez um conglomerado brasileiro (e suas empresas) declinar do investimento. O entrave? O título da peça, que, apesar de sugerir, não tem nenhuma relação com travestis."

Tenho esperanças de estreá-la ainda neste ano, seja no Rio ou em São Paulo, afinal tenho os direitos da peça até dezembro e já estou no 7º (!) produtor/captador. As reuniões que tive 'pós-dilúvio' no Rio de Janeiro me apontam para praias cariocas. Em última hipótese faço mais 4 apresentações em 2 festivais (Rio e Bahia) e c'est fini!

Se joga: leia mais no link da revista aqui: http://revistapoder.uol.com.br/

14 de mai de 2010

Faço minhas as palavras de Contardo Calligaris

São Paulo, quinta-feira, 13 de maio de 2010




CONTARDO CALLIGARIS

Adoção por casais homossexuais


Condição básica de uma boa educação: o pai não pode querer que o filho seja um clone seu
NA SEMANA retrasada, por unanimidade, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu que casais homossexuais têm o direito de adotar.
Claro, duas mulheres ou dois homens já podiam criar juntos uma criança adotada por um dos membros do casal. Agora, eles poderão compartilhar legalmente a responsabilidade da adoção.
O ministro João Otávio de Noronha declarou que a decisão do tribunal foi guiada pelo princípio de atender ao interesse do menor. No debate a favor ou contra a adoção de crianças por casais homossexuais, todos afirmam, aliás, opinar e agir no interesse dos menores.
A primeira questão nesse debate, portanto, é a seguinte: crianças criadas e educadas por um casal homossexual (feminino ou masculino) sofrem de dificuldades específicas?
Seu desenvolvimento afetivo, intelectual e sexual é diferente do das crianças de casais heterossexuais?
Como disse, faz décadas que, mundo afora, casais homossexuais já criam filhos, naturais e adotivos. E faz décadas que psicólogos, médicos e assistentes sociais pesquisam esses casais e seus rebentos.
O resultado é inequívoco e aparece num documento de 2007, endereçado à Corte Suprema da Califórnia pela American Psychological Association, a American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers, ou seja, pelas três grandes associações dos profissionais da saúde mental dos Estados Unidos (psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais).
Esse texto, de 72 páginas, apresentando uma ampla bibliografia de pesquisas, afirma que "homens gay e lésbicas formam relações estáveis e com compromisso recíproco, que são essencialmente equivalentes a relações heterossexuais" (III, A), e que "não existe base científica para concluir que pais homossexuais sejam, em qualquer medida, menos preparados ou capazes do que pais heterossexuais ou que as crianças de pais homossexuais sejam, em qualquer medida, menos psicologicamente saudáveis ou menos bem adaptadas" (IV, B).
Ora, tramitam na Câmara dos Deputados dois projetos contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça, um do deputado evangélico Zequinha Marinho (PSC-PA) e outro do deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL). Visto que não dá mais para dizer que pais homossexuais sejam nocivos para suas crianças, os projetos se preocupam com o constrangimento das crianças diante dos colegas. Na escola, vão zombar de filho de homossexual. Para evitar esse vexame, melhor proibir a adoção por casais homossexuais.
Pois é, na mesma escola, também vão zombar de negros e de pobres.
Vamos impedir negro e pobre de ter filhos? O cômico é que, no Brasil, o filho de homossexual pode ser objeto de zombaria, mas essa zombaria não se compara com o que pode acontecer com filho de deputado.
Esperando que a reputação da classe política melhore e sentindo sinceramente pelos deputados honestos, no espírito dos projetos Marinho e Calheiros, acho bom proibir também a adoção de crianças por deputados federais e estaduais.
Brincadeira à parte, na nossa cultura, a condição básica de uma educação que não seja demasiado danosa é: os pais não devem querer que os filhos sejam seus clones.
Quando desejamos que nossos filhos sejam a cópia da gente, é para encarregá-los de compensar nossas frustrações: quero um filho igual a mim para que tenha o sucesso que eu não tive ou para que viva segundo regras que eu proclamo, mas nunca consegui observar. Pois bem, para criar e educar no interesse dos menores, é necessário fazer o luto dessas esperanças, que tornam as crianças escravas de nossos devaneios narcisistas.
Agora, a percentagem de homossexuais entre os filhos de casais homossexuais é igual à da média da população, se não menor. Ou seja, aparentemente, os homossexuais não têm a ambição de ver seus filhos se engajar na mesma "preferência" sexual que lhes coube na vida.
Em compensação, quem gosta mesmo de filho-clone são todos os fundamentalistas. É quase uma definição, aliás: fundamentalista é quem quer filhos tão fundamentalistas quanto ele.
Uma conclusão coerente seria: o interesse das crianças permite que elas sejam adotadas (e, portanto, criadas e educadas) por pais homossexuais e pede que a adoção seja proibida aos pais fundamentalistas evangélicos, por exemplo.
Serviço. Para ler o documento de 2007, acesse tinyurl.com/docpsi
ccalligari@uol.com.br

6 de mai de 2010

Nem sempre quem ganha vence!

"Les Troyens", cena do funeral do herói Heitor

Queridos amigos e simpatizantes que torceram junto comigo para que eu ganhasse o Prêmio Carlos Gomes pela direção de "Les Troyens", infelizmente os jurados pensaram diferente e numa decisão soberana decidiram por premiar não um espetáculo de ópera mas sim um concerto semi-encenado.
Uma pena, ainda mais quando pensamos na importância deste título, inédito, no Brasil. O ano passado foi um ano extremamente complicado para as produções artísticas de um modo geral e Manaus viveu esse reflexo exatamente no período da realização do Festival. Como se viu, o ano de 2009 foi dedicado a França e nem assim conseguimos patrocínio suficiente para se montar um festival com a grandeza que foi imaginada. Mas mesmo assim levantamos importantes produções como a deslumbrante montagem de "Sansão e Dalila" assinada pelo mestre Emilio Sagi e as quase 5 horas de música que foi "Les Troyens".

A não premiação não abala a minha certeza de que fiz um espetáculo grandioso, inteligente, imponente e o que de melhor se produziu no Brasil na área operística em 2009! Infelizmente não tenho esperanças que este belíssimo espetáculo, fruto de mais de 300 trabalhadores faça turnê pelo resto do País, já me frustrei outras vezes com co-produções que não deram certo seja por má vontade política ou mesmo falta de dinheiro. Lamento, por exemplo, até hoje a 'morte súbita' da produção de "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk" de Shostakovich. Estou bem acostumado com isso nas peças de teatro que trabalho e deveria estar também nas óperas (onde as temporadas inclusive são menores), mas é um trabalho, estudo e dedicação tão grandes que não há como não querermos que mais gente assista o resultado de tanto amor de uma equipe tão talentosa.

Sobre a minha opinião do vencedor da noite tenho a dizer o seguinte: quando o Prêmio Carlos Gomes prestigia as diversas categorias que fazem um espetáculo de ópera (luz, cenário e figurinos) e escolhe um Diretor de Cena (na verdade o termo correto seria Diretor Cênico ou Encenador) que dirige um concerto semi-encenado ele desprestigia exatamente o Espetáculo. Quem sabe nos próximos anos a direção do prêmio não cria uma categoria especial para Concertos e Eventos, seria mais justo para quem realiza a 'gesantkunstewerk', ou como queria Richard Wagner, a "obra de arte total" nos palcos brasileiros.
...


Vi pelo meu 'registro de tráfego' de frequência do blog (clique na foto acima para ampliar) que às 23h20 tive um acesso vindo de Lisboa, usando um Mac com o browser Safari que deixou o seguinte comentário anônimo no post anterior (postagem sobre a minha indicação) às 23h22, que aliás não apagarei:
- "E ai, ganhou? Não? Mas e porque parou de aplaudir quando anunciaram o vencedor? Que feio."

Stálin utilizava os mesmos métodos de espionagem e uma rede de informantes delatores para fuzilar seus inimigos ou quem simplesmente pensava diferente dele. No círculo das minhas relações pessoais não tenho absolutamente nenhuma inimizade ou alguém que eu odeie. Coisa bem diferente na 'classe de trabalho', sei que alguns não gostam de mim pelo meu gênio, força, talento ou humor ácido, se alguns me odeiam eu realmente não sei.

Agora eu sei bem de quem eu realmente não gosto e odeio, é 1 pessoa e meia (a outra metade desta pessoa já está quase no limbo!) e desses eu simplesmente me afasto e evito pronunciar o nome, aplaudir então...

...

Okiarô Oxóssi! Okê Okê.

Senhor das matas

E da vida silvestre,

Neste momento, Pai,

Sou sua flecha,

Sou a força do seu arco,

Sou tudo o que és: a agilidade

e a sabedoria.

Faça de mim, Soberano Caçador,

Uma pessoa de sucesso

e que haja fartura

em minha casa.

Dai-me sabedoria para agir,

paz para construir meus ideais,

força para seguir sempre.

Oxóssi, rei das matas, da lua,

Do céu azul,

Que eu seja leve como

o pássaro que voa,

livre como o cavalo que corre,

forte como o carvalho na mata,

direito como sua flecha

e que eu vença e seja feliz sempre.

1 de mai de 2010

Para o alto e avante!

Fui indicado novamente ao Prêmio Carlos Gomes de Música Erudita, desta vez pela direção de "Les Troyens" que realizei no XIII Festival Amazonas. No ano passado recebi o prêmio pelas iluminações de "Ça Ira" e "Ariadne auf Naxos" como já havia divulgado por aqui, e não pude participar da festa justamente por estar trabalhando na montagem de "Les Troyens", mas neste ano eu irei.

Depois de 11 anos trabalhando no Festival Amazonas de Ópera decidi me afastar e voltar a me dedicar mais ao teatro, como vocês puderam acompanhar por aqui assumi a Cia. de Ópera Seca e estou cheio de planos. Não que as coisas sejam inconciliáveis mas tenho desenvolvido um trabalho mais autoral e não me interessa muito iluminar todas as óperas do Festival com diferentes diretores acumulando ainda a direção de uma. Cada vez mais quero iluminar apenas as minhas produções, com raríssimas excessões para amigos-irmãos.

Aprendi muitíssimo e só tenho a agradecer ao maestro Luiz Fernando Malheiro (grande mentor!), Secretaria Estadual de Cultura, Governo do Estado, amigos e centenas de pessoas que conheci e trabalhei por lá. Criei laços profundos em Manaus, tenho inclusive um afilhado querido que já está com 8 anos, mas chega uma hora que ou você dá o primeiro passo para mudar e crescer mais ou se acomoda preguiçosamente realizando sempre "mais do mesmo".

Tenho certeza absoluta que realizei um bom trabalho, também isso não é um adeus dramaticamente definitivo, as coisas só serão diferentes. Agora como dizia superman: "para o alto e avante!"
...
Abaixo, clip de "Les Troyens". À todos o meu muito obrigado: teatro, equipe, artistas e produção pelo sofrido e extenuante trabalho!