19 de mai de 2010

Tapa-Sexo

E é isso mesmo!
Direto da "Coluna da Joyce" na "Revista Poder" deste mês, já nas bancas, a notícia é a visão estreita (para ser elegante) dos diretores de marketing nas empresas que patrocinam cultura no Brasil.
Há mais de 1 ano que tento produzir a peça e só ouço NÃO, NÃO e NÃO, o único 'talvez' que ouvi condicionava o possível patrocínio à troca do nome do espetáculo, afinal de contas "Travesties" não seria um bom nome para se comentar nas mesas das pizzarias depois do espetáculo; francamente! Que Tom Stoppard não saiba disto:
- "Caetano Vilela, que assumiu a Companhia de Ópera Seca após a saída de Gerald Thomas ainda não tem previsão de quando vai estrear Travesties em São Paulo. Um dos espetáculos mais elogiados no último Festival de Curitiba, ele até obteve permissão para captar R$800 mil via Lei Rouanet. Porém, esbarra num preconceito que já fez um conglomerado brasileiro (e suas empresas) declinar do investimento. O entrave? O título da peça, que, apesar de sugerir, não tem nenhuma relação com travestis."

Tenho esperanças de estreá-la ainda neste ano, seja no Rio ou em São Paulo, afinal tenho os direitos da peça até dezembro e já estou no 7º (!) produtor/captador. As reuniões que tive 'pós-dilúvio' no Rio de Janeiro me apontam para praias cariocas. Em última hipótese faço mais 4 apresentações em 2 festivais (Rio e Bahia) e c'est fini!

Se joga: leia mais no link da revista aqui: http://revistapoder.uol.com.br/

14 de mai de 2010

Faço minhas as palavras de Contardo Calligaris

São Paulo, quinta-feira, 13 de maio de 2010




CONTARDO CALLIGARIS

Adoção por casais homossexuais


Condição básica de uma boa educação: o pai não pode querer que o filho seja um clone seu
NA SEMANA retrasada, por unanimidade, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu que casais homossexuais têm o direito de adotar.
Claro, duas mulheres ou dois homens já podiam criar juntos uma criança adotada por um dos membros do casal. Agora, eles poderão compartilhar legalmente a responsabilidade da adoção.
O ministro João Otávio de Noronha declarou que a decisão do tribunal foi guiada pelo princípio de atender ao interesse do menor. No debate a favor ou contra a adoção de crianças por casais homossexuais, todos afirmam, aliás, opinar e agir no interesse dos menores.
A primeira questão nesse debate, portanto, é a seguinte: crianças criadas e educadas por um casal homossexual (feminino ou masculino) sofrem de dificuldades específicas?
Seu desenvolvimento afetivo, intelectual e sexual é diferente do das crianças de casais heterossexuais?
Como disse, faz décadas que, mundo afora, casais homossexuais já criam filhos, naturais e adotivos. E faz décadas que psicólogos, médicos e assistentes sociais pesquisam esses casais e seus rebentos.
O resultado é inequívoco e aparece num documento de 2007, endereçado à Corte Suprema da Califórnia pela American Psychological Association, a American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers, ou seja, pelas três grandes associações dos profissionais da saúde mental dos Estados Unidos (psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais).
Esse texto, de 72 páginas, apresentando uma ampla bibliografia de pesquisas, afirma que "homens gay e lésbicas formam relações estáveis e com compromisso recíproco, que são essencialmente equivalentes a relações heterossexuais" (III, A), e que "não existe base científica para concluir que pais homossexuais sejam, em qualquer medida, menos preparados ou capazes do que pais heterossexuais ou que as crianças de pais homossexuais sejam, em qualquer medida, menos psicologicamente saudáveis ou menos bem adaptadas" (IV, B).
Ora, tramitam na Câmara dos Deputados dois projetos contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça, um do deputado evangélico Zequinha Marinho (PSC-PA) e outro do deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL). Visto que não dá mais para dizer que pais homossexuais sejam nocivos para suas crianças, os projetos se preocupam com o constrangimento das crianças diante dos colegas. Na escola, vão zombar de filho de homossexual. Para evitar esse vexame, melhor proibir a adoção por casais homossexuais.
Pois é, na mesma escola, também vão zombar de negros e de pobres.
Vamos impedir negro e pobre de ter filhos? O cômico é que, no Brasil, o filho de homossexual pode ser objeto de zombaria, mas essa zombaria não se compara com o que pode acontecer com filho de deputado.
Esperando que a reputação da classe política melhore e sentindo sinceramente pelos deputados honestos, no espírito dos projetos Marinho e Calheiros, acho bom proibir também a adoção de crianças por deputados federais e estaduais.
Brincadeira à parte, na nossa cultura, a condição básica de uma educação que não seja demasiado danosa é: os pais não devem querer que os filhos sejam seus clones.
Quando desejamos que nossos filhos sejam a cópia da gente, é para encarregá-los de compensar nossas frustrações: quero um filho igual a mim para que tenha o sucesso que eu não tive ou para que viva segundo regras que eu proclamo, mas nunca consegui observar. Pois bem, para criar e educar no interesse dos menores, é necessário fazer o luto dessas esperanças, que tornam as crianças escravas de nossos devaneios narcisistas.
Agora, a percentagem de homossexuais entre os filhos de casais homossexuais é igual à da média da população, se não menor. Ou seja, aparentemente, os homossexuais não têm a ambição de ver seus filhos se engajar na mesma "preferência" sexual que lhes coube na vida.
Em compensação, quem gosta mesmo de filho-clone são todos os fundamentalistas. É quase uma definição, aliás: fundamentalista é quem quer filhos tão fundamentalistas quanto ele.
Uma conclusão coerente seria: o interesse das crianças permite que elas sejam adotadas (e, portanto, criadas e educadas) por pais homossexuais e pede que a adoção seja proibida aos pais fundamentalistas evangélicos, por exemplo.
Serviço. Para ler o documento de 2007, acesse tinyurl.com/docpsi
ccalligari@uol.com.br

6 de mai de 2010

Nem sempre quem ganha vence!

"Les Troyens", cena do funeral do herói Heitor

Queridos amigos e simpatizantes que torceram junto comigo para que eu ganhasse o Prêmio Carlos Gomes pela direção de "Les Troyens", infelizmente os jurados pensaram diferente e numa decisão soberana decidiram por premiar não um espetáculo de ópera mas sim um concerto semi-encenado.
Uma pena, ainda mais quando pensamos na importância deste título, inédito, no Brasil. O ano passado foi um ano extremamente complicado para as produções artísticas de um modo geral e Manaus viveu esse reflexo exatamente no período da realização do Festival. Como se viu, o ano de 2009 foi dedicado a França e nem assim conseguimos patrocínio suficiente para se montar um festival com a grandeza que foi imaginada. Mas mesmo assim levantamos importantes produções como a deslumbrante montagem de "Sansão e Dalila" assinada pelo mestre Emilio Sagi e as quase 5 horas de música que foi "Les Troyens".

A não premiação não abala a minha certeza de que fiz um espetáculo grandioso, inteligente, imponente e o que de melhor se produziu no Brasil na área operística em 2009! Infelizmente não tenho esperanças que este belíssimo espetáculo, fruto de mais de 300 trabalhadores faça turnê pelo resto do País, já me frustrei outras vezes com co-produções que não deram certo seja por má vontade política ou mesmo falta de dinheiro. Lamento, por exemplo, até hoje a 'morte súbita' da produção de "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk" de Shostakovich. Estou bem acostumado com isso nas peças de teatro que trabalho e deveria estar também nas óperas (onde as temporadas inclusive são menores), mas é um trabalho, estudo e dedicação tão grandes que não há como não querermos que mais gente assista o resultado de tanto amor de uma equipe tão talentosa.

Sobre a minha opinião do vencedor da noite tenho a dizer o seguinte: quando o Prêmio Carlos Gomes prestigia as diversas categorias que fazem um espetáculo de ópera (luz, cenário e figurinos) e escolhe um Diretor de Cena (na verdade o termo correto seria Diretor Cênico ou Encenador) que dirige um concerto semi-encenado ele desprestigia exatamente o Espetáculo. Quem sabe nos próximos anos a direção do prêmio não cria uma categoria especial para Concertos e Eventos, seria mais justo para quem realiza a 'gesantkunstewerk', ou como queria Richard Wagner, a "obra de arte total" nos palcos brasileiros.
...


Vi pelo meu 'registro de tráfego' de frequência do blog (clique na foto acima para ampliar) que às 23h20 tive um acesso vindo de Lisboa, usando um Mac com o browser Safari que deixou o seguinte comentário anônimo no post anterior (postagem sobre a minha indicação) às 23h22, que aliás não apagarei:
- "E ai, ganhou? Não? Mas e porque parou de aplaudir quando anunciaram o vencedor? Que feio."

Stálin utilizava os mesmos métodos de espionagem e uma rede de informantes delatores para fuzilar seus inimigos ou quem simplesmente pensava diferente dele. No círculo das minhas relações pessoais não tenho absolutamente nenhuma inimizade ou alguém que eu odeie. Coisa bem diferente na 'classe de trabalho', sei que alguns não gostam de mim pelo meu gênio, força, talento ou humor ácido, se alguns me odeiam eu realmente não sei.

Agora eu sei bem de quem eu realmente não gosto e odeio, é 1 pessoa e meia (a outra metade desta pessoa já está quase no limbo!) e desses eu simplesmente me afasto e evito pronunciar o nome, aplaudir então...

...

Okiarô Oxóssi! Okê Okê.

Senhor das matas

E da vida silvestre,

Neste momento, Pai,

Sou sua flecha,

Sou a força do seu arco,

Sou tudo o que és: a agilidade

e a sabedoria.

Faça de mim, Soberano Caçador,

Uma pessoa de sucesso

e que haja fartura

em minha casa.

Dai-me sabedoria para agir,

paz para construir meus ideais,

força para seguir sempre.

Oxóssi, rei das matas, da lua,

Do céu azul,

Que eu seja leve como

o pássaro que voa,

livre como o cavalo que corre,

forte como o carvalho na mata,

direito como sua flecha

e que eu vença e seja feliz sempre.

1 de mai de 2010

Para o alto e avante!

Fui indicado novamente ao Prêmio Carlos Gomes de Música Erudita, desta vez pela direção de "Les Troyens" que realizei no XIII Festival Amazonas. No ano passado recebi o prêmio pelas iluminações de "Ça Ira" e "Ariadne auf Naxos" como já havia divulgado por aqui, e não pude participar da festa justamente por estar trabalhando na montagem de "Les Troyens", mas neste ano eu irei.

Depois de 11 anos trabalhando no Festival Amazonas de Ópera decidi me afastar e voltar a me dedicar mais ao teatro, como vocês puderam acompanhar por aqui assumi a Cia. de Ópera Seca e estou cheio de planos. Não que as coisas sejam inconciliáveis mas tenho desenvolvido um trabalho mais autoral e não me interessa muito iluminar todas as óperas do Festival com diferentes diretores acumulando ainda a direção de uma. Cada vez mais quero iluminar apenas as minhas produções, com raríssimas excessões para amigos-irmãos.

Aprendi muitíssimo e só tenho a agradecer ao maestro Luiz Fernando Malheiro (grande mentor!), Secretaria Estadual de Cultura, Governo do Estado, amigos e centenas de pessoas que conheci e trabalhei por lá. Criei laços profundos em Manaus, tenho inclusive um afilhado querido que já está com 8 anos, mas chega uma hora que ou você dá o primeiro passo para mudar e crescer mais ou se acomoda preguiçosamente realizando sempre "mais do mesmo".

Tenho certeza absoluta que realizei um bom trabalho, também isso não é um adeus dramaticamente definitivo, as coisas só serão diferentes. Agora como dizia superman: "para o alto e avante!"
...
Abaixo, clip de "Les Troyens". À todos o meu muito obrigado: teatro, equipe, artistas e produção pelo sofrido e extenuante trabalho!