28 de jul de 2010

O Teatro Pós-Dramático (ou: para estudar antes de citar)

De repente toda a classe teatral descobriu o 'teatro pós-dramático', waalll.
Já ouvi de muitos, sem ao menos ter uma vaga ideia do entendimento do termo, as mais disparatadas 'defesas' desta estética teatral estudada pelo teatrólogo alemão Hans-Thies Lehmann. Claro que esta corrente teórica de pensamento é européia e, claro também, que quando chega ao Brasil chega com um considerável atraso, no caso mais de 40 anos!

Nos anos 80, quando comecei a estudar teatro e participar de grupos, a discussão era exatamente a mesma, só que mais rasa e por outro viés: o teatro de imagem x o teatro de texto, ou a supremacia dos encenadores x atores ou, para encerrar discussões mais profundas, eram os anos da frase mais ouvida nos saguões após os espetáculos: "achei lindo, mas não entendi nada!"
Na categoria do teatro de 'imagens' entrava Gerald Thomas e sua recentemente criada Cia. de Ópera Seca (que hoje dirijo), assim como também Ulysses Cruz e seu grupo Boi Voador (do qual fui ator em vários núcleos por 4 anos), dissidente do CPT de Antunes Filho (com quem trabalhei também como ator por mais 2 anos) talvez o 'representante eterno' do teatro de texto/ator. Ambos os grupos praticavam o que somente hoje a intelligentsia teatral paulistana entende por teatro pós-dramático e já naquela época isso não representava nenhuma novidade ao teatro que se fazia na Europa ou no pequeno nicho experimental norte americano.

Publicado em 1999 e lançado faz pouco tempo pela Cosac Naify "Teatro Pós-Dramático" é um ótimo estudo para entender os caminhos contemporâneos do teatro mundial. Para muitos brasileiros que trabalham na área será uma verdadeira 'bíblia' para ser citado em conversas descoladas. Conversa obviamente empobrecida, principalmente para quem nunca teve o privilégio em acompanhar de perto grupos e encenadores revolucionários como Robert Wilson, Tadeusz Kantor, Robert Lepage, Societa Raffaello Sanzio, Théâtre du Soleil, e muitos etc...

Abaixo, reportagem na Folha de S.Paulo de ontem sobre a vinda de Lehmann ao Brasil e, claro, teatro pós-dramático:



São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010

A encruzilhada do teatro

Teórico alemão Hans-Thies Lehmann, que participa de debate em SP, diz que futuro da arte está na volta às origens

Silvia Zamboni/Folhapress

O teatrólogo alemão Hans-Thies Lehmann posa na sede de uma produtora cultural, em SP

LUCAS NEVES
DE SÃO PAULO

O teatro já vestiu os figurinos da tragédia, do drama burguês e do épico. Independentemente do disfarce, é pautado há tempos pelo texto e pela representação do mundo por meio de fábulas ordenadas, lineares, vividas por personagens bem desenhados em cujos conflitos a plateia projeta os seus.
Agora esqueça isso. O teatro que o teórico alemão Hans-Thies Lehmann, 65, chama de "pós-dramático", corrente que ganhou força a partir dos anos 60 pelas mãos de grupos alternativos e foi aos poucos incorporada pelo "mainstream", implode o primado da palavra.
Sua cartilha ilumina a composição dos elementos cênicos (luz, atores, trilha, cenário) em detrimento do enredo e contrabandeia referências da dança, das artes visuais e do cinema.
O teatrólogo, que está no Brasil a convite do Goethe-Institut São Paulo para participar hoje de uma mesa redonda sobre a cena contemporânea, diz à Folha que esse "futuro" do teatro, sem hierarquização e imperativos de coesão, na verdade constitui uma volta às origens ritualísticas, festivas da arte. Leia abaixo os principais trechos da conversa.

Folha - Na introdução ao livro "Teatro Pós-Dramático" (CosacNaify, 437 págs.), o senhor observa que o teatro deixou de ser uma arte de massa. Pode ele ainda hoje ser relevante, impactar a sociedade?
Hans-Thies Lehmann
- Sim. Acredito no futuro do teatro como uma prática artística e social. Muitos acham que o seu futuro está em manter a dimensão literária, o classicismo. É assim que poderia reagir à cultura midiática, com sua velocidade e virtualidade. Não acredito que esse seja de fato seu futuro. Quando uso o termo "pós-dramático", me refiro ao teatro europeu desde os anos 60 e 70, enlaçado em redes midiáticas, que tem de encontrar seu lugar e se afasta da estrutura dramática tradicional.
Mas há uma segunda acepção do termo: estamos regressando a uma ideia muito mais ampla do que seja o teatro, com elementos de ritual, de encontros comunitários, de festividade. É o futuro que deixamos para trás.

O pós-dramático é então uma volta às origens do teatro?
Sem dúvida. Novos desenvolvimentos são muitas vezes memórias de coisas esquecidas, que estiveram presentes em tempos anteriores. Mas são também um passo em direção ao futuro.

São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010



"Não há teatro político que não seja visualmente atordoante"

Lehmann afirma que a oposição às formas dramáticas estabelecidas deve ir além do discurso

Para estudioso alemão, acenos à música e ao cinema retiram do teatro rótulo de chato e renovam o público


DE SÃO PAULO

Na segunda parte da entrevista, Hans-Thies Lehmann comenta a adoção de procedimentos pós-dramáticos pelo "establishment" teatral, defende um teatro político tanto no discurso quanto na concepção visual e comenta o poder de atração dessa nova cena sobre o público jovem. (LUCAS NEVES)

O sr. entende o teatro pós-dramático como resposta à era da imagem, em que novas tecnologias põem fim ao primado do texto. Mas não se pode vê-lo também como concessão, rendição a ela?
Há esse perigo. Sei que a descoberta dessa grande variedade de linguagens cênicas pode desaguar num entretenimento "mainstream". Não acredito que um conceito teórico seja o suficiente para produzir bom teatro.
Muitas técnicas e estilos do pós-dramático foram aceitos como expressão autêntica e interessante de nosso tempo. Há mesmo quem tenha assumido o pós-dramático como discurso para fugir dos vícios do teatro dramático das grandes instituições. Mas não há teatro político que não seja visualmente incômodo, atordoante.

Há, no pós-dramático, uma mudança de foco, das intenções do sujeito para sua exposição crua, de sua vontade consciente para seus desejos. Isso torna o teatro mais autêntico, ao aproximá-lo da "essência" do homem?
Não iria tão longe. Falo de uma mudança de ênfase apenas para explicar que, em certo tipo de teatro atual, surgem comportamentos, gestos, coreografias que não podem ser interpretados em termos psicológicos. É uma nova forma de interpretar o homem, em que tudo o que é físico, instintivo vem à tona. Mas nunca alcançaremos uma verdade absoluta dos sentimentos ou do corpo.

Ao propor que o texto não seja mais o elemento a orientar montagens e que se deixem de lado a coesão e a harmonia, a cartilha pós-dramática não afasta parte de sua plateia potencial?
Alguns elementos do pós-dramático se tornaram amplamente aceitos ao incorporar a cultura popular, que é uma referência comum a todos. As plateias mudam, e penso que para melhor. As novas práticas atraem um público mais jovem, que até aqui via o teatro como chato, desinteressante.

Como o pós-dramático redefine o papel do crítico, ao exigir dele conhecimentos de outras artes? E, pelo lado dos criadores, esse intercâmbio pode abrir brecha para trabalhos incompreensíveis, não?
Sim, assim como a repetição de modelos clássicos pode ser gratuita. Usar estratégias pós-dramáticas não salva necessariamente as peças de virarem extravagâncias sem conteúdo.
Quantos aos críticos, eles realmente hoje precisam de novas habilidades para transitar entre as artes, devem estar conectados à cena musical, entender de pop art. Outro fator que complica a tarefa do crítico é o de que cada vez mais montagens dependem da reação do público, das perguntas que ele apresenta aos atores. Então, manter o distanciamento crítico é algo mais árduo.

Seu pensamento é alvo de críticas por estabelecer uma espécie de linha evolutiva para as artes, em que novas formas superariam as antigas, tornando-as anacrônicas, datadas. Como reage a isso?
Acho essa crítica compreensível. Apontei no livro "Teatro Pós-Dramático" que essa corrente amplia as possibilidades cênicas, mas nunca falo em morte do drama. Isso dito, tenho quase certeza de que nunca voltará a acontecer algo como o pós-dramático, que instaurou a dúvida sobre o homem enquanto criatura essencialmente dramática.




São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010

RAIO-X
HANS-THIES LEHMANN

PROFISSÃO
Hans-Thies Lehmann é professor de Estudos Teatrais da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas; como dramaturgo, trabalhou com importantes diretores europeus

LIVROS
Ele é autor de "Teatro Pós-Dramático", "Teatro e Mito: A constituição do Sujeito no Discurso da Tragédia Antiga" e "Os Escritos Políticos: Ensaios sobre Textos Teatrais"

AGENDA EM SP
Hoje, às 19h, no Goethe-Institut (r. Lisboa, 974, tel. 0/ xx/11/3296-7000; grátis), participa da mesa-redonda "Perspectivas Pós-Coloniais do Teatro Contemporâneo"

18 de jul de 2010

Ele está no meio de nós (ou: Gerald Thomas voltou)

Gerald Thomas voltou!
Para quem apostava que a sua "breve interrupção" seria menos breve errou por tudo o que a palavra interrupção carrega, talvez 'suspensão' soasse melhor e mais teatral: uma breve suspensão interrompe o que poderia ser um fim e, como num thriller, nos deixa suspensos... em suspense. Trocadilhos à parte (ou não, diria outro Caetano) Gerald volta, não de onde parou, mas do zero.
Ele encarou novamente Rembrandt, olhou fundo nos seus 'olhos sobre tela' e decidiu que o que era fim é (re)começo e se no princípio era o verbo logo em seguida vem o conflito e sem olhar para trás refunda a Dry Opera Company em Londres para batizá-la (numa igreja!) com o primeiro (talvez o segundo) conflito da humanidade: Caim e Abel, ou "Cain Unable", ou a Incapacidade de Ser Caim, ou Caim Incapaz, ou...

Para quem ficou confuso então ficamos assim: tanto a Dry Opera-SP quanto a Dry Opera-Lon tem em Gerald Thomas o seu mentor e fundador. No momento eu estou dirigindo a Cia. em São Paulo e o fruto deste primeiro trabalho foi "Travesties" (que estreou no Festival de Curitiba, viajará para mais 3 festivais e ainda não tem data nem patrocínio para temporada em São Paulo) e ele estréia em outubro, em Londres, "Cain Unable".
Isto esclarecido podemos também fazer um intercâmbio das Cias., ou o Gerald pode voltar a dirigir aqui em SP, ou se eu tiver algum projeto posso dirigir a Cia. em Londres, ou não...

Abaixo, reportagem de capa do Segundo Caderno do Globo deste domingo:



Gerald Thomas: a volta do que não foi

Nove meses depois de anunciar que abandonara o teatro, o diretor recria, em Londres, sua companhia; estreia é em outubro

Arnaldo Bloch

O GLOBO: O que o fez mudar de ideia tão rápido?

GERALD: Conversei com amigos, dentre eles Philip Glass, e percebi que mesmo esses momentos de “se sentir um zero à esquerda” faziam parte do que somos. Mas sair é uma coisa: sai-se por esgotamento, como foi o caso em setembro do ano passado. Olhei para minha vida e meu trabalho, e não gostei do que vi. Entrar de novo é mais parecido com ter que pedir licença para viver. Comecei a construir o caminho de volta pela Inglaterra da minha adolescência, onde casei as três primeiras vezes e criei um filho, mas que não me conhecia bem e com a qual tenho uma relação de amor e ódio.

Da ida à volta, foi exatamente o tempo até um parto…
Um parto de quíntuplos, porque é duro parir uma identidade em vez de uma peça. Você redescobre sua obra inteira e a enxerga como se estivesse vendo algo de um estranho.
Não reconhece nada. Olha tudo aquilo justamente como as pessoas que diziam que não entendiam o teatro de Gerald Thomas. Ao renascer, vou me expondo a esse povo todo em Londres sem saber o que está pela frente…

Como tem sido o processo de seleção e quando pretende estrear? Já existe o embrião de um primeiro texto?

Vi perto de 600 atores em uma semana. Aproveitei um monte. Vamos ver quem resiste ao workshop, em agosto, para a estreia, em outubro. Vou desenvolver textos para pessoas como o Kevin, um extraordinário ator, a Maria de Lima, uma portuguesa com sotaque londrino, ou o Dan, com aquela cara de judeu que deixa claro de onde viemos e que vamos para a lama. Estou brincando com o título “Cain unable”: foneticamente soa como “Cain and Abel”, os dois irmãos bíblicos, mas quer dizer “Caim incapacitado”. Os atores ingleses têm uma incrível energia. Podem não ter muita cultura, e isso me impressionou: a grande maioria não sabia quem era Samuel Beckett ou Richard Wagner, nem definir homo sapiens.

Mas aqui em Nova York a atmosfera do East Village e do teatro de onde venho está cansada. O establishment venceu mesmo! Quase não há resistência…

Já no teatro britânico existe uma longa história de agitprop theater, ou seja, o teatro do opositor.

Em setembro você dizia não estar pronto para o iTheatre.

A nova companhia incluirá o meio digital?

Sim. O próprio material dos testes já está disponível em Vimeo (melhor que YouTube porque comporta uma hora ou mais). Mas iTheater seria migrar para o território virtual.

Isso, não! Porém, ter um departamento de mídias, incluindo a tecnologia G4, sim, com prazer.

Você vai se transferir de NY para Londres? Está casado? Desde dezembro passado estou nessa ponte NY-LON:

acho que não consigo me desgrudar mais dessas calçadas. Casei de novo, sim, mas não estou a fim de dizer com quem nem dar detalhes.

Como estão os outros projetos?

Cinema e o livro “Suicide note”…

Fiz um ensaio, que está no meu videolog, intitulado “Book”.

Não é cinema, não é teatro, mas sim uma narrativa, um fio condutor de imagens e ideias que irão pontuar o filme cujo título será “Copywriter” (ideia de Claudio Martins), já que o original, “Ghost writer”, foi literalmente roubado pelo Polanski. Tem gente captando em vários lugares, inclusive no Brasil. Será uma espécie de thriller, inteiramente em película.

Um de seus últimos trabalhos no Brasil foi sobre sua mãe, que falecera. Como andam seus diálogos com ela?

Nossa, você instalou microfones aqui em casa? Tenho pensado muito, muito nela. Em como não consegui lidar direito com os últimos anos. E que a coisa teve que se resumir numa peça, através da qual tentei pedir perdão.

Pelo quê?

Falhei em tudo. Não estive lá quando ela mais precisou de mim. Coloquei-a num asilo e achei que estava o.k. Não, não estava.

Você assistiu à Copa?

Claro. Fiquei muitíssimo triste com a saída do Brasil. Quase morro.

E quando você passa por aqui?

Nunca excluo o Brasil. Mas, se eu for esperar um convite, fico sentado e viro estátua de sal.

4 de jul de 2010

Veja o filme, compre o livro e leia o Caetano Veloso

"Os Famosos e os Duendes da Morte" da dupla dinâmica Esmir/Ismael

Esmir Filho
e Ismael Canepelle têm todos os motivos para estarem felizes neste domingão. Caetano Veloso, na sua coluna no jornal O Globo é só elogios ao livro (Ismael) e ao filme (Esmir) "Os Famosos e os Duendes da Morte"!

Premiadíssimo no Brasil e no Exterior, em breve fará parte de uma programação latina no Moma/NY, este é o primeiro longa do Esmir que estréia mais autoral do que nunca, quanto ao Ismael eu conheço de outros carnavais, quando eu entrava na Cia. de Ópera Seca ele estava saindo, sempre nos encontramos com milhões de novidades. Depois que assisti na Mostra de Cinema/SP "Os Famosos..." no ano passado, fiquei chocado com a teatralidade do filme, disse ao 'Isma' que aquilo era teatro puro. Corta!

Hoje estamos trabalhando na adaptação de um novo romance seu (inédito) que pode estrear nos palcos e nas livrarias simultaneamente. É um projeto a longo prazo que está me dando muito prazer em descobrir imagens para sintetizar no palco todo o 'realismo fantástico' que a sua literatura carrega.
Talvez seja isso que tenha encanto o meu 'xará', leia aqui a íntegra da coluna do Veloso: http://twitpic.com/22ezhl

E se você ainda não assistiu ao filme aguardem, Esmir disse no seu twitter que ele será lançado em setembro em dvd, enquanto isso, veja o trailer abaixo e corra pro cinema mais perto:

2 de jul de 2010

Carta a um Amigo (Alberto Guzik 1944-2010)

Alberto Guzik no seu aniversário no ano passado num jantar oferecido por Ivam Cabral (também autor da foto) em sua casa

Guzik, querido fiquei tão feliz da última vez que te visitei no hospital que apaguei do meu coração a tristeza da minha primeira visita ao te ver inconsciente saindo de uma delicada cirurgia.
Foi surpreendente encontrá-lo com humor, lutando, não só contra uma doença delicada mas também, contra todos os fantasmas que enlouquecem qualquer um que tem a vida brecada pelo destino e é obrigado a repensá-la numa longa e dolorosa sessão de análise sem terapeuta.
Ri muito quando você me disse que não era louco de, naquela situação, ler "O Lobo da Estepe" de Herman Hesse e que logo nas primeiras páginas o trocou por qualquer coisa de Agatha Christie. Talvez por você já ter vivido tudo como o personagem intelectual de Hesse, que depois dos 50 anos troca as certezas da vida burguesa pela mundana vida boêmia do jazz, putas e os desvarios dos 'undergrounds' anos 20.
Lembro da supresa geral da classe artística quando soube que o 'mestre e crítico' Alberto Guzik havia se tornado ator, e 'pior', no meio de travestis, bêbados, poetas e desvairados sonhadores no meio da Praça Roosevelt! Nada mais 'hesse' de ser do que descobrir ser dono de mais de mil almas depois dos 50 anos.
Lembro ainda no final da minha visita quando você praticamente implorou, segurando minha mão, para que eu fizesse um plano de saúde e, como sempre, esquecia de você e se preocupava com os outros querendo saber como estava caminhando os meus projetos e em como você poderia me ajudar.
Você já ajudou meu amigo, me ensinou que generosidade é uma virtude que tem que se pregar com constância e que na nossa profissão não existe medo, só dor. E a dor nos fortalece!
Um grande beijo.
Seu,
C.V.
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Nesta sexta, 02/07/2010, às 18h será realizada uma missa em homenagem a este homem de teatro. Vamos celebrá-lo!
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No site da SP Escola de Teatro (http://spescoladeteatro.org.br/albertoguzik/), que Guzik ajudou a fundar, há uma página linda com textos de amigos e também do próprio Guzik, retirados do seu blog: http://os.dias.e.as.horas.zip.net/
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Abaixo, depoimento de Gerald Thomas sobre o amigo Alberto Guzik, publicado na Folha de S.Paulo:



São Paulo, terça-feira, 29 de junho de 2010

DEPOIMENTO
Morte de Guzik, uma breve interrupção

Em artigo para a Folha, dramaturgo e diretor Gerald Thomas comenta a morte do crítico de teatro, autor e ator

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, DE LONDRES

O que se diz sobre a morte de um comunicador? Sobre uma pessoa de teatro, diz-se que "caiu o pano". Sobre um romancista, poderia se dizer que "virou a pagina" e assim por diante.
O fato é que, quando morre um "comunicador", alguém que compreende todas essas funções e as leva até o fim da linha, o impacto dessa morte vira também um grande enigma.
E, como grande comunicador, Alberto Guzik, que morreu no último sábado, escolheu ir entre os aniversários de morte de Michael Jackson e Pina Bausch. É claro, o Guzik não poderia ter deixado por menos.
Eu, Gerald, que virei o homem dos obituários aqui na Folha, desta vez não me encontro. Digo, o impacto da morte de um amigo tão próximo me deixa mudo.
Sim, trata-se de um amigo intenso, um cara que me acompanhou desde a minha chegada ao Brasil com meu teatro. Alguém cujos trabalhos eu acompanhava e vice-versa e cujos livros são prefaciados por mim ou por ele numa enorme confusão que, talvez, leve um título comum aos dois: "Homens de lugar nenhum, atormentados pela dor do mundo".
Não é à toa que o prefácio do meu livro "O Encenador de Si Mesmo" vem assinado por ninguém menos que Alberto Guzik. E não é à toa que eu estava no meio de completar o prefácio de seu mais novo romance, "Estátuas de Sal".
Como crítico, Guzik era o que se chamava de "moderado". Como ator, era um apaixonado. Como um homem da cultura, um estudioso "in love". Como professor, romancista ou acadêmico, todas as virtudes acima.

ETERNO CONFLITO
E agora? "Vá em paz, Guzik"? Não! Paz, não. Alberto Guzik era um pacifista, mas não era um cara da paz. O Alberto era o homem do eterno conflito. Todos eles e ao mesmo tempo.
Ah, sim. Sabia lidar (como ninguém), com eles: seus livros "Risco de Vida" e "O Que é Ser Rio, e Correr" são exemplos de que ele se aventurava pelas vias mais duras, mais árduas imagináveis.
Jogam o ser humano num mundo dantesco e rodrigueano-judaico. Sua vida como crítico teatral (sucessor de Sabato Magaldi no "Jornal da Tarde") era uma aventura que o jogava a favor e contra a "classe".
E? Alberto Guzik mandou tudo pra PQP uma vez que voltou a ser ator e cofundou o Satyros na praça Roosevelt em São Paulo. Seu novo livro (ainda não publicado), "Estátuas de Sal" é um romance brilhante que nos afunda em separações, mortes. Alberto sempre soube onde pisar forte.
Não irá falhar desta vez, após a sua (temporária) morte. Digo, não deixaria de nos interromper num momento onde a interrupção deixa de ser uma metáfora e passa a ser uma verdade: o relógio parou. Guzik morreu. E, por algum tempo, mesmo que seja por pouco, o tempo ficará parado com ele.
Adeus, meu amor.

GERALD THOMAS é autor e diretor teatral.