2 de jul de 2010

Carta a um Amigo (Alberto Guzik 1944-2010)

Alberto Guzik no seu aniversário no ano passado num jantar oferecido por Ivam Cabral (também autor da foto) em sua casa

Guzik, querido fiquei tão feliz da última vez que te visitei no hospital que apaguei do meu coração a tristeza da minha primeira visita ao te ver inconsciente saindo de uma delicada cirurgia.
Foi surpreendente encontrá-lo com humor, lutando, não só contra uma doença delicada mas também, contra todos os fantasmas que enlouquecem qualquer um que tem a vida brecada pelo destino e é obrigado a repensá-la numa longa e dolorosa sessão de análise sem terapeuta.
Ri muito quando você me disse que não era louco de, naquela situação, ler "O Lobo da Estepe" de Herman Hesse e que logo nas primeiras páginas o trocou por qualquer coisa de Agatha Christie. Talvez por você já ter vivido tudo como o personagem intelectual de Hesse, que depois dos 50 anos troca as certezas da vida burguesa pela mundana vida boêmia do jazz, putas e os desvarios dos 'undergrounds' anos 20.
Lembro da supresa geral da classe artística quando soube que o 'mestre e crítico' Alberto Guzik havia se tornado ator, e 'pior', no meio de travestis, bêbados, poetas e desvairados sonhadores no meio da Praça Roosevelt! Nada mais 'hesse' de ser do que descobrir ser dono de mais de mil almas depois dos 50 anos.
Lembro ainda no final da minha visita quando você praticamente implorou, segurando minha mão, para que eu fizesse um plano de saúde e, como sempre, esquecia de você e se preocupava com os outros querendo saber como estava caminhando os meus projetos e em como você poderia me ajudar.
Você já ajudou meu amigo, me ensinou que generosidade é uma virtude que tem que se pregar com constância e que na nossa profissão não existe medo, só dor. E a dor nos fortalece!
Um grande beijo.
Seu,
C.V.
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Nesta sexta, 02/07/2010, às 18h será realizada uma missa em homenagem a este homem de teatro. Vamos celebrá-lo!
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No site da SP Escola de Teatro (http://spescoladeteatro.org.br/albertoguzik/), que Guzik ajudou a fundar, há uma página linda com textos de amigos e também do próprio Guzik, retirados do seu blog: http://os.dias.e.as.horas.zip.net/
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Abaixo, depoimento de Gerald Thomas sobre o amigo Alberto Guzik, publicado na Folha de S.Paulo:



São Paulo, terça-feira, 29 de junho de 2010

DEPOIMENTO
Morte de Guzik, uma breve interrupção

Em artigo para a Folha, dramaturgo e diretor Gerald Thomas comenta a morte do crítico de teatro, autor e ator

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA, DE LONDRES

O que se diz sobre a morte de um comunicador? Sobre uma pessoa de teatro, diz-se que "caiu o pano". Sobre um romancista, poderia se dizer que "virou a pagina" e assim por diante.
O fato é que, quando morre um "comunicador", alguém que compreende todas essas funções e as leva até o fim da linha, o impacto dessa morte vira também um grande enigma.
E, como grande comunicador, Alberto Guzik, que morreu no último sábado, escolheu ir entre os aniversários de morte de Michael Jackson e Pina Bausch. É claro, o Guzik não poderia ter deixado por menos.
Eu, Gerald, que virei o homem dos obituários aqui na Folha, desta vez não me encontro. Digo, o impacto da morte de um amigo tão próximo me deixa mudo.
Sim, trata-se de um amigo intenso, um cara que me acompanhou desde a minha chegada ao Brasil com meu teatro. Alguém cujos trabalhos eu acompanhava e vice-versa e cujos livros são prefaciados por mim ou por ele numa enorme confusão que, talvez, leve um título comum aos dois: "Homens de lugar nenhum, atormentados pela dor do mundo".
Não é à toa que o prefácio do meu livro "O Encenador de Si Mesmo" vem assinado por ninguém menos que Alberto Guzik. E não é à toa que eu estava no meio de completar o prefácio de seu mais novo romance, "Estátuas de Sal".
Como crítico, Guzik era o que se chamava de "moderado". Como ator, era um apaixonado. Como um homem da cultura, um estudioso "in love". Como professor, romancista ou acadêmico, todas as virtudes acima.

ETERNO CONFLITO
E agora? "Vá em paz, Guzik"? Não! Paz, não. Alberto Guzik era um pacifista, mas não era um cara da paz. O Alberto era o homem do eterno conflito. Todos eles e ao mesmo tempo.
Ah, sim. Sabia lidar (como ninguém), com eles: seus livros "Risco de Vida" e "O Que é Ser Rio, e Correr" são exemplos de que ele se aventurava pelas vias mais duras, mais árduas imagináveis.
Jogam o ser humano num mundo dantesco e rodrigueano-judaico. Sua vida como crítico teatral (sucessor de Sabato Magaldi no "Jornal da Tarde") era uma aventura que o jogava a favor e contra a "classe".
E? Alberto Guzik mandou tudo pra PQP uma vez que voltou a ser ator e cofundou o Satyros na praça Roosevelt em São Paulo. Seu novo livro (ainda não publicado), "Estátuas de Sal" é um romance brilhante que nos afunda em separações, mortes. Alberto sempre soube onde pisar forte.
Não irá falhar desta vez, após a sua (temporária) morte. Digo, não deixaria de nos interromper num momento onde a interrupção deixa de ser uma metáfora e passa a ser uma verdade: o relógio parou. Guzik morreu. E, por algum tempo, mesmo que seja por pouco, o tempo ficará parado com ele.
Adeus, meu amor.

GERALD THOMAS é autor e diretor teatral.

2 comentários:

Sergio Martins disse...

Que carta bonita, Caetano!

viralata disse...

Obrigado Serjão, é o mínimo que podemos fazer qdo amigos queridos partem! abs