Já ouvi de muitos, sem ao menos ter uma vaga ideia do entendimento do termo, as mais disparatadas 'defesas' desta estética teatral estudada pelo teatrólogo alemão Hans-Thies Lehmann. Claro que esta corrente teórica de pensamento é européia e, claro também, que quando chega ao Brasil chega com um considerável atraso, no caso mais de 40 anos!
Nos anos 80, quando comecei a estudar teatro e participar de grupos, a discussão era exatamente a mesma, só que mais rasa e por outro viés: o teatro de imagem x o teatro de texto, ou a supremacia dos encenadores x atores ou, para encerrar discussões mais profundas, eram os anos da frase mais ouvida nos saguões após os espetáculos: "achei lindo, mas não entendi nada!"
Na categoria do teatro de 'imagens' entrava Gerald Thomas e sua recentemente criada Cia. de Ópera Seca (que hoje dirijo), assim como também Ulysses Cruz e seu grupo Boi Voador (do qual fui ator em vários núcleos por 4 anos), dissidente do CPT de Antunes Filho (com quem trabalhei também como ator por mais 2 anos) talvez o 'representante eterno' do teatro de texto/ator. Ambos os grupos praticavam o que somente hoje a intelligentsia teatral paulistana entende por teatro pós-dramático e já naquela época isso não representava nenhuma novidade ao teatro que se fazia na Europa ou no pequeno nicho experimental norte americano.
Publicado em 1999 e lançado faz pouco tempo pela Cosac Naify "Teatro Pós-Dramático" é um ótimo estudo para entender os caminhos contemporâneos do teatro mundial. Para muitos brasileiros que trabalham na área será uma verdadeira 'bíblia' para ser citado em conversas descoladas. Conversa obviamente empobrecida, principalmente para quem nunca teve o privilégio em acompanhar de perto grupos e encenadores revolucionários como Robert Wilson, Tadeusz Kantor, Robert Lepage, Societa Raffaello Sanzio, Théâtre du Soleil, e muitos etc...
Abaixo, reportagem na Folha de S.Paulo de ontem sobre a vinda de Lehmann ao Brasil e, claro, teatro pós-dramático:
São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010 ![]() A encruzilhada do teatro Teórico alemão Hans-Thies Lehmann, que participa de debate em SP, diz que futuro da arte está na volta às origens
LUCAS NEVES DE SÃO PAULO O teatro já vestiu os figurinos da tragédia, do drama burguês e do épico. Independentemente do disfarce, é pautado há tempos pelo texto e pela representação do mundo por meio de fábulas ordenadas, lineares, vividas por personagens bem desenhados em cujos conflitos a plateia projeta os seus. Agora esqueça isso. O teatro que o teórico alemão Hans-Thies Lehmann, 65, chama de "pós-dramático", corrente que ganhou força a partir dos anos 60 pelas mãos de grupos alternativos e foi aos poucos incorporada pelo "mainstream", implode o primado da palavra. Sua cartilha ilumina a composição dos elementos cênicos (luz, atores, trilha, cenário) em detrimento do enredo e contrabandeia referências da dança, das artes visuais e do cinema. O teatrólogo, que está no Brasil a convite do Goethe-Institut São Paulo para participar hoje de uma mesa redonda sobre a cena contemporânea, diz à Folha que esse "futuro" do teatro, sem hierarquização e imperativos de coesão, na verdade constitui uma volta às origens ritualísticas, festivas da arte. Leia abaixo os principais trechos da conversa. Folha - Na introdução ao livro "Teatro Pós-Dramático" (CosacNaify, 437 págs.), o senhor observa que o teatro deixou de ser uma arte de massa. Pode ele ainda hoje ser relevante, impactar a sociedade? O pós-dramático é então uma volta às origens do teatro? São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010 |
"Não há teatro político que não seja visualmente atordoante" Lehmann afirma que a oposição às formas dramáticas estabelecidas deve ir além do discurso Na segunda parte da entrevista, Hans-Thies Lehmann comenta a adoção de procedimentos pós-dramáticos pelo "establishment" teatral, defende um teatro político tanto no discurso quanto na concepção visual e comenta o poder de atração dessa nova cena sobre o público jovem. (LUCAS NEVES) O sr. entende o teatro pós-dramático como resposta à era da imagem, em que novas tecnologias põem fim ao primado do texto. Mas não se pode vê-lo também como concessão, rendição a ela? Há, no pós-dramático, uma mudança de foco, das intenções do sujeito para sua exposição crua, de sua vontade consciente para seus desejos. Isso torna o teatro mais autêntico, ao aproximá-lo da "essência" do homem? Ao propor que o texto não seja mais o elemento a orientar montagens e que se deixem de lado a coesão e a harmonia, a cartilha pós-dramática não afasta parte de sua plateia potencial? Como o pós-dramático redefine o papel do crítico, ao exigir dele conhecimentos de outras artes? E, pelo lado dos criadores, esse intercâmbio pode abrir brecha para trabalhos incompreensíveis, não? Seu pensamento é alvo de críticas por estabelecer uma espécie de linha evolutiva para as artes, em que novas formas superariam as antigas, tornando-as anacrônicas, datadas. Como reage a isso? |
São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010 ![]() RAIO-X HANS-THIES LEHMANN PROFISSÃO Hans-Thies Lehmann é professor de Estudos Teatrais da Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas; como dramaturgo, trabalhou com importantes diretores europeus LIVROS Ele é autor de "Teatro Pós-Dramático", "Teatro e Mito: A constituição do Sujeito no Discurso da Tragédia Antiga" e "Os Escritos Políticos: Ensaios sobre Textos Teatrais" AGENDA EM SP Hoje, às 19h, no Goethe-Institut (r. Lisboa, 974, tel. 0/ xx/11/3296-7000; grátis), participa da mesa-redonda "Perspectivas Pós-Coloniais do Teatro Contemporâneo" |


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