24 de out de 2010

Direto da Folha: "Pelo amor de Deus, não copiem os EUA" - Benjamin Moser



São Paulo, domingo, 24 de outubro de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES

Pelo amor de Deus, não copiem os EUA!
BENJAMIN MOSER



Em vez de copiar os políticos americanos, que têm levado a nação à paralisia, os brasileiros deveriam aprender uma lição com a Argentina e Portugal

Ao longo dos últimos 40 anos, nós, americanos, temos assistido, em nome de "valores" ou da "família", a ataques religiosos contra as mulheres e os homossexuais.
Começou como reação a um movimento gay que ganhou grande ímpeto resistindo aos ataques da polícia de Nova York contra o bar Stonewall; e a um movimento feminista que celebrou uma vitória histórica em 1973, quando a Suprema Corte legalizou o aborto.
O ressentimento por essas liberdades duramente conquistadas forneceu uma oportunidade aos políticos de direita e aos pastores evangélicos.
Pastores deram a bênção aos políticos que compartilhavam da sua obsessão com a vida pessoal alheia.
Desnecessário dizer que esses mesmos pastores logo se tornaram um espetáculo nacional, caindo um atrás do outro em escândalos, quer sexuais, quer financeiros.
Mas os políticos covardes já entregaram a essa gente o direito de mandar em assuntos "morais".
Agora, com crescente desânimo, vejo o Brasil seguir o mesmo caminho. Sabe-se que o evangelismo brasileiro tem suas raízes nos missionários americanos que chegaram há exatamente cem anos, e cujos descendentes estão impondo a mesma "moralidade" na política.
Em uma carta aos candidatos, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais denunciou a "instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral".
Em vez de ressaltar suas admiráveis conquistas na luta contra a homofobia ou suas antigas posições a favor do aborto legalizado, Dilma e Serra estão tentando agradar a essa mesma banda.
Políticos corajosos teriam defendido uma outra moralidade. Denunciariam o fato de mulheres morrerem todo dia no Brasil por causa da criminalização do aborto.
Denunciariam a Igreja Católica, que, em nome da "família", excomungou uma mãe pernambucana que providenciou um aborto para a filha de nove anos, grávida de gêmeos após ser estuprada pelo padrasto. Denunciariam que o número de assassinatos de gays no país cresceu 62% desde 2007 e que, de acordo com um estudo do Grupo Gay da Bahia, um gay é morto a cada três dias no Brasil.
Para os americanos, isso é muito deprimente. Em vez de copiar os políticos americanos, que têm levado a nossa nação ao desastre e à paralisia, os brasileiros deveriam aprender uma lição com a Argentina, cuja presidente fez discursos eloquentes a favor de tratamento igual no casamento.
Outra lição vem de Portugal, cujo premiê, José Sócrates, conseguiu a igualdade para todos os portugueses. Não é vergonhoso -sejamos sinceros- ver o Brasil ficar atrás da Argentina e de Portugal?
Como aqueles países demonstraram, a moralidade e os valores têm, sim, um lugar na política. O Brasil oficial não se cansa de repetir que a tolerância é o valor por excelência do brasileiro. Mas não basta dizê-lo.
Um dia, o debate sobre o aborto e o casamento gay terá o mesmo caráter antiquado que hoje tem a lembrança das disputas sobre o divórcio. Mas, para ver esse dia chegar, o Brasil precisará de políticos com muito mais coragem do que a demonstrada por Dilma e Serra.
Para tornar o Brasil um país mais digno, os seus líderes terão, sim, que copiar os americanos. Não o que temos de mais detestável.
Copiem, em lugar disso, Martin Luther King, morto depois de libertar os negros; os militantes de Stonewall, que saíram na porrada com a polícia de Nova York; e os juízes da Suprema Corte, que garantiram que nenhuma mulher morreria por ter praticado um aborto ilegal.
Estes fizeram a grandeza de nosso país -a mesma grandeza hoje decadente, graças, também, aos fanáticos religiosos.

BENJAMIN MOSER, 34, americano, é escritor, crítico e tradutor. Colunista de livros da revista "Harper's", é autor de "Clarice," (Cosac Naify, trad. José Geraldo Couto).

4 de out de 2010

Entrevista com Antunes Filho, direto da Ilustrada/FSP

São Paulo, segunda-feira, 04 de outubro de 2010



ENTREVISTA ANTUNES FILHO

"Acabou a era do diretor tirano; o agora é a troca"

AOS 80 ANOS, DIRETOR GANHA LIVRO SOBRE SEU MÉTODO DE FORMAÇÃO TEATRAL E DIZ QUE ATOR PRECISA TER A CABEÇA LIVRE DE AUTORIDADE

Lenise Pinheiro/Folhapress

Flavia Pucci e Helio Cicero na peça "Paraíso, Zona Norte. A Falecida", em 1989

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Com 60 anos de carreira, o diretor teatral Antunes Filho ainda vive um impasse.
Seu método de criação e de formação de atores, exposto agora no livro "Hierofania -°O Teatro Segundo Antunes Filho", de Sebastião Milaré, se consolidou como marco do cenário teatral brasileiro, para não dizer do mundo. Mas o diretor não se satisfaz em olhar apenas um caminho já percorrido.
"Meu legado eu não sei qual é. A palavra lembra morte, e eu não penso nisso.
Meu legado é o que eu vou fazer no ensaio hoje. É o espetáculo que vou apresentar amanhã", diz, em entrevista à Folha, na sede do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), no Sesc Consolação.

Folha - O livro "Hierofania" cita o espetáculo "Macunaíma", de 1978, como marco do teatro brasileiro. O que acontecia no cenário internacional na época? Antunes Filho - Havia uma espécie de rito de transição. Tinham surgido Peter Brook, Kazuo Ohno, Tadeusz Kantor. Todo mundo apareceu quando houve uma explosão de festivais de teatro.
Foi o início da chamada "era do diretor". O teatro era tão multifacetado naquela época. E "Macunaíma" se inseriu nesse momento de potência teatral.

Por não ter participado expressivamente da ruptura do modernismo brasileiro, o teatro estava atrasado?
Pois é. Oswald [de Andrade] criou uma ou outra peça modernista, e elas não foram encenadas na época.
Mas, ao mesmo tempo, é o teatro que estoura com o modernismo nos anos 60 e 70. A passagem do moderno para o pós-moderno foi nesse movimento internacional.

E essa chamada "era dos diretores" acabou?
Não acabou. O que acabou foi a era do diretor tirano. Agora é a época do diretor que procura cooperação. Antigamente a expressão que se usava era que as coisas vinham do Céu para a Terra. Ao umbigo do mundo, através das catedrais, se instaurava no mundo o Dharma. Agora não tem mais o Dharma. Agora é a troca.

Texto, colaboração e coautoria ganharam importância?
Sim, mas, no trabalho colaborativo, de grupo, tem ainda o cara que precisa reger. Liberdade pressupõe ordem e exige consciência. O modo como vai se estabelecer essa ordem, se é por meio de um diretor ou de uma máquina... Sei lá se pode ter máquinas fazendo isso [risos].

O sr. defende o ator como peça principal do teatro.
Claro. Qualquer peça só pode sair da estante e ir para o palco se houver um ator. Seja no velho drama, seja no futuro, seja ainda no não drama, já que hoje tudo está sendo contestado.

O que está sendo contestado?
Não somente a hegemonia do diretor, a do texto, a da trama. Tudo revela um autoritarismo que está sendo sanado ou questionado.
O ator é a pessoa que, com a sua liberdade, fica à margem dessa coerção que imaginamos haver.
Ele tem de estar livre. A cabeça dele não pode ser autoritária. Só com consciência e liberdade poderá não mais representar, mas atuar. Projetar alguma luz nisso tudo que é contemporâneo.

Isso faz do ator uma espécie de coautor?
Não. Faz dele uma janela. Mas, se ele não tem base cultural e técnica, ele é uma janela fechada.

A criação dramatúrgica, que ganhou espaço no CPT, também representa uma procura sua por novos caminhos? O que ficou velho no teatro?
Estamos num momento de impasse em termos de criação. Tentamos caminhar. Ironizamos tal coisa, parodiamos aquilo outro. Damos margem ao outro lado do nosso inconsciente.
A forma de Brecht já pode ter envelhecido. Mas Brecht como poeta não. Como escritura, ele é atualíssimo. Por meio da linguagem poética, cria rituais. Daí os mitos do inconsciente vêm à tona.

O que significa para você as mortes de Kazuo Ohno (2010) e de Pina Bausch (2009)?
Dois modelos fundamentais que se foram, mas que continuam presentes. Duas guias. A gente chegou ao fim do túnel e tinha aquela luz.
Daí estávamos ali no claro e nos perguntávamos: "E agora? O que vamos fazer? Que luz maravilhosa, né? E daí? Estamos aqui agora iluminados por essas luzes e o que vamos fazer?". E essa luz ainda está acesa.

RAIO-X
ANTUNES FILHO


VIDA
José Alves Antunes Filho, 80 anos, nasceu em São Paulo em 12 de dezembro de 1929

OBRA
Foi pioneiro em criar a partir de estudos sobre metafísica, filosofia e cultura oriental

CPT
Em 1982, recebeu um convite do Sesc para coordenar o Centro de Produção Teatral, no Sesc Consolação

Autor segue trupe por 15 anos para decifrar detalhes

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Poucos conhecem tão bem a obra de Antunes Filho quanto Sebastião Milaré.
Para escrever "Hierofania -O Teatro Segundo Antunes Filho", o autor acompanhou de perto o processo criativo do diretor por 15 anos.
Ele acabou se tornando alguém "da casa", o que lhe possibilitou decifrar detalhes do processo criativo abastecido também pelos jovens atores do CPT.
O foco do livro é justamente o desenvolvimento desse método a partir da estreia de "Macunaíma" (1978), o espetáculo em que o diretor decide romper com uma sólida carreira -em suas próprias palavras- "comercial".
Nos anos 80, Antunes passa a criar, sob a tutela do Sesc, sempre em sintonia com um projeto educativo e de formação do ator.
Milaré se debruça sobre a técnica corporal e vocal que deu origem a espetáculos antológicos, como "Velha Nova Estória" (1991), "Vereda da Salvação" (1964/1993), "Gilgamesh" (1995) e "Medeia" (2001/2002).
A respiração e o trabalho com a voz despontam como um dos tópicos principais.
O livro não se aprofunda em questões estruturais dos espetáculos, passa apenas pela superfície de conceitos como cenografia, figurino e o coro como opção estética.
"Mas essas questões acabam aparecendo, uma vez que o método de Antunes tem uma forte base em um processo de individuação ideológica e cultural."


HIEROFANIA - O TEATRO SEGUNDO ANTUNES FILHO
AUTOR Sebastião Milaré
EDITORA Edições Sesc-SP
QUANTO R$ 85 (397 págs.)