2 de out de 2011

Personagem nos muros (Direto da Ilustríssima - Folha de S.Paulo)

Parte das minhas memórias está hoje no caderno "Ilustríssima" da Folha de S.Paulo deste domingo. A foto que acompanha a edição impressa é um detalhe do grafite que tenho do célebre Alex Valauri, como não dá para ver na edição online publico abaixo a foto original do meu arquivo pessoal. Enjoy:




São Paulo, domingo, 02 de outubro de 2011  

ARQUIVO ABERTO
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
Personagem nos muros
São Paulo, anos 1980

CAETANO VILELA
Em meados dos anos 80, antes mesmo de completar 18 anos, eu trabalhava como garçom ou vendedor para pagar meus cursos de teatro. As mais lindas lembranças daqueles tempos guardo de gente que conheci nos empregos temporários; Paulo Penna foi um deles.
Paulo morreu jovem, aos 39 anos, em decorrência da Aids. Era artista plástico, cenógrafo e figurinista. Gostava mais de pintar e quase sempre São Paulo era a sua modelo, retratada com óleo sobre tela, aquarela, litografia e xilografia. Era sua forma de retribuir a generosidade com que a cidade o acolheu quando chegou do Rio Grande do Sul, nos anos 70.
Nós nos conhecemos quando fui trabalhar numa papelaria na esquina da rua Duque de Caxias com a avenida São João. Ele morava 13 andares acima e aparecia para xerocar livros e documentos. Um dia nossa conversa foi além do "bom dia". Passamos a falar de arte, pintura, teatro; ele me indicou livros e filmes. Quando soube que pedi demissão, me convidou a organizar seu acervo, representá-lo nas galerias, enfim, organizar a burocracia da sua vida. Aceitei.
Passei a acompanhá-lo nos trabalhos mais loucos dos anos 80: apresentações das Dzi Croquettes; exposições no badaladíssimo Espaço Off, de Celso Curi; shows no Lira Paulistana; reuniões na redação da "Interview"; performances nas boates Madame Satã e Homo Sapiens; produções de filmes soft-pornô-trash da Boca do Lixo e de peças soft-pornô-chic no Bexiga.
Por aquela época, Paulo leu na Folha uma entrevista em que Carlos Drummond de Andrade falava de sua relação com religião. Ficou tão tocado que enviou ao poeta um cartão e uma gravura. Veio a resposta: "[...] Deixei o aconchego da religião tradicional para me instalar no cantinho tranquilo do agnosticismo, que não exclui a espiritualidade difusa."
Desde então deixei a cafonice de me declarar ateu para me assumir poeticamente como 'agnóstico difuso'.
Também naqueles anos, Paulo me apresentou um dos primeiros (ou "o" primeiro) grafiteiros da cidade, o italiano-etíope-brasileiro Alex Vallauri, uma figura. O cara saía de madrugada por Pinheiros e pela Vila Madalena com latas de spray e moldes vazados de lagartixa, frango assado e colunas gregas, com o objetivo de "deixar a cidade mais bonita, honey", como dizia com aquele delicioso sotaque indecifrável. Criou uma personagem nos muros, espécie de pin-up que batizou de Rainha do Frango Assado, até hoje um ícone kitsch.
Numa festa, antes de eu conhecer Paulo, Alex deu a ele um embrulho ilustrado com abacaxis, onde grafitou uma coluna e, é claro, o frango. Nunca soube o que tinha na caixa, mas o papel fez tanto sucesso que Alex teve de assiná-lo para para Paulo pôr na parede.
Drummond e Alex morreram em 1987. O poeta, vítima do coração; já o fim do grafiteiro foi mais triste, num quarto escuro, no aniversário de 38 anos, cego e inconsciente. Foi um dos primeiros artistas brasileiros a morrer com Aids.
Paulo morreu quase um ano depois, debilitado, mas com menos sofrimento. Os últimos dias não quis passar no hospital. Foi para casa, onde o vi morrer -ele parou de respirar e ficou ali deitado, os olhos voltados para a janela, de onde se via o Pico do Jaraguá.
Um dia antes, ele me deu a carta do Drummond, o grafite de Alex e uma jaqueta que comprara na Europa para invernos rigorosos. Ainda guardo a carta, e o grafite emoldura minha sala de trabalho. A jaqueta eu mantive por anos, até, numa turnê com o grupo de Antunes Filho, emprestar a um amigo que ia arriscar a vida na Espanha. Esse amigo trabalhou como pedreiro, lavador de pratos e quase morreu entre mercenários na Legião Estrangeira. Um dia, a fome foi maior que o frio e ele vendeu a jaqueta. Hoje é um promissor cineasta -mas isso é outra história.

6 de ago de 2011

10º Encontro Internacional de Ópera/Saltillo - México

Participei como convidado de 2 semanas intensas em Saltillo (norte do México) dando classes de interpretação para jovens cantores de ópera. O resultado final foi um espetáculo com cenas de vários trechos de óperas apresentada no Teatro da Cidade.
Mas o resultado REAL, saberemos num futuro breve já que o México é famoso por exportar cantores líricos mundo afora; o que tenho a dizer é que o trabalho foi árduo e a dedicação foi intensa!
Abaixo, reportagem no jornal local "Vanguardia":



VANGUARDIA


Publicado en la edición impresa por Edgardo Valero - 04/08/2011

10 Encuentro Internacional de Ópera: Presentan ‘examen musical’

 

Concluyen curso con la presentación de ‘Escenas de Ópera’ en el Teatro de la Ciudad, evento en el que estudiantes y maestros comparten escenario y muestran frutos de su preparación
Fotos: VANGUARDIA-Daniel Becerril

Saltillo.- Como cada año en Saltillo, jóvenes cantantes de ópera detuvieron el tiempo en el escenario del Teatro de la Ciudad
Fernando Soler.
Fueron 46 voces extraordinarias las que unieron su talento a las creaciones de grandes autores de la ópera que hicieron pasar a muchos un momento inolvidable la tarde del martes.
Y es que el 10 Encuentro Internacional de Ópera una vez más triunfó, pues los cerca de 500 asistentes en cada una de las dos presentaciones quedaron encantados con el poder de la música y la versatilidad de cada uno de los intérpretes que en esta ocasión formaron parte del encuentro.
Sin prisa y a tiempo, la primera parte de la presentación de las “Escenas de Ópera” inició a las 18:30 horas. Un siempre bien recibido Mozart fue el encargado de hacer viajar a los espectadores con “Der Schauspieldirektor”, una comedia que parodia las relaciones entre aquellos que hacen posible la magia del teatro. Lo encargados de darle vida a los tres personajes de esta primera escena fueron Scherezada Cruz, Fabiola Ontiveros y el único tenor participante de Saltillo en este encuentro, Carlos Aveldaño.
La música W. Amadeus Mozart de nueva cuenta fue la protagonistas de las siguientes dos escenas, continuaron de “Indomeneo” y “Cosi Fan Tute”.
La manos de la recocida maestra de música Marioara Trifan se encargaron de dar la notas en el piano que acompañó a las potentes voces de los personajes de “Electra”, “Idamante” e “Idomeneo”.
Pieza clave de la ópera es “Carmen”. No hay quien no haya escuchado por lo menos una vez en su vida alguna aria de esta famosa obra del compositor Georges Bizet. Y en esta ocasión, “La Cigarrera” fue interpretada por Ligia López, quien con cabello rizado y labios carmesí, interpretó con pasión a este personaje que alguna vez intepretara la soprano María Callas.
Jacques Offenbach y C. Gounod fueron los compositores cuyas obras maestras se materializaron en el escenario con adaptaciones bastante actualizadas gracias al ingenio y la experiencia de cada uno de los alumnos de este encuentro.
La pieza “Chanson à Boiré” de “La Chanson de Fortunio”, de Offenbach, fue interpretado por mujeres, que le dieron juego y gracia a esta aria hecha para voces masculinas, cuyos personajes piden comida, pero terminan borrachos.
Para terminar esta primera parte, que duró alrededor de dos horas, volvió de nueva cuenta Mozart con “Don Giovanni”, en específico “La Nozze di Figaro”.
En punto de la 20:30 horas el espectáculo siguió. Ahora Giuseppe Verdi coronaría esta segunda entrega de escenas. “Rigoletto” contó la voz de una de las promesas de la ópera mexicana, Anabel de la Mora, interpretando a “Gilda”, mientras que “Rigoletto” corrió a cargo de Iván Nadal.
Otra vez el público quedaría maravillado, como lo había hecho una noche antes en la Plaza de Armas, pero ahora la ópera tuvo un escenario que se convirtió en diversos espacios para que el desarrollo de cada de una de las escenas fuera posible.
Los prestigiosos maestros que conformaron este encuentro fueron los encargados de crear la magia. Además, de Trifan, André Dos Santos, Claude Corbeil, Christian Capocaccia, Alejandro Sánchez Miyaki, estuvieron durante estas dos tandas frente al piano.
Oswaldo Martín del Campo, Caetano Vilela e Iker Arce Herrera pusieron su empeño en la dirección escénica.
Siguió Verdi de nueva cuenta con “Falstaff” y con las arias de Fenton y Nanneta, para continuar con “Romeo y Julieta” de G. Guonoud, “Thais” de J. Massenet.
Con la ópera “Der Rosenkavalier” las voces de la maestra Ivonne Garza, Anabel de la Mora y Rebeca Samaniengo se unieron para dar una melancólica interpretación de un tema sobre el amor no correspondido. Un pieza que logró sonoros aplausos del público.
Para finalizar, Offenbach con “La Belle Helene” dio ese toque de festividad al recinto con el aria de “Oreste” y “La Marche des Rois”. Esta ópera está basada en el famoso poema “La Ilidada” del poeta griego Homero.
Así, terminó el concierto y también el romance musical que por casi un mes llenó las calles de la ciudad y los corazones de muchos saltillenses que gracias a la labor de Teresa Rodríguez y un grupo de entusiastas enamorados de la ópera, ofrecieron al público otra opción músical.
Ahora queda esperar al verano del 2012 que seguramente traerá más voces a Saltillo, más experimentados maestros, más ópera a espacios de la ciudad y más arias a un público ávido de soñar.

19 de jul de 2011

Direto do Blog de Reinaldo Azevedo: "Gargólios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido"

Blog

Reinaldo Azevedo

11/07/2011

às 6:21

Gargólios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido

Angus Brown e Maria de Lima em "Gargólios", de Gerald Thomas

Angus Brown e Maria de Lima em "Gargólios", de Gerald Thomas

Há dois anos, o teatro, ou a possibilidade de inovação do teatro, teve uma má notícia. Gerald Thomas anunciou que estava caindo fora. Não queria mais saber do ofício. Não era Jean-Paul Sartre dizendo que a literatura não fazia sentido diante do horror. Era Thomas dizendo que o teatro não fazia sentido diante da banalidade do mundo. Em setembro do ano passado, no entanto, ele estreou Throats, em Londres, com a London Dry Opera Company. Estava de volta. Era a sua leitura do mundo pós-11 de Setembro, o evento traumático da civilização ocidental que ele viu acontecer literalmente da janela de seu apartamento, em Nova York. Na mais absoluta escuridão de sentido, a exemplo do resto do mundo, restou-lhe descer e se integrar às brigadas civis que tentavam socorrer as vítimas.

Throats foi bem-recebida pela crítica, mas nem tanto pelo próprio Thomas. Percebia que o motivo que o levou a anunciar a renúncia ao teatro persistia na sua própria peça. Que motivo? Eu o resumiria assim: o discurso SOBRE a realidade não dava conta da complexidade do mundo nem como política nem como arte; no primeiro caso, ele se mostrava reducionista; no segundo, ah, meus amigos, no segundo, o problema vem lá de longe, da mimese aristotélica, segundo a qual, no drama, o verossímil, o crível, tem prevalência sobre o factível.

Thomas decidiu eliminar de Throats qualquer sombra de discurso programático, organizador, eficiente para a pólis (volto a este ponto daqui a pouco); decidiu também pôr fim a qualquer conforto ao espectador; os atores que estão no palco não querem iludir ninguém; são alegorias. O autor e diretor reduziu também Throats a escombros, e surgiu em seu lugar a performance Gargólios, que ele trouxe ao Brasil, junto com o London Dry Opera Company. A maior parte do espetáculo, pois, se desenvolve em inglês, com algumas falas em português da atriz Maria de Lima, que é portuguesa. Há legendas.

Assisti no sábado à pré-estréia do espetáculo, que fica no SESC Vila Mariana até o dia 24 de julho. Num palco tomado pelos mesmos escombros do 11 de Setembro, estranhos super-heróis disputam espaço no divã de um Freud (Adam Napier) da civilização, que usa vistosos sapatos femininos, vermelhos. Do teto do palco, pende uma mulher seviciada, e seu sangue se esvai em gotas numa espécie de pote macabro e sagrado, onde se persigna um mordomo elegantemente vestido (o espetacular ator Angus Brown). Num painel translúcido, vê-se uma grande imagem, acho, de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille. Thomas vai tratar do mundo desde o começo. Ou desde o fim.

É inútil tentar perseguir o fio de uma narrativa linear. Num dado momento, Maria de Lima ensaia um discurso sobre a crise de valores do nosso tempo, em tom um tanto grandiloqüente, que ficaria bem na boca de um desses petistas ou esquerdistas que dão plantão na esquina. Interrompe a fala e a submete ao ridículo, dizendo ser uma porcaria de texto. Nada de falas programáticas. Thomas — isto arrisco eu, ele não me disse — parece estar disposto a contestar também a contestação.

Os escombros das Torres Gêmeas que estão no palco são menos uma metáfora do que uma metonímia. Numa linguagem muitas vezes telegráfica, cheia de citações, a performance — assim o próprio Thomas define o trabalho — eles são uma parte de algo muito maior que parece aos pedaços. Ali está um retrato angustiado, sarcástico, muitas vezes cômico, de uma cultura ocidental que perdeu suas referências. Ousaria dizer que a linguagem a que Thomas recorre é transgressora, incômoda, agressiva às vezes, mas a força que a inspira tem uma matriz nostálgica, conservadora quem sabe: o tempo em que havia hierarquia de valores.

Não por acaso, um dos poemas — e acho que a Gargólios é isto: um sucessão de poemas — ironiza impiedosamente estes dias dos iPhones, Ipods, Facebook, redes sociais, a era, enfim, da horizontalização da cultura, em que se misturam sagrado e profano, importante e desimportante, raso e profundo. Aqueles super-heróis alquebrados, impiedosamente psicanalisados por um Freud de sapatos vermelhos, são sobreviventes de uma catástrofe do sentido. Sim, estamos diante de uma visão bastante pessimista do mundo. Um dos ótimos momento do espetáculo, vejam lá, é o jogo de palavras entre “entender/ não entender”. Estamos esmagados pela informação. Faltam-nos idéias formadoras.

O próprio Thomas participa do espetáculo, como um narrador. Mas um narrador muito particular: fala por meio de solos de um baixo, que pontuam a música composta para o espetáculo por John Paul Jones, do Led Zeppelin.

É inútil falar e seria inútil não falar da briga que já tivemos, Thomas e eu — se não o faço, alguém o fará. E dela surgiu uma amizade fraterna, que nos gratifica a ambos. Não escrevo sobre o espetáculo do meu amigo, mas sobre o trabalho de um autor e diretor sem receio de ousar sobre a própria ousadia. Aprendemos a aprender na divergência, e elas existem, e compartilhamos algumas preocupações que considero civilizadoras.

De certo modo, aquele rompimento com o “teatro”, no sentido de um discurso programático, está mantido. Thomas preferiu o desconforto. E o Brasil, vocês verão, também está no palco, especialmente quando se ironiza certo tatibitate do nosso verde-amarelismo cafona. Assistam Gargólios. Não busquem o conforto da narrativa, mas o desconforto do sentido.

*
Gargólios, de Gerald Thomas
Até o dia 24 de julho no SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141 - Tel. 5080 3000
No dias 30 e 31 de julho, no SESC Santos

Por Reinaldo Azevedo

11 de jul de 2011

Direto da Folha: "Google e FB são os concorrentes dos Jornais" (entrevista c/ Juan Luis Cebrián)

São Paulo, segunda-feira, 11 de julho de 2011

ENTREVISTA DA 2ª JUAN LUIS CEBRIÁN

Google e Facebook são os concorrentes dos jornais

EDITOR ESPANHOL QUE FUNDOU O "EL PAÍS" É PESSIMISTA SOBRE FUTURO DOS JORNAIS PORQUE INTERNET NÃO TEM 'INTERMEDIÁRIOS'

RAUL JUSTE LORES
EDITOR DE MERCADO
SYLVIA COLOMBO
DE SÃO PAULO

Os veículos tradicionais de imprensa devem passar a preocupar-se mais com a concorrência de sites como o Google e o Facebook do que com seus tradicionais rivais.
É assim que pensa o jornalista espanhol Juan Luis Cebrián, 66, fundador do "El País" e presidente do Grupo Prisa, que, além do jornal, é dono da Santillana, grupo editorial ao qual pertence a brasileira Moderna.
O espanhol esteve no Brasil na semana passada para participar de encontros sobre a atuação da Santillana no país, que já é o maior mercado da empresa no mundo. Negocia também a produção de conteúdo para a televisão, no Rio Grande do Sul.
Leia abaixo a entrevista que ele concedeu à Folha, em São Paulo.


Folha - Há uma discussão muito intensa nos grandes jornais do mundo sobre se é conveniente ou não cobrar pelo conteúdo das versões on-line dos mesmos. O "El País" está todo aberto na rede há alguns anos. Crê que essa é a postura mais correta?
Juan Luis Cebrián
- A pergunta mais importante é "um jornal pode migrar para a rede?".
Até agora a resposta tem sido negativa. Não houve veículo que foi capaz de fazer essa migração.
O problema está no fato de que um jornal na internet não é um jornal, é uma outra coisa. Sou radical nesse sentido, inclusive quando falamos da credibilidade das marcas. Até agora nenhuma das marcas tradicionais da imprensa escrita foi capaz de migrar para as operações virtuais com sucesso.

Por quê?
A rede é algo que se constrói a partir da experiência dos usuários. O Twitter, por exemplo. Jack Dorsey nunca imaginou que ele se tornaria um sistema de transmissão de notícias ou para convocar grandes manifestações.
Dorsey inventou o Twitter porque gostava de fazer mapas e não sabia como colocar as pessoas nos mapas que fazia.
O Facebook não nasceu para ser uma rede social. Provavelmente Mark Zuckerberg não teorizou a ideia de uma rede social.
Enquanto o Google nasceu com a intenção de ser um buscador mais potente, nada mais. O que determinou a transformação desses sites foi o uso que as pessoas fizeram deles.
Não foi a decisão dos que desenharam os programas que determinou seu destino, mas sim a experiência dos usuários que construíram essa força na internet.

Como ficam os jornais diante dessa nova situação?
Os jornais nasceram no começo do século 19, com a Revolução Industrial e a democracia representativa. Formam parte do establishment e das instituições da democracia moderna.
Se alguém leva a Folha ou o "Estado de S. Paulo" debaixo do braço, está se identificando com algo. Um jornal é uma bandeira, de certa maneira. E na internet não há bandeiras.
Jornal é uma concepção do mundo. Da primeira página à última está oferecendo uma visão sobre o que acontece. Está explicando a realidade aos usuários. Na rede não há intermediários.
Na internet, é comum que o protagonista de uma notícia seja aquele que a conte.
O relato das revoluções do norte da África foi feito por aqueles que as fizeram. O mesmo sistema para convocá-las foi usado para conta-las, por meio do Twitter.

O sr. crê que o leitor interessado em noticiário econômico está mais disposto a pagar pela informação?
Quem triunfou com o sistema de pagamento por conteúdo até o momento, foi o "Financial Times", e, em certa medida, o "Wall Street Journal" também, mas ambos são produtos muito específicos.
Sim, é preciso cobrar, mas por aquilo a que as pessoas estejam dispostas a pagar. E as pessoas, hoje, querem pagar aquilo que lhes interessa.
Pergunto a meus editores, por que publicamos as páginas de mercado de valores no "El País'? Seis páginas! Quem está no mercado de valores consulta isso na internet.
Para que publicar a previsão do tempo? Se eu venho a São Paulo, abro a internet no dia anterior para saber como está o clima. Não me ocorre ler isso no El País, com 24 horas de atraso. Mas continuamos a fazer isso.

Atender completamente aos leitores não deforma um jornal?
Não se trata de atender aos pedidos de todos os leitores, mas as demandas de cada leitor. Há leitores a quem lhes interessa a crise financeira, mas este mesmo leitor também pode querer saber o que aconteceu com Amy Winehouse em seu último show.
O "El País" tinha uma seção de esportes muito pequena e mal cobria celebridades. Hoje começamos a dar mais espaço para ambos.
Os diários já não dão notícias. Todo mundo já sabe as notícias quando vai ler os jornais. Os jornais explicam, fazem análises, debatem.
O competidor da Folha não é o "Estado de S. Paulo", é o Google, o Facebook, estes são nossos competidores reais. E não queremos admitir porque não sabemos como competir com eles.

Como fazer que Google, Facebook e Apple dividam esses ganhos, usando noticiário alheio?
Essa é uma discussão, porque o Google pode dizer que não quer pagar, mas se o "New York Times" não quiser estar, eles o tiram dali. E ninguém quer ficar fora do Google, de jeito nenhum, preferem estar ali mesmo que eles não paguem.
Com a Apple já é diferente. O iPad é uma rede de distribuição mundial para jornais, livros, filmes que já está implantada. Se alguém quer colocar uma estação de televisão no ar, precisa levantar postes. No iPad está pronto.
Cobrar 30%, como faz a Apple, pelos ingressos na rede pode parecer muito alto, mas o custo de distribuição de um jornal tradicional é cerca de 40%, entre o que se gasta em bancas, caminhões e aviões para distribuição.

As notícias que nos chegam da Espanha e da Europa são muito pessimistas. É uma crise de liderança ou há uma crise também na sociedade?
Há tal confusão e cumplicidade entre poder financeiro e político que os políticos se sentem débeis.
Existe um problema de liderança política que tem a ver com as eleições e com o curto-prazismo dos agentes que decidem em política.
A China, sem eleições, faz como grandes empresas, com políticas de longo prazo.
A Europa manteve um modelo de vida, provavelmente o melhor modelo de vida existente nesse momento no mundo, e jornadas de trabalho curtas. Esse sistema simplesmente não se pode mais pagar, porque já perderam-se as colônias e a economia tradicional europeia.

Nos círculos ilustrados da Espanha, qual a imagem que o Brasil tem hoje?
Creio que uma imagem extraordinária, que a merece. O Brasil é hoje um um ímã que atrai todos os olhares. Acabou-se a piada sobre o país do futuro. Hoje se vê o Brasil como um dos motores importantes do século 21, mesmo com a desigualdade.

E a imagem de Dilma?
Dilma é pouco conhecida na Europa, mas tem uma imagem boa. Estive com Dilma há um mês e me impressionaram muito suas ideias sobre economia.
Creio que vai triunfar, apesar de que opera em um entorno político complicado, em que a institucionalidade dos partidos não está bem resolvida. Mas creio que continua o "milagre brasileiro".
Só é bom lembrar que a felicidade não dura para sempre e é bom que os brasileiros também se preparem para momentos tristes.

RAIO-X


NOME
Juan Luis Cebrián
IDADE
66
- Nasceu em1944,em Madri
- Co-fundouojornal El País em 1976
- Presidente do Grupo Prisa

"The Economist" destaca jornais em emergentes

DE SÃO PAULO

A revista britânica "The Economist", com vendas em alta nos últimos anos, analisou o futuro dos jornais em sua última edição.
Em uma reportagem especial de 14 páginas, a revista diz que a internet demoliu "o velho jeito de fazer as coisas, mas tornou outros possíveis". Diz que a rede estimula a inovação e que há muita "experimentação" a caminho.
Apesar de sublinhar a queda na publicidade nos jornais europeus e americanos, que sofrem encolhimento de sua circulação, a "Economist" apresenta o crescimento nos emergentes.
Segundo a revista, entre 2005 e 2009, a circulação de jornais cresceu 39,7% na Índia, 20,7% no Brasil e 10,4% na China.
Enquanto houve quedas de 11% e 8% na América do Norte e na Europa, respectivamente, a circulação subiu 5% na América do Sul, 13% na Ásia e 30% na África.
Mesmo a presença das redes sociais, como Facebook e Twitter, é avaliada positivamente. "Leitores compartilham reportagens com seus amigos e as histórias mais populares causam um congestionamento na rede", destaca a revista.
Outro aspecto abordado é o dos novos negócios desenvolvidos pelos jornais, que contam a seu favor com marcas de prestígio. Grupos jornalísticos têm criado livrarias on-line, organizado seminários e eventos, e produzem material didático e apostilas.
O britânico "Daily Telegraph" e o americano "The New York Times" criaram clubes de vinhos, enquanto o espanhol "Marca" vende produtos esportivos exclusivos a seus leitores.
A conclusão da reportagem aponta para um retorno ao jornalismo mais caótico e partidário do século 19, antes do surgimento dos meios de comunicação de massa. (RJL)

4 de jul de 2011

Direto da Folha: "Preconceito de homofóbico o faz chafurdar no ódio" (entrevista com Carlos Ayres Britto, Ministro do STF)

São Paulo, segunda-feira, 04 de julho de 2011

ENTREVISTA DA 2ª CARLOS AYRES BRITTO

Preconceito de homofóbico o faz chafurdar no ódio

PELA 1ª VEZ, MINISTRO CONHECIDO POR CITAÇÕES POÉTICAS E VOTOS PROGRESSISTAS NO STF DEFENDE PUBLICAMENTE A CRIMINALIZAÇÃO DA HOMOFOBIA

FELIPE SELIGMAN
JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA

Conhecido por citações poéticas e votos progressistas, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto, 68, defende, pela primeira vez publicamente, a criminalização da homofobia, ao entender que quem a pratica "chafurda no lamaçal do ódio".
Protestos de congressistas da bancada evangélica acabaram paralisando a tramitação do projeto de lei anti-homofobia, que está estacionado há dois meses no Senado.
Para o ministro, não são necessárias novas leis para garantir aos casais gays os mesmos direitos dos heterossexuais já que a Constituição é "autoaplicável".
Em entrevista concedida à Folha na beira do lago Paranoá, em Brasília, Ayres Britto disse que vê o debate sobre as drogas como uma questão de "saúde pública".
Afirmou ainda que "se nós, os homens, engravidássemos, a autorização para a interrupção da gravidez de feto anencéfalo estaria normatizada desde sempre".


FOLHA - O STF tem sido acusado de usurpar a competência do Legislativo. O sr. concorda com essa afirmação?
CARLOS AYRES BRITTO
- Não concordo. Veementemente respondo que o Supremo não tem usurpado função legislativa, principalmente do Congresso. O que o STF tem feito é interpretar a Constituição à luz da sua densa principiologia. O parágrafo 2º do artigo 5º autoriza o Judiciário a resolver controvérsias a partir de direitos e garantias implícitos.

E por que essa crítica ao STF?
As pessoas não percebem que os princípios também são normas e com potencialidade de, por si mesmos, resolver casos concretos quando os princípios constitucionais têm os seus elementos conceituais lançados pela própria Constituição. O Judiciário está autorizado a dispensar a mediação do Legislativo, porque, na matéria, a Constituição se faz autoaplicável.

No caso das uniões estáveis homoafetivas isso aconteceu?
Aconteceu, fizemos o saque de princípios constitucionais, tanto expressos quanto implícitos. Como fizemos quando proibimos o nepotismo no Judiciário e nos demais poderes. Porque o nepotismo é contrário a princípios constitucionais, até explícitos, como o princípio da moralidade. E cumprimos bem com o nosso dever: tiramos a Constituição do papel. Também no caso da homoafetividade, interpretamos os artigos da Constituição na matéria à luz de princípios como igualdade, liberdade, combate ao preconceito e pluralismo.

Qualquer nova lei virá confirmar o que foi decidido, mas nunca para criar regra diferente do que foi debatido?
Exatamente. A isonomia entre uniões estáveis heteroafetivas e homoafetivas é para todos os fins e efeitos. Em linha de princípio, é isso. Assim foi pedido pela Procuradoria-Geral da República quando propôs a ação. Não pode haver legislação infraconstitucional, parece evidente, que amesquinhe ou nulifique essa isonomia.

O que exatamente o STF decidiu sobre homoafetividade?
Pela possibilidade da união estável entre pessoas do mesmo sexo. Possibilidade jurídica, lógico. Em igualdade de condições com as uniões estáveis dos casais heterossexuais. União estável com a força de constituir uma entidade familiar.

Qual a diferença entre a decisão que negou a união estável em Goiânia e a que permitiu o casamento civil em Jacareí?
Como desfrutam de independência técnica, além da política, os magistrados são livres para equacionar juridicamente as controvérsias, desde que fundamentem tecnicamente suas decisões. Natural, portanto, que dois juízes projetem sobre a mesma causa um olhar interpretativo descoincidente, cabendo às partes insatisfeitas os devidos recursos ou, quem sabe, reclamações para o próprio Supremo.

Sem entrar no mérito de decisões específicas, qualquer decisão que diferencie a relação entre o homossexual e o heterossexual vai contra o STF?
Sim. A decisão foi claramente no sentido da igualdade de situações entre os parceiros do mesmo sexo e casais de sexos diferentes.

O Congresso precisa fazer alguma lei complementar?
Entendo que a Constituição é autoaplicável na matéria. Entretanto, há aspectos de minúcias que ficam à disposição da lei comum.

A questão deve voltar ao STF?
A Constituição atual, caracterizando-se como redentora dos direitos e garantias, e não como redutora, estimulou muito a judicialização das controvérsias, inclusive as de natureza política. Daí a expectativa de que a matéria tem potencialidade para retornar ao tribunal.

O sr. é a favor de criminalizar a homofobia?
Tenho [para mim] que sim. O homofóbico exacerba tanto o seu preconceito que o faz chafurdar no lamaçal do ódio. E o fato é que os crimes de ódio estão a meio palmo dos crimes de sangue.

Recentemente o STF decidiu sobre o direito de organização para a defesa da legalização da maconha. Será assim para todas as marchas?
A decisão se circunscreveu à chamada Marcha da Maconha, mas os respectivos fundamentos se prestam para a discussão a céu aberto de toda e qualquer política de criminalização das demais substâncias entorpecentes.

O sr. tem opinião sobre o tema?
Minha inclinação pessoal é para ver o tema como uma focada questão de saúde pública. Me inquieta o fato de que temos tantas leis de endurecimento da resposta punitiva do Estado e, no entanto, a produção, o tráfico e o uso de tais substâncias não param de crescer.

Outro tema polêmico é o do aborto em caso de feto anencéfalo. O sr. já expôs opinião favorável à prática, certo?
No voto que proferi na discussão sobre o cabimento da ADPF [ação que trata do tema] manifestei opinião de que se nós, homens, engravidássemos, a autorização para a interrupção da gravidez de feto anencéfalo estaria normatizada desde sempre.
...

Novo projeto deve tratar preconceito de forma geral

LARISSA GUIMARÃES
DE BRASÍLIA

Parado há dois meses no Senado, o projeto de lei anti-homofobia deverá ser totalmente reformulado.
A proposta inicial previa punições para quem agredisse física ou verbalmente homossexuais, além de situações como negar acesso ao trabalho e ao comércio.
A tendência agora é que o texto trate de condutas preconceituosas de forma geral, não apenas contra gays.
A polêmica começou no início do ano, quando a senadora Marta Suplicy (PT-SP) conseguiu desarquivar o projeto, que fora apresentado em 2006 na Câmara.
A proposta provocou protestos da bancada evangélica, que temia a proibição de críticas a práticas homossexuais em pregações.
Marta chegou a propor uma emenda para garantir a liberdade de críticas, mas os evangélicos não ficaram satisfeitos. Parte dos críticos afirma que é preciso começar um novo texto.
Para a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), a proposta dos evangélicos não combate a homofobia.

6 de mai de 2011

Direto da Folha: "Vitória gay, vitória do país" por Fernando de Barros e Silva


São Paulo, sexta-feira, 06 de maio de 2011

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Vitória gay, vitória do país

SÃO PAULO - Não foi apenas uma vitória dos homossexuais. Foi uma afirmação do Estado laico, do espírito democrático e do pensamento progressista. Não é pouco no Brasil.
Basta lembrar, por exemplo, que na campanha presidencial o aborto foi objeto de uma gincana obscurantista entre os candidatos "esclarecidos". Ou não esquecer que gays (de fato ou presumidos) são espancados por gangues nas ruas, como aconteceu outro dia na Paulista.
Ao reconhecer como legal a união estável entre pessoas do mesmo sexo, o STF estendeu a esses casais os direitos dos heterossexuais -partilha de bens e herança, pensão, declaração conjunta de IR etc.
Mas, além disso, ao facultar aos gays o direito de constituir família, o STF vai contra a discriminação e a favor de uma sociedade mais tolerante e inclusiva, capaz de lidar de maneira civilizada com suas diferenças e a multiplicidade da vida.
Eram dois os argumentos legais dos adversários da causa gay: 1) a Constituição diz que "é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar"; 2) para ampliar esse conceito aos gays, seria preciso mudar a Carta, tarefa que caberia ao Congresso.
Gilmar Mendes respondeu a essas objeções no seu voto: "O fato de a Constituição proteger a união estável entre homem e mulher não significa negar a proteção à união do mesmo sexo. É dever desta Corte dar essa proteção se de alguma forma ela não foi concedida pelo órgão competente (o Congresso)".
Mas feliz, de verdade, foi a fórmula do relator do caso, ministro Ayres Britto: "Aqui é o reino da igualdade absoluta, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham".
Mesmo sem perder nada, foram derrotados aqueles que se sentem ameaçados pela sexualidade alheia (ou antes a sua própria). Perderam a igreja, os conservadores em geral e os homofóbicos em particular. Nem sempre o Brasil nos decepciona. Avançamos. Com a omissão do Congresso, pelas mãos do STF.

9 de abr de 2011

Direto da Folha de SP/Cotidiano: "Chega de sexo!" por Barbara Gancia

São Paulo, sexta-feira, 08 de abril de 2011

BARBARA GANCIA

Chega de sexo!


Nesta semana, Marcelo Tas nos apresentou sua filha Luísa. Obrigada, meu amigo, valeu! Dá-lhe, Santos!

NÃO É PRECISO ser nenhum Contardo Calligaris, nenhuma Rosely Sayão, diria que não é preciso nem mesmo saber se Sigmund Freud vivia entre os aborígenes australianos ou em Viena e Londres do século 19 para ter certeza de que o atirador que encerrou prematuramente a vida de 12 brasileirinhos tinha um problema de ordem sexual.
Fico pensando no quanto alguém tem de estar perturbado para se imaginar nu e sem sopro, jogado sobre a pedra fria do IML depois de cometer um crime bárbaro seguido de suicídio, cuja única preocupação ao se ver nessa posição seja a de que irá ter o corpo manipulado por mãos ímpias, ou melhor dizendo, por quem já perdeu a virgindade.
Tudo bem, os especialistas falam em esquizofrenia, em surto e coisa e tal. Mas eu fico pensando. O pedido que ele deixou na carta-testamento encontrada pela polícia foi esse, não? Que quando seu corpo estivesse sendo preparado para ser sepultado, não deveria ser tocado por nenhum "impuro", "fornicador" ou "adúltero". Será que ele imaginava estar livrando as crianças que matou do pecado?
Foi sugerido que o atirador pudesse ser portador do vírus da Aids. Ué? Ele tinha histórico de compartilhamento de seringas por uso de drogas? Ou se imaginava como tal em mais uma de tantas facetas de uma identidade fragmentada? Agora é fácil perguntar, mas como é que ninguém ao seu redor percebeu tamanho sofrimento?
E faz sentido que, quando parece estar manifestando sua espiritualidade, ele só consiga papagaiar uma caricatura de talibã que nada tem a ver com o islâmismo. O sujeito definitivamente tentava de tudo para dominar seus instintos mais rudimentares.
Em uma sociedade evoluída, a questão da preferência sexual -são quantas, 15 ou, sei lá, 56 opções no cardápio? Sendo que ao menos 55 parecem mais ou menos iguais- não deveria ser valorizada, discutida ou sequer admitida a sua existência. Sexualidade é uma só, posto que todos temos um cérebro, um coração, uma libido e uma língua. Por isso chamamos de "sexo" e não de "atletismo" ou quiçá de "boliche", justamente porque versa sobre o íntimo e metade ou mais da graça reside em seu mistério.
Alô, seu Bolsonarossauro! Até quando o Vaticano vai usar a sexualidade da gente como instrumento político é o que a gente deveria estar se perguntando, não se a Preta Gil faz suruba.
Nesta semana, a polícia encontrou o corpo de uma garota de 16 anos, em Itarumã, Goiás. Suspeita-se que tenha sido morta a facadas, depois de ter sido emboscada por parentes de sua namorada que não aceitavam o relacionamento.
Em outro caso, no sábado passado, Michael, jogador do Vôlei Futuro, se viu forçado a assumir sua homossexualidade publicamente ao ser humilhado em estádio de Contagem, MG. "Foi a primeira vez que vi um estádio inteiro gritando "bicha" em alto e bom som", diz. "Tinha até criança, senhora, muita gente gritando". Pois eu digo que ninguém mais merece sofrer por causa da sexualidade. Ninguém.
Para combater a boçalidade, Marcelo Tas nos apresentou sua filha Luísa no "CQC" desta semana, uma luminosa estudante de direito, bolsista da American University em Washington e estagiária da OEA: youtube.com/watch?v=WLhxyOMriXU.
Fui às lágrimas quando vi e agradeço profundamente pelo gesto.

@barbaragancia

barbara@uol.com.br

www.barbaragancia.com.br

18 de mar de 2011

A primeira 'Bohème' a gente nunca esquece

Para quem não pode comparecer em Ribeirão Preto para a estréia da minha encenação de "La Bohème" publico aqui o texto do programa, assinado por Rubens Ricciardi, e algumas imagens do nosso último ensaio geral fotografadas por Andres Costa.
Enjoy!


Caetano Vilela transporta a cena para os anos 40 do século XX - tempos da 2ª Grande Guerra que por si só já contempla todo um ambiente de crise, quase mesmo de indulgência. Ele assume também deliberadamente as diferenças em relação o gestual do século XIX. A direção cênica confere, portanto, uma maior liberdade de movimento aos cantores/atores, mais próxima também ao nosso Zeitgeist contemporâneo. Assim, nada deve parecer falso.

Mas apesar da transposição de época, permanece resguardada a essência do romantismo, bem como a “ingenuidade dos personagens, jovens artistas boêmios, com uma interpretação mais centrada nas pequenas e verdadeiras motivações dos personagens”. Ainda de acordo com as concepções de Caetano Vilela, “o espaço cênico é tomado por uma grande e modular passarela em x por onde desfilarão os personagens, livres de qualquer parede ou construção que possa evocar uma arquitetura de uma época. Embora o espaço cênico seja atemporal e com uma estrutura mínima, ele carrega todo o simbolismo da fria solidão dos protagonistas. A única identificação de uma época será revelada pelos figurinos, focado no período de guerra dos anos 40 do século XX. Ato a ato essa passarela se transforma, revelando ao público ângulos diferentes da cena, transformando com luz e pequenos adereços espaços abertos em quarto, taberna, praça, bar e rua”.

Em especial, Caetano Vilela repensa ainda as condições existenciais e as relações pessoais conflituosas entre os dois pares protagonistas: Rodolfo e Mimì, Marcello e Musetta. Há também um reflexo invertido entre eles. Mimì é uma pessoa comum. E está claro que ela tem dificuldade em se adaptar à atmosfera intelectual de Rodolfo. Entre mundo, vida e literatura só pode haver encontros com muitos desencontros entre eles. O contraste evidente está também entre Mimì e Musetta. Se Mimì é toda insegura, já Musetta se torna uma personagem forte e segura de si. Musetta de modo algum é entendida aqui como prostituta (como ocorre na maior parte das vezes em que a ópera é encenada). Ela é antes uma mulher que quer ser conquistada, mas que já conquistou seu espaço próprio (sensual sim, mas também self-made). Portanto, a insegurança passa para o lado de Marcello, que tem dificuldades em lidar com uma mulher tão independente e que pensa e age por si mesma.

No final do primeiro ato, tradicionalmente, é o velho Alcindoro quem paga a conta. Nesta versão de Caetano Vilela, já de modo bem diverso, é Musetta quem dá o dinheiro ao jovem Alcindoro antes que este pague a conta. Aqui Alcindoro é um mero objeto de passatempo de Musetta (é ela quem arca com os custos da relação e não o contrário).

Por fim, segundo ainda Caetano Vilela, “o terceiro ato resume todo o simbolismo que carrega esta encenação com pouquíssimos, mas poderosos elementos: 80 cadeiras espalhadas pelo parque (como realmente ocorre ainda hoje nas praças e parques públicos franceses, inclusive nos rigorosos invernos), criando caminhos e obstáculos para a ação e uma árvore de pinheiro natural (pintado de vermelho) de aproximadamente 6 metros, flutuando no espaço e sombreando a tragédia que esta por vir”.

Mas voltando ao compositor Puccini, naqueles mesmos anos em que ele escrevia sua La Bohème, Claude Debussy estava compondo seu Clair de lune. Interessante como um mesmo Zeitgeist perpassa ambas as obras – ainda mais se observarmos os recursos harmônicos e um mesmo processo de esgotamento do sistema tonal.

No caso de La Bohème, o ambiente parisiense do Quartier Latin é só um pretexto, pois a miséria do poeta, do pintor, do músico e do filósofo - para não falar da moça (no mínimo “namoradeira”, sempre envolta em escândalos) - é sempre a mesma em toda parte. O que diremos da pobre costureira de trágica circunstância?

Mas o que será que por trás de toda uma estrutura musical em La Bohème – e não podemos esquecer o grande melodista que foi Puccini! – ainda mais nos comove? Talvez seja o caráter efêmero das relações humanas e mesmo a fragilidade da própria vida? Ou quem sabe ainda nossa procura sempre sem resultado por um sentido existencial? Ou nossas frustrações e irritações diante da própria impotência? Eis que o chão de nossa vida se torna um abismo quando até mesmo o amor não é forte o suficiente diante do destino implacável.

Prof. Dr. Rubens Russomano Ricciardi

Titular do Departamento de Música da FFCLRP-USP

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I Ato: Rosana Lamosa (Mimi) e Fernando Portari (Rodolfo)

II Ato - Todos no Quartier Latin no café Momus

III Ato - Soldados e Garis num parque; cai a neve em frente a taberna onde Musetta e Marcello trabalham.

III Ato - Rosana Lamosa (Mimi), Fernando Portari (Rodolfo) e Leonardo Neiva (Marcello)

III Ato - Rosana Lamosa (Mimi), Fernando Portari (Rodolfo), Leonardo Neiva (Marcello) e Yuka de Almeida Prado (Musetta)

IV Ato - De volta ao studio dos artistas, Fernando Portari (Rodolfo) e Leonardo Neiva (Marcello)

IV Ato - Morte da Mimi. FIM

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Direção Musical e Artística: Cláudio Cruz
Encenação e Iluminação: Caetano Vilela
Cenário: Chris Aizner
Figurino: Olintho Malaquias
Visagista: Eliseu Cabral
Realização: Matiz Eventos (Maria Helena Kowarick Spiritus, Mariangela Quartim e Isabel de Farias)
...

O site da Ópera você acessa aqui: http://www.operalaboheme.com.br/
E no meu Flicker tem mais fotos: http://www.flickr.com/photos/caetanovilela/

16 de mar de 2011

Sobre ser premiado, a amizade e a responsabilidade em ter discípulos

"Dueto para Um" (foto by Lenise Pinheiro) no Tuca Arena/SP, pensei na luz como arquitetura, trabalhando com uma dramaturgia paralela que pudesse preencher o espaço seco desenhado por Cassio Brasil

Mais uma vez sou indicado a um prêmio e não posso comparecer à cerimônia de entrega, primeiro foi o Prêmio Carlos Gomes em 2009 e agora o Prêmio Shell de Teatro/SP de melhor iluminação com "Dueto para um".
Novamente passo pelo 'momento meryl streep' em ter de escrever um agradecimento para ser lido pela minha representante - e diretora - Mika Lins. O que reproduzo abaixo é uma tentativa de resumir meus sentimentos, espero que tenha conseguido:

"Dueto para um" não foi apenas mais uma peça que assinei a luz, foi uma peça em que pude retribuir 25 anos de amizade, confiança e talento à Bel Kowarick em sua primeira produção independente. Foi um convite irrecusável que aceitei sem hesitar e contei com toda a liberdade e generosidade de Mika Lins, despida de qualquer vaidade nesta sua primeira direção.
À toda equipe deste espetáculo parabéns e muito obrigado aos jurados do Prêmio Shell por terem escolhido justamente este trabalho que realizei com tanto amor e carinho.

Fiquei muito feliz em concorrer com meus talentosíssimos colegas de profissão em espetáculos elogiadíssimos! Mas o que me deixou realmente emocionado nesta lista de indicados é ter entre estes nomes uma pessoa que me procurou aos 16 anos para aprender a arte da Iluminação e que 10 anos depois ainda me acompanha em diversos trabalhos - inclusive neste momento numa ópera que dirijo e ilumino e que estréia amanhã em Ribeirão Preto. Estar numa relação de igualdade com um discípulo é tudo o que todos os mestres sonham e tenho certeza que esta luz não vai se apagar!
Todo o meu amor e respeito a Wagner Antônio que tem uma carreira brilhante pela frente.
Muito obrigado.
Caetano Vilela

Eu, em si, e Wagner Antônio (foto by Andres Costa) na ópera "Viúva Alegre", produção de 2010 do Teatro S.Pedro/SP que assinei a luz e onde ele estreou como meu Iluminador Assistente, deixando para trás 10 anos de estágio comigo.

8 de mar de 2011

Direto do Estadão: "Literatura e Teatro, casamento feliz" por Caetano Vilela

Casamento feliz

Grandes obras literárias estimulam reinvenção de linguagem nos palcos

08 de março de 2011 | 0h 00

Caetano Vilela - O Estado de S.Paulo

Não é de hoje que obras-primas da literatura servem de farol para diretores cênicos, atores e dramaturgos sedentos por um tema universal que possa tocar o público e - com sorte e talento - também apontar novos caminhos estéticos e conceituais para o teatro. Não é raro uma boa adaptação para o palco devolver o interesse ao livro, fazendo com que o público (re)descubra a obra na sua essência; e, por vezes, também é o leitor que sente curiosidade de ver seu livro/autor preferido nos palcos, fechando assim um círculo de conquista e sedução que amplia leitores e espectadores.

Divulgação
Cena de O Idiota. Trabalho coletivo relê romance

A adaptação expressionista de Gerald Thomas para A Metamorfose e O Processo, as duas peças mais importantes da sua Trilogia Kakfa, não só esgotou os exemplares do livro numa livraria próxima ao teatro em que estava em cartaz em São Paulo, como mudou a referência do teatro moderno brasileiro nos fins dos anos 80. Anterior a Thomas, é histórico e bastante citado o casamento moderno da literatura com o teatro em Macunaíma, do mestre Antunes Filho (ainda em ótima forma e em cartaz, resgatando Lima Barreto para o teatro com o "retrato nacional" Policarpo Quaresma). Ele plantou a semente dos rumos que o teatro nacional iria seguir e também divulgou o nome de Mario de Andrade pelos quatro cantos do planeta.

Foi com a adaptação inventiva do romance de Jorge Amado, Velhos Marinheiros, que Ulysses Cruz (dissidente do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho) fincou seu nome no teatro nacional, fundando o grupo Boi Voador, que fez história nos anos 80 influenciando dezenas de artistas e grupos que vieram logo em seguida - perda irreparável foi o fim do grupo com a ida de Cruz para o núcleo de diretores Globo; quem se deu mal foi o teatro. Suas adaptações literárias não pararam por aí, renderam ainda complexas encenações das obras de Guimarães Rosa (as sete novelas que compõem Corpo de Baile numa lisérgica encenação que deve muito ao teórico e diretor russo Meyerhold), Mario Vargas Llosa (Pantaleão e as Visitadoras, com atores enfrentando a Terra, o Ar - içados por um helicóptero cenográfico - e o Mar - o palco era literalmente inundado e invadido por patos e gansos) e Gabriel García Márquez (Erêndira, como convidado do grupo Delta de Londrina).

O gênio pau-brasil Zé Celso Martinez Corrêa buscou no rebuscado Euclides da Cunha toda a alegoria e antropologia teatral para o seu rebuscado teatro dionisíaco presenteando-nos com Os Sertões, peça em constante processo de criação, nunca trabalhada para se chegar a uma síntese, mas sempre numa versão reloaded, o que parece ser coerente com a proposta de "síntese do caráter povo brasileiro".

Cacá Carvalho, lançado como protagonista da primeira versão de Macunaíma de Antunes Filho, alcançou o status de "sir" com a sua definitiva atuação para Meu Tio Iauaretê, de Guimarães Rosa.

Mas o que leva esses artistas a construírem uma dramaturgia a partir de um texto literário? Para quem não é artista, a resposta imediata e mais óbvia é que com a literatura buscam-se temas não abordados por uma peça teatral. Mas essa resposta é um pouco mais complexa para quem lida com o fazer teatral. Talvez o enigma se esconda no processo de criação desse artista.

É esse termo caríssimo que dá embasamento teórico, subtexto e liberdade para que se crie algo absolutamente sem nenhuma referência de rubrica ou indicações de "aqui a luz se apaga", comum em textos teatrais mais conservadores. Claro que Shakespeare é genial e praticamente não existem rubricas em suas peças; claro, também, que a insuperável encenação de O Balcão, de Jean Genet, trazia imagens suficientes para o delírio destruidor do encenador franco-argentino Victor García, que literalmente destruiu um teatro. Mas saindo da obviedade dos Hamlets, Caixeiros-Viajantes e Alaides, a verdade é que entre os grandes personagens da literatura e os grandes personagens da dramaturgia ganham os primeiros, para alegria do "processo de criação" de atores e encenadores!

Totem cultural

Não é coincidência o relançamento de edições da literatura russa no Brasil (traduzidos diretamente do original e não mais de edições francesas) e recentes peças baseadas na obra de Fiodor Dostoievski, verdadeiro totem cultural. Artistas de insuspeitado talento têm procurado na obra do bardo russo motivações para questionamentos da ordem moral, espiritual e, por que não dizer, mundana da vida. Nos últimos dois anos, os teatros de São Paulo puderam conferir elogiadas encenações adaptadas de Memórias do Subsolo (monólogo com Mika Lins, numa interpretação que ia se desfigurando como em um quadro de Francis Bacon), O Grande Inquisidor (parte da narrativa do petardo Os Irmãos Karamazov) e Sonho de Um Homem Ridículo (ambas interpretadas pelo sempre denso Celso Frateschi).

Difícil mesmo será superar a ambiciosa encenação de O Idiota, realizada na sua íntegra no final do ano passado, e que volta no dia 17 ao SESC Pompeia, pela Mundana Companhia, um coletivo de artistas egressos de importantes grupos teatrais paulistanos como a Cia. Livre, o Teatro da Vertigem e o Teatro Oficina.

Como uma ópera wagneriana, a brilhante encenação de Cibele Forjaz traduz o leitmotiv novelesco de Dostoievski numa verdadeira obra de arte total, e para não perder o sotaque nacional: antropofagicamente carnavalizada. Para o sucesso desta empreitada foi muito importante a Companhia ter aceitado o conselho de Boris Schnaiderman, decano da divulgação da cultura russa no Brasil: "Ele nos aconselhou a não sermos turistas nem tampouco fiéis ao romance", relata Luah Guimarães (que também assina a dramaturgia, com a diretora e Vadim Nikitin), num esclarecedor texto no programa da peça em que descreve parte do diário de montagem e o árduo processo de criação.

Como em um "sonho de um homem ridículo" foi Aury Porto (idealizador, autor do roteiro adaptado e Príncipe Michkin, "o idiota") quem enxergou teatro naquelas mais de 600 páginas de resignação e dor. Seu príncipe não é "muito louro" como na descrição das primeiras páginas, tampouco calça "uns sapatos de sola grossa com polainas, tudo de feitio russo"; mesmo com cabelos pretos, descalços e um brasileiríssimo sotaque cearense, não há duvidas de que se está diante do ideal imaginado pelo autor, segundo citação de cartas: "Um homem positivamente belo, uma mistura de Cristo com D. Quixote".

O que se vê em cena é de tirar o fôlego: são nove atores num tour de force de 6h30 de construção/desconstrução e inventividade sob o poder dos quatro elementos da natureza, um hercúleo trabalho de produção e técnica teatral. É o olho do espectador (somente 80 pessoas por espetáculo) que vai editando a peça, dependendo do lugar em que ele se senta a cada deslocamento. A proximidade ou distância da ação oferece uma composição de cena diferente a cada um. Dependendo da disposição (física e espiritual), talvez a única coisa que todos levarão para casa será a certeza de que "o segredo da existência não consiste somente em viver, mas em saber para que se vive". Se for assim, a literatura e o teatro já cumpriram a sua função.

CAETANO VILELA, ENCENADOR E ILUMINADOR, ATUALMENTE DIRIGE A CIA. DE ÓPERA SECA NO BRASIL

21 de fev de 2011

Direto da Folha de SP/Ilustrada: "Banquete do terror" (Gerald Thomas volta ao palco em Londres)

São Paulo, segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Banquete do terror

Gerald Thomas volta ao palco em Londres, com peça sobre o mundo pós-11 de Setembro

Fotos Bruno Figueiredo/Folhapress

O diretor Gerald Thomas dá orientações ao ator inglês Angus Brown em ensaio do espetáculo no Pleasance Theatre

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL A LONDRES

Um ano e meio depois de dar adeus ao teatro, com uma catastrófica carta de despedida em que dizia que essa arte já não faz mais sentido nos dias de hoje, Gerald Thomas, 56, está de volta.
"Throats" (gargantas) estreou na última sexta-feira no Pleasance Theatre, em Londres. Trata-se de uma peça sobre o mundo pós-11 de Setembro. Há um atentado terrorista, que se confunde com um acidente de trânsito.
Depois dele os mortos se encontram numa espécie de banquete, onde o vinho servido é o sangue de outros atentados e de outras datas de conflitos históricos.
É a primeira obra da companhia de teatro que o dramaturgo montou na capital inglesa aos moldes, e com o mesmo nome, daquela que o tornou célebre no Brasil nos anos 80, a Ópera Seca.
Agora batizada de London Dry Opera (www.londondryopera.com), é composta de sete atores, escolhidos por meio de audições que contaram com a participação de mais de 600 candidatos.
Thomas justifica o retorno dizendo que não aguentou ficar muito tempo longe dos palcos e por não saber fazer outra coisa. "Se existisse um "rehab" para alguém se curar do vício do teatro, eu me internaria nele." Porém, afirma que tudo o que disse em seu manifesto segue valendo.
"O teatro como o conhecíamos não existe mais. Cada vez menos as pessoas se interessam por ele", diz. E culpa as novas mídias. "Há uma diluição no consumo das artes e das informações, uma personalização da percepção. Todos estão dentro de seus iPods ou iPads, cada um com aquilo que lhe interessa, não há espaço para uma arte mais aberta num mundo como este."
Também critica a "idiotização geral" do planeta. "Aqui e em Nova York, o que mais vejo é a popularização desses programas tipo "American Idol" ou "Britains Got Talent". É o show do Chacrinha globalizado; está acontecendo uma "brasileirização" do mundo."
É por sentir-se assim, meio perdido em seu próprio universo, que Thomas se incluiu em "Throats" na forma de um personagem que cruza a trajetória dos outros.
Há um garoto cego, com um nome de origem muçulmana, Yussef, que busca um endereço em Nova York. Pergunta por ele a várias pessoas. Leva nas mãos um bilhete (referência a Samuel Beckett) e uma rosa morta (referência a Jean Genet). "O menino sou eu, e o endereço é o do La MaMa, teatro onde me formei e onde está a fonte de tudo o que fiz."
A Folha acompanhou um ensaio e a estreia da montagem. Apesar de seu discurso pessimista, o diretor age como sempre.
Orienta os atores com vigor, dá broncas e faz piadas, irrita-se com a baixa qualidade da produção, improvisada às pressas. Orienta pessoalmente a entrada da luz, da trilha sonora e da fumaça, marcas pessoais de sua obra.
O cenário é montado entre ruínas das Torres Gêmeas, reforçando a mensagem política. "Meu teatro sempre foi político de certa forma. As pessoas no Brasil parece que nunca entenderam. Acham que faço teatro surreal e hermético, mas não é verdade."
Apesar disso, Thomas diz que o teatro tem pouca chance de mudar a realidade. "É arte de elite, portanto ineficaz nesse sentido. Se Augusto Boal ou Zé Celso achavam que podiam promover revoluções, estavam errados. Nem Bertolt Brecht mudou a Alemanha de Hitler."
Thomas se mostra desinteressado pela política brasileira atual. Crê que Lula "institucionalizou a burrice no poder" e não se conforma com os escândalos de corrupção que envolveram o PT.
Diz, porém, que não tem uma opinião formada nem de Dilma nem de Serra. "Estou afastado, nem me lembro bem as siglas dos partidos, prefiro assim."

Primeira noite lota teatro para 280 pessoas

DA ENVIADA A LONDRES

"Throats" estreou na última sexta-feira, uma noite gelada do inverno londrino, num teatro alternativo da cidade, o Pleasance, em Islington. O espaço, para 280 pessoas, estava praticamente lotado.
Na plateia, uma presença ilustre, John Paul Jones, do Led Zeppelin, responsável pela trilha sonora e com quem Thomas está montando uma ópera.
A peça tem todos os elementos que caracterizam o teatro do diretor, ingredientes operísticos, repetições, música alta, fumaça, texto cheio de citações, referências a Samuel Beckett (com quem Thomas trabalhou na juventude).
O palco giratório oferece dois espaços. No primeiro, acontece o banquete dos mortos após o atentado. No segundo, a crucificação e o local do acidente.
O elenco, variado, conta com dois destaques, Angus Brown, que interpreta o "garçom" do purgatório, e Adam Napier, que lembra muito o humorista Stephen Fry. A atriz portuguesa Maria de Lima canta trechos de uma canção de Cesaria Evora assim que chega à mesa do banquete.
Thomas conta que o título original era "Heaven Sexual Victims", mas que depois achou que isso "espantaria o público".
O texto foi escrito depois de escolhido o elenco, e terminado apenas dias antes da estreia. O diretor ainda estuda cortes de cenas e eventuais mudanças com relação ao que foi mostrado na sexta-feira.
Há planos de levar o espetáculo a São Paulo mais adiante, e o local escolhido seria o Sesc, mas tudo depende do desempenho dessa temporada londrina, que vai até 27 de março, com apresentações de terça a domingo.

20 de jan de 2011

Depoimento de Gerald Thomas sobre a perda da 'mama' Ellen Stewart

São Paulo, quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
DEPOIMENTO

Diretora, que morreu no último dia 13, foi uma "mama" de coração enorme

Ellen Stewart nos espalhou pelos teatros do mundo todo (photo: Ruby Washington/NYTimes)

GERALD THOMAS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Ano que vem faria 30 anos de amor, filiação, admiração e algumas brigas na minha relação com a minha Mama, Ellen Stewart.
Foi em 1982 que ela me mandou dar um workshop para atores, num andar que o La MaMa [grupo teatral] tem de espaço de ensaio na Great Jones Street [em Nova York], a um quarteirão dos teatros em si.
"Texto demais", ela berrava nos ensaios finais. "Mas é Beckett, Ellen, é um texto de Beckett." "Não importa: é texto demais." "Você quer que eu corte Beckett?" Sem resposta, ela sumia.
Ellen não gostava de teatro de texto, não importa qual autor.
Entre brigas, carinhos, bajulos e críticas, esses 30 anos foram pontuados por algumas repetições engraçadas: "Welcome home baby and sit your ass right here" (Bem-vindo bebê e sente sua bunda aqui).
Num quarto mínimo, com a televisão sempre na maior altura, ela nos recebia e me pedia: "Honey, vá na geladeira e me traga uma 7 UP bem gelada".
Qual era a sua doença? O coração que não parava de crescer. Não, o que descrevo não é uma metáfora, e sim a mais pura realidade.
Ellen Stewart, a "mama" com o coração enorme, acabou morta por um coração grande demais.
Eu chegava de alguma ópera ou peça que havia montado na Europa e ela só queria mesmo saber se havia saído o nome do La MaMa no cartaz. E havia. Eu fazia questão de frisar que eu era fruto dela. Ela me inventou. E a partir da autoestima que ela me imprimiu, eu fui á luta.
O meu primeiro espetáculo que viajou saiu do La MaMa (era a Beckett Trilogy com o Julian Beck) e nos levou para o Theater am Turm, em Frankfurt (Alemanha), pelo crítico Peter Iden, da Frankfurter Rundschau.
Ela, sentada na plateia durante, distribuía notas de dinheiro, mas não entendia uma palavra do que o administrador dizia. Eu falo alemão, Julian falava alemão e Judith Malina e George Bartnenieff haviam nascido na Alemanha. "Shut up everyone. I know what I'm doing" (Calem-se todos. Eu sei o que estou fazendo).
Contou tudo errado, mas, num silêncio de admiração, gratidão e medo, não dissemos nada. A ovação que esse espetáculo recebeu em Frankfurt foi a última que Julian ouviria. Ele faleceu um mês depois.
Algumas de minhas peças que foram pra NY não foram pro La MaMa e isso foi motivo de briga entre mãe e filho que não há como descrever. Vão do inferno pra baixo.
"Flash and Crash Days", com as Fernandas, foi para o Lincoln Center: "Assim, eu não vou: nem tentem me levar porque você me traiu".
Não, eu não havia traído ninguém. "Flash and Crash" havia sido convidado pelo festival Serious Fun (1992), e eu pedi um amigo que a pegasse de carro na rua 4 e a levasse ao complexo artístico onde também fica o Metropolitan Opera House, na 66.
"Horrível aquela cena de masturbação entre mãe e filha. Como você pode pensar numa coisa suja como essa?" Nudez nunca foi um problema no La MaMa. Aquilo era pura cena de ciúme.
Foram quase 30 anos de levá-la aos hospitais e dando-lhe a mão dentro de uma ambulância, tentando um quarto melhor, com vista pra rua.
Foram quase 30 anos de um amor indescritível. O mesmo amor que ela teve quando cunhou o termo "experimental theater" (teatro experimental) nos anos 1960 e a mesma paixão que fez com que ela tirasse e salvasse o Grotowski [diretor de teatro polonês, 1933-1999], a força da Polônia de Jaruzelski [presidente entre 1989-1990].
Éramos todos adotados por ela, nós, as crianças que ela espalhou pelos teatros do mundo inteiro. Sim, De Niro, Pacino, Bob Wilson, Philip Glass, Charles Ludlam ou Harvey Fierstein e tudo que Firestein hoje chama de 80% do teatro americano.
Estou perdido e envolto numa tristeza que não tem descrição. Mas sei que esses 30 anos me serviram pra muita coisa. Entre elas, não me lamentar.
Sim, porque eu sou testemunha da dor física que ela sentiu nessas últimas décadas com um enorme sorriso nos seus lindos lábios.

GERALD THOMAS é diretor e autor teatral.

8 de jan de 2011

Direto da Folha de SP/Ilustrada: "Elite"/Fernanda Torres

Concentremos nos três últimos parágrafos, tema constante nas discussões acaloradas por quem não é artista de 'manifestação de massa'.

São Paulo, sábado, 08 de janeiro de 2011

FERNANDA TORRES

Elite

SER CONSIDERADO parte da elite virou ofensa das mais graves. Um sinônimo daquilo que nas peças de Bertold Brecht é encarnado pelo burguês ganancioso, ameaçado pela ascensão dos mais humildes, cuja riqueza se baseia na exploração dos menos favorecidos.
Mas quem é a elite?
Quem, além dos que enriqueceram roubando, merece a acusação de ter contribuído ou desejado a desigualdade social? A classe A? B? Os profissionais liberais? Os engenheiros? Cientistas? Artistas? Empresários? Políticos? Latifundiários? Todos juntos?
Quem comanda a injustiça atávica, além dos que desviam milhões e lutam pelos votos da ignorância?
É bem verdade que não fomos formados pela mesma tradição protestante que fundou os Estados Unidos. Lá, desde os tempos de George Wa- shington, solidariedade se traduz em doações polpudas das grandes fortunas para instituições de caridade, hospitais, universidades, museus e pesquisa. Temos uma herança extrativista que culminou na lei de Gerson. A filantropia engatinha por aqui.
A recente estabilidade econômica possibilitou o milagre da distribuição de renda. O aumento do poder aquisitivo dos que ganham entre três e dez salários mínimos salvou o Brasil da crise de 2009 e continua prometendo.
Nenhuma revolução heroica deu voz ao povo; foi o crédito e a Bolsa Família. A classe C se transformou no Eldorado das grandes redes de TV, das poderosas agências de propaganda, do comércio varejista, dos bancos e de todas as demais forças geradoras de riqueza. Desvendar os seus anseios é o sonho de qualquer CEO com especialização em Harvard no momento.
O cacife dessa nova classe média multiplicou por sete nos últimos dez anos e, hoje, se equipara ao das classes A e B juntas.
As duas últimas abrigam o pessoal com bala na carteira para sonhar com mercado luxo.
Já é possível, sem sair de São Paulo, fazer fila para adquirir a sua bolsa de R$ 30 mil, vestir alta costura prêt-à-porter, harmonizar o vinho com a refeição e viver em ambientes paginados.
Antunes Filho considera uma tragédia a proliferação dos cadernos de culinária, moda e decoração. Jorge Mautner deu uma boa explicação para o fenômeno: até há pouco tempo, somente a nobreza e os reis tinham direito a tais requintes. A democratização do luxo se transformou na febre dos que têm direito à mais-valia.
Em um mundo que substituiu a ideologia pelo economia, não importa quanto dinheiro você tem no bolso, manda aquele que pode e deseja gastar, seja no crediário miúdo ou nas grandes tacadas dos cartões platinum. O resto é silêncio.
Tanto os que se endividam por um sapato Louboutin quanto os que o fazem pelo primeiro carro ou geladeira geram dividendos, aumentam o PIB e puxam as estatísticas mercadológicas para cima. Ambos alimentam a ciranda produtiva e estão perdoados. Quem se posicionou à margem deste rio de satisfação, arrisco dizer, foi o intelecto. O intelecto e seu imperdoável defeito de não ser consumista.
Lembro-me do choque que levei quando percebi que a primeira página da Ilustrada seria definitivamente ocupada por anúncios de meninas lânguidas e contorcidas em campanhas de estilo. A manchete podia se referir à um artista radical da Sibéria, mas a foto era de uma modelo adolescente de boca carnuda vestindo um jeans rasgado da Chanel.
Algo assim seria impensável na minha adolescência. Há 20 anos, a cultura servia de ponteiro; hoje, ela anda à mercê dos acontecimentos. Somente as manifestações de massa fazem sentido porque se justificam como mercado. Erudição é um crime.
Eu estive na posse de Darcy Ribeiro no Senado no fim da década de oitenta. Darcy fez um discurso belíssimo sobre a importância da educação e declarou que todo aquele que é capaz de ler, no Brasil, é responsável pelo analfabetismo.
Um ano de estudo significa 15% de aumento salarial. Eu espero que haja uma segunda revolução no Brasil, amparada pela reforma econômica, que se concentre não no comércio, mas na educação. Uma revolução que acabe com a ideia de que penso, logo escravizo.