18 de mar de 2011

A primeira 'Bohème' a gente nunca esquece

Para quem não pode comparecer em Ribeirão Preto para a estréia da minha encenação de "La Bohème" publico aqui o texto do programa, assinado por Rubens Ricciardi, e algumas imagens do nosso último ensaio geral fotografadas por Andres Costa.
Enjoy!


Caetano Vilela transporta a cena para os anos 40 do século XX - tempos da 2ª Grande Guerra que por si só já contempla todo um ambiente de crise, quase mesmo de indulgência. Ele assume também deliberadamente as diferenças em relação o gestual do século XIX. A direção cênica confere, portanto, uma maior liberdade de movimento aos cantores/atores, mais próxima também ao nosso Zeitgeist contemporâneo. Assim, nada deve parecer falso.

Mas apesar da transposição de época, permanece resguardada a essência do romantismo, bem como a “ingenuidade dos personagens, jovens artistas boêmios, com uma interpretação mais centrada nas pequenas e verdadeiras motivações dos personagens”. Ainda de acordo com as concepções de Caetano Vilela, “o espaço cênico é tomado por uma grande e modular passarela em x por onde desfilarão os personagens, livres de qualquer parede ou construção que possa evocar uma arquitetura de uma época. Embora o espaço cênico seja atemporal e com uma estrutura mínima, ele carrega todo o simbolismo da fria solidão dos protagonistas. A única identificação de uma época será revelada pelos figurinos, focado no período de guerra dos anos 40 do século XX. Ato a ato essa passarela se transforma, revelando ao público ângulos diferentes da cena, transformando com luz e pequenos adereços espaços abertos em quarto, taberna, praça, bar e rua”.

Em especial, Caetano Vilela repensa ainda as condições existenciais e as relações pessoais conflituosas entre os dois pares protagonistas: Rodolfo e Mimì, Marcello e Musetta. Há também um reflexo invertido entre eles. Mimì é uma pessoa comum. E está claro que ela tem dificuldade em se adaptar à atmosfera intelectual de Rodolfo. Entre mundo, vida e literatura só pode haver encontros com muitos desencontros entre eles. O contraste evidente está também entre Mimì e Musetta. Se Mimì é toda insegura, já Musetta se torna uma personagem forte e segura de si. Musetta de modo algum é entendida aqui como prostituta (como ocorre na maior parte das vezes em que a ópera é encenada). Ela é antes uma mulher que quer ser conquistada, mas que já conquistou seu espaço próprio (sensual sim, mas também self-made). Portanto, a insegurança passa para o lado de Marcello, que tem dificuldades em lidar com uma mulher tão independente e que pensa e age por si mesma.

No final do primeiro ato, tradicionalmente, é o velho Alcindoro quem paga a conta. Nesta versão de Caetano Vilela, já de modo bem diverso, é Musetta quem dá o dinheiro ao jovem Alcindoro antes que este pague a conta. Aqui Alcindoro é um mero objeto de passatempo de Musetta (é ela quem arca com os custos da relação e não o contrário).

Por fim, segundo ainda Caetano Vilela, “o terceiro ato resume todo o simbolismo que carrega esta encenação com pouquíssimos, mas poderosos elementos: 80 cadeiras espalhadas pelo parque (como realmente ocorre ainda hoje nas praças e parques públicos franceses, inclusive nos rigorosos invernos), criando caminhos e obstáculos para a ação e uma árvore de pinheiro natural (pintado de vermelho) de aproximadamente 6 metros, flutuando no espaço e sombreando a tragédia que esta por vir”.

Mas voltando ao compositor Puccini, naqueles mesmos anos em que ele escrevia sua La Bohème, Claude Debussy estava compondo seu Clair de lune. Interessante como um mesmo Zeitgeist perpassa ambas as obras – ainda mais se observarmos os recursos harmônicos e um mesmo processo de esgotamento do sistema tonal.

No caso de La Bohème, o ambiente parisiense do Quartier Latin é só um pretexto, pois a miséria do poeta, do pintor, do músico e do filósofo - para não falar da moça (no mínimo “namoradeira”, sempre envolta em escândalos) - é sempre a mesma em toda parte. O que diremos da pobre costureira de trágica circunstância?

Mas o que será que por trás de toda uma estrutura musical em La Bohème – e não podemos esquecer o grande melodista que foi Puccini! – ainda mais nos comove? Talvez seja o caráter efêmero das relações humanas e mesmo a fragilidade da própria vida? Ou quem sabe ainda nossa procura sempre sem resultado por um sentido existencial? Ou nossas frustrações e irritações diante da própria impotência? Eis que o chão de nossa vida se torna um abismo quando até mesmo o amor não é forte o suficiente diante do destino implacável.

Prof. Dr. Rubens Russomano Ricciardi

Titular do Departamento de Música da FFCLRP-USP

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I Ato: Rosana Lamosa (Mimi) e Fernando Portari (Rodolfo)

II Ato - Todos no Quartier Latin no café Momus

III Ato - Soldados e Garis num parque; cai a neve em frente a taberna onde Musetta e Marcello trabalham.

III Ato - Rosana Lamosa (Mimi), Fernando Portari (Rodolfo) e Leonardo Neiva (Marcello)

III Ato - Rosana Lamosa (Mimi), Fernando Portari (Rodolfo), Leonardo Neiva (Marcello) e Yuka de Almeida Prado (Musetta)

IV Ato - De volta ao studio dos artistas, Fernando Portari (Rodolfo) e Leonardo Neiva (Marcello)

IV Ato - Morte da Mimi. FIM

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Direção Musical e Artística: Cláudio Cruz
Encenação e Iluminação: Caetano Vilela
Cenário: Chris Aizner
Figurino: Olintho Malaquias
Visagista: Eliseu Cabral
Realização: Matiz Eventos (Maria Helena Kowarick Spiritus, Mariangela Quartim e Isabel de Farias)
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O site da Ópera você acessa aqui: http://www.operalaboheme.com.br/
E no meu Flicker tem mais fotos: http://www.flickr.com/photos/caetanovilela/

3 comentários:

Pedrita disse...

caetano, bom dia, falei da peça adultérios no meu blog. parabéns pelo belo trabalho. beijos, pedrita

O Flauttista disse...

Poxa, queria ter visto ao vivo! Fiquei sabendo da produção, mas, infelizmente, Ribeirão é longe pacas daqui. Ainda bem que temos o YouTube: foi postada lá, na íntegra, esses dias. Eis o link:

http://www.youtube.com/watch?v=EfbHLTQ9fbw.

Bela produção, parabéns!

viralata disse...

@flauttista opa obrigado! Abraço