19 de jul de 2011

Direto do Blog de Reinaldo Azevedo: "Gargólios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido"

Blog

Reinaldo Azevedo

11/07/2011

às 6:21

Gargólios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido

Angus Brown e Maria de Lima em "Gargólios", de Gerald Thomas

Angus Brown e Maria de Lima em "Gargólios", de Gerald Thomas

Há dois anos, o teatro, ou a possibilidade de inovação do teatro, teve uma má notícia. Gerald Thomas anunciou que estava caindo fora. Não queria mais saber do ofício. Não era Jean-Paul Sartre dizendo que a literatura não fazia sentido diante do horror. Era Thomas dizendo que o teatro não fazia sentido diante da banalidade do mundo. Em setembro do ano passado, no entanto, ele estreou Throats, em Londres, com a London Dry Opera Company. Estava de volta. Era a sua leitura do mundo pós-11 de Setembro, o evento traumático da civilização ocidental que ele viu acontecer literalmente da janela de seu apartamento, em Nova York. Na mais absoluta escuridão de sentido, a exemplo do resto do mundo, restou-lhe descer e se integrar às brigadas civis que tentavam socorrer as vítimas.

Throats foi bem-recebida pela crítica, mas nem tanto pelo próprio Thomas. Percebia que o motivo que o levou a anunciar a renúncia ao teatro persistia na sua própria peça. Que motivo? Eu o resumiria assim: o discurso SOBRE a realidade não dava conta da complexidade do mundo nem como política nem como arte; no primeiro caso, ele se mostrava reducionista; no segundo, ah, meus amigos, no segundo, o problema vem lá de longe, da mimese aristotélica, segundo a qual, no drama, o verossímil, o crível, tem prevalência sobre o factível.

Thomas decidiu eliminar de Throats qualquer sombra de discurso programático, organizador, eficiente para a pólis (volto a este ponto daqui a pouco); decidiu também pôr fim a qualquer conforto ao espectador; os atores que estão no palco não querem iludir ninguém; são alegorias. O autor e diretor reduziu também Throats a escombros, e surgiu em seu lugar a performance Gargólios, que ele trouxe ao Brasil, junto com o London Dry Opera Company. A maior parte do espetáculo, pois, se desenvolve em inglês, com algumas falas em português da atriz Maria de Lima, que é portuguesa. Há legendas.

Assisti no sábado à pré-estréia do espetáculo, que fica no SESC Vila Mariana até o dia 24 de julho. Num palco tomado pelos mesmos escombros do 11 de Setembro, estranhos super-heróis disputam espaço no divã de um Freud (Adam Napier) da civilização, que usa vistosos sapatos femininos, vermelhos. Do teto do palco, pende uma mulher seviciada, e seu sangue se esvai em gotas numa espécie de pote macabro e sagrado, onde se persigna um mordomo elegantemente vestido (o espetacular ator Angus Brown). Num painel translúcido, vê-se uma grande imagem, acho, de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille. Thomas vai tratar do mundo desde o começo. Ou desde o fim.

É inútil tentar perseguir o fio de uma narrativa linear. Num dado momento, Maria de Lima ensaia um discurso sobre a crise de valores do nosso tempo, em tom um tanto grandiloqüente, que ficaria bem na boca de um desses petistas ou esquerdistas que dão plantão na esquina. Interrompe a fala e a submete ao ridículo, dizendo ser uma porcaria de texto. Nada de falas programáticas. Thomas — isto arrisco eu, ele não me disse — parece estar disposto a contestar também a contestação.

Os escombros das Torres Gêmeas que estão no palco são menos uma metáfora do que uma metonímia. Numa linguagem muitas vezes telegráfica, cheia de citações, a performance — assim o próprio Thomas define o trabalho — eles são uma parte de algo muito maior que parece aos pedaços. Ali está um retrato angustiado, sarcástico, muitas vezes cômico, de uma cultura ocidental que perdeu suas referências. Ousaria dizer que a linguagem a que Thomas recorre é transgressora, incômoda, agressiva às vezes, mas a força que a inspira tem uma matriz nostálgica, conservadora quem sabe: o tempo em que havia hierarquia de valores.

Não por acaso, um dos poemas — e acho que a Gargólios é isto: um sucessão de poemas — ironiza impiedosamente estes dias dos iPhones, Ipods, Facebook, redes sociais, a era, enfim, da horizontalização da cultura, em que se misturam sagrado e profano, importante e desimportante, raso e profundo. Aqueles super-heróis alquebrados, impiedosamente psicanalisados por um Freud de sapatos vermelhos, são sobreviventes de uma catástrofe do sentido. Sim, estamos diante de uma visão bastante pessimista do mundo. Um dos ótimos momento do espetáculo, vejam lá, é o jogo de palavras entre “entender/ não entender”. Estamos esmagados pela informação. Faltam-nos idéias formadoras.

O próprio Thomas participa do espetáculo, como um narrador. Mas um narrador muito particular: fala por meio de solos de um baixo, que pontuam a música composta para o espetáculo por John Paul Jones, do Led Zeppelin.

É inútil falar e seria inútil não falar da briga que já tivemos, Thomas e eu — se não o faço, alguém o fará. E dela surgiu uma amizade fraterna, que nos gratifica a ambos. Não escrevo sobre o espetáculo do meu amigo, mas sobre o trabalho de um autor e diretor sem receio de ousar sobre a própria ousadia. Aprendemos a aprender na divergência, e elas existem, e compartilhamos algumas preocupações que considero civilizadoras.

De certo modo, aquele rompimento com o “teatro”, no sentido de um discurso programático, está mantido. Thomas preferiu o desconforto. E o Brasil, vocês verão, também está no palco, especialmente quando se ironiza certo tatibitate do nosso verde-amarelismo cafona. Assistam Gargólios. Não busquem o conforto da narrativa, mas o desconforto do sentido.

*
Gargólios, de Gerald Thomas
Até o dia 24 de julho no SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141 - Tel. 5080 3000
No dias 30 e 31 de julho, no SESC Santos

Por Reinaldo Azevedo

11 de jul de 2011

Direto da Folha: "Google e FB são os concorrentes dos Jornais" (entrevista c/ Juan Luis Cebrián)

São Paulo, segunda-feira, 11 de julho de 2011

ENTREVISTA DA 2ª JUAN LUIS CEBRIÁN

Google e Facebook são os concorrentes dos jornais

EDITOR ESPANHOL QUE FUNDOU O "EL PAÍS" É PESSIMISTA SOBRE FUTURO DOS JORNAIS PORQUE INTERNET NÃO TEM 'INTERMEDIÁRIOS'

RAUL JUSTE LORES
EDITOR DE MERCADO
SYLVIA COLOMBO
DE SÃO PAULO

Os veículos tradicionais de imprensa devem passar a preocupar-se mais com a concorrência de sites como o Google e o Facebook do que com seus tradicionais rivais.
É assim que pensa o jornalista espanhol Juan Luis Cebrián, 66, fundador do "El País" e presidente do Grupo Prisa, que, além do jornal, é dono da Santillana, grupo editorial ao qual pertence a brasileira Moderna.
O espanhol esteve no Brasil na semana passada para participar de encontros sobre a atuação da Santillana no país, que já é o maior mercado da empresa no mundo. Negocia também a produção de conteúdo para a televisão, no Rio Grande do Sul.
Leia abaixo a entrevista que ele concedeu à Folha, em São Paulo.


Folha - Há uma discussão muito intensa nos grandes jornais do mundo sobre se é conveniente ou não cobrar pelo conteúdo das versões on-line dos mesmos. O "El País" está todo aberto na rede há alguns anos. Crê que essa é a postura mais correta?
Juan Luis Cebrián
- A pergunta mais importante é "um jornal pode migrar para a rede?".
Até agora a resposta tem sido negativa. Não houve veículo que foi capaz de fazer essa migração.
O problema está no fato de que um jornal na internet não é um jornal, é uma outra coisa. Sou radical nesse sentido, inclusive quando falamos da credibilidade das marcas. Até agora nenhuma das marcas tradicionais da imprensa escrita foi capaz de migrar para as operações virtuais com sucesso.

Por quê?
A rede é algo que se constrói a partir da experiência dos usuários. O Twitter, por exemplo. Jack Dorsey nunca imaginou que ele se tornaria um sistema de transmissão de notícias ou para convocar grandes manifestações.
Dorsey inventou o Twitter porque gostava de fazer mapas e não sabia como colocar as pessoas nos mapas que fazia.
O Facebook não nasceu para ser uma rede social. Provavelmente Mark Zuckerberg não teorizou a ideia de uma rede social.
Enquanto o Google nasceu com a intenção de ser um buscador mais potente, nada mais. O que determinou a transformação desses sites foi o uso que as pessoas fizeram deles.
Não foi a decisão dos que desenharam os programas que determinou seu destino, mas sim a experiência dos usuários que construíram essa força na internet.

Como ficam os jornais diante dessa nova situação?
Os jornais nasceram no começo do século 19, com a Revolução Industrial e a democracia representativa. Formam parte do establishment e das instituições da democracia moderna.
Se alguém leva a Folha ou o "Estado de S. Paulo" debaixo do braço, está se identificando com algo. Um jornal é uma bandeira, de certa maneira. E na internet não há bandeiras.
Jornal é uma concepção do mundo. Da primeira página à última está oferecendo uma visão sobre o que acontece. Está explicando a realidade aos usuários. Na rede não há intermediários.
Na internet, é comum que o protagonista de uma notícia seja aquele que a conte.
O relato das revoluções do norte da África foi feito por aqueles que as fizeram. O mesmo sistema para convocá-las foi usado para conta-las, por meio do Twitter.

O sr. crê que o leitor interessado em noticiário econômico está mais disposto a pagar pela informação?
Quem triunfou com o sistema de pagamento por conteúdo até o momento, foi o "Financial Times", e, em certa medida, o "Wall Street Journal" também, mas ambos são produtos muito específicos.
Sim, é preciso cobrar, mas por aquilo a que as pessoas estejam dispostas a pagar. E as pessoas, hoje, querem pagar aquilo que lhes interessa.
Pergunto a meus editores, por que publicamos as páginas de mercado de valores no "El País'? Seis páginas! Quem está no mercado de valores consulta isso na internet.
Para que publicar a previsão do tempo? Se eu venho a São Paulo, abro a internet no dia anterior para saber como está o clima. Não me ocorre ler isso no El País, com 24 horas de atraso. Mas continuamos a fazer isso.

Atender completamente aos leitores não deforma um jornal?
Não se trata de atender aos pedidos de todos os leitores, mas as demandas de cada leitor. Há leitores a quem lhes interessa a crise financeira, mas este mesmo leitor também pode querer saber o que aconteceu com Amy Winehouse em seu último show.
O "El País" tinha uma seção de esportes muito pequena e mal cobria celebridades. Hoje começamos a dar mais espaço para ambos.
Os diários já não dão notícias. Todo mundo já sabe as notícias quando vai ler os jornais. Os jornais explicam, fazem análises, debatem.
O competidor da Folha não é o "Estado de S. Paulo", é o Google, o Facebook, estes são nossos competidores reais. E não queremos admitir porque não sabemos como competir com eles.

Como fazer que Google, Facebook e Apple dividam esses ganhos, usando noticiário alheio?
Essa é uma discussão, porque o Google pode dizer que não quer pagar, mas se o "New York Times" não quiser estar, eles o tiram dali. E ninguém quer ficar fora do Google, de jeito nenhum, preferem estar ali mesmo que eles não paguem.
Com a Apple já é diferente. O iPad é uma rede de distribuição mundial para jornais, livros, filmes que já está implantada. Se alguém quer colocar uma estação de televisão no ar, precisa levantar postes. No iPad está pronto.
Cobrar 30%, como faz a Apple, pelos ingressos na rede pode parecer muito alto, mas o custo de distribuição de um jornal tradicional é cerca de 40%, entre o que se gasta em bancas, caminhões e aviões para distribuição.

As notícias que nos chegam da Espanha e da Europa são muito pessimistas. É uma crise de liderança ou há uma crise também na sociedade?
Há tal confusão e cumplicidade entre poder financeiro e político que os políticos se sentem débeis.
Existe um problema de liderança política que tem a ver com as eleições e com o curto-prazismo dos agentes que decidem em política.
A China, sem eleições, faz como grandes empresas, com políticas de longo prazo.
A Europa manteve um modelo de vida, provavelmente o melhor modelo de vida existente nesse momento no mundo, e jornadas de trabalho curtas. Esse sistema simplesmente não se pode mais pagar, porque já perderam-se as colônias e a economia tradicional europeia.

Nos círculos ilustrados da Espanha, qual a imagem que o Brasil tem hoje?
Creio que uma imagem extraordinária, que a merece. O Brasil é hoje um um ímã que atrai todos os olhares. Acabou-se a piada sobre o país do futuro. Hoje se vê o Brasil como um dos motores importantes do século 21, mesmo com a desigualdade.

E a imagem de Dilma?
Dilma é pouco conhecida na Europa, mas tem uma imagem boa. Estive com Dilma há um mês e me impressionaram muito suas ideias sobre economia.
Creio que vai triunfar, apesar de que opera em um entorno político complicado, em que a institucionalidade dos partidos não está bem resolvida. Mas creio que continua o "milagre brasileiro".
Só é bom lembrar que a felicidade não dura para sempre e é bom que os brasileiros também se preparem para momentos tristes.

RAIO-X


NOME
Juan Luis Cebrián
IDADE
66
- Nasceu em1944,em Madri
- Co-fundouojornal El País em 1976
- Presidente do Grupo Prisa

"The Economist" destaca jornais em emergentes

DE SÃO PAULO

A revista britânica "The Economist", com vendas em alta nos últimos anos, analisou o futuro dos jornais em sua última edição.
Em uma reportagem especial de 14 páginas, a revista diz que a internet demoliu "o velho jeito de fazer as coisas, mas tornou outros possíveis". Diz que a rede estimula a inovação e que há muita "experimentação" a caminho.
Apesar de sublinhar a queda na publicidade nos jornais europeus e americanos, que sofrem encolhimento de sua circulação, a "Economist" apresenta o crescimento nos emergentes.
Segundo a revista, entre 2005 e 2009, a circulação de jornais cresceu 39,7% na Índia, 20,7% no Brasil e 10,4% na China.
Enquanto houve quedas de 11% e 8% na América do Norte e na Europa, respectivamente, a circulação subiu 5% na América do Sul, 13% na Ásia e 30% na África.
Mesmo a presença das redes sociais, como Facebook e Twitter, é avaliada positivamente. "Leitores compartilham reportagens com seus amigos e as histórias mais populares causam um congestionamento na rede", destaca a revista.
Outro aspecto abordado é o dos novos negócios desenvolvidos pelos jornais, que contam a seu favor com marcas de prestígio. Grupos jornalísticos têm criado livrarias on-line, organizado seminários e eventos, e produzem material didático e apostilas.
O britânico "Daily Telegraph" e o americano "The New York Times" criaram clubes de vinhos, enquanto o espanhol "Marca" vende produtos esportivos exclusivos a seus leitores.
A conclusão da reportagem aponta para um retorno ao jornalismo mais caótico e partidário do século 19, antes do surgimento dos meios de comunicação de massa. (RJL)

4 de jul de 2011

Direto da Folha: "Preconceito de homofóbico o faz chafurdar no ódio" (entrevista com Carlos Ayres Britto, Ministro do STF)

São Paulo, segunda-feira, 04 de julho de 2011

ENTREVISTA DA 2ª CARLOS AYRES BRITTO

Preconceito de homofóbico o faz chafurdar no ódio

PELA 1ª VEZ, MINISTRO CONHECIDO POR CITAÇÕES POÉTICAS E VOTOS PROGRESSISTAS NO STF DEFENDE PUBLICAMENTE A CRIMINALIZAÇÃO DA HOMOFOBIA

FELIPE SELIGMAN
JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA

Conhecido por citações poéticas e votos progressistas, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto, 68, defende, pela primeira vez publicamente, a criminalização da homofobia, ao entender que quem a pratica "chafurda no lamaçal do ódio".
Protestos de congressistas da bancada evangélica acabaram paralisando a tramitação do projeto de lei anti-homofobia, que está estacionado há dois meses no Senado.
Para o ministro, não são necessárias novas leis para garantir aos casais gays os mesmos direitos dos heterossexuais já que a Constituição é "autoaplicável".
Em entrevista concedida à Folha na beira do lago Paranoá, em Brasília, Ayres Britto disse que vê o debate sobre as drogas como uma questão de "saúde pública".
Afirmou ainda que "se nós, os homens, engravidássemos, a autorização para a interrupção da gravidez de feto anencéfalo estaria normatizada desde sempre".


FOLHA - O STF tem sido acusado de usurpar a competência do Legislativo. O sr. concorda com essa afirmação?
CARLOS AYRES BRITTO
- Não concordo. Veementemente respondo que o Supremo não tem usurpado função legislativa, principalmente do Congresso. O que o STF tem feito é interpretar a Constituição à luz da sua densa principiologia. O parágrafo 2º do artigo 5º autoriza o Judiciário a resolver controvérsias a partir de direitos e garantias implícitos.

E por que essa crítica ao STF?
As pessoas não percebem que os princípios também são normas e com potencialidade de, por si mesmos, resolver casos concretos quando os princípios constitucionais têm os seus elementos conceituais lançados pela própria Constituição. O Judiciário está autorizado a dispensar a mediação do Legislativo, porque, na matéria, a Constituição se faz autoaplicável.

No caso das uniões estáveis homoafetivas isso aconteceu?
Aconteceu, fizemos o saque de princípios constitucionais, tanto expressos quanto implícitos. Como fizemos quando proibimos o nepotismo no Judiciário e nos demais poderes. Porque o nepotismo é contrário a princípios constitucionais, até explícitos, como o princípio da moralidade. E cumprimos bem com o nosso dever: tiramos a Constituição do papel. Também no caso da homoafetividade, interpretamos os artigos da Constituição na matéria à luz de princípios como igualdade, liberdade, combate ao preconceito e pluralismo.

Qualquer nova lei virá confirmar o que foi decidido, mas nunca para criar regra diferente do que foi debatido?
Exatamente. A isonomia entre uniões estáveis heteroafetivas e homoafetivas é para todos os fins e efeitos. Em linha de princípio, é isso. Assim foi pedido pela Procuradoria-Geral da República quando propôs a ação. Não pode haver legislação infraconstitucional, parece evidente, que amesquinhe ou nulifique essa isonomia.

O que exatamente o STF decidiu sobre homoafetividade?
Pela possibilidade da união estável entre pessoas do mesmo sexo. Possibilidade jurídica, lógico. Em igualdade de condições com as uniões estáveis dos casais heterossexuais. União estável com a força de constituir uma entidade familiar.

Qual a diferença entre a decisão que negou a união estável em Goiânia e a que permitiu o casamento civil em Jacareí?
Como desfrutam de independência técnica, além da política, os magistrados são livres para equacionar juridicamente as controvérsias, desde que fundamentem tecnicamente suas decisões. Natural, portanto, que dois juízes projetem sobre a mesma causa um olhar interpretativo descoincidente, cabendo às partes insatisfeitas os devidos recursos ou, quem sabe, reclamações para o próprio Supremo.

Sem entrar no mérito de decisões específicas, qualquer decisão que diferencie a relação entre o homossexual e o heterossexual vai contra o STF?
Sim. A decisão foi claramente no sentido da igualdade de situações entre os parceiros do mesmo sexo e casais de sexos diferentes.

O Congresso precisa fazer alguma lei complementar?
Entendo que a Constituição é autoaplicável na matéria. Entretanto, há aspectos de minúcias que ficam à disposição da lei comum.

A questão deve voltar ao STF?
A Constituição atual, caracterizando-se como redentora dos direitos e garantias, e não como redutora, estimulou muito a judicialização das controvérsias, inclusive as de natureza política. Daí a expectativa de que a matéria tem potencialidade para retornar ao tribunal.

O sr. é a favor de criminalizar a homofobia?
Tenho [para mim] que sim. O homofóbico exacerba tanto o seu preconceito que o faz chafurdar no lamaçal do ódio. E o fato é que os crimes de ódio estão a meio palmo dos crimes de sangue.

Recentemente o STF decidiu sobre o direito de organização para a defesa da legalização da maconha. Será assim para todas as marchas?
A decisão se circunscreveu à chamada Marcha da Maconha, mas os respectivos fundamentos se prestam para a discussão a céu aberto de toda e qualquer política de criminalização das demais substâncias entorpecentes.

O sr. tem opinião sobre o tema?
Minha inclinação pessoal é para ver o tema como uma focada questão de saúde pública. Me inquieta o fato de que temos tantas leis de endurecimento da resposta punitiva do Estado e, no entanto, a produção, o tráfico e o uso de tais substâncias não param de crescer.

Outro tema polêmico é o do aborto em caso de feto anencéfalo. O sr. já expôs opinião favorável à prática, certo?
No voto que proferi na discussão sobre o cabimento da ADPF [ação que trata do tema] manifestei opinião de que se nós, homens, engravidássemos, a autorização para a interrupção da gravidez de feto anencéfalo estaria normatizada desde sempre.
...

Novo projeto deve tratar preconceito de forma geral

LARISSA GUIMARÃES
DE BRASÍLIA

Parado há dois meses no Senado, o projeto de lei anti-homofobia deverá ser totalmente reformulado.
A proposta inicial previa punições para quem agredisse física ou verbalmente homossexuais, além de situações como negar acesso ao trabalho e ao comércio.
A tendência agora é que o texto trate de condutas preconceituosas de forma geral, não apenas contra gays.
A polêmica começou no início do ano, quando a senadora Marta Suplicy (PT-SP) conseguiu desarquivar o projeto, que fora apresentado em 2006 na Câmara.
A proposta provocou protestos da bancada evangélica, que temia a proibição de críticas a práticas homossexuais em pregações.
Marta chegou a propor uma emenda para garantir a liberdade de críticas, mas os evangélicos não ficaram satisfeitos. Parte dos críticos afirma que é preciso começar um novo texto.
Para a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), a proposta dos evangélicos não combate a homofobia.