2 de out de 2011

Personagem nos muros (Direto da Ilustríssima - Folha de S.Paulo)

Parte das minhas memórias está hoje no caderno "Ilustríssima" da Folha de S.Paulo deste domingo. A foto que acompanha a edição impressa é um detalhe do grafite que tenho do célebre Alex Valauri, como não dá para ver na edição online publico abaixo a foto original do meu arquivo pessoal. Enjoy:




São Paulo, domingo, 02 de outubro de 2011  

ARQUIVO ABERTO
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
Personagem nos muros
São Paulo, anos 1980

CAETANO VILELA
Em meados dos anos 80, antes mesmo de completar 18 anos, eu trabalhava como garçom ou vendedor para pagar meus cursos de teatro. As mais lindas lembranças daqueles tempos guardo de gente que conheci nos empregos temporários; Paulo Penna foi um deles.
Paulo morreu jovem, aos 39 anos, em decorrência da Aids. Era artista plástico, cenógrafo e figurinista. Gostava mais de pintar e quase sempre São Paulo era a sua modelo, retratada com óleo sobre tela, aquarela, litografia e xilografia. Era sua forma de retribuir a generosidade com que a cidade o acolheu quando chegou do Rio Grande do Sul, nos anos 70.
Nós nos conhecemos quando fui trabalhar numa papelaria na esquina da rua Duque de Caxias com a avenida São João. Ele morava 13 andares acima e aparecia para xerocar livros e documentos. Um dia nossa conversa foi além do "bom dia". Passamos a falar de arte, pintura, teatro; ele me indicou livros e filmes. Quando soube que pedi demissão, me convidou a organizar seu acervo, representá-lo nas galerias, enfim, organizar a burocracia da sua vida. Aceitei.
Passei a acompanhá-lo nos trabalhos mais loucos dos anos 80: apresentações das Dzi Croquettes; exposições no badaladíssimo Espaço Off, de Celso Curi; shows no Lira Paulistana; reuniões na redação da "Interview"; performances nas boates Madame Satã e Homo Sapiens; produções de filmes soft-pornô-trash da Boca do Lixo e de peças soft-pornô-chic no Bexiga.
Por aquela época, Paulo leu na Folha uma entrevista em que Carlos Drummond de Andrade falava de sua relação com religião. Ficou tão tocado que enviou ao poeta um cartão e uma gravura. Veio a resposta: "[...] Deixei o aconchego da religião tradicional para me instalar no cantinho tranquilo do agnosticismo, que não exclui a espiritualidade difusa."
Desde então deixei a cafonice de me declarar ateu para me assumir poeticamente como 'agnóstico difuso'.
Também naqueles anos, Paulo me apresentou um dos primeiros (ou "o" primeiro) grafiteiros da cidade, o italiano-etíope-brasileiro Alex Vallauri, uma figura. O cara saía de madrugada por Pinheiros e pela Vila Madalena com latas de spray e moldes vazados de lagartixa, frango assado e colunas gregas, com o objetivo de "deixar a cidade mais bonita, honey", como dizia com aquele delicioso sotaque indecifrável. Criou uma personagem nos muros, espécie de pin-up que batizou de Rainha do Frango Assado, até hoje um ícone kitsch.
Numa festa, antes de eu conhecer Paulo, Alex deu a ele um embrulho ilustrado com abacaxis, onde grafitou uma coluna e, é claro, o frango. Nunca soube o que tinha na caixa, mas o papel fez tanto sucesso que Alex teve de assiná-lo para para Paulo pôr na parede.
Drummond e Alex morreram em 1987. O poeta, vítima do coração; já o fim do grafiteiro foi mais triste, num quarto escuro, no aniversário de 38 anos, cego e inconsciente. Foi um dos primeiros artistas brasileiros a morrer com Aids.
Paulo morreu quase um ano depois, debilitado, mas com menos sofrimento. Os últimos dias não quis passar no hospital. Foi para casa, onde o vi morrer -ele parou de respirar e ficou ali deitado, os olhos voltados para a janela, de onde se via o Pico do Jaraguá.
Um dia antes, ele me deu a carta do Drummond, o grafite de Alex e uma jaqueta que comprara na Europa para invernos rigorosos. Ainda guardo a carta, e o grafite emoldura minha sala de trabalho. A jaqueta eu mantive por anos, até, numa turnê com o grupo de Antunes Filho, emprestar a um amigo que ia arriscar a vida na Espanha. Esse amigo trabalhou como pedreiro, lavador de pratos e quase morreu entre mercenários na Legião Estrangeira. Um dia, a fome foi maior que o frio e ele vendeu a jaqueta. Hoje é um promissor cineasta -mas isso é outra história.