20 de set de 2012

Crítica "Expresso do Pôr do Sol", direto da Ilustrada/Folha de S.Paulo

Primeira crítica de "O Expresso do Pôr do Sol", peça que assino a luz sob a direção de Fábio Assunção. Em cartaz no Teatro Tuca Arena, SP.

São Paulo, quinta-feira, 20 de setembro de 2012Ilustrada


CRÍTICA / TEATRO

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
Um embate de ideias. "Expresso do Pôr do Sol", montagem brasileira de peça de Cormac McCarthy, discute o suicídio, este desencanto radical com a experiência humana, e suas implicações morais.
McCarthy está entre os grandes escritores norte-americanos vivos. Tornou-se famoso ao ser adaptado para o cinema pelos irmãos Coen em "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2007), ganhador de quatro Oscars, incluindo o de melhor filme.
A peça "Sunset Limited" foi escrita em 2006 e é a segunda das duas únicas do consagrado romancista.
Tem o sugestivo subtítulo de "Novela na Forma Dramática" e demarca incursão na convenção básica do drama: o diálogo tenso entre dois personagens num mesmo espaço.
O encontro opõe posições extremas. De um lado, um professor branco que, perdida qualquer ilusão sobre o sentido da vida e desacreditado da possibilidade da arte e da cultura preencherem este vazio, vê a morte como melhor saída. De outro, um ex-presidiário negro que tornou-se pastor e argumenta com o suicida com base em sua fé.
O diretor estreante, Fábio Assunção, oferece no programa explicações sobre a escolha do texto e as opções da encenação, que assume como subjetivas. Porém, seu maior mérito foi mesmo ter realizado o espetáculo.
Assunção cercou-se de ótimos profissionais e conseguiu construir uma cena consistente, à altura da relevância do dramaturgo.
A começar de Maria Adelaide Amaral, que colabora na adaptação dramatúrgica da situação realista do original para uma mais convencionada e metafórica.
Esta se apresenta, principalmente, pelo cenário de Fábio Namatame, uma arena aberta sobre dormentes de trem, e pela luz de Caetano Vilela, que instaura ali diversas atmosferas.
É verdade que a tradução de Nelson Amorim não disfarça as características de um tratamento tipicamente norte-americano do tema. Assim, a estrutura psicológica dos personagens, suas ironias e revoltas, produzem algum estranhamento no contexto brasileiro.
A abrandar esse contraste cultural, o trabalho dos atores é bem convincente.
Cacá Amaral, como o professor desesperançado, e Guilherme Sant'Anna, como o pastor que tenta salvá-lo do ceticismo, são suportes seguros para a prosa de McCarthy fluir a contento.
Claro que todos os anteparos cênicos, carregados de significações alternativas às próprias formulações do autor, não as superam, e a encenação confirma-se como um jogo de pontos de vista contrários, ou melhor, mais como discussão do que como poética.
EXPRESSO DO PÔR DO SOL
QUANDO sex. e sáb., às 21h30; dom., às 19h30; até 30/11
ONDE Tucarena (r. Monte Alegre, 1.024; tel. 0/xx/11/3670-8455)
QUANTO de R$ 40 a R$ 50
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO bom