7 de ago de 2013

Um Wagner entre o grunge e o pop


Direto do Caderno 2 - "Estado de S.Paulo"


Caetano Vilela fala sobre sua concepção para 'O Navio Fantasma', que estreia em agosto no Teatro da Paz, em Belém

23 de julho de 2013 | 2h 16


Zona Portuária: Modelo do cenário idealizado por Duda Arruk para a produção em Belém
João Luiz Sampaio - O Estado de S.Paulo
A relação do diretor Caetano Vilela com a obra de Richard Wagner é antiga. Como iluminador, ele já trabalhou em sete óperas do compositor: os quatro títulos do Anel e O Navio Fantasma, ambas em Manaus; e duas produções de Tannhäuser, uma no Municipal do Rio (com direção de Werner Herzog) e outra em Bogotá (esta no mês passado, com regência de Gustavo Dudamel). Em agosto, ele faz agora sua estreia em obras de Wagner como diretor, assinando a concepção do Navio Fantasma no Teatro da Paz, em Belém.
"O mais especial para mim é que justamente decidi trabalhar com ópera depois de estudar sobre as teorias de Wagner para o teatro total", ele conta. A tarefa, porém, não o assusta. "Não vejo no Navio as dificuldades que encontrei, por exemplo, ao iluminar a tetralogia ou Tannhäuser. Este é um Wagner em transição, muito da sua revolução artística seria apontada e amadurecida depois, em óperas como Parsifal e Tristão e Isolda. O Navio carrega ainda uma herança italiana em sua estrutura - não que isso seja simples, mas pelo menos não é assustador."
Estreada em 1843, a ópera narra a história de um marinheiro (Holandês) que, por invocar Satã, é condenado a vagar eternamente pelos mares em seu navio, aportando uma vez a cada sete anos; apenas o amor verdadeiro de uma mulher pode libertá-lo da maldição. "Li o livro de Heinrich Heine, Das Memórias do Senhor de Schnabelewopski, em que Wagner se baseou, e interpretei livremente algumas ações que trabalharei com os cantores, como tratar o Holandês e Senta como almas gêmeas ou estabelecer um prólogo, ao longo da abertura, em que ela tenta tirar a própria vida, se jogando no mar", diz o diretor.
Sobre os cenários, ele conta que procurou "mudar a perspectiva do olhar do público sobre a luz". "A ambientação será em uma zona portuária, com containers empilhados fechando a caixa cênica. Pichações no alfabeto rúnico também pontuam a cenografia, lembrando que a história se passa em uma Noruega distante e que esse alfabeto é ancestralmente ligado à cultura nórdica e estranhamente semelhante às pichações dos prédios paulistanos", explica. "O elemento água estará presente com uma piscina aberta no fosso do palco representando o mar. E o navio do título aparecerá em cena de uma forma inusitada: virá de cima, do urdimento do teatro, o que me obriga a trabalhar a luz toda encaixada dentro das estruturas de containers à vista do público."
Vilela também promete referências à cultura pop, "senão não seria eu", brinca. "Direcionei os figurinos para um período que pode lembrar muito o movimento grunge nas suas padronagens, já que trato, por exemplo, os marinheiros como estivadores e não somente como uma tripulação de um navio", explica o encenador, que vai trabalhar basicamente com a mesma equipe com a qual realizou no ano passado Salomé, de Strauss, também em Belém. Entre eles, a cenógrafa Duda Arruk e a figurinista Elena Toscano.
No elenco, estão o barítono Rodrigo Esteves, como o Holandês; a soprano Tati Helene, no papel de Senta; o baixo Denis Sedov (Daland); os tenores Ricardo Kamura e Antônio Wilson Azevedo (Erik e Steuermann) e a meio-soprano Alpha de Oliveira (Mary). A regência será do maestro Miguel Campos Neto. O festival também terá montagens de Il Trovatore, de Verdi (assinada por Mauro Wrona) e O Elixir do Amor, de Donizetti (por Iacov Hillel).
BELO HORIZONTE - O primeiro ato da Valquíria é um dos poucos trechos do Anel a ganhar frequentemente vida própria no palco de concertos, sem cenários ou figurinos. E foi escolhido pela Filarmônica de Minas Gerais para uma apresentação, na terça-feira passada, em homenagem ao compositor. Se no Municipal do Rio, o elo fraco foi a atuação da sinfônica do teatro, na capital mineira chamou atenção justamente o bom desempenho da orquestra, sob regência de seu titular, Fábio Mechetti. Não se trata apenas do bom desempenho individual dos naipes, mas, principalmente, do equilíbrio entre eles, em direção a uma fluência dramática capaz de criar um arco musical que não perde o fôlego em momento algum - no que ajudou a atuação do elenco composto por Eliane Coelho, Eduardo Villa e Denis Sedov. / J.L.S.